astros

Calisto, Io, Ganímedes, Europa

“As Luas de Júpiter” é um conto e um livro da escritora canadense Alice Munro. No conto, são descritas as visitas de uma mulher a seu pai doente em um hospital de Toronto. Boa parte da história se passa nos intervalos entre uma visita e outra, enquanto ela aguarda notícias, tomando café, comprando roupas, visitando museus. Uma passagem pelo planetário da cidade dá o mote para o título do conto; o pai da protagonista ainda consegue se lembrar do nome de quatro luas de Júpiter no último diálogo que tem com a filha antes de morrer.

Faz tempo que sou fascinado pela obra de Munro. Nunca entendi bem o motivo, ou nunca quis entender. Sou professor de um departamento de Letras, trabalho no ramo da autópsia de narrativas literárias, mas seus contos sempre me pareceram vivos demais, pulsantes demais, para que me sentisse autorizado a abri-los com os bisturis da teoria crítica. No entanto, a partir de determinado momento, passei a notar que havia uma semelhança entre o tipo de espanto que suas narrativas me causavam e uma outra forma de perplexidade, que sentia e sinto através da experiência da astrologia.

Pretendo ainda escrever com calma sobre isso. Assim como pretendo escrever mais sobre os astros e sobre os 12 arquétipos do zodíaco. A propósito dos arquétipos (ou seja, os 12 signos), sinto que no ambiente cultural empobrecido em que vivemos eles são mais do que nunca importantes, por seu potencial de se tornarem símbolos de experiências compartilhadas, nos quais reconhecemos a riqueza de nossa humanidade em seus múltiplos aspectos e manifestações. Isso, é claro, desde que os símbolos/signos não se empobreçam através de definições rasas, já que seu estudo permite a infinita proliferação de imagens e narrativas a partir de alguns temas centrais.

“Ambíguos, cheios de pressentimentos e, em última instância, inesgotáveis”. Assim C. G. Jung descreveu os arquétipos do inconsciente coletivo, e creio que a mesma coisa vale para os arquétipos astrológicos. É possível ficar falando e escrevendo sobre eles sem nunca se chegar a uma conclusão, e por isso criei essa página, em que ficarão expostos e arquivados os textos que tenho escrito sobre o assunto. Devo postar textos novos geralmente aos domingos, e aos poucos vou incluindo aqui durante a semana alguns dos que já escrevi e publiquei em redes sociais.

Geralmente uso como ponto de partida algum aspecto ou posição do céu da semana. Mas o resultado não costuma ser um horóscopo ou uma previsão, e sim uma notinha ou pequeno ensaio sobre os temas que surgem daí. Nada contra horóscopos e previsões, posso inclusive recomendar astrólogo/as brilhantes que publicam horóscopos na internet (as recomendações estão aqui). Talvez faça também uma ou outra resenha sobre livros de astrologia, além da eventual digressão sobre mitologias, cosmologias, poesia e teorias da narrativa.

Mas o principal devem ser mesmo os textos sobre os signos e sobre os astros, em suas conexões, relações, oposições, variações. Pressinto que vou escrever sobre isso pelo resto da vida. Pressentimentos e presságios, aliás, são um tema recorrente na obra de Alice Munro, podendo acontecer enquanto as pessoas tomam café, compram roupas, visitam museus, sempre como uma indicação de que há algo além do que a vista alcança nesses momentos aparentemente prosaicos da vida. E a astrologia é justamente uma reivindicação de que momentos prosaicos podem ser momentos luminosos, de que todo instante está em relação com a eternidade, de que cada traço de nosso comportamento é a manifestação de algum arquétipo ancestral, e cada átomo do nosso corpo guarda a lembrança de ter sido um dia matéria das estrelas.

Acho que os átomos das estrelas também pressentem que um dia serão parte de outros corpos. Talvez discutam a possível influência das pessoas em suas vidas. É tudo muito complicado, é tudo meio engraçado também. Mas, no meio dessa esplêndida confusão que é o cosmos, espero que este espaço ao menos sirva para que alguns átomos dispersos se encontrem e se reconheçam. Sejam bem-vindos.

5 comentários sobre “Calisto, Io, Ganímedes, Europa

  1. Querido, Gustavo. Que bom que vc ousou da Astrologia para ser instrumento do desvendar de meandros e caminhos da vida. Como eu sinto falta da sabedoria antiga aplicada à vida telúrica, pois a mente ocidental andou por séculos descolada da vida. Ficarei aqui aguardando por cada postagem e fazendo circular ideias que possam se tornar chaves de transmutação. Que o cosmos te abençoe.

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  2. “(…) trabalho no ramo da autopsia de narrativas literárias”: essa é a exata definição de como me senti ao longo do meu mestrado. Sempre descrevi essa etapa como “estar dissecando cadáveres”. As palavras da Clarice viraram algo a ser analisado por conta de um prazo (óbvio, estas são as regras) e isso pra mim foi algo bem cinza. Hoje uso mais a expressão “profanar universos”, pra lembrar que tudo bem não ser acadêmica, eu posso explorar em vez de profanar. Enfim: meu coração ficou aquecido ao ler essa frase 💛

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    1. Sim, tudo bem não ser acadêmica. O preço que se paga à “ciência” é alto, e alguns dos que estão realmente dispostos a pagá-lo nunca estiveram no ramo por prazer ou amor, mas em busca de reconhecimento (nesses casos a troca até faz um pouco de sentido, porque é pouca coisa em troca de pouca coisa mesmo). Mas certamente há também os que têm uma verdadeira vocação científica ou para crítica e a teoria, nos modelos institucionais mesmo, inclusive com modestia, acho que merecem toda admiração. Enfim, o assunto é interessante e intrincado, ainda mais nos últimos tempos, mas de modo geral fico um pouco triste quando vejo pessoas que se sentem mal por não serem acadêmicas ou sentiram dificuldades nessa área. Muitas vezes as dificuldades ocorrem por virtudes que as pessoas têm, ou seja, por bons motivos 🙂

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