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A oposição de Júpiter

Esses dias publiquei aqui textos sobre trânsitos que antecedem idades redondas (o retorno de Saturno para os trinta anos, a quadratura de Plutão para os quarenta), e fiquei pensando se haveria algo equivalente antes dos vinte. Acho que há. Ali por volta dos dezoito anos todos vivemos uma oposição de Júpiter, que vai acontecer regularmente de tempos em tempos na sequência, mas que nessa época tende a ser mais importante e acentuada, demonstrando uma evidente sincronia com experiências comuns – mas nem por isso ordinárias – dessa etapa da vida.

Talvez eu tenha pensado especificamente em Júpiter por causa do Antes do Amanhecer, que, junto com os outros dois filmes da trilogia que se seguiu, pode muito bem representar as três etapas a que estou me referindo. O primeiro filme é a história de um casal que se conhece em um trem durante uma viagem, e os outros são os desdobramentos de sua relação nas décadas posteriores. Acho o procedimento seriado interessante, e gostei do segundo filme também, postei uma foto dele junto com o texto sobre o retorno de Saturno. Mas é no primeiro mesmo que está o grande feito do diretor, na minha opinião, pois ali ele conseguiu representar uma a experiência de modo quase arquetípico mesmo, inclusive correndo o risco de cair no estereótipo.

Mas isso aqui não é crítica de cinema. Júpiter, portanto. Está relacionado a todo tipo de expansão, de projeção para além dos limites conhecidos, e por isso sua associação direta com o tema da viagem. É verdade que nem todos os jovens realizarão uma viagem decisiva ou importante nessa época da vida, mas algum tipo de acontecimento ou mudança costuma sempre trazer uma ampliação equivalente de horizontes – com frequência através do conhecimento e da educação superior, que são os outros temas jupiterianos por excelência.  

Sou professor universitário, e, talvez por gostar de assistir essa expansão, gosto de dar aulas no primeiro período. Tenho alunos mais velhos também, gosto de ter, mas existe algo de singular na situação de quem entra na universidade por volta dos vinte anos. É um enorme conjunto de mudanças para o qual a vida universitária é não somente um ambiente propício como também uma espécie de símbolo, que aponta justamente para a ‘ampliação’ – do conhecimento, do círculo social, muitas vezes do próprio universo geográfico do aluno. ‘Ir para a universidade’ nunca é só ir para a universidade. É ir para um outro mundo, e muitas vezes ir para o mundo, no contraste com a limitação das fronteiras antes conhecidas.

A experiência, é claro, conhece variações, e implica frustrações, dúvidas, medos. Mas de modo geral não há mudança maior do que aquela verificada entre o começo e o fim do semestre de uma turma de primeiro período. Não estamos falando só da libertação de uma fase embaraçosa da adolescência (o fim do ensino médio pode ser sentido assim), mas sobretudo da percepção de que de fato existe algo além dos muros da escola a ser desbravado e conquistado. Não se trata apenas de romper com um passado morto, mas também de criar uma visão vívida do futuro, por mais imprecisa que ainda possa ser.

É também verdade que nem todo mundo encontrará essa ampliação de horizontes na universidade, e além da viagem há ainda outras possibilidades. Mas felizmente a educação superior tornou-se mais acessível entre nós. Pensando nisso, me ocorreu agora que, embora todos os signos tenham motivos de sobra para estar enfastiados com o atual governo – os capricornianos pela incompetência, os virginianos pela bagunça, os librianos pela vulgaridade, etc etc –, os alvos primordiais parecem estar nos arquétipos de Leão e Sagitário. No primeiro caso, por conta da evidente repulsa pelo princípio do prazer, que se manifesta e atualiza na rejeição ao mundo artístico. No segundo caso, pela repulsa ao conhecimento, e particularmente pelos ataques à educação superior.

De modo que esta pode ser uma época histórica particularmente difícil para se ter 18, 19, vinte anos. É uma etapa da vida em que a gente costuma ficar pleno de futuro, até bêbado de futuro, tamanhas são as novidades que surgem e possibilidades que se abrem, todas elas contendo promessas variadas, que vão se sucedendo e sobrepondo. No entanto, temos aí gente empenhada em realizar uma espécie de bloqueio do futuro, de maneira ostensivamente contrária ao prazer e ao conhecimento, por motivos pessoais mesquinhos. Felizmente, eu diria, por motivos pessoais mesquinhos, pois são os que têm menos fôlego para o longo prazo.

Talvez eu esteja pensando nisso tudo também porque tenho um filho chegando nessa idade. Então, Tiago, se você estiver lendo, não desanime, como espero que meus alunos mais jovens não desanimem. As promessas que Júpiter é capaz de proporcionar continuarão sendo muito maiores do que isso que está aí. Se vão se realizar ou não é outra história; elas não existem exatamente para serem concretizadas, mas para injetar ânimo e entusiasmo em projetos que podem até ficar no meio do caminho. Pois a primeira metade do caminho basta para alimentarem a sensação de que a vida vale a pena, e essa sensação é propósito suficiente para sua existência provisória.

There’s nothing that keeps its promise, “não há nada que cumpra sua promessa”: lembrei dessa frase que abre o Teatro de Sabbath do Philip Roth enquanto pensava em Júpiter. Philip Roth é um autor jupiteriano, por sinal: dado a excessos, tagarela, expansivo, e por isso mesmo capaz de atingir mares nunca antes navegados (chequei aqui agora, pisciano com ascendente em Sagitário). Pensei duas vezes antes de incluir a frase nesse texto; não é o tipo de notícia que você quer dar para jovens empolgados com o futuro. Mas, na segunda vez, pensei assim: eles não se importam.

Eles não se importam. Tenho alunos que ao ouvir isso jamais ficariam lamentando o descumprimento iminente de suas expectativas. Eles iriam querer saber quem é esse Philip Roth, o que foi que ele escreveu, o que está traduzido, e talvez se animassem com a ideia de estudar mais inglês para conhecer a parte da obra dele que não está editada aqui, e assim quem sabe conhecer outros autores também, e um dia talvez fazer um doutorado em uma universidade americana sobre isso, ou então aproveitar o conhecimento da língua para realizar um trabalho voluntário em outro continente – ou então aprender não só inglês mas também italiano para ler Dante no original e russo para ler Dostoievski, e aí terminando o Dostoievski talvez escrever um romance em português mesmo porém em um português que ninguém nunca viu igual, talvez sobre as experiências de uma viagem ao redor do mundo, incluindo a história da pessoa que conheceram em um trem e depois passaram uma noite com ela em Viena ou em Istambul ou em Guadalajara.

A oposição de Júpiter é isso aí. Não há nada que seja capaz de conter suas promessas, nada mesmo, nem as ironias de velhos escritores geniais, nem as mesquinharias de governantes ao mesmo tempo jovens e decrépitos. E, se o futuro precisa ser reconquistado nas ruas, se for preciso marchar para reclamá-lo, que seja assim. Há toda uma geração de jovens que pode encontrar suas esperanças nesse gesto, e com isso, de quebra, criar a promessa de outros amanhãs para todos nós.

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