câncer

O arquétipo de Câncer

Sobre estereótipos e arquétipos astrológicos. Isso vai levar um tempo, mas é justamente para mostrar como no segundo caso estamos sempre lidando com uma enorme variedade de matizes e nuances. Os estereótipos funcionam em piadas e memes porque são caricaturas socialmente construídas, feitas de traços fixos e exagerados. Com os arquétipos é outra história. Não são exatamente um ‘mito’ definidor do signo, mas compõem-se de um conjunto impalpável de narrativas, imagens e símbolos, que orbitam determinados temas ao longo de muitos milênios em diferentes culturas, e oferecem definições provisórias para algo permanentemente indefinível.

Por exemplo, o arquétipo de Câncer. Sabemos, pelo estereótipo, que tem alguma coisa a ver com a família, a terra natal e a tradição. Sabemos também que tem a ver com a maternidade. Em todos esses casos surge o tema da segurança emocional, da sensação de pertencimento a um lugar ou a um clã. Porém aquilo que experienciamos como a ‘família’ hoje pode estar muito distante do que é exposto pelas narrativas e símbolos tradicionalmente vinculados ao arquétipo, na medida em que a família nuclear urbana pode ser justamente aquilo que destitui os valores da tribo e atesta sua perda. A frase “é preciso uma vila para cuidar de uma criança” é arquetipicamente canceriana, e segundo ela todos os adultos de um edifício ou conjunto habitacional seriam responsáveis pela proteção e educação de todas as crianças. Nada mais distante da nossa realidade.

No entanto – e isso é o mais interessante –, nada impede que os arquétipos se manifestem em novas situações e circunstâncias imprevistas. Uma pessoa com ascendente em Câncer, por exemplo, tem condições de desenvolver espontaneamente e oferecer ao longo da vida às pessoas ao seu redor um tipo valioso de conforto e proteção emocional, sem pedir nada em troca. É a pessoa capaz de ‘reaprender os costumes da tribo’, para usar uma expressão da Cal Garrison, e de expressar esse aprendizado natural inclusive em seus gestos e em sua aparência. Porém, pode muito bem ser que ela encontre um lugar inusitado para exercer esse destino. Pode ser um hospital, uma escola, uma empresa. Pode ser aquela pessoa que ‘cuida’ dos seus amigos, que lhes oferece uma acolhida calorosa e hospitaleira.

Às vezes o arquétipo e o estereótipo meio que se confundem. Há gestos caricatos que, além de engraçados, são tão autênticos que seu frescor vem acompanhando de certa beleza. Uma vez eu estava com outras pessoas na casa de uma amiga (sol em Câncer) que costumava manter suas portas abertas para quem quisesse aparecer. Passamos a noite bebendo e ouvindo música. Era a tribo reunida para cantar e contar histórias ao redor da fogueira. Até que vi a luz do sol nascendo pela janela e decidi que estava na hora de ir embora – podíamos estar abusando da hospitalidade ficando tanto tempo lá. Mas, quando comecei a me despedir, a anfitriã reagiu com certo estranhamento e total espontaneidade: “Mas espera aí, só porque está amanhecendo?”

E, é bom frisar, a pessoa não precisa ter filhos para manifestar o arquétipo canceriano. Vamos supor que tenha o sol em Câncer na casa 11: pode ser uma pessoa solteira que funda e mantém uma comunidade alternativa. Nada mais distante do estereótipo tradicionalista canceriano do que alguém que abandona a família, e a terra natal, para viver uma vida sem parceiro e sem filhos muito longe de casa. Porém pode ser justamente assim que se atualiza o arquétipo de uma mulher que é ‘mãe’ não de seus próprios dois ou três rebentos, mas de todas as crianças da vila, e que reconstrói um ‘lar’ para si em condições talvez muito mais próximas daquelas que valores cancerianos precisam para sua expressão. Sei de um caso parecido com esse, e para mim ele já faz parte das narrativas e símbolos do arquétipo.

O mesmo acontece com filmes como ‘O Poderoso Chefão’ e o ‘O Pagamento Final’, que também integram essa coleção, mas por motivos muito distintos. Bom, filmes de máfia são filmes sobre a ‘famiglia’, certo? Já temos aí uma dica. São muitas vezes também filmes em que um indivíduo tenta se desvincular da ‘família’ para viver uma vida mais pacata, mas acaba tragicamente descobrindo que esse movimento é impossível (ou seja, que ele está tão atrelado às forças do clã que só mesmo com a morte alcançará a libertação). Nessas narrativas, as forças do Destino e as leis da família estão interligadas. Vale então lembrar que as três Moiras, que representavam para os gregos o aspecto mais sombrio da fatalidade, correspondiam em sua descrição não apenas às três etapas da tessitura do destino, como também a três fases lunares, sendo a Lua o astro regente de Câncer.

A relação entre um destino trágico e o círculo familiar como uma espécie de prisão está também na lenda de Édipo Rei – afinal, toda a maldição que recai sobre ele diz respeito a uma impossibilidade de sair deste círculo, mesmo quando ele tenta fugir dela de todos os modos, para enfim descobrir que não conseguiu nem mesmo procriar sem reproduzir os padrões familiares através do incesto. A história de Édipo apresenta temas cancerianos em seus desdobramentos trágicos. Podemos supor que é um mito muito distante da nossa realidade para que sua lembrança tenha qualquer pertinência. Porém o medo irracional de doenças fatais e geneticamente herdadas não deixa de ter uma relação com a ideia da ‘maldição familiar’, sentida como um destino inescapável, e é algo que pode ser identificado em mapas astrológicos a partir de dados que envolvem o signo de Câncer.

Um último breve exemplo tem a ver com casos em que o arquétipo é tematizado através do sentimento de uma falta. A obra da escritora Marilynne Robinson tem belos romances com nomes cancerianos como ‘Home’ e ‘Housekeeping’. Porém eles tratam muito mais da ideia do ‘lar’ como uma impossibilidade e uma ausência, narrando histórias de mulheres errantes e desabrigadas, ou com o olhar de quem vê de fora as casas iluminadas para onde as pessoas se recolhem à noite e sente este alheamento como uma ruptura definitiva, eventualmente até como uma libertação. É algo que podemos verificar em mapas com Plutão, Urano ou Quíron na casa 4, embora os efeitos de um ou outro sejam um pouco diferentes.

Os romances de Marilynne Robinson, ‘o Pagamento Final’, ‘Édipo Rei’, as Moiras, “só porque está amanhecendo?” e a história da mulher que fundou uma vila – tudo isso faz parte do arquétipo canceriano, assim como muitos de nossos sonhos e pesadelos, e nada disso esgota suas possibilidades. Estamos falando de algo que se mantém em um movimento constante de renovação, até para que seus atributos mais importantes reencontrem condições de manifestar-se. Já os estereótipos continuarão tendo seu papel se servindo para ótimos memes e piadas. Mas sempre que se sentirem diminuídos ou ofendidos por uma brincadeira astrológica na internet, lembrem-se, todo mapa astral é único, e nem mesmo os arquétipos dão conta da riqueza e da multiplicidade da experiência humana tal como a conhecemos. Haverá sempre muito mais entre o céu e a terra do que supõe nossa vã astrologia.

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