gêmeos

O jardim de Gêmeos

Às vezes eu gosto de imaginar que nesse mundo existem apenas crianças, como nas historinhas da turma do Charlie Brown – os adultos até estão lá, mas falam uma língua estranha e nunca aparecem no enquadramento da cena. Gosto de pensar esse enquadramento como uma espécie de limite da nossa experiência terrena, que nunca deixa de nos colocar as questões e angústias mais básicas, isto é, aquelas que apareceram na infância, por mais que a gente passe a elaborá-las em sofisticados problemas éticos ou metafísicos.

Quando faço isso, as pessoas que logo se encaixam nessa imagem do mundo são meus amigos de Gêmeos. São aqueles que – com todo carinho – mais facilmente surgem para mim como meninos e meninas disfarçados de gente grande. É claro que, se você for pensar nos personagens da tirinha, dá para encontrar diversos signos. O Charlie Brown mesmo talvez seja pisciano, ou de Capricórnio; o Linus, de Câncer; a Sally, Áries; a Patty Pimentinha, Sagitário; e a Lucy, Escorpião (as personagens femininas são notavelmente mais assertivas). Snoopy provavelmente será taurino, Woodstock com certeza é de Aquário. Mas o universo de Peanuts, como um todo, esse é geminiano.

Exceto talvez pelo aspecto sentimental de algumas cenas e situações, mas tenho a Lua em Gêmeos, para mim pelo menos as duas coisas se articulam bem. E acho que os traços mais lógicos ou cerebrais de Gêmeos são apenas uma manifestação entre outras de uma experiência não-hierárquica do mundo, onde as coisas podem ser niveladas tanto através de símbolos algébricos quanto através de desenhos e palavras. Gêmeos é um arquétipo democrático, embora “arquétipo” e “democrático” talvez já sejam palavras longas demais para Gêmeos. Em resumo, Gêmeos é um signo de boa; Gêmeos é um signo do bem.

Isso, é claro, desde que esse ‘do bem’ aí não presuma um mal radical e profundo ao qual ele se opõe. O mesmo atributo capaz de fazer com que no espectro geminiano estejam vigaristas e psicopatas torna possível uma autêntica inocência, destituída de conhecimento do pecado. Nem sempre a distinção entre uma coisa e outra é clara, e acho que os geminianos mesmo geralmente oscilam entre momentos de verdadeira pureza e outros com algumas doses de psicopatia. Mas o fato é que, arquetipicamente, em Gêmeos não estão colocadas algumas questões éticas fundamentais que nos afligem e nas quais nos perdemos, como a distinção entre a mentira e a verdade, por exemplo. Não é que não se tenha solução para elas, elas simplesmente não existem ainda.

Paul McCartney é geminiano. Lembro de ter lido um ensaio dizendo que, enquanto Lennon queria que sua música fosse um a chamado à revolução, McCartney queria que a sua fosse um picolé. O ensaísta era a favor do picolé. A leveza geminiana então decorre de sua capacidade de retirar o peso das coisas através da linguagem, desmanchando no ar tudo que é sólido, ou melhor: desconhecendo as profundezas das coisas ao perder-se no encanto com suas saborosas superfícies. Tudo a favor das superfícies. Geminianos sabem que mesmo nossas experiências mais profundas continuam sendo experiências humanas, e portanto têm algo de comum e risível, de tal maneira que inclusive a notícia de uma morte trágica pode se intercalar com os movimentos mais ligeiros de um dia na vida, em um jogo de montar e desmontar sentimentos através das peças de uma só canção (woke up, fell out of the bed / dragged a comb across my head…”).    

Brincar, montar, desmontar, entender: isso tudo são atividades infantis, e tudo isso são atividades geminianas. Áries pode ser o primeiro signo do zodíaco, mas Gêmeos é o que tem mais claramente a sensação de que está encarnando pela primeira vez. Talvez por isso sinta que não tem a mesma responsabilidade que os outros signos – os ‘adultos’ estão aí para cuidar das partes chatas, os virginianos estão aí para cuidar das partes chatíssimas, John Lennon está aí para fazer a revolução. De modo que Gêmeos se vê livre para explorar o ambiente imediato, por força da pura curiosidade.

Aliás, um último tema geminiano que vale mencionar nesse contexto é a vizinhança. Pois a vizinhança é o palco da infância, tanto para a turma do Charlie Brown quanto para a turma da Mônica ou para a turma do Chaves, por exemplo (a ‘turma’ é um tema geminiano também). O bairro, a vila e os arredores são nesses casos limites que só parecem restritos aos nossos olhos, que os veem de fora, porque para as crianças eles comportam o universo. Vida de Inseto é um filme geminiano, não só pela atenção ao pequeno e ao detalhe, mas também pela ação circunscrita a um cantinho no jardim onde podem se passar todas os dramas do mundo.

Enfim, Marcelo Gleiser usa a metáfora da ‘ilha do conhecimento’ para dizer que toda expansão do nosso saber implica uma ampliação ainda maior do desconhecido. As fronteiras que nos separam de algo além se afastam na medida em que tentamos alcançá-las. De modo semelhante, dá pra imaginar que, conforme a gente vai crescendo a ficando adulto, ao invés de ultrapassar a linha que separa os homens dos meninos, essa linha vai subindo, até que a gente para de crescer, olha em volta, e percebe que ainda somos apenas crianças.

É verdade que no mundo dos adultos há profissões, responsabilidades, deveres; mas nas brincadeiras infantis essas coisas já existem, a diferença é que resolvemos levá-las mais a sério. Exceto, às vezes, por Gêmeos, que, se puder, vai continuar brincando vida afora. O interessante é que das crianças eventualmente se diz que elas vivem ‘no mundinho delas’, como se fosse algo à parte, algo restrito, algo a ser superado. O jardim de Gêmeos é esse mundinho, mas talvez nós estejamos nele até hoje, nunca tenhamos saído de seus limites evasivos, e apenas perdemos o encanto e a curiosidade necessários para apreciá-lo.

Um comentário sobre “O jardim de Gêmeos

  1. Eu, como boa geminiana, amei o mundo infantil e a curiosidade! Muito obrigada! Aliviando o pior inferno astral de minha vida : será que é porque são dez vezes sete? Carole

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