touro

Pobre Touro

[Foto: Dorothea Lange]

Um dia desses estava pensando em como Touro tem alguma coisa a ver com essas longas e lentas canções do Bob Dylan em que um refrão monótono se repete incansavelmente e isso por estranho que possa parecer é das coisas mais lindas do mundo. “Sad eyed lady of the lowlands” é um ótimo exemplo, e talvez esses olhos tristes tenham alguma relação com o olhar da Vênus, lânguido e distante; porém era “Workingman’s blues #2″ que eu estava ouvindo quando isso me ocorreu, então provavelmente não era só a beleza que estava em jogo nessa relação, era a pobreza também. O curioso é que Touro costuma ser associado à riqueza, à opulência e ao luxo, ou ao menos ao desejo de obtê-los. Mas quando repasso aqui de cabeça os taurinos que conheço, me restam poucas dúvidas: Touro é sempre meio proletário.

Não se assustem, queridos. Não estou dizendo que vocês estão condenados a uma vida de esforços mal remunerados. A questão é que, no repertório de imagens e narrativas associados ao arquétipo, encontramos mais elementos vinculados à falta do que à abundância de recursos. Ou melhor, encontramos sempre alguma associação entre a carência e a disponibilidade, assim como o Amor, no Banquete de Platão, surge nas palavras de Sócrates como o filho de Poros e Penia, ou seja, da pobreza e do recurso, e portanto “é sempre pobre, e está longe de ser delicado e belo, como a maioria imagina, mas é duro, seco, descalço e sem lar”, porém é também “corajoso, decidido e enérgico” na busca do que é belo e bom.

Corajoso, decidido, enérgico, sim – mas sobretudo obstinado, de um modo inclusive calmo, quase que resignado com a própria obstinação, quando se trata do amor taurino. Se Touro é o operário do zodíaco, ele é antes disso o tecelão, dedicado ao artesanato das coisas belas e boas, que requerem tempo, paciência e infinitas repetições para ficarem prontas. Antes de ser o tecelão, é o camponês, que conhece o tempo da terra, está integrado aos grandes ciclos do cosmos através dos movimentos cíclicos mais imediatos da matéria orgânica, e entende com o próprio corpo o que o universo faz, percebendo com os ciclos do corpo aquilo que o universo é.

Por essas e por outras é que Ceres, a deusa romana da agricultura, tornou-se uma forte candidata à regência do signo. Falei sobre isso aqui. Mas aceitaria de bom grado a regência de Vênus se ela incluir a figura de Hefesto, seu marido, deus da metalurgia, patrono dos ferreiros e carpinteiros, cuja oficina só produzia os mais perfeitos objetos, e que ensinou o artesanato aos humanos. Hefesto nasceu tão feio que sua mãe o lançou das alturas do Olimpo para livrar-se do embaraço daquele filho lamentável; com a queda, além de feio, tornou-se manco. De que modo ele ainda chega a se casar com Afrodite é outra história; o fato é que também nesse par repercute a dinâmica do luxo e da pobreza, ou do excesso e da falta de atrativos, que encontramos em vários aspectos do arquétipo de Touro.

Pobre Touro; parece que aquela rejeição de Hefesto pela mãe está na base de sua experiência arquetípica; além de proletário, acho que todo taurino é meio órfão também. Conheço taurinos que dariam ótimos personagens de Dickens, e mesmo quando dinheiro não é um problema existe algo de abandonado em seu olhar, algo de carente, destituído de beleza inclusive, e por isso mesmo belo, da maneira como é belo o Amor, ao desejar a beleza que não possui. Touro é filho da pobreza e do recurso, conhece a riqueza e a deseja, mas se anseia por ela é exatamente porque não a tem, como explicou Sócrates. Ou, como explicou Karl Marx, um taurino célebre, os operários não têm pátria – mas nada impede que sonhem com aquilo que nunca tiveram, exatamente porque nunca tiveram, e porque nunca virão a ter.

Como se sabe, taurinos são materialistas, mas existe um sentimentalismo que é especificamente taurino, ou pelo menos que alguns taurinos sugerem em seu modo de olhar. Existe um blues por trás desses olhos – repetitivo, por vezes até monótono, porém bonito em sua simplicidade e brandura, decidido em sua paciência e obstinação. Há algo em Touro que me faz imaginar crepúsculos em subúrbios manufatureiros, o fim de uma longa jornada de trabalho digno, a exaustão recompensada com um belo prato de comida. Mas é claro que isso não deixa de ser uma nostalgia utópica e sentimental, que inclui noites em casas rústicas com quintais e galinheiros, de quando havia galos, noites e quintais. Aliás, Belchior foi um cantor definitivamente taurino, nem sei quando ele nasceu mas já não importa, existe uma relação entre Belchior e Touro. Há algo em Touro que lembra aquele rapaz latino-americano, sem dinheiro no bolso, sem parentes importantes e vindo do interior. Há também sempre algo em Touro que diz: minha alucinação é suportar o dia a dia, e meu delírio é a experiência de coisas reais.

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