sagitário

O mundo de Sagitário

Quando jogos de computador começaram a existir, ou pelo menos quando passei a ter contato com eles, o meu preferido era um chamado Where in the World Is Carmen Sandiego?. A personagem do título era uma criminosa ladina e cosmopolita procurada no mundo inteiro pela Interpol, e a tarefa do jogador era reunir pistas em diferentes lugares para descobrir onde ela estava se escondendo. As cidades visitadas durante a investigação (Cairo, Reykjavik, Kathmandu, Buenos Aires, Oslo, Bagdá, Bancoc, e por aí vai) apareciam com ícones de sua arquitetura ou paisagem ao fundo, enquanto a fonte do detetive fornecia uma informação que podia ser importante na busca. Mas metade da graça do jogo estava em ficar indo de uma cidade para a outra, com seus nomes estranhos e familiares ao mesmo tempo.  

A investigação é uma arte que se aloja no arquétipo de Escorpião. Porém, nesse caso, metade da graça do jogo era sagitariana. Pois é em Sagitário que sentimos esse frêmito de excitação diante de coisas que são simultaneamente próximas e distantes, cujos símbolos conhecidos atiçam nosso desejo e curiosidade, porém dizem respeito àquilo que não está acessível de imediato. Quando digo “próximas”, portanto, não falo de coisas ou cidades que estejam perto: digo apenas que essas coisas existem e fazem parte deste mundo, são realidades possíveis e inclusive já realizadas pela humanidade, estão aí faz tempo e não vão embora tão cedo. Roma, no jogo como na vida, tinha a vantagem de ser Roma e de nem por isso ser uma invenção de um filme ou de um livro ou de um jogo. Istambul era não apenas uma cidade fantástica e quase inconcebível com suas mesquitas e minaretes, era isso e era também um lugar que um dia eu ia conhecer.

Funciona assim: primeiramente, a criança entra em contato com o mundo através daquilo que está ao alcance da mão. Seu raio de atuação e conhecimento se expandem um pouco nos primeiros anos – para a vizinhança, o bairro, a escola – mas até certo ponto tudo permanece no âmbito do arquétipo de Gêmeos. Em algum momento, entretanto, ela conhecerá também sinais e vestígios de todo um enorme mundo a ser explorado. Basta um mapa-mundi para colocá-la em contato com uma espécie de vastidão que não é a vastidão do cosmos, e sim a vastidão do globo, portanto uma enormidade, mas uma enormidade de proporções humanas, compatível com nossos cálculos e medições rotineiros, passível de ser percorrida por aviões e caravelas.

Tudo isso acontece em Sagitário, em movimentos simultâneos de redução e expansão: um globo terrestre cabe na prateleira de um escritório, porém para a mente sagitariana não deixa nunca de ser uma representação de outras coisas incríveis que realmente existem lá fora. Quem colecionou aqueles álbuns com as bandeiras de todos os países sabe do que estou falando. As figurinhas mesmo podiam ser simples, um conjunto de formas e cores sem maior ambição artística, mas cada bandeirinha no álbum tinha a enorme de virtude de não ser simplesmente um desenho. Elas sempre remetiam a algo de muito diferente, que existia em alguma parte do globo terrestre, e por isso existia um pouco também ali, através daquela bandeira.

É lógico que a gente vai sempre se lembrar com carinho de alguns detalhes interessantes ou enigmáticos: a estrelinha na bandeira da Tunísia, os escritos na bandeira da Arábia, a folhinha na bandeira do Canadá. Assim como existem lugares no mundo que dá vontade de conhecer só por causa do nome, como o rapaz que protagoniza O Que Diz Molero, um romance do português Dinis Machado, e que no final do livro percorre o mundo escolhendo destinos de acordo com a sonoridade das palavras: a Pensilvânia, a Groenlândia, o Panamá. Ainda assim, por mais exóticos que possam ser os símbolos e os nomes de territórios sobre a Terra, insisto no ponto principal: todos esses lugares têm a virtude de existirem. Não são invisitáveis, por assim dizer – e isso é muito mais do que podemos dizer de muitos outros lugares.

Por exemplo: imagino que, para uma criança sagitariana e fã de Harry Potter, seja um pouco duro descobrir que Hoghwarts é um lugar fictício. A essa altura ela já fez planos de ir até lá. Para uma criança de Peixes, vamos supor, isso talvez seja um problema menor: tudo bem, ela vai pensar, Hoghwarts pode não ser algo que exista nesse mundo, mas isso nunca foi pré-requisito para as coisas existirem na minha imaginação. Sagitário, por sua vez, é imaginativo, mas está sempre antecipando com entusiasmo acontecimentos possíveis – ainda que pouco prováveis, ainda que exagerados – dos quais se vê um indício, mínimo que seja, de que um dia venham a acontecer.

Aí eu fico pensando em como deve ser o envelhecer, para esse arquétipo em particular. Se já é complicado pra mim, nem consigo imaginar como deve difícil para Sagitário aceitar as limitações que se impõem na vida na medida em que o tempo passa – como, por exemplo, a de que a gente não vai chegar a conhecer todas aquelas cidades do joguinho da Carmen Sandiego. Pois uma coisa é aceitar que a gente nunca vai chegar à Terra do Nunca do Peter Pan; outra coisa é perceber que podemos morrer sem ter conhecido a Cordilheira dos Andes ou a República Tcheca. Afinal, tudo nessa vida envolve escolhas e concessões, e, por mais dolorosa que seja essa constatação, há coisas nesse mundo mesmo que no final das contas só terão existido para nós sob a forma de uma bandeira ou um nome ou um filme.

O mesmo raciocínio vale para livros que nunca vamos ler, obras inteiras que vamos morrer sem ter conhecido. Sempre que falamos em Sagitário, essa equivalência é válida, pois nesse arquétipo há tanto os que percorrem aeroportos e hospedarias quanto aqueles que habitam livrarias e bibliotecas, sobretudo quando Mercúrio se encontra em Sagitário também. Já para quem tem Vênus em Sagitário, por exemplo, a dor do possível tornado inviável pode valer também para os encontros que nunca teremos, inclusive aqueles que eram de antemão totalmente improváveis e absurdos. Como, vamos supor, um encontro com a Rainha da Inglaterra.

Sim, a Rainha da Inglaterra. Provavelmente ela apareceu aqui porque mencionei a República Tcheca, e é de um poeta tcheco o belíssimo poema chamado Um Guarda Chuva de Picadilly (Jaroslav Seifert), que trata de um eventual flerte do leitor com a monarca britânica. Ele foi traduzido pela poeta brasileira Marília Garcia, e pode ser encontrado aqui. Aliás, bem a propósito, a Marília é uma poeta brasileira e (salvo engano) sagitariana que escreveu livros como Engano Geográfico e Paris Não Tem Centro, e cuja obra tem como marca o trânsito cosmopolita entre línguas e lugares.

Seifert menciona o tal possível encontro do leitor com a Rainha da Inglaterra na primeira estrofe do poema. É claro que esse encontro não vai acontecer; ele não é totalmente impossível, está dentro dos limites do concebível (trata-se da Rainha da Inglaterra, e não de um elfo das terras médias), mas, convenhamos, não é algo que eu ou você vamos experimentar nessa vida. Na sequência, portanto, o poeta oferece razões sábias e maduras para aceitarmos essa impossibilidade, e menciona um guarda-chuva que o filho lhe trouxe uma vez de Picadilly em Londres, para a partir daí falar de seu próprio envelhecimento, e das tantas coisas que foram se tornando impossíveis como tempo. No final, o encontro malogrado com a rainha torna-se um símbolo de todas essas coisas que, ele agora precisa aceitar, tornaram-se igualmente improváveis em sua vida (mesmo as mais simples e prosaicas, como flertar com uma mulher).

A juventude, enfim, é a parte verdadeiramente sagitariana da vida porque nela tudo é possível. Ou melhor, porque nela, tudo o que é possível de um modo geral, é possível ainda individualmente para nós. Com o tempo, mesmo aquilo que não contraria nenhum tipo de lei da física pode tornar-se uma miragem: as sete línguas que iríamos apender (incluindo alemão e russo) tornam-se um inglês instrumental que dá para o gasto, e já nem inventamos desculpas para adiar aquele curso de francês, ele simplesmente não aconteceu. No entanto, se tivermos sorte, nunca perdemos a capacidade de nos deslumbrar com pedacinhos do mundão desconhecido que chegam até nós, como bandeiras de países distantes, palavras de línguas estranhas, ícones de cidades incríveis. Se tivermos sorte, permaneceremos um pouco sagitarianos.

Porque é igualmente sagitariana aquela parte de nós que – não importa a idade – vai se inscrever no curso de alemão, vai comprar a passagem para Istambul, e vai marcar um encontro no Hype Park com uma senhora inglesa que conhecemos pela internet. Por que não? O mundo de Sagitário comporta essas coisas, e a literatura nos conta também que essas coisas nunca deixarão de provocar um frêmito de excitação, para aqueles que se mantiverem encantados com o mundo e suas possibilidades. Que algumas coisas estrangeiras permaneçam estrangeiras é então fundamental para que a gente tenha com o quê se entusiasmar, em qualquer época, em quaisquer circunstâncias. Em um paradoxo apenas aparente, é sagitariana essa necessidade que temos de nunca realmente conhecer o mundo inteiro – para que possamos continuar a imaginá-lo, enquanto estivermos a caminho, durante nossas viagens para lá.

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Dr. Sigmund de sapatos novos

Em suas memórias, o médico suíço e leonino Carl Gustav Jung trata da ruptura de sua amizade com o neurologista austríaco e taurino Sigmund Freud como uma experiência muito difícil e dolorosa. Jung e Freud entraram mais abertamente em conflito em torno de 1910, por causa de divergências na evolução do pensamento de ambos, e sobretudo por aquilo que Freud considerava uma excessiva inclinação para o “ocultismo” nos estudos de seu discípulo. Tauríneamente, Freud não arredou um dedo da convicção nos sólidos postulados científicos sobre os quais procurava erigir a psicanálise; Jung, por sua vez, afirmou que, na época do desentendimento, sentiu-se tão perdido que não encontrou alternativa a não ser buscar nas imagens de seu próprio inconsciente alguma saída para a crise.

Então teria se fixado em uma memória de sua infância, de quando estava com 11 ou 12 anos, e se dedicava apaixonadamente a brinquedos de construção. O impulso criativo reanimaria seu espírito adulto, na medida em que ele retomou a atividade lúdica, saindo para catar conchas e outros materiais de manhã e separando um tempo para utilizá-los nos intervalos do trabalho no hospital. “Mal terminado o almoço, ‘brincava’ até o momento em que os doentes começavam a chegar; à tarde, se meu trabalho estivesse terminado a tempo, voltava às construções. Com isso meus pensamentos se tornavam claros e conseguia apreender de modo mais preciso fantasias das quais até então tivera apenas um vago pressentimento”.

Esse recurso ao potencial terapêutico da brincadeira, da criatividade, do jogo e do ócio não é apenas uma característica de Leão; é também uma marca daquele tempo. Roger Caillois, em Os Jogos e os Homens, observa que as primeiras miniaturas de carros foram produzidas por operários de fábricas automotivas em que a divisão do trabalho não lhes permitia acompanhar o processo de produção do começo ao fim. Assim, chegando em casa, eles podiam reassumir o controle de todas as fases da composição de um artefato, nem que fosse como um hobby compensatório, e conseguindo com isso restituir a si mesmos uma relação artesanal com a inteireza do objeto.

Mas o arquétipo de Leão de fato atualizou esse impulso de formas diferentes através dos séculos. Cada texto que começo e termino para esse blogue, por exemplo, é uma espécie de jogo em que me envolvo com prazer e incerteza, sem saber ao certo de onde estou partindo nem onde vou chegar, mas sentindo que algo de esclarecedor – para mim pelo menos, espero que para vocês também – se realiza no percurso.

Nunca sei exatamente de onde vai surgir a peça com que começarei a montar cada texto. Nessa semana, por exemplo, ela apareceu na leitura desse trecho autobiográfico de Jung. Aí me ocorreu que é meio engraçado que ele e Freud tenham sido ambos de signos fixos (Touro e Leão), os quais existem em uma relação tensa e produtiva. Mas reparei em seguida que a coisa não para por aí: Freud tinha o ascendente em Escorpião, e Jung em Aquário, ambos no signo oposto complementar de seus signos solares. Isso quer dizer, basicamente, que a cruz dos quatro signos fixos esteve envolvida nas aproximações e afastamentos entre os dois grandes pensadores da psicologia no século XX. Opa, pensei: tem jogo aí.

Acho que em ambos os casos o signo solar aparece como a base da personalidade, e o ascendente refere-se à contribuição que ofereceram em suas obras. No caso de Freud, o vínculo com Escorpião é mais que evidente: de Totem e Tabu a Moisés e o Monoteísmo, desenvolve-se um concentrado esforço arqueológico em que são desenterrados os ossos de crimes antigos (o assassinato do pai pela horda primitiva, o assassinato de Moisés pelas tribos do êxodo), que teriam correlações exatas em episódios de cada trajetória individual, habitando os subterrâneos do inconsciente. Os sentimentos de inadequação, culpa, remorso ou angústia que surgem da repressão dessas memórias podem então ter sua origem identificada. Com isso, torna-se possível e necessário encarar os demônios ocultos na psique, para alcançar a lucidez após um intenso mergulho nas profundezas do passado.

Tudo converge para o Complexo de Édipo, também um assassino de seu pai, ao mesmo tempo detetive e criminoso, cujo expurgo de Tebas revela-se necessário para a regeneração da cidade. Aqui uma importante diferença entre as obras de Freud e Jung pode ser notada, pois no segundo caso há uma profusão de arquétipos, narrativas e símbolos que nunca se deixam reduzir a uma única história. Assim, enquanto Escorpião tende à obsessiva e quase paranoica busca de vestígios capazes de reafirmar o ponto central de suas investigações, Aquário abre mão do “uno” em favor do “múltiplo”, observando e afirmando diferenças ex-cêntricas onde outros vêm similaridades.

A ênfase no caráter sexual da libido, a propósito, não deixa de ser um componente escorpiônico das lições de Freud. Também aqui ele e Jung divergiram frontalmente da maneira como Escorpião e Aquário divergem no zodíaco. Pois o primeiro é uma força corporal, intensa, concentrada, enquanto o segundo é um arquétipo que se dispersa no ar em uma complexíssima profusão de relações em rede. Jung considerava a ênfase de Freud nas pulsões sexuais uma inclinação “reducionista”, na medida em que designava uma só fonte como energia motriz de todos os esforços e humanos. Ele acreditava que o impulso criativo, por exemplo, existia por si mesmo, e não como um excedente de desejos reprimidos.

Curiosamente, portanto, embora Jung fosse o ”ocultista” da relação, havia algo na ciência de Freud em que ele detectava uma obsessão compulsiva com o tema do sexo e da autoridade paterna. Não é incomum que Aquário veja Escorpião por esse prisma, no qual se ressalta sua perspectiva desencarnada, indiferente em relação aos instintos primitivos que lhe parecem vis ou demasiadamente humanos. Mas isso envolve também a dimensão iluminista e prometeica do arquétipo aquariano, na medida em que busca alçar o humano para além de seus limites usuais. Desse modo, e mais uma vez curiosamente, as Luzes estão do lado de Jung, embora Freud fosse o cientista da relação.

Acontece que Jung também se outorgava esse título, tinha apreço por ele, porém entendendo a ciência de um modo mais heterodoxo. De ambos, se não me engano, foi quem acompanhou mais de perto as inovações da Teoria da Relatividade e e Física Quântica, sem deixar escapar as relações da cosmovisão que essas novidades ofereciam com elementos das religiões orientais. Freud, enquanto isso, manteve-se centrado na tradição judaico-cristã, ferozmente dedicado ao problema de Deus, ou ao problema do Pai.

Enfim, Jung roubou o fogo de seu próprio Sol leonino para levá-lo aos homens através de seu ascendente aquariano; Freud manteve-se até o fim da vida irremovível do caminho em que Touro o havia situado, porém correndo riscos e desencavando desejos que apenas são aceitos e reconhecidos quando acionamos o tipo de coragem que reside no arquétipo de Escorpião. Da tensão produtiva desses cruzamentos, ambos descobriram razões que reforçaram suas crenças e os mantiveram em suas trajetórias, que, antinômicas como são, não deixam de se complementar (caberia ainda mencionara os aspectos complementares das noções de inconsciente individual e inconsciente coletivo, que estão mais propriamente atreladas aos arquétipos de Escorpião e de Peixes, tal como já comentei aqui).

Resta saber como Freud terá reagido à ruptura que levou Jung aos brinquedos de construção. Algo pode ser deduzido da correspondência entre ambos – ele alegou ter sido “despojado da autoridade paterna” de que o próprio jovem Jung o investira anos antes –, mas acho que nesse caso ele deve também ter buscado no seu Sol taurino algum tipo de conforto. No mínimo, deve ter se recostado em uma poltrona aconchegante, procurando quem sabe um bom lugar pra ler um livro, sem outro propósito além dar maciez à sua tristeza. Freud, é bom lembrar, fez o caminho de volta de Escorpião a Touro (dos mistérios ocultos à verdades elementares) quando lhe perguntaram insidiosamente a respeito de seu prazer com o fumo: “Às vezes, um charuto é apenas um charuto”.

O que então me vem à mente é uma tela do pintor Konstatin Christoff que vi em uma exposição no Palácio das Artes de Belo Horizonte muitos anos atrás. Ela se chamava “Dr. Sigmund de sapatos novos” – e mostrava um Freud felizão e sorridente com um novo par de sapatos brilhosos que teria comprado. O efeito da pintura estava na associação de uma figura tão imponente e misteriosa como a de Freud com alegria de ter comprado um par de sapatos novos. É como imaginar Escorpião contente diante de um belo prato de macarronada.

Ou seja, talvez tenha sido assim que ele lidou com a perda da amizade do discípulo: como um bom e velho taurino. Talvez a materialidade das coisas e as sensações que elas provocam não tenham deixado nunca de ser para ele uma espécie de refúgio em tempos de crise, a base de sua existência e sua personalidade, o ponto central e solar a partir do qual irradiou seu brilho para as regiões sombrias da alma humana. Assim como a criatividade e os jogos foram para Jung.

Só queria ainda acrescentar que Konstantin Christoff foi um artista búlgaro que, aos nove anos de idade, foi parar com a família em Montes Claros, no norte de Minas Gerais. Formado em Medicina pela UFMG, trabalhou como cirurgião-geral a vida inteira, mas nunca abandonou a pintura, além de ter publicado várias ilustrações na imprensa brasileira. Mais um médico artista, portanto. Descobri isso agora, ao fazer a pesquisa para tentar descobrir a imagem do quadro de Freud com sapatos novos. É engraçado o tipo de coisa que descubro e que encontro ao juntar as peças para esses jogos que vou montando aqui.

Mas infelizmente não encontrei a imagem, então terei que pedir um esforço da imaginação de vocês para terminar. Visualizem aí, com candura, sem maldade: Dr. Sigmund. Uma poltrona confortável. Pernas cruzadas. Sorrisão na cara. Charutão na mão. Sapatos novos.

gêmeos

O amigo geminiano

Quando estava com uns oito ou nove anos, eu tinha um amigo que era bastante malcriado com a mãe. Eu gostava de ir na casa dele sobretudo por isso – porque ele era malcriado com a mãe. Mas não do jeito que vocês estão pensando. Os dois pareciam ter uma espécie de pacto, em que ele fazia as vezes do filho exasperante, ela ficava no papel da mãe exasperada, e eu assistia a tudo como se fosse uma pantomima envolvendo gritos e fugas e chinelos sem grande risco de desandar para a catástrofe. Era engraçado, embora com frequência eu tivesse que segurar o riso. E certamente devia haver algum limite que ele não podia cruzar para que as coisas permanecessem assim. Seu nome era Emiliano.

O Emiliano era geminiano. Bom, não sei se era mesmo, mas passou a ser a partir do momento que que resolvi escrever esse texto. Não simplesmente porque ele era travesso, mas porque ele era bom nisso: era travesso com estilo, era levado com arte. Não se tratava apenas de rebeldia; dava para notar que ele estava testando os limites da mãe e do mundo, verificando até onde podia ir nas diabruras sem ficar de castigo, arriscando-se em pequenos desvios e contravenções experimentais, que me causavam a fascinada excitação de quem vê um amigo cruzando um círculo de fogo e saindo ileso do outro lado.

Ou melhor, pensando agora: ele era um pouco como um atacante ligeiro que faz firulas com a bola sob o risco de tomar uma bordoada. Pois há sempre um limite que atacante habilidoso não deve ultrapassar diante de um zagueiro casca grossa. E o Emiliano – assim como os geminianos – não era nem zagueiro casca grossa, nem lateral elegante (Libra), nem volante de contenção (Touro), nem meia armador criativo de lançamentos longos (Sagitário). Ele era aquele ponta que finta para o lado só para ver se consegue se safar sem uma rasteira. O atacante irreverente que tenta sempre um drible a mais só por amor à arte de fazer troça dos marcadores. O Edilson Capetinha do zodíaco.

Por falar em capetinha, uma das cenas mais deliciosas da mitologia grega é aquela em que Hermes, ou Mercúrio, o regente de Gêmeos, prega uma peça em seu irmão mais velho, Apolo, e é descoberto. Ele nega até o fim: “Como assim, Apolo, vê se pode, nasci não faz nem dois dias, tudo que quero nessa vida é dormir e tomar banho quentinho e beber o leitinho da mamãe”. Seu discurso segue nessa mesma toada inocente e petulante até chegar em Zeus, chamado para arbitrar a disputa dos filhos, e o próprio Zeus não consegue deixar de rir da audácia do fedelho. Hermes, é claro, acaba se safando.

Em resumo, Gêmeos gosta de cutucar a onça com vara curta, e improvisa uma graça para desarmar a onça se ela ficar enfurecida demais. É claro que isso pode acontecer de diversas maneiras. Gêmeos com ascendente em Aquário, por exemplo, pode usar esse talento em favor de causas coletivas ou humanitárias, cutucando os padrões tradicionais de conduta; Gêmeos com Escorpião pode testar os limites da exposição em público daquilo que é normalmente ocultado na vida social, em uma interessante mistura de leveza e intensidade. Há também os geminianos que são cem por cento recatados pessoalmente, sem nenhum indício do moleque travesso da lenda, mas estão sempre ameaçando fechar a internet por conta dos comentários que fazem e memes que compartilham. “Postei e saí correndo” é uma frase tipicamente geminiana. 

“Publiquei e saí correndo” também existe, em se tratando de livros, poemas, canções; é só uma versão um pouco mais elaborada e mais antiga do mesmo procedimento. A propósito, tenho outro amigo, geminiano e escritor, que escreveu um livro e me deu para ler antes de publicar. Ele queria minha apreciação, mas queria também saber o que eu achava de algumas passagens em que ele poderia ter sido impertinente ou ofensivo ou sincero além da conta, inclusive na auto-exposição, ou referindo-se a situações e pessoas que podiam ser facilmente identificadas. O livro inteiro era um pouco sobre essa questão da sinceridade, até por ser em formato de diário, então ele precisava correr alguns riscos nesse sentido. Mas demonstrou preocupação com uma eventual reação mais agressiva, a bordoada de um zagueiro bravo, de um crítico zeloso ou de um leitor sensível.

Gêmeos pedir a Capricórnio (no caso, eu) esse tipo de juízo é uma situação arquetípica. Afinal, Gêmeos confia em Capricórnio para lhe dizer quais as barreiras da moral e dos bons costumes que ele não deve ultrapassar. Porque aí ele vai lá e faz, nem que seja pra ver o que acontece. Capricórnio, naturalmente, ficou escandalizado com algumas passagens do livro, e disse a Gêmeos que de jeito nenhum ele devia publicar aquilo revelando aquilo outro sobre aquelas pessoas, nem sobre ele mesmo, porque vai saber como elas iam se sentir, como ele ia se sentir no futuro, e o que se passa na cabeça das pessoas e aí por diante. Mas, secretamente, eu queria mesmo era que ele publicasse tudo para ver no que dava, ver até onde se podia ir. Igualzinho acontecia lá na casa do Emiliano.

Acabou que o livro foi publicado na versão que li, e meu amigo se safou sem nenhuma chinelada, com boas críticas inclusive, até porque trata-se de um romance com estilo e inteligência de sobra para distrair até as onças mais bravas (se você ficou curioso, e se você for de Gêmeos você ficou, é esse livro aqui). Mas era previsível que ele se safasse; conheço esse geminiano há bastante tempo; tem uns vinte anos que ele é meu novo Emiliano. Embora seja uma pessoa séria, prudente e até comedida em público, é também aquele que, numa mesa de bar entre amigos, faz os comentários mais agudos, de um humor no limite do aceitável, mesmo para ambientes descontraídos, e mesmo quando o motivo da piada é ele mesmo (acontece com frequência). Coisas em que eu até poderia pensar com uns dias de atraso, e jamais chegaria a dizer, por ficar com medo de serem malcriadas demais, ou auto-depreciativas demais, afetando a sensibilidade deste ou daquele ouvinte, ou minha imagem perante a audiência.

Ou seja: perco a piada para não perder amigos, sobretudo quando os amigos são valiosos e as piadas não são lá essas coisas. Mas há indivíduos para ao quais esse dilema não existe. Ganham amigos através das piadas, inclusive as piadas ruins, e sobretudo com as piadas sobre si mesmos. Às vezes as duas coisas (a piada ruim e piada sobre si mesmo) andam juntas em uma fusão performática: o trocadilho infame, por exemplo, entra nessa categoria, pois o engraçado não é exatamente o trocadilho, mas o fato de que alguém chegou a pensá-lo e dizê-lo. Por isso é uma arte geminiana, e assim entendemos que a tentativa de fazer graça tem valor por si própria, independente de seus resultados, ou ainda mais quando eles são ridículos ou irrisórios.

Afinal, o trocadilho infame, de tão infame, é uma forma de ser notado. E querer ser notado pode muito bem ser uma forma de modéstia, pelo valor que atribui à atenção dos outros sobre nossos atos. É aqui que eu queria chegar. Gêmeos precisa de atenção por razões mais complexas ou profundas do que a mera vaidade. É claro que a experimentação e a curiosidade em relação ao ambiente imediato têm valor próprio, e podem ser praticadas como um fim em si mesmas; mas quando os objetos começam a ser derrubados das prateleiras, às vezes não é só para descobrir que barulho eles fazem ao se quebrar. O engraçado, aí, é como a criança geminiana que tiver feito isso para receber uma repreensão vai acatá-la com uma face ligeiramente triunfante. Ao mesmo tempo, não perderá nunca certo ar de desamparo por trás da malícia. Seu sorriso será sempre um sorriso meio sem jeito, encantadoramente sem jeito, ao mesmo tempo feliz e constrangido por ter conseguido o que queria.

Gêmeos precisa de atenção porque é assim que aprendeu a receber amor. O geminiano arquetípico é o irmão mais novo de uma família que conta com Hércules, Apolo, Atena e Dionísio, entre outros; se ele não fizesse uma travessura de vez em quando, Zeus poderia mal notar sua existência. Hermes sente que precisa entreter para adquirir valor, e pode fazer isso através da pena, da lira ou da mera traquinagem. A propósito, eu esqueci de incluir Better Call Saul na parte sobre Gêmeos do meu post sobre signos e séries, e deveria ter incluído, não porque se trata de uma peça sobre um advogado vigarista e trambiqueiro (não só por isso), mas porque é sobre um irmão mais novo tentando conquistar a admiração de um irmão mais velho.

Então é assim: Gêmeos pode ser tão carente quanto Câncer, mas onde um apela para o choro, o outro arrisca uma careta. O Emiliano, claro, fazia aquelas traquinagens todas porque estava querendo o amor e buscando a atenção da mãe. Dava certo, eles formavam uma boa dupla. Há ainda crianças que, quando começam a “gostar” de outras crianças, reagem fazendo todo tipo de maldades inofensivas ou ofensas elogiosas, que nunca deixam de ser uma engraçada forma de reverência. Conheço casais que passaram a vida praticando uma saudável zombaria mútua, um refinado sarcasmo, no qual está implicado um profundo respeito. É claro que também aqui há um limite que não deve ser ultrapassado, mas é exatamente porque esse limite existe que existe o jogo, de tal modo que podemos correr riscos pontuais dentro de suas regras, sem colocar sob ameaça a relação como um todo.

Quanto a amigos em geral, e amigos geminianos em particular, me contento em supor que o Emiliano também queria minha atenção, na qualidade de plateia de suas estripulias. No final das contas, é para o público na arquibancada que o driblador faz suas graças. Isso quer dizer que ele respeita o público, assim como o humorista respeita sua audiência, mesmo quando arrisca um comentário que pode suscitar um “alto lá!”. Afinal, não faltam escritores capazes de entender a famosa frase de Gabriel García Márquez: “Escrevo para ser querido pelos meus amigos”. Mas tampouco faltam aqueles que vão atiçar a amizade experimentando seus limites com a sátira e a ironia. Talvez as amizades que comportem uma boa dose de humor sejam inclusive as mais duradouras. Vai ver que é por isso que até hoje eu lembro do Emiliano.

astros

As separações segundo Ceres

Eu estava com meu filho de cinco meses quando aconteceu. Ele me deu o sorriso. Não um sorriso, não qualquer sorriso, mas o sorriso: inquestionável, arrasador, fulminante, destituído das ambiguidades desse mundo, amplo e aberto como a própria vida, irradiando o mais puro prazer sem dentes e a mais pura alegria sem propósitos, como se a existência fosse motivo de excitação suficiente para o contorcer de todos os músculos da face em uma inesperadamente harmônica profusão de luz em forma de lábios arqueados e olhos vívidos. Bebês são bons nessas coisas. Na hora, pensei: ih, tô apaixonado. No entanto, pensei também: que difícil, isso.

Bom, não sei se pensei essas coisas. Devo ter sentido algo assim, e ao mesmo tempo algo tão difícil de explicar que a explicação mais fácil fica sendo tão correta quanto as outras. Mas, se não é incomum a gente sentir alegria e dor ao mesmo tempo, a pontada de lamento atravessando essa cena doméstica foi meio inesperada. Mesmo para mim, que sou um capricorniano dado a ambivalências e melancolias, essa singular mistura de sentimentos saiu não sei de onde.

Fui então olhar quais eram os trânsitos astrológicos mais significativos naquele momento, para verificar que símbolos do horóscopo estavam interagindo entre si, e se eles me diziam algo a respeito. Em uma primeira checada, nada. Mas, olhando outra vez, percebi que, ao atentar para os planetas canônicos principais, estava deixando passar o corpo celeste que naquela situação específica era o mais importante.

Estou falando de Ceres, que, sim, estava incrivelmente ativa no céu do dia e em relação ao meu mapa. Havia acabado de ingressar em Capricórnio, após um longo período de idas e vindas em Sagitário que durou mais da metade do ano passado. Realizava um aspecto difícil e exato com Quíron naquela manhã mesmo, o que tornava potencialmente dolorosas as experiências relacionadas a filhos para todos nós. Mas por si só Ceres já carrega certa dose de tristeza, ainda que não necessariamente em assuntos relacionados à prole, e não de maneira irreversível ou extrema – pois ela diz a respeito ao possível equilíbrio que podemos alcançar nos ritmos pendulares que são a regra em boa parte de nossas experiências.

Ceres foi o nome que os romanos deram para Deméter, deusa da agricultura e das colheitas na mitologia grega. Já falei um pouco mais a esse respeito em uma brincadeira que fiz com os taurinos (nesse post aqui). Ela relaciona-se com Touro não apenas através da questão da alimentação, mas também através dos ciclos produtivos e reprodutivos, que implicam uma determinada relação com o trabalho. Naquele mesmo dia, por exemplo, li uma postagem de uma amiga escritora e capricorniana falando de como lida com os períodos “improdutivos” entre um livro e outro, alternando entre o medo de ter perdido a mão e a reparadora confiança de que lá na frente a mão vai voltar.

Ela volta. Pelo menos no mito ela volta. Porque Ceres/Deméter é justamente sobre a perda e o retorno cíclico de algo ou alguém. Mãe de Perséfone, ela teve a filha raptada por Hades/Plutão e acabou conseguindo um acordo para que a filha passasse metade do ano com ela e metade do ano no submundo. Ceres é sobre a regularidade das estações do ano, sobre a relativa previsibilidade com que perdemos e renovamos nossas energias e talentos, mas é também sobre as concessões que a gente faz para garantir esses retornos. Pense nessas concessões como uma espécie de repouso. Se deixarmos o solo quieto por uns tempos, a primavera há de florescer na terra descansada.

Eu sei, eu sei: falando assim é tudo muito bonito. Na vida mesmo tem umas horas que esses ciclos e suas rupturas (ainda que previsíveis, ainda eu reversíveis) doem demais, e doem com regularidade. Eu me lembro de quando eu e mãe do meu primeiro filho nos separamos. O fim de um casamento não costuma ter nada de rotineiro, e conosco não foi diferente; Plutão, Netuno e Urano estavam envolvidos; transformação, desilusão, instabilidade nos avassalaram. A princípio foi o caos, inclusive em termos práticos, pois tive que me mudar de cidade por uns meses, e meu convívio com ele ficou condicionado por muitos imprevistos. Até que consegui um emprego no Rio, me mudei de volta para cá, e ele passou a estar comigo em intervalos regulares, que com frequência terminavam aos domingos.

Aí as coisas entraram nos eixos novamente. Mas aqueles domingos podiam ser difíceis exatamente porque integravam o ciclo normal das coisas. Depois que eu o deixava na casa da mãe e voltava para o meu apartamento, era às vezes tomado por uma sensação de falta que acontecia sempre do mesmo jeito, e era ao mesmo tempo inesperada. Não havia outros motivos de angústia; como na lenda, eu e a mãe dele nos entendemos e chegamos a um bom arranjo; ele parecia feliz com as duas casas (sim, Perséfone acabou gostando se tornar a rainha dos infernos, pelo menos durante parte do ano). Mas ficava a percepção de que mesmo os melhores acordos reparadores do mundo vão estar sempre condicionados às perdas irreparáveis que os antecederam. Uma vez raptada, Perséfone nunca volta a ser o que era. Uma perda não se torna fácil pelo simples fato de se tornar repetitiva ou cotidiana.

Não parei para olhar os trânsitos que vivi nessa época, mas às vezes a astrologia consegue ser incrivelmente literal, e aspectos de Ceres podem indicar questões envolvendo a guarda de filhos. Ou então envolve as brigas, separações e acordos dos nossos pais. Uma amiga virginiana postou esses dias sobre o filho adolescente que está para se mudar de cidade; Ceres está transitando justamente a casa que para Virgem se refere mais especificamente aos filhos mesmo, e em especial aos filhos adolescentes. Porém, às vezes as coisas são mais sutis, e envolvem o aprendizado do convívio com algum outro tipo de ciclo – como quando, depois de um início animador de um relacionamento, a gente percebe o entusiasmo refluindo, como se estivesse indo embora mesmo. Se for um relacionamento feito pra durar, isso fatalmente vai acontecer. Depois ele volta, amadurecido e mais constante. É Ceres que dita os ritmos a partir daí.

Agora, meu filho mais velho está fazendo os vestibulares, está se despedindo de muitas coisas, considerando até a possibilidade de estudar em outras cidades. Isso nessa idade é parte da curso regular da vida, e ainda assim dá uma sensação mais aguda de que o tempo passa e os ciclos continuam sua marcha ordinária tão inclemente. Na foto aí de cima, nós dois estamos imantados em um quadro de metal daquele apartamento, em meio a outras lembranças, foto com fotos tornada memória das memórias daquele tempo. E, de novo, estou diante de uma situação de chegadas e partidas a princípio metafóricas mas possivelmente bastante reais num futuro próximo. Acho que, por mais destituído de ambiguidades que tenha sido o sorriso do Gabi, minha percepção dele foi atravessada pelo fato de que pouco antes eu havia falado sobre esses assuntos com o Tiago.

Parece-me então que as grandes rupturas e transformações podem criar a sensação de que estamos à mercê de forças além do nosso alcance, mas é nas perdas mais cíclicas, rotineiras ou previsíveis, que se aloja o verdadeiro mistério. Quando o trágico é evidente, a gente pode recorrer a filosofias e metafísicas para dar um sentido ao inexplicável; quando nem se nota, contamos apenas com nossos próprios recursos para engolir o choro e seguir adiante.

Enfim, tem certas coisas com que a gente não se acostuma nunca, e não tem dia em que a gente não perca algo de muito valioso. Por outro lado, isso quer dizer também que que todos os dias recuperamos algo muito importante, e todo amanhecer é o renascimento de um sol que morreu para boa parte do mundo horas antes. Só que, para que isso aconteça, é preciso que a gente o deixe ir embora, que renuncie à guarda do Sol e aceite que ele tem outras coisas para fazer na vida. Ou, dito de um modo não menos verdadeiro: para que isso aconteça, é preciso que a gente se permita descansar.

astros

As lições de Hermes

[Loki, em um manuscrito islandês do Sec. XVIII]

Mercúrio retrógrado é que nem crase: não foi feito para humilhar ninguém, mas ajuda saber umas regrinhas básicas para quando a ocasião pedir. Esqueci uma dessas regras em um episódio dessa temporada de Mercúrio retrógrado em Escorpião que está terminando agora, e vou fazer um breve registro aqui, que é para não fazer igual mais.

Uma amiga me ligou dizendo que estava passando dias difíceis. Entre outros motivos, havia o resultado de um exame que estava para sair. Nessas horas, sei que estou sendo consultado como astrólogo também, e não vejo problema em abrir o mapa da pessoa e ver se há algo de evidente em seus trânsitos que eu possa comentar sem uma consulta formal. Havia. Um aspecto de Netuno em trânsito com o Mercúrio do mapa natal indicava possibilidade de inquietação e ansiedade referente a diagnósticos, e que provavelmente ela estaria com uma visão distorcida da realidade nesse aspecto. Em resumo, ia ficar tudo bem.  

É o tipo de situação em que a tecnologia pode ser útil; em tese, bastaria um áudio no aplicativo de mensagens para que eu pudesse tranquilizá-la um pouco. Mas foi aí que eu errei. Pois, como se não bastasse aquele aspecto, Mercúrio retrógrado estava envolvido na história também, e a possibilidade de erros de comunicação era imensa. Resultou que mandei o áudio sem o devido cuidado que a situação exigia. Misturei o assunto mais imediato com outros, de médio e longo prazo. Acabei fazendo a informação realmente importante complicar-se num emaranhado de outros prognósticos. No dia seguinte, quando escutei a resposta, percebi que ela estava ainda mais apavorada.

Não tive o devido cuidado que seria necessário com uma pessoa que – como eu bem sabia, pela análise de seu mapa – estava propensa naquele momento a ver as coisas de um modo equivocado. O equívoco maior, portanto, foi sem dúvida o meu. Mas, além disso, ignorei Mercúrio retrógrado e sua capacidade de pregar este tipo de peça na gente. Curiosamente, meu vaticínio acabou se concretizando também por obra de minhas próprias palavras, na medida em que elas reforçaram as distorções que estavam querendo assinalar.  

Moral da história: toda consulta a um astrólogo, seja formal, informal, pontual ou ampla, implica o momento em que as perguntas são feitas e respondidas. Isso nos ajuda inclusive a lembrar que a astrologia, da maneira como a entendo pelo menos, não é um pseudociência porque não pretende ser uma ciência. Ela presume uma identidade inconsciente de sujeito e objeto e a imersão de ambos em um mesmo contexto, em que não há um observador externo capaz falar de um ponto de vista estável, mas um constante fluxo de relações que se transfiguram a todo instante.

Esse é o universo da relatividade e da complexidade, que não por acaso remete a algumas experiências do mundo antigo e do mundo oriental (e do nórdico, do africano, do ameríndio), como já foi observado com frequência na literatura científica e antropológica. Do mesmo modo, o grande desafio da experiência da astrologia não é muito diferente daquele que enfrentam em seu cotidiano os indivíduos imersos em culturas politeístas. Há que se prestar reverência a diversos deuses, muitas vezes contraditórios e caprichosos, e cujos altares se erguem em uma intrincada e labiríntica rede de templos interligados. No caso, Mercúrio retrógrado é um deles.

Mas o que ele pede não é muito. Durante cerca de três semanas, três vezes ao ano, temos que ter maior cuidado em nossas comunicações, ter paciência com pequenos entraves, ter atenção com minúcias e detalhes. Aquilo que foi negligenciado vai estragar, vai exigir reparos, vai exigir conserto – e isso vale tanto para aparelhos eletrodomésticos quanto para relações humanas. Mercúrio retrógrado, portanto, é sempre também uma oportunidade de restituir uma tessitura mais firme à esgarçada rede de deuses abandonados por nossas preces.

Porém nada disso exige que a gente se ajoelhe ou acenda velas aos pés de imagens. Nada contra velas e imagens, muito pelo contrário. Mas é bom enfatizar que agora nossos atos cotidianos e nossas atenções mútuas são mais do que suficientes para respeitarmos todas as divindades, Mercúrio retrógrado inclusive. Aliás, talvez mais do que nenhum outro, Mercúrio é um deus que fica satisfeito com essas miudezas do dia a dia. Através do cuidado com as miudezas do dia a dia, enfim, nós só temos a agradecê-lo com/por isso.

Serviços

Agendamento de consultas

Essa postagem é só para informar que estou com a agenda de consultas aberta para janeiro. Tive que interromper os atendimentos por um tempo, mas sinto falta da astrologia na prática e da prática da astrologia. Gosto de ver os arquétipos que tento descrever aqui personificados em suas infinitas combinações e contradições. Além disso, é sempre uma sorte perceber que conhecimentos que adquiri com tanto prazer podem ser verdadeiramente úteis para outras pessoas.

Para quem não sabe (acho que nunca falei disso aqui no blog), faço leituras de mapas astrológicos e consultas sobre temas específicos a partir da interpretação dos mapas, presencialmente (no Rio de Janeiro) ou por skype. Levo bastante a sério este tipo de serviço, ainda que tentando preservar certa leveza. O propósito é sempre o de ajudar o consulente a compreender dificuldades, desafios e potencialidades pessoais pelo viés astrológico, além de oferecer auxílio em decisões importantes. Para isso, diferentes técnicas de leitura e interpretação dos mapas são utilizadas.

Quem quiser mais informações e eventualmente agendar uma leitura pode usar qualquer um dos contatos listados aqui na página. Mas peço que deem preferência ao email (gnavesfranco@gmail.com), pois é com ele que consigo me organizar melhor.

touro

Touro é um mistério

Tarsila do Amaral | Paisagem com Touro (1925)

“La casa de Astérion” é um conto do escritor argentino Jorge Luis Borges em que o Minotauro faz o relato de seus dias no interior do labirinto na ilha de Creta, enquanto aguarda a chegada de um herói que o virá redimir. Ele fala de suas rotinas, afazeres, apetites; é honesto, afável, simplório até; está longe da figura do monstro devorador de donzelas que seria assassinado por Teseu. No entanto, terminada a história, sentimos que algo de sua experiência nos escapou, no mesmo instante em que foi revelado. De modo que, por mais generoso que tenha sido o relato, o Minotauro permanece um mistério.

Acho que algo semelhante pode ser dito a respeito de Touro. Por um lado, é um signo que aceita simplificações, e tem um aspecto pragmático, que não reclama de ser reduzido aos nossos assuntos mais palpáveis: comida, sexo, dinheiro. A besta mitológica que está por trás do arquétipo ganha assim ares bastante terrenos. No entanto, uma vez alcançada a matéria bruta de nossos apetites mundanos, descobrimos que eles mesmos contêm algo de misterioso, ou melhor: que eles mesmos são misteriosos. Não sabemos de onde vem essa vontade de comer, de foder, de viver. Nem precisamos saber, é verdade, mas isso não torna o assunto menos enigmático. 

Todo signo sabe de algo que os outros não sabem. Mas acho que Touro tem a peculiaridade de saber algo muito simples que ele próprio não entende direito, ou talvez não possa verbalizar, por ser algo que existia antes do verbo. Exatamente por isso, é silenciosamente obstinado: não saberia explicar porque faz o que faz, mas isso nem de longe é motivo para deixar de fazer. Talvez você já tenha estado diante de um taurino que tomou uma decisão, e talvez você tenha considerado essa decisão um equívoco, e talvez tenha tentado dissuadi-lo de agir assim. Lembra de como o taurino parecia até estar te escutando enquanto você falava, e depois fez o que tinha decidido fazer de qualquer jeito? Pois é.

Enquanto a gente fala, Touro aproveita o tempo para se entreter com as sensações que o motivam a agir, e que são motivos mais fortes do que quaisquer argumentos. Enquanto a gente argumenta, ele entra em contato com o fato de que certas coisas simplesmente precisam ter andamento, porque as forças primitivas que o movem assim decidiram. O que a gente vê em seu rosto é só a superfície serena de convicções tão profundas quanto a certeza de que a gente precisa comer quando está com fome, e dormir quando está com sono. Touro é uma espécie de energia, de élan vital, de força motriz do universo. No entanto, por mais que isso possa parecer algo de outro mundo, nenhum outro signo é mais dessa Terra.  

Touro é um mistério, portanto, que se manifesta naquilo que é ordinário (o extraordinário é do âmbito de Escorpião, seu oposto complementar). De modo semelhante, os chamados mistérios medievais eram encenações simples e populares em que as imagens mais elevadas do cristianismo ganhavam corpo por intermédio de companhias teatrais de artesãos e camponeses, que as adaptavam de acordo com suas realidades materiais e cotidianas. Aliás, a cena da Natividade, muito comum nessas quermesses, com seus pacíficos boizinhos e bezerros rodeando o milagroso rebento de Maria, é a cena mais prosaica da história de Cristo – e é uma cena muito taurina.

Já os festivais gregos intitulados Misteria eram dedicados a Deméter, uma versão humanizada de Gaia, a mãe Terra, e mais amplamente àquilo que Goethe chamou que “segredo público sagrado”, isto é, a natureza. Pois a natureza é de conhecimento comum e está disponível ao olhar de todos; porém, ela parece guardar um segredo que todos nós sentimos des-conhecer, como se um finíssimo véu a cobrisse, mesmo diante de suas paisagens e criaturas mais vulgares, ou sobretudo diante delas. O culto ao segredo que existe nos ciclos mais previsíveis do mundo natural parece existir desde que existe a humanidade, ou pelo menos desde a taurinidade existe. Touro é a expressão de verdades muito básicas – e ao mesmo tempo seu encobrimento.

Conheço taurinos que reagiriam com certo fastio diante dessas digressões: não complica, a gente é simples mesmo, não estamos escondendo nada. Sim, eu sei: comer, foder, viver. Maravilha. Não disse que não existe simplicidade aí. Mas se, por um lado, o simples se opõe ao complicado, por outro não exclui o maravilhoso. Um pouco como na história do discípulo que perguntou ao mestre qual seria o sentido da vida. O mestre ergueu os braços, um pouco escandalizado com a pergunta, e disse: “Mas eu não estou te escondendo nada!”. O rapaz ficou sem entender, e deixou pra lá. Dias depois, ele e o mestre estavam caminhando no campo. Céu azul, vento fresco, barulho de água. O rapaz comentou como o dia estava bonito e agradável. O mestre: “Viu como não estou te escondendo nada?”

É possível maravilhar-se com as coisas mais imediatas e terrenas. Para todos os efeitos, Buda era taurino, a propósito. O aniversário do príncipe Sidarta Gautama é comemorado no fim de abril. Que ele tenha aquele jeitão satisfeito e rechonchudo talvez não seja uma mera coincidência, afinal. Mas, sério: aquele sorriso, o sorriso do Buda, aquele sorriso satisfeito do Buda, aquele sorriso rechonchudo do Buda, é disso que estou falando no final das contas. Nunca me pareceu coisa de quem evadiu do plano físico para algum tipo de dimensão espiritual impalpável com algum nome exótico em japonês. Não: o Buda ri daquele jeito porque está ali em seu corpo e só ali em seu corpo e em nenhum outro lugar. Parece que acabou de limpar um belíssimo prato de arroz. E no entanto, apesar disso, ou por causa disso mesmo, seu sorriso permanece um enigma.

Isso me faz lembrar a história de um monge que, quando perguntado sobre o que é o Zen, respondeu: “Quando estamos sentados, estamos sentados. Quando estamos em pé, estamos em pé. Quando estamos comendo, estamos comendo”. Percebam: não tem nada de muito complicado para se interpretar nessas frases. Elas não estão aludindo a algum tipo de segredo inacessível para nós. Elas são o que são. E no entanto, não deixam de soar um pouco inesperadas. É mais ou menos como se perguntássemos aos céus qual é a realidade fundamental do cosmos, e um boi ao nosso lado respondesse com um mugido. Seria uma resposta adequada, simples, direta, creio que bastante correta até. E ainda assim nos deixaria um pouco perplexos, e ainda assim ficaríamos desconcertados.

Em resumo, Touro é um mugido. E eu não acredito que escrevi um texto inteiro para chegar a uma conclusão assim, quem sabe até levemente ofensiva. Talvez eu mesmo esteja tentando criar algum tipo de desconcerto, e imitar o tom de benevolente sarcasmo que costumo perceber por trás do sorriso tauríneo, assim como percebo no sorriso do Buda – um sarcasmo tão sutil que me parece vir de profundezas anteriores ao verbo e ao próprio sorriso, e que me causa uma fascinada perplexidade. Não, eu nunca vou conseguir imitar esse sorriso. Mas me contento bastante em ser aquele que o vê aqui do lado de fora. Acho que o sorriso de Touro é uma espécie de segredo público sagrado. Assim como a natureza. E comer, foder, viver. Enfim, todas essas coisas que são comuns até não poder mais – e que, por outro lado, talvez sejam exatamente as coisas que a gente vai encontrar como solução para o enigma da esfinge, após todos nossos esforços para chegar ao centro do labirinto.