astros

Lúcifer em Áries

Gustave Doré

Lúcifer está em Touro agora, mas com Quíron e depois o Sol passando no grau zero de Áries resolvi recuperar esse texto do finzinho do ano passado para deixar aqui:

2019 vai começar metendo o pé – ou o coturno – na porta, com Marte no grau zero de Áries, o ponto onde aquilo que desconhecemos se inicia. É um local muito significativo do zodíaco, e um dos poucos entre seus 360 graus que recebe uma atenção especial. Foi afetado de diversas formas no ano que passou, com destaque para a passagem do asteroide Lúcifer (retrógrado) por lá no final de outubro. Havia um punhado de outros aspectos envolvidos neste trânsito, incluindo uma interação com Saturno, Urano e Hades. Eu não sou doido nem gênio para arriscar uma interpretação de um mapa astrológico com tantas variáveis, mas sei quem é.

Aqui um trecho do blog da Martha Lang-Wescott (que não sei se é doida, mas com certeza é genial) em 28 de outubro de 2018: “Você verá como o clima social mudou a favor dos escalões mais baixos da cultura. O mundo parece estar indo em direção a uma crescente vulgaridade; o ‘homem comum’ está cada vez mais comum neste ambiente empobrecido e anti-intelectualista. Há um comportamento mais volátil e rebelde que se move em direção ao que percebemos como ‘o mal’. Em nome da ‘mudança social’, pode haver esforços aviltantes e ações virtualmente criminais (…) Amizades serão testadas (…) Você verá gente agindo por impulso ou expressando um lado errático de sua natureza. Outros apenas quebram as regras e parecem inconscientes do que estão fazendo. Alguns procuram excitação para escapar de um quadro depressivo (…) Este é um momento em que as coisas podem de repente mudar para pior.”

Coincidência ou não, o candidato então eleito nas urnas brasileiras tem o Sol de seu mapa no grau zero de Áries, portanto em conjunção com Lúcifer no dia da votação, e com Marte no dia da posse. A mim não surpreende que sua figura pública hoje seja luciferina para uns (e não mais tão patética quanto era antes), enquanto tornou-se messiânica para outros, pois as duas coisas andam juntas. Isso não diz nada a respeito dele próprio como indivíduo, é claro. E você não precisa acreditar em astrologia para concluir que reis e governantes e líderes, em quaisquer ocasiões, são antes o efeito do que a causa de complexas transformações sociais, possuindo eles próprios pouco poder de decisão e de manobra diante dos fluxos que lideram e/ou representam (basta acreditar em Tolstoi).

De minha parte, resolvi usar a ocasião para tentar entender um pouco melhor o arquétipo de Lúcifer, em suas interações com o Sol e alguns signos (é uma maneira estranha de terminar um ano esquisito, então tem lá sua coerência). Acho que há uma coisa interessante aí, que diz respeito à maneira como um cosmos maniqueísta se instala, como a luz e a sombra passam a ser concebidas como duas coisas separadas, e como selecionamos os atores do drama em que projetamos esta distinção.

A primeira relação, a mais óbvia, é com Escorpião. O asteroide Lúcifer, por sinal, foi localizado pela astrônoma Elizabeth Roemer em 29 de outubro de 1964, portanto sob o signo de Escorpião, bem na mesma época em que cruzou o ponto de Áries esse ano (a proximidade com o Dia das Bruxas e o Dia dos Mortos talvez não seja acidental; agora, por que denominações peculiares e inesperadas como essa são escolhidas pelos astrônomos, e como elas acabam por estar associadas à atividade arquetípica de um astro, isso são mistérios da sincronicidade do cosmos que estamos longe de compreender). De todo modo os temas de Escorpião são facilmente vistos na história de Lúcifer: a descida ao inferno, a intimidade com práticas ocultas e tabus sociais, a relação com a morte.

Por outro lado, e curiosamente, o nome ‘Lúcifer’ quer dizer ‘o portador da luz’. Isso remete a uma relação com a figura de Prometeu – e, portanto, com temas aquarianos – que foi analisada em um livro de Zwi Werblowski, prefaciado por C. G. Jung. Ambos foram proscritos ou repudiados pelos deuses, mas, enquanto Prometeu entregou o fogo aos humanos, Lúcifer os fez conhecer o pecado. Neste último caso, a ‘luz’ surge por contraste, e que contraste, uma vez que a distinção entre o bem e o mal passa aí a ser imaginada como algo exato e categórico.

“Você que inventou o pecado / esqueceu-se de inventar o perdão”, diz a canção. Mas, da minha perspectiva, o que Lúcifer ilumina agora é antes algo da nossa realidade que já estava aí, ele não está inventando nada. Não nos entrega a noção do pecado – antes, nos faz perceber como a noção do pecado está disseminada entre nós, de uma maneira que não antecipamos, através de variadas formas de ressentimento, que atribuem o estado decaído de nossa sociedade a comportamentos desviantes da norma, que supostamente precisam ser corrigidos para cairmos de novo nas graças de Deus.

Este fenômeno, é claro, pode até ser explicado por variadas abordagens, mas de maneira alguma tem que ser aceito ou simplesmente suportado. No zodíaco, o Rei Sol, situado em Leão, se encontra em oposição a Aquário, que representa a humanidade como um todo. Então, se tivermos sóis luciferinos pela frente, vai ser mesmo preciso que nossa humanidade use recursos aquarianos para opor-se a eles, incluindo o estabelecimento de redes de solidariedade. Mas sem esquecer as lições que o próprio Lúcifer nos traz em sua natureza escorpiônica: a de que a sombra também nos habita e precisa ser aceita e incorporada às nossas personalidades, ao invés de as concebermos como plenas de luz diante da escuridão que projetamos nos outros.

Por último, cabe lembrar que foi o nobre Quíron quem ocupou o lugar do Prometeu acorrentado no Cáucaso e o libertou de seu eterno sofrimento. Quíron vai passar pelo grau zero de Áries em fevereiro, é um momento interessante e aguardado. Por ora, fica a título de alguma esperança – para nós e para os transtornados reis e governantes a quem atribuímos os papeis mais desgraçados dessa história que está em curso. Pois, se serve de consolo para alguém, posso garantir: não, eles não são felizes. São prisioneiros dos tristes personagens que se dispuseram a representar. Nós ainda temos uma chance. Leiam Tolstoi. Feliz 2019.

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