libra

Tudo em Libra


Alguns amigos me marcaram para ver e comentar essa imagem aí de cima (tirei do Facebook, créditos para Ricardo Scarpa). Minha primeira reação, é claro, foi ficar preocupado com a Gislaine. A segunda foi de impaciência. Mas olhando de novo achei engraçado – porque, né, é verdade. Eu realmente escuto Mercúrio falando essas coisas, e aqui em casa Mercúrio não só fala como anda pra frente, pra trás, dá cambalhota e decide se a Netflix vai funcionar ou não (aqui em casa as coisas são animadas).

Depois fiquei pensando que o desenho me faz lembrar do eixo Áries-Libra, e mais especificamente que a parte do lado direito representa algumas virtudes librianas. Porque a astrologia mesmo costuma ser associada aos arquétipos de Escorpião, Sagitário, Aquário, Peixes, mas não seria nada sem a disposição para a escuta que existe em Libra. Aí fiquei pensando se o Mercúrio mudinho do lado esquerdo não é assim simplesmente porque ninguém parou para escutá-lo, coitado.

Mas, sério: o Mercúrio mudinho é de fato o Mercúrio dos astrônomos, o Mercúrio da ciência moderna, que conseguiu feitos extraordinários, mas muitas vezes às custas do silenciamento e da vulgarização do mundo dito ‘natural’, colocado em oposição ao mundo humano. Tornou-o mudo, estéril, estúpido. E ele precisa mesmo continuar assim aos olhos dos cientistas – mas isso não quer dizer que em outros contextos seja impossível atribuir ao não-humano uma inteligência singular.  

As duas imagens não são excludentes. Não é isso ou aquilo, é isso e aquilo. Mas para desenvolver esse tipo de pensamento precisamos de Libra. Minha impaciência inicial foi tipicamente ariana: competitiva, combativa, vontade de mostrar que meu Mercúrio é melhor que o deles. E haverá sempre nesse mundo hostilidade suficiente pare que Áries seja um arquétipo fundamental, que nos torna atentos a ameaças e nos dá força para enfrentá-las.

Mas nem sempre é eu ou o outro. Muitas vezes é eu e o outro, na medida em que o outro não está ali para nos matar, vencer ou engolir, e que, portanto, tampouco precisamos matá-lo, vencê-lo, engoli-lo. A partir daí talvez a gente perceba que ele tem algo a nos dizer. O mundo de Áries pode ser um mundo árido, e se permanecemos sempre nele é também um lugar muito solitário. O mundo de Libra, além de compartilhado, pode ser também um mundo literalmente encantado, onde as coisas falam, porque a gente se deu ao trabalho de ouvi-las.

Não tenho muitos planetas em Libra. Mas quando estou diante de um mapa astral – o meu mapa, por exemplo – de certa forma TUDO ali está em Libra, porque tudo está diante de mim em uma posição que não é de confronto, mas de interação. Estamos lá eu e um outro de mim mesmo que se manifesta através de símbolos, que por sua vez remetem a planetas, planetas que falam através desses símbolos.

E preciso deixar que eles falem. Por mais que a astrologia utilize recursos científicos, dificilmente deixa de ser uma prática divinatória que se situa em um universo não-desencantado, onde as coisas têm voz e a gente escuta. Sim, a gente é meio doido mesmo. E o mais engraçado é que, juntando um pouco de experiência com os tais recursos científicos, a gente começa a escutar as coisas falando com certa lógica. A gente é muito doido no final das contas.

Mas isso de viver em um cosmos onde nós humanos somos a única coisa que fala é também complicado, e pode ser enlouquecedor. Tem aquela história de que Ulisses tapou os ouvidos para não escutar o canto das sereias e assim preservar sua razão; mas tem também Kafka escrevendo que “agora as sereias têm uma arma ainda mais assustadora que o canto – o silêncio”. Que triste essa existência isolada em um universo emudecido onde nem as sereias se dirigem a nós, nem mesmo para nos enlouquecer.

E com alguém a gente tem que conversar, isso é fato. Mas vou além: com alguma coisa a gente tem que conversar. Não precisa ser com os astros. Converse com as plantas, converse com os bichos, converse com os gatos. Todos têm algo a nos dizer. Com isso a gente talvez aprenda um pouco dessa arte libriana de só tomar uma decisão depois de muita conversa (digo, quando tomam, porque é verdade que muitas vezes não tomam decisão nenhuma, ficam só de papo pedindo conselho pra samambaia, o que já não é exatamente uma arte).

Mas aqui em casa o diálogo costuma ser mais é com os planetas mesmo. Como disse, as coisas aqui são animadas. Já tomei decisões importantes depois de trocar ideias com Vênus, depois de deliberar seriamente com Júpiter, depois de intensos debates com Urano, e já servi de intérprete para muita gente que até escuta os astros mas não entende bem o que eles estão falando. O arquétipo libriano é, no mínimo, o palco dessas conversas. A gente fala muito sobre todo o resto, a gente tenta ouvir junto e entender um monte de coisa estranha, mas essa ação acontece sempre na região do zodíaco onde o eu e o outro, ou o eu e o mundo, se encontram.

Quanto à Gislaine, espero que ela seja de Libra, isso vai ajudá-la a saber parar e ouvir o que Mercúrio tem a lhe dizer. Ele pode ser meio sacana às vezes, ele pode ser meio travesso, mas diz coisas importantes também. Já o Mercúrio mudinho do lado esquerdo, esse aí não me engana, se tá calado é por algum motivo. Esses tipos misteriosos eu conheço bem. Deve ser de Capricórnio. Ou então Virgem. Ascendente em Escorpião.

Um comentário sobre “Tudo em Libra

  1. Não sei se fico mais encantada com o: “O mundo de Libra, além de compartilhado, pode ser também um mundo literalmente encantado, onde as coisas falam, porque a gente se deu ao trabalho de ouvi-las” ou se fico chocada com dureza dessas palavras: “Com isso a gente talvez aprenda um pouco dessa arte libriana de só tomar uma decisão depois de muita conversa (digo, quando tomam, porque é verdade que muitas vezes não tomam decisão nenhuma, ficam só de papo pedindo conselho pra samambaia, o que já não é exatamente uma arte)” hahahaha
    Mercúrio é um solene mistério para mim, a única certeza que tenho é a de que não posso brincar ou dar bobeira quando ele está retrógrado.rsrs
    Um Beijo

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