cosmológicas

Pontos de Vista

Mercúrio retomando curso direto. Em julho de 2013, a sonda Cassini registrou a imagem acima, da Terra vista a partir de Saturno e seus anéis. Foi possível observar dois tipos de reação quando a foto foi divulgada. Uma delas enfatizava a tecnologia e o engenho capazes de levar a humanidade a tais distâncias, a outra apontava a insignificância da humanidade do ponto de vista do universo. “Como somos grandes, poderosos”, dizia-se por um lado, diante da demonstração de avanço técnico, conquista do espaço e controle da natureza; “como somos minúsculos, isolados”, comentava-se por outro, diante da evidência de nossa pequenez e fragilidade.

Essas duas atitudes se alternam quando a humanidade é vista como algo alheio à natureza, estranho a ela, e por isso se alternaram no mundo ocidental moderno. Trata-se de ver a humanidade como maior que a natureza (pelo menos mais inteligente), capaz de dominar suas lonjuras e intempéries, ou de vê-la como menor que a natureza, submetida a seus caprichos, vulnerável à sua estúpida brutalidade. Não se considera em um caso ou no outro que humanidade e natureza sejam uma coisa só, e que é impossível a uma ser maior ou menor que a outra. Não se considera que a relação entre a humanidade e o cosmos não seja de controle ou submissão, mas de interdependência e complementaridade.

Curiosamente, a astrologia costuma ser abordada com a mesma dualidade. Ou é utilizada como um instrumento de previsão e controle do futuro, ou temida como uma linguagem de fatalismos perante os quais não temos a menor chance. O propósito de dominação sobressai aqui também: assim como a ciência já foi vista como uma continuação por outros meios da tentativa de comando do mundo pela magia, temos uma variação da tentativa de comando do mundo pela ciência. Ou então os astros surgem como forças externas que nos castigam de forma cega, de tal modo que seu estudo pode no máximo nos tornar vítimas mais esclarecidas de seu poder.

Mas às vezes a própria técnica nos oferece uma chance para ver as coisas de outro modo. Por exemplo, no caso da imagem da Terra vista a partir de Saturno. As duas atitudes que mencionei dependem da adoção de um ponto de vista entre os dois que estão sugeridos na foto. Podemos nos ver como os gigantes que atravessaram os céus e conseguiram atingir planetas nunca antes desbravados, ou como os habitantes indefesos do pontinho distante que aparece no canto. Não nos vemos, portanto, como aquele que vê a foto – ou seja, como a mente em que os dois pontos estão integrados, o espaço onde coexistem e se encontram.

Porém nossa mente é esse espaço. Sua mente é espaço, aliás – repare nisso ao olhar de novo para a foto. E o espaço que nossa mente é equivale ao espaço que existe fora dela, ambos são na verdade a mesma coisa (do mesmo modo que a Terra e Saturno, ou a humanidade e os astros, coexistem lá fora, eles coexistem dentro de nós). A existência de cada pessoa presume o universo inteiro e cada um de nós carrega o cosmos dentro de si, por isso podemos reconhecê-lo sem exclusões ao ver uma imagem como essa, sem nos sentirmos maiores ou menores do que o que ela representa, e identificando-nos com o conjunto, não com partes da imagem.

Esse é o fundamento da astrologia, pelo menos de acordo com a experiência que tenho dela. Há muito mais para se dizer a respeito, mas por enquanto vou parar por aqui. A foto da Cassini foi tirada durante um belo triângulo de Saturno com Júpiter e Netuno nos signos de água, mas há também algo de mercurial nessas imagens e informações que “chegam” até nós do cosmos (repare, elas estavam em nós o tempo inteiro). Mercúrio retrógrado me fez lembrar dessa imagem. O momento de sua paradinha no céu agora pode ser um ótimo momento para darmos uma paradinha diante dela. Logo mais, a vida segue adiante.

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