peixes, virgem

O eixo Virgem-Peixes

Virgem e Peixes são signos opostos complementares, ainda mais opostos e ainda mais complementares porque colocam em interação os extremos da ordem e do caos. À primeira vista, não é difícil distribuir as funções: a ordem é virginiana e o caos é pisciano. Mas as coisas felizmente não são tão simples assim, e a compreensão das nuances entre esses dois arquétipos é um passatempo meticuloso e delicado.

A ordem virginiana tem na origem o propósito de assegurar que objetos e implementos de rituais de purificação estejam todos no lugar, garantindo seu bom funcionamento, através de criação de canais apropriados ao fluxo e à circulação de energias. A relação com a saúde está aí também, mas sem deixar de entender o corpo como uma esfera de atuação do sagrado, pois o local onde Virgem atua é sempre uma espécie de templo. Virgem, portanto, conhece o caos, sabe que ele está sempre à espreita, e por isso se empenha em mantê-lo do lado de fora, ao mesmo tempo em que deixa entrar a luz divina. Porém, tudo aquilo que é estranho à inteligência humana pode parecer caótico aos nossos olhos, apenas por tratar-se de um tipo de ordem que não compreendemos.

A própria divindade entra nessa categoria, e aqui surge o paradoxo virginiano: as práticas que surgem para nos proporcionar um contato com o Outro podem ser aquelas que acabam por manter qualquer alteridade além das muralhas do templo. Não há mais fluxo, não há mais circulação, não há mais movimento, e aí a ordem que se estabelece começa a deteriorar-se a partir de dentro, levando-a à morte. Como o pontinho escuro na parte clara do símbolo do Tao, é necessário permitir certa desordem no interior dos recintos sagrados, porque aquilo que chamamos de ‘caos’ pode ser só um outro nome para a ‘vida’. Não existe perfeição assim percebida por nós que não seja estritamente humana, e a verdadeira Perfeição é algo que não seríamos capazes de perceber.

Mas poderíamos, talvez, vivenciá-la em um instante de sorte; e Peixes tem entre seus atributos a aspiração por essa experiência. Sua permeabilidade ao não-humano, àquilo que foi deixado fora de nossas rotinas ordinárias, admite o convívio com máculas e demônios jamais admitidos no ordenamento dos ritos purificadores: Peixes tem inclusive a lembrança de nossa existência aquática, é atravessado por mistérios mais antigos que a espécie humana e que vão sobreviver a ela. O sonho e a vigília, então, se misturam de tal modo que o próprio corpo já não existe com limites exatos. O ego se dissolve não por força de um ato de vontade, mas porque nunca esteve lá como algo independente do mundo ao redor.

Por outro lado, Peixes é bem capaz de intuir uma Ordem superior por trás dessa bagunça toda em que está imerso. E, assim como Virgem percebe a alteridade como impureza, pode encontrar nela o veículo do grande sacrifício em que a purificação final será alcançada, ou mesmo sacrificar a riqueza e a multiplicidade desse mundo em nome da unidade de uma Ideia delirante. Esses signos aparentemente tão inocentes têm por isso sua parte de responsabilidade nas tiranias e fanatismos desse mundo. A experiência pisciana da Totalidade é totalitária se não for efêmera, e desconhecer os limites entre o eu e o outro é tão perigoso quanto sacramentá-los.

O símbolo do Tao, naturalmente, tem também um pontinho claro na parte escura. É a ordem que existe em meio ao caos, e não por trás dele. Esses pontos parecem os olhinhos de dois peixes que nadam em direção opostas e complementares, tudo coordenado por uma geometria exata e perfeita que a gente pode perceber claramente. Trata-se de um símbolo humano, criado por mentes e mãos humanas, mas que trata de algo que vai além da experiência humana; e Peixes precisa desses símbolos para ter alguma representação do mundo indizível onde vive.

Já Virgem precisa saber que o mundo não tem como ser ordenado como um símbolo, que a linguagem não nos basta e que o divino está naquilo que é deixado do lado de fora de nossas palavras. Embora os símbolos, incluindo os signos do zodíaco, sejam também possíveis portais de um encontro com o sagrado, ou seja, a maneira como as mais diversas divindades – das mais sublimes às mais demoníacas – circulam entre nós.

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