gêmeos, sagitário

O riso e o escárnio

Gêmeos e Sagitário. Dos signos mutáveis, os que mais obviamente implicam movimento estão neste eixo de opostos complementares. Gêmeos é o arquétipo das viagens curtas, do pensamento rápido e da curiosidade inconstante. Sagitário diz respeito a longas distâncias, longas argumentações, ao engajamento em um propósito e ao entusiasmo com suas chances de sucesso. Num caso, o raciocínio analítico decompõe o mundo nas peças de um jogo ou de um brinquedo, fazendo com que a pessoa seja capaz de reinventá-lo em mil formas tão diferentes como provisórias. No outro, existe o desejo por uma síntese final e absoluta, por uma definição que não está disponível de imediato, e que precisa ser procurada em peregrinações mundo afora (ou jornadas noite adentro, através do estudo e dos livros).

O contraste faz lembrar um texto que eu e um amigo geminiano traduzimos muitos anos atrás, chamado “A Flexibilidade do Self na Literatura do Renascimento”. O autor, Thomas Greene, investiga como teria surgido entre indivíduos renascentistas uma ambição por elevar o próprio homem à condição divina, em movimentos verticais, voltados para o alto, para o céu, para o absoluto, onde estaria o mais completo entendimento dos mecanismos da criação. Ao mesmo tempo, ele assinala como não deixou de haver na época uma mobilidade de tipo horizontal, de maior desenvoltura e habilidade prática para resolver e aprontar encrencas pontuais, capaz de brincar com a vida de modo menos sério.

Greene associa esse comportamento às heroínas das comédias de Shakespeare, ao talento que tinham para ocupar diferentes papéis em uma trama, fazendo-se passar pelo que não eram. Podemos também vê-lo na imagem do Malandro, do Trickster e do Coringa (“why so serious?”), que pode ser qualquer personagem do baralho, e ao mesmo tempo não é nenhum (sem identidade pessoal alguma para desenvolver, mas movimentando-se lateralmente com total liberdade). Assim, tudo indica que nosso riso mais cotidiano tem a ver com a percepção do múltiplo e do relativo – enquanto na possibilidade do absoluto e da realização de feitos extraordinários está um prazer de outra natureza, mais entusiástico e elevado. No entanto, já presenciei gargalhadas sagitarianas tão épicas quanto destruidoras de quaisquer certezas e convicções, e fico pensando que tipo de desconstrução entra em jogo nesse caso.

A propósito, nossa época reviveu uma busca renascentista: a do Desenho Inteligente do Cosmos, ou da Teoria de Tudo. O Grande Colisor de Hádrons de Genebra está envolvido nisso e é uma extravagante e sagitariana estrutura voltada para o conhecimento dos fundamentos dos cosmos. Por mais que tudo se justifique em nome da ciência, um empreendimento dessa dimensão não teria sido realizado se não houvesse em sua origem desejos e anseios de outra natureza. O mundo foi geminianamente decomposto em minúsculas pecinhas, mas para que em seguida se anunciasse com estrondo a descoberta de uma pecinha especial: o Bóson de Higgs, a “partícula de Deus”, em torno da qual tudo se reuniria novamente.

No entanto, alguns desdobramentos subsequentes da investigação ameaçam jogar por terra todas as conquistas anteriores, no que se refere à revelação de um universo de leis inteligentes e articuladas (tem um ótimo documentário sobre isso na Netflix, “Particle Fever”). Cientistas que passaram uma vida criando modelos em que todas as peças do cosmos encaixariam de novo em uma imagem coerente estão se defrontando com evidências e resultados contraditórios, que não se adequam à suas expectativas e podem inclusive enterrá-las para sempre. Uma possível explicação para o fracasso desses modelos é a hipótese de que vivemos em um universo entre muitos outros, que não seria o resultado de um desenho inteligente, mas de um conjunto de felizes acasos. De modo que, onde eles vêm o uno, existe o múltiplo, e por isso, de onde esperam números absolutos, tudo o que recebem são variáveis relativas ao ambiente em que se encontram. Nasceu assim a hipótese do multiverso.

A divulgação desses resultados foi motivo de intensas crises existenciais por parte alguns pesquisadores, que vinham nutrindo um incontido entusiasmo com as chances de sucesso que vislumbraram. Mas será que não podemos receber a notícia desses fenomenais reveses também com um trovejante e jupiteriano riso, estrondoso, libertador? O múltiplo e o relativo não são igualmente engraçados nessa escala? Não é divertida em um nível intergaláctico a ideia de termos não um, mas múltiplos universos, cada um com seu jeitão e suas manias?

Acho que os sagitarianos, pelo menos, sabem que sim. Acho que a gargalhada sagitariana pode muito bem ser essa gargalhada cósmica diante da futilidade dos mais elevados esforços. Pois a gargalhada sagitariana, em qualquer manifestação ou momento, não é simplesmente um riso diante das patetices do dia-a-dia; é uma espécie de prazenteiro escárnio niilista diante do vislumbre de uma derrota final e redentora, que nos salva de nossas limitadas ambições terrenas, e nos coloca de volta no caminho de uma busca que só faz sentido se não tiver chance de terminar, porque haverá sempre novos caminhos a desbravar e novos universos a descobrir.

Já no âmbito geminiano, por outro lado, talvez isso nos faça descobrir que há algo de solene na impermanência. Que as inúmeras variações das formas do mundo não são apenas divertidas: são também o que temos de mais verdadeiro. Deste modo, será possível descobrir a verdade naquilo que temos de mais próximo e disponível. Sagitário e Gêmeos, afinal, são arquétipos que envolvem as figuras do professor e do aluno, e neles é possível atualizar a máxima zen que trata das relações entre mestre e discípulo: diante de assuntos sagrados, dê uma gargalhada; diante de assuntos cotidianos, sorria, e perceba, o sagrado está aí.

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