aquário

Aquário. Telefona. Minha Casa.

Sobre Aquário e os Aquarianos: acho que nenhum outro grupo do zodíaco justifica mais essa maiúscula, esse título de um povo à parte, diferente, que veio de outro lugar. Não porque sejam coesos e tenham características comuns marcantes, muito pelo contrário. São até bem diversos entre si. Mas pensem: se um destacamento de terráqueos fosse designado para cumprir uma missão em outra galáxia, e constituísse uma boa amostragem da vida humana na Terra, iriam para lá pessoas das mais diferentes personalidades, comportamentos, ofícios. Elas teriam só uma coisa em comum: seriam os Terráqueos.

O povo de Aquária, portanto, talvez tenha vindo com algum propósito. O problema é que eles mesmos não se lembram claramente qual é. Os motivos pelos quais se alistaram para a viagem podem ser os mais distintos também, assim como as reações de cada um diante do que encontram aqui. Dispersos entre nós, sem sequer recordar de onde vieram, por que vieram, quem veio junto, e apenas intuindo a razão de sua estada neste planeta, encenam as mais variadas formas de articulação de alguns dos principais temas de seu arquétipo: a identidade e a diferença, o pertencimento e a dissociação, a relação do indivíduo com grupos e com a humanidade em geral.

Não surpreende que muitos se envolvam com causas humanitárias, por sinal. São os que vieram aqui para ajudar. Lá de onde estavam perceberam que nossa bagunça requer novas ideias, técnicas e conhecimentos para começar a ter algum tipo de conserto. Não por acaso, o mito de Prometeu, que roubou o fogo dos deuses para entregá-lo à humanidade – e também nos introduziu em diferentes ciências e saberes – é associado ao arquétipo de Aquário. Mas Prometeu criou assim para si a difícil situação em que seu amparo aos humanos o afastou de sua condição titânica, sem que ele próprio pudesse jamais se tornar um humano, dando-lhe a condição única de um ‘freak’, de um excêntrico.

Outras expressões do arquétipo aquariano são variações dessa posição ambígua. Há aquelas em que a motivação inicial, de auxílio na evolução social e científica dos humanos, se desenvolve em um obstinado e irrestrito impulso de reforma (ou revolução) da sociedade. Mas há também uma expressão radicalmente oposta, em que, chegando à Terra, a alma aquariana se depara com uma tal confusão e um comportamento tão errático dos humanos que recai no mais absoluto desconcerto. Isso pode levá-la tanto a uma atitude de evidente perplexidade como à postura distanciada ou blasé de quem não tem nada a ver com isso. Aliás, às vezes, sob a aparência de superioridade ou excentricidade, está a mais completa falta de jeito para lidar com as coisas nessa dimensão. Os Aquarianos podem inclusive se tornar os Bartlebys do zodíaco: simplesmente preferem não fazer.

Outra possibilidade é que se identifiquem totalmente com alguma organização ou símbolo coletivos (desde corporações até times de futebol, passando por comunidades alternativas e organizações não-governamentais), seja por prazer neste tipo vinculação, seja por medo de ficarem sozinhos e sem amigos. Neste caso, há o risco de fazerem concessões envolvendo traços preciosos de sua individualidade. Mas o dilema aquariano pode ser resolvido de formas criativas e inusitadas também. O carnaval de blocos de rua, por exemplo, é uma solução magnífica: todo mundo junto, mas cada um na sua, todo mundo misturado na galera, mas cada um incorporando um personagem único e completamente diferente.

O termo central aqui é participação. Tanto melhor que seja com alegria. Pois o povo de Aquária está aqui para participar: de nossas festas, de nossos esforços, de nossos perrengues. Talvez nunca venham a se sentir indivíduos deste mundo, mas podem muito bem ser indivíduos neste mundo, tomando parte em grupos variados sem abrir mão de suas idiossincrasias intergalácticas. Tanto melhor também que encontrem uma forma de nos transmitir seus conhecimentos e ciências e melhorias sociais, nós só temos a agradecer.

Portanto, Aquarianos, aqui falo em nome de toda a humanidade: obrigado. A gente sabe como vocês foram corajosos, desprevenidos até. Isso aqui é a confusão que vocês estão vendo, é essa bagunça aí mesmo, se der pra dar uma força em uma coisa ou outra já está ótimo. Com alguma sorte, porém, vocês poderão eventualmente repetir as famosas frases da Miranda de Shakespeare: “O wonder! How many goodly creatures are there here! How beauteous mankind is! O brave new world, that has such people in it!”. E, para os bebezinhos aquarianos que vierem a nascer ainda, deixo uma paráfrase de outro momento célebre de um clássico da dramaturgia terrena: “Welcome to Earth. It sucks. You’re gonna love it.”

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