escorpião

Escorpião e o dragão

[Durian Project / Blender Foudation]

Há signos mais complexos, há signos mais queridos, porém o mais fascinante é Escorpião. É só dar uma olhada no número de visualizações em vídeos sobre astrologia na internet para ter uma medida estatística desse fenômeno. Trata-se de um arquétipo de água, porém olhamos para Escorpião como quem olha para o fogo: encantados, atraídos, hipnotizados, e ao mesmo tempo com um medo ancestral das forças destrutivas que existem em suas formas. Algo semelhante se dá com a imagem do dragão em nossas lendas e mitos, tanto no que se refere ao encanto, quanto no que diz respeito à destruição.

Dragões nunca deixaram de ser motivo de fascínio, e sua morte não é a morte de um inimigo qualquer. São Jorge, por exemplo, foi por séculos apenas um santo guerreiro entre outros – um santo marcial, mais especificamente – até difundir-se a história da serpente alada e flamejante que ele teria vencido na Líbia. A partir daí, o tipo de proteção que sua figura simboliza não se restringe à defesa contra adversários no campo aberto das guerras militares. Ela se sobressai na luta contra inimigos estranhos, fantásticos, insidiosos, cuja força devastadora ameaça tudo o que temos de mais seguro, e que aparecem subitamente na calada da noite, ou pelos flancos desguarnecidos de nossas defesas espirituais.

O dragão não deixa de ser uma criatura aquática, apesar de sua associação ao fogo. Costuma morar nas profundezas de lagos de águas plácidas, com sutis ondulações aqui e ali denunciando o caos que pode emergir a qualquer momento. A associação com as profundezas psicológicas de que emergem as questões escorpiônicas é imediata, e o descontrole e o pânico das cidadelas atacadas existem em nós também. Nunca sabemos quando vai despertar o monstro que nos habita, e pouco adianta ficar de prontidão contra aquilo que tem o poder de incendiar as ingênuas paliçadas de nossas humanas precauções.

No entanto, Escorpião tem nesse caso uma coisa a nos ensinar, e essa coisa é a convivência com o monstro, ou, mais especificamente, a fusão com o monstruoso como forma de renovação da vida. Escorpião é aquele que morre e faz morrer no confronto com a besta, sabendo que dependemos disso para reencontrar energias vitais que se perderam em nossas distinções desgastadas entre o bem e o mal.  Há algo de sagrado no dragão da maldade, assim como há algo de luminoso em Lúcifer, e os guerreiros que venham a derrotá-los terão sempre que prestar as devidas homenagens às origens de sua fama. A morte do dragão é o nascimento de um tipo específico de herói, de caráter espiritual, não apenas por ter derrotado as forças malignas, mas por ter permanecido vinculado a elas para sempre.

Áries, que prefere a batalha em campo aberto e sem armadilhas emocionais, busca a mera eliminação do inimigo para o ter o caminho de sua liberdade desimpedido. Libra, seu oposto complementar, trata da convivência negociada com o outro. Já o par Touro/Escorpião diz respeito aos ciclos de reprodução da vida, que em ambos os casos inclui a morte. Porém em Touro isso se dá em processos marcados pela constância e pela repetição, como as estações do ano e o tempo das colheitas, enquanto em Escorpião a morte tem um aspecto de fato destrutivo, e portanto um aspecto de fato regenerador. Diante das carcaças que resistem às forças naturais do tempo, a destruição impiedosa se torna a única força capaz de gerar as metamorfoses que criam algo de verdadeiramente novo neste mundo.

O fato de Marte ter sido regente de Áries e de Escorpião durante muito tempo tem, portanto, um motivo, e não apenas o de caráter sexual; Escorpião é, sim, um signo guerreiro; a diferença é que suas batalhas se dão contra potências que ele precisa metabolizar, e não simplesmente extinguir, em um intenso processo de transformação. Se em Libra temos a percepção e a convivência de opostos, em Escorpião temos a própria destruição se fundindo e se confundindo com o gesto criativo, em um embate que não tem exatamente vencedores, mas se consagra na imagem sintética que resulta do confronto/casamento entre ambos.

Dragões muitas vezes moram em cavernas, e guardam tesouros preciosos em suas tocas infernais. De modo semelhante, todo o ouro que existe no universo foi e é produzido nas últimas etapas de contração que precedem a explosão das supernovas, quando a temperatura em seus núcleos atinge patamares impensáveis, e esse estado alterado das coisas permite a formação de minerais raros e resistentes. Há algo nesses processos que podemos associar ao arquétipo de Escorpião, seus ritmos e desdobramentos plutônicos. Do mesmo modo, há algo em Escorpião que faz com que não seja exatamente nem a besta nem o herói, mas o lugar onde o herói e a besta se tornam uma coisa só.

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