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A quadratura de Plutão

Stranger Things (2016)

Alguns trânsitos astrológicos importantes acontecem para todo mundo mais ou menos na mesma idade. Assim como os trinta anos costumam coincidir com últimos ajustes e redefinições do retorno de Saturno, aos quarenta estamos lidando com o que ficou da quadratura de Plutão. Trata-se de um aspecto que nada tem de ordinário, mesmo sendo comum. Costuma acontecer em momentos variáveis a partir dos 37 anos, por conta do ritmo um pouco menos regular da órbita plutônica.

Há motivos para que essa passagem seja menos comentada. Plutão é um agente incorporado à prática astrológica há não muito tempo, está ainda sendo estudado e conhecido, e além disso trata por definição de temas ocultos e tabus. Então, mesmo entre profissionais do aconselhamento, há aqueles que não se dispõem a perscrutar as profundidades psicológicas que alcança. Isso pode acontecer por diferenças de abordagem e de comportamento pessoal, naturalmente, mas desconfio que há também aí uma reticência diante da ameaça que ele representa para panaceias disseminadas no meio astrológico, como o ‘pensamento positivo’ e o autoconhecimento.

Pois em Plutão encontramos as mais diferentes formas de expressão do trágico, que não poderiam ser evitadas nem com todo o pensamento positivo do mundo. Do mesmo modo, não há autoconhecimento que nos prepare para suas pancadas nem antecipe nossas reações diante delas. Em maior ou menor grau, dependendo de outros fatores, a quadratura de Plutão é um desses momentos em que nos deparamos com as forças do inevitável, que nos deixam sem ação e sem recursos. E isso com frequência estará relacionado muito literalmente aos temas de sua área de atuação: a morte, o dinheiro e o sexo.

O que vou dizer a respeito é baseado em experiências pessoais, em relatos que escutei e em algumas leituras. Em termos gerais, o que mais se percebe é algum tipo de experiência da mortalidade e de limitações absolutamente intransponíveis, seja através da doença de alguém querido, do término de um relacionamento desgastado, do fracasso definitivo de algum projeto, ou do abandono doloroso de um sonho ou aspiração. As especificações dependem muito da posição de Plutão no mapa natal da pessoa, mas, de um jeito ou de outro – e ao contrário do retorno de Saturno, que comporta redefinições moduladas e algum controle consciente do processo –, neste caso estamos diante de uma exigência de absoluta rendição, em que alguma coisa era e de repente não é mais.

Não há como ensinar nem aprender essa experiência. Não há nem como repeti-la, assim como não há morte que seja igual a outra. A própria revolta com que aí enfrentamos as injustiças da vida e do cosmos não é exatamente um aprendizado; é, antes, uma espécie de caminho para o necessário esgotamento de nossas forças. No entanto, isso não quer dizer que este tipo de trânsito deixe apenas destruição no seu rastro. Ele é, sim, destrutivo, mas com frequência o que aniquila são as mais rígidas carcaças que utilizamos para ingressar na vida adulta.

Em um tipo de experiência, pelo menos, isso me parece bastante óbvio. Ela merece umas palavrinhas a mais para ser tratada com cuidado. Não é das mais fáceis, nem das mais evidentes no âmbito público, mas tem uma recorrência que justifica a menção. Falo de pessoas que, durante o trânsito, desenterram memórias reprimidas de atos de abuso ou violência sofridos durante a infância. Reúnem-se aí vários elementos da crise plutônica: a exposição de algo soterrado, a crise diante de forças maiores que nos tomam de assalto, o retorno investigativo à cena de um crime, e a revolta desesperada com algo – um passado – que não se pode mudar.

Talvez a própria tomada de consciência de Plutão e suas energias ou influências pelas últimas gerações tenha favorecido essa dinâmica. Porém, isso não quer dizer que crianças não fossem igualmente vítimas de toda forma de violência antes. Aliás, o tema nos remete à própria história do rapto de Perséfone por Hades, o Plutão da mitologia grega, que em um ato disruptivo a levou para o submundo e a violentou quando era apenas uma menina.

Como a história prossegue a partir daí é uma outra história; o gesto tem força arquetípica em si mesmo, e toda criança vítima de abuso e violência é de certa forma Perséfone no momento em que o solo se abre sob seus pés. Outras tradições conhecem mitos semelhantes, com algumas variações, mas a agressão sempre acontece em um lugar oculto e subterrâneo. E assim permanece na consciência das crianças que são abusadas, seja pela repressão das lembranças, seja pela maneira como o mundo adulto as faz questionar os próprios sentidos e percepções, de maneira mais ou menos perversa.

De um jeito ou de outro, certa inconsciência e ocultamento do passado parecem necessários para os primeiros passos do indivíduo na maturidade. É como se algo lhe dissesse: “Não, não vai dar para lidar com isso agora; você precisa estudar, arrumar um emprego, ser uma pessoa ‘normal’; deixa pra outra hora, não mexe nisso aí, fique com a história que te contaram sobre o que aconteceu ou deixou de acontecer, vai ser melhor assim”.

E assim se criam as carcaças da identidade que se sobrepõem àquilo que uma pessoa pode ter de mais definidor de sua experiência do mundo adulto. Tornamo-nos engenheiros, médicos, professores, pais, mães – e nos esquecemos de que somos Perséfone. Até que o Plutão conhecido na infância reapareça quando menos imaginamos, quando acreditamos que estamos a salvo não apenas de sua ação como também de sua lembrança. Só que agora, mesmo que iniciando uma crise, mesmo que desenterrando ossos, ele surge não mais como um fator de violação, mas como um agente de cura.

Pode ser difícil, quase impossível reconhecê-lo assim. Mas a questão do reconhecimento, aqui, é fundamental. Pois, junto com a memória de cenas e acontecimentos, ele traz à tona a reparação da confiança de em algum momento perdemos em nossos sentidos e percepções, e no estabelecimento da verdade de um modo geral. Ele se apresenta e diz: “Sim, eu existo; fui eu mesmo que você viu quando era pequeno; não acredite nas lendas que te contaram sobre mim; eu sou a violência, eu sou a morte, eu sou a crueldade, essas coisas existem no mundo e você as conhece bem desde cedo; não deixe ninguém tirar isso de você.”

Plutão não tem culpa de nada, no final das contas. É uma maneira que encontramos para simbolizar algumas experiências indesejáveis, embora o verbo ‘encontrar’ nesse caso tenha algumas sutilezas interessantes, assim como ‘indesejável’ é um adjetivo que merece algumas nuances. Pois, se a morte é indesejável, muito mais seria uma vida individual que não acabasse nunca. Enquanto o sexo, em si mesmo, está longe de ser indesejável, e em algumas de suas expressões mais regeneradoras e transcendentes encontram-se também sob a regência de Plutão.

Enfim, para aqueles que já passaram por suas quadraturas pessoais, ou por outro trânsito mais intenso de Plutão em outro momento da vida, e se depararam aí com algumas assombrações bastante reais, fica aqui meu carinho. Pois há quem chegando aos quarenta terá uma primeira experiência mais impactante da finitude e da fragilidade humana; mas há também os precisam despertar em si a criança que conheceu o inferno, sabe que conheceu, e consegue descrevê-lo em detalhes. Para estes, recomendo que reconheçam essa parte de sua identidade e não permitam que as fotos dessa viagem ao submundo sejam novamente soterradas sob fotos de viagens à Disney ou a Cabo Frio. Com a quadratura de Plutão, a cura está na rememoração do inferno mesmo, não na lembrança destes paraísos artificiais.

2 comentários sobre “A quadratura de Plutão

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