capricórnio

Capricórnio e a montanha

Sobre Capricórnio, tem uma história que eu ouvi muito tempo atrás e nunca me saiu da cabeça. Capricórnio é a cabra, né? Então. Dizem que, quando aconteceu o dilúvio, a cabra não teve que se juntar aos outros animais na arca, porque ela morava no alto da montanha, e lá as águas não iam chegar. O problema é que aí a cabra ficou sozinha, e para não ficar sozinha o tempo inteiro ela tem que vencer seu medo da água e aprender a nadar. Mas ela também não consegue ficar na arca no tempo inteiro – então precisa saber fazer o caminho de volta. Por isso o símbolo de Capricórnio é uma cabra-do-mar, uma cabra com rabo de peixe.

É curioso que um dos arquétipos mais voltados para assuntos práticos e mundanos do zodíaco tenha como representação essa incrível criatura híbrida. Até porque a dualidade não parece totalmente de acordo com a famosa consistência capricorniana. Mas temos, sim, nossas ambivalências, e mesmo quando somos consistentes isso se dá em uma dinâmica pendular. Talvez o mundo não perceba assim porque a cabra é mesmo capaz de ficar muito tempo fixada em um lugar só, e suas mudanças de comportamento se dão após longos processos de maturação e ponderação. Ela fica olhando para água por muito tempo antes do salto.

Só que, quando ela pula, ela pula mesmo. Por isso Capricórnio pode ser tão imprevisível aos olhos dos outros: quando decide algo, por mais que você não saiba, é porque tudo já foi ponderado em silêncio, todas as variáveis foram suficientemente analisadas, e de fato está tudo decidido. Não tem mais volta. Ou melhor, tem volta, mas demora: a cabra é também capaz de ficar um bom tempo na arca até perceber que está com saudade da montanha, que já devia ter voltado lá há séculos. E mesmo depois de perceber isso ela pode levar mais um século para efetivamente resolver retornar.

Estou relendo e revisando esse texto no final de 2020; o Sol acabou de entrar em Capricórnio, e percebo que esse ano muito mais gente teve que se isolar em suas respectivas montanhas, aprendendo a conviver mais com o silêncio e a solidão. Felizes daqueles que puderam fazer isso em boas acomodações, mas de um jeito ou de outro todas as criaturas do zodíaco precisaram lidar com esse condicionamento. Eu que já estou acostumados com esse tipo de relevo (sou mineiro e capricorniano) me solidarizo com todos os bichos que de repente precisaram se distanciar uns dos outros, e fico também na torcida para que em breve a gente possa ter a chance de se juntar novamente. Enquanto não é possível, espero que não se sintam sozinhos, e percebam que, de certa forma, ao optarmos pela distância, compartilhamos o isolamento. Existe aí uma escolha que nos une e nos aproxima, e, felizmente, temos hoje instrumentos de convívio que não existiam na época do dilúvio. Observem: eu pelo menos – daqui da minha colina – estou acenando para vocês.

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