arquétipos

A hora mais escura (ou nem isso)

Em um filme chamado Thirteen (dir. Catherine Hardwick, 2003), a atriz Holly Hunter faz a mãe de uma garota interpretada por Evan Rachel Wood, que após entrar na puberdade começa a ter comportamentos imprevisíveis e agressivos. Nada que não esteja de acordo com a idade e suas transformações, porém o conflito entre mãe e filha é intenso, e vai crescendo até atingir o ponto mais crítico durante uma briga que dura uma noite inteira, e na qual parece que a corda vai arrebentar de vez. Até que ambas adormecem de pura exaustão, na cama da mãe. São mostradas ainda algumas imagens delas em diferentes posições durante a noite, conforme se mexem enquanto dormem. Na manhã seguinte, a mãe se levanta para fazer um café. Ela pega uma xícara, vai até a porta que dá para o quintal, e deixa a luz do sol entrar.

Nesta cena, a sensação é de que um ciclo enfim terminou, e outro está apenas começando. Por mais que tenham sido fortes as ofensas trocadas, por mais que não seja possível a relação das duas voltar a um momento anterior, há uma promessa de futuro nesse raio de sol. E ele basta para nos dar uma espécie de alívio. Não faltam narrativas que usam o mesmo recurso; este é apenas um exemplo. Gosto de como algo semelhante acontece em Rachel Getting Married (dir. Jonathan Demme, 2008). Amo um conto do escritor russo Anton Tchekhov chamado “Um caso clínico”, com suas palavras finais ambiguamente acalentadoras, tratando também de um amanhecer, da luz do sol, de uma charrete à luz do sol durante um amanhecer.

Outro dia mesmo, ao falar de A Metamorfose de Kafka, aqui, mencionei como mesmo em uma história absurdamente dolorosa como aquela existe uma luzinha no final que pode ser aproveitada pelo leitor, depois que ele conviveu com os personagens do relato durante seus longos meses de dor e confinamento. Essa luzinha, de certa forma, está prevista no decorrer da narrativa, ela existe já em meio aos momentos mais difíceis, está implicada neles, e existe, por assim dizer, com eles. Não temos notícia de uma noite que não tenha sido seguida por um dia. Desde que existe a humanidade, experimentamos o retorno do sol ao horizonte, mesmo quando a escuridão se torna tão densa que ele parece nos ter abandonado para sempre.

Dizem que os orientais costumam ter expressões para isso – quando uma coisa não é causa da outra, mas ambas emergem juntas, existem de modo interdependente, ainda que estejam separadas no tempo e no espaço. A expressão “a hora mais escura” presume a luz que em algum momento chegará, uma vez que não é possível escurecer mais. É verdade que às vezes a hora mais escura pode durar mais do que a gente imaginava, e que às vezes as coisas podem ficar um pouco ainda mais difíceis e confusas antes do dia renascer. Ainda assim, haverá sempre uma centelha de calor, ainda que seja na forma de uma expectativa ou de uma ideia, mesmo durante o mais longo e tenebroso inverno.

Agora, não pensem que tenho algo assim para oferecer aqui. Se passei essa impressão, peço desculpas, terei que decepcioná-los. Minha questão é justamente o contrário. Pois, dentre tantos motivos de revolta e indignação que surgem nos noticiários diariamente, o que mais tem me assombrado, ultimamente, está na maneira como o presidente da república conseguiu nos destituir até dessa centelha, dessa expectativa, dessa promessa de um alívio compartilhado e comum, num futuro relativamente próximo, no qual as restrições do confinamento seriam relaxadas gradualmente, e, aos poucos, a gente ia começar a ver a luz do sol de novo, em sentido figurado para todo mundo, e também bastante concreto para alguns.

O argumento de que isso se deve a razões socioeconômicas não se sustenta. Nesse aspecto, o atual governo parece dedicado a causar uma catástrofe igual ou maior que a da mortalidade por Covid-19. O suporte financeiro imediato e efetivo que poderia ter sido dado às famílias como estímulo para que ficassem em casa nos últimos dois meses, deixando negócios não essenciais em suspensão, seria muito menor do que o necessário para amparar as famílias durantes o longo período de descontrole e incerteza que parece inevitável agora (o longo período de descontrole e incerteza, não a manutenção do auxílio às famílias, que o governo já se mostra predisposto a retirar). Não houve nenhum tipo de pensamento ou estratégia (intercalada com uma administração sensata e consistente no âmbito da saúde pública) por trás das medidas reativas que foram sendo tomadas.

Resultado: por falta de qualquer política decisiva para contornar a crise socioeconômica, ela é cada vez mais acentuada e sem fim à vista. Por falta de qualquer perspectiva ou segurança no âmbito financeiro, a crise sanitária se acentua, como pequenos negócios à deriva sendo reabertos clandestinamente, sem que a disseminação do vírus tenha sido minimamente controlada a qualquer momento. Em resumo, não se percebe por parte da administração central nenhuma estratégia para lidar com nenhuma das duas crises, a não ser a tática de nos confundir. E, portanto, deixou de existir qualquer coerência narrativa na história que estamos vivendo coletivamente, e que precisava dessa liderança para existir, ou ao menos de uma liderança central omissa, que aceitasse liderança assumida por outros agentes, ao invés de atacá-los frontalmente.

Não sou epidemiologista, nem médico, nem especialista em saúde pública; a respeito desses temas apenas reafirmo a percepção comum de um governo de uma incompetência e de uma delinquência inéditas. Mas, como pesquisador de fenômenos literários e narrativos, queria acrescentar a denúncia de sua incompetência para nos oferecer algum tipo forma dramática para atravessarmos a crise. E, pior ainda: tínhamos uma narrativa adequada para esse período, até bem engatilhada para dar conta de suas dificuldades e sobressaltos, através de um esforço criativo bem sintetizado em gráficos e tabelas, que contou com a sustentação de inúmeros cientistas, a adesão de políticos e gestores nas mais diferentes esferas, e que foi sistematicamente sabotado pelo presidente e seus ministros (com as demitidas exceções) desde o começo. Agora, nada do que acontece parece corresponder a um ritmo ou curva ou modelo que tenha qualquer precedente, seja para economistas, seja epidemiologistas, seja para críticos literários.

E é isso – também isso, mas muito isso, na minha opinião – que estava em jogo quando falávamos em achatamento da curva e expressões semelhantes. A curva era um gráfico baseada em números, mas era também uma representação do nosso potencial de agir em conjunto, como uma comunidade, diante de um ameaça iminente. Ela indicava a possibilidade assumirmos um – relativo – controle da história que estamos vivendo. Ela era um arco narrativo que nos levaria justamente à hora mais escura a que estava me referindo, quando os recursos para enfrentar as dificuldades parecem ter se esgotado, quando as perdas se acumulam para além do que estávamos inicialmente preparados, quando estão desfeitas as esperanças de atravessar a crise sem estragos vultuosos, e ainda assim, em meio ao breu desse momento, existiria algo em nós, uma centelha ou fagulha ou presságio, que nos tornaria capazes de suportar ainda essa última etapa da viagem em mares turbulentos, mesmo sabendo que jamais voltaríamos para casa, antes de antever a costa das terras tão distintas onde passaríamos a viver.

A metáfora náutica é adequada; todo mundo tem na memória alguma cena de um filme ou livro em que, após a batalha com a tormenta, alguém acorda à salvo em um bote ou em uma praia, e ganha uma nova e inesperada chance de viver. Isso acontece no teatro, no cinema e na vida o tempo inteiro. Esse tipo de narrativa ou situação é arquetípica, e se repete com regularidade e criatividade nas histórias humanas, assim como nos mitos e histórias que contamos. Nós bem poderíamos a estar repetindo agora, com algumas singularidades e variações. Isso nos daria no mínimo condições de contar a história que estamos vivendo enquanto a vivemos, e de vivê-la em comum, com uma moldura na qual poderíamos compartilhar esperanças e temores (“a forma como contamos nossa história é a forma como continuaremos a vivê-la”, afirma James Hillman, um comentador de Freud e Jung, em Healing Fiction).

Haveria diferenças, é claro. Enormes desigualdades. Histórias pessoais com fins abruptos e sem renascimento ou novo despertar. Indivíduos que passaram ao largo do fenômeno coletivo por circunstâncias muito peculiares em suas vidas. O problema é que, da maneira como as coisas foram conduzidas, ficaram apenas as diferenças, o salve-se quem puder, hipocritamente oculto sob uma aparente preocupação com as atividades econômicas e liberdades individuais. Esse resultado, e a capacidade destrutiva da figura atualmente ocupando o posto da presidência, é assombroso, em medida igual à do consenso científico formado em torno da efetividade do isolamento para conter a curva de contaminação e evitar o colapso do sistema de saúde. Digo “capacidade destrutiva” porque não nos foi proposta nenhuma outra curva. Não temos nenhuma outra narrativa em curso. Não em comum. Nada foi criado. Houve apenas destruição.  

Tenho conversado com algumas pessoas sobre suas histórias, e me alegra perceber que muitas delas ainda assim conseguem estar dando prosseguimento a narrativas próprias, e relativamente compartilháveis, que tornarão esse momento memorável, por outros fatores além da raiva e do desespero. Mas há muita gente sentindo apenas raiva e desespero mesmo. E com razão, se é que isso faz algum sentido. Não estou falando do número de mortos, ou da taxa de letalidade, ou do aumento do desemprego. Infelizmente teríamos mortos a enterrar e pessoas a amparar do outro jeito também. Mas do outro jeito, como diz a canção, teríamos também coisas bonitas para contar, depois que tudo passasse (porque tudo passa, tudo passará). O outro jeito é aquele em que estaríamos sentindo realizar um esforço conjunto. O outro jeito é aquele em teríamos uma curva, uma narrativa.

A sensação agora é a de que, ao nos destituírem dessa narrativa, de um ponto de vista psíquico coletivo, tiraram-nos tudo. Inclusive a mera ideia de luz que resiste e persiste em meio ao breu, como o sinal de um possível renascimento. Restou-nos uma treva sem contrastes que equivale à clareza absoluta de uma morte gélida na mais branca neve. Restou-nos, também, um caos de sentimentos desgovernados e ingovernáveis, em grande medida semelhante ao da fonte de onde emana a destruição, que, assim, alcança seu aparente objetivo, o de fazer proliferar a mortificante falta de sentido de suas falas inarticuladas. Há algo aqui que faz lembrar a atitude do torturador, na tentativa de extrair de sua vítima qualquer resquício de esperança. E há algo na tortura que compromete não apenas a vida, mas o sentido da vida, a mera possibilidade de um sentido para a vida.

Os escritores, dramaturgos e poetas, como afirma Frank Kermode no início de uma conferência, são as pessoas responsáveis por atribuir um sentido (uma forma, uma ordem) à vida às vezes tão caótica que vivemos. Ele diz ainda que, aos críticos literários, cabe a tarefa mais modesta de tentar explicar como eles fazem isso. De minha parte, tento fazer aqui um trabalho semelhante com os arquétipos astrológicos ou do inconsciente coletivo, oferecendo conexões entre episódios e situações da vida prosaica de cada um nós com mitos e narrativas que estão aí há milênios, associados a astros e constelações e seus movimentos regulares, porém também sempre se renovando através das nossas próprias vidas. Quando um leitor se reconhece em um dos meus textos, fico feliz, porque acredito que isso acrescentou significado à sua vida, quer dizer: enriqueceu-a de conexões entre coisas a princípio desconexas.

Tem muita gente que não se importa esse tipo de poder criativo da humanidade (com a poesia, com o drama, com a narrativa, com a mitologia), e por mim tudo bem; o que impressiona é termos pessoas tão dedicadas a fazer justamente o contrário, retirando sentido de onde há uma tentativa de construí-lo. Impressiona que uma pessoa assim tenha sido escolhida para ocupar o posto que ocupe em nosso sistema político (e que tenha sido escolhida com a missão de destruir, como sempre esteve claro, para seus eleitores e oponentes). Por outro lado, o argumento de que o poder criativo ou artístico é um assunto reduzido a um espectro do jogo político (a esquerda, no caso), ou de que a capacidade de atribuir sentido à vida através da narrativa é um confortável passatempo burguês, esbarra, no meu entender, em alguns impulsos primordiais da experiência humana sobre a Terra.

Desde que o mundo é mundo, ou pelo menos desde que olhos humanos estão aí para vê-lo, o primeiro raio de sol nascendo de manhãzinha não é apenas um fenômeno físico e material. Ele está vinculada a sentimentos – o alívio, a esperança, a dissipação do medo – e com isso coisas aparentemente díspares passam a se relacionar, uma vez que ela se torna símbolo para acontecimentos análogos, porém separados de sua manifestação imediata. Dizer que a personagem do filme que mencionei lá no começo “deixa a luz do sol entrar” não mostra a luz do sol entrando, nem presume que alguma emoção acompanhe o fenômeno, em sua imediaticidade. Mas qualquer ser humano já fez eventualmente, e instintivamente, a associação entre o nascer do sol (ou a imaginação de um nascer do sol) e o fim de um período de luta ou de longa privação e sofrimento. A experiência é arquetípica em um sentido bastante amplo, que remete a histórias acontecidas muito antes da civilização começar.

Do mesmo modo, o início da noite pode trazer consigo a sensação de um descanso há muito aguardado e necessário, de um ingresso em um mundo de sombras, magia e mistérios, ou mesmo de uma morte que adquire sentido por estar tão bem representada em ciclos naturais. Inclusive acontecimentos abruptos, inesperados e aparentemente aleatórios podem contar com o poder da palavra para passarem à categoria das tragédias em que reconhecemos a força de um destino em curso. Do jeito que as coisas estão, porém, em nosso país particularmente (para assombro até do resto do mundo), ficamos apenas com o abrupto, o inesperado e o aleatoriamente destrutivo. Se isso descreve o comportamento de alguma pessoa que você conhece, sugiro que mantenha distância no momento, e depois também.

Um estado depressivo, em que o mundo e seus fenômenos são destituídos de valor e sentido, está se disseminando junto com o vírus. Mas não por causa do vírus, e sim por força do noticiário político, em grande medida (que em si mesmo não tem culpa nenhuma, muito pelo contrário; está fazendo seu papel). Tenho amigos dizendo que estão vendo a luz do mês de maio esse ano de um modo estranho, diferente, vazio. Não é só por causa do confinamento, no meu entender; é porque essa luz costuma ser plena de significados e alusões, remete sempre a sensações passadas e expectativas de futuro, mesmo quando aparece em período difíceis. E agora, para alguns, ela não diz nada, absolutamente nada. O que é particularmente incômodo, na medida em que poderia perfeitamente representar um ponto importante da curva, em que seu reverso começaria a se mostrar, ou seja: a luzinha que surge junto e com o momento mais escuro da noite, e oferece um novo ânimo, ao indicar que o pior já passou, ou está quase passando.

Não, o pior não passou, e talvez nesse caso não venha a passar nunca, porque a ideia de “passado” presume um mínimo de ordenamento narrativo. Não estou dizendo que as coisas permanecerão para sempre como estão. Estou dizendo que, coletivamente, perdemos a oportunidade de ter uma boa história para contar para nossos filhos, com começo, meio, e fim, correspondendo à arquetípica curva em que a ciência e a arte narrativa se encontrariam. Espero que isso sirva ao menos para expor um pouco mais a caótica crueldade do atual governo, e que ele seja substituído assim que as circunstâncias permitirem, uma vez que já destruiu mais até do que parecia capaz de destruir.

Mas espero, enfim, que também vocês aí estejam vivendo suas curvas e histórias, independente do que se passa no noticiário. Escrevo inclusive, e talvez principalmente, para aqueles que perderam ou venham a perder familiares e amigos nesse percurso. Não se deixem contaminar pelo discurso informe e sem contrastes. O luto também é uma curva, uma narrativa, uma história que a gente vive e a gente conta, e que tem suas contradições, suas evoluções, seus bons e maus momentos, seu início e seu fim. É isso mesmo: o trabalho de luto é atravessado pela raiva pelo desespero, mas tem também seus instantes de conciliação e repouso. Existe força na aceitação da morte, e um outro tipo de beleza na nossa lembrança dos mortos. Não permitam que até isso seja tirado de vocês.

astros

As voltas que Vênus dá

Matthew Henderson | Tumblr

Nessa semana Vênus iniciou o movimento retrógrado (aparentemente retrógrado, visto da Terra, para ser mais exato) que realiza durante cerca de 40 dias a cada ano e meio. A primeira pergunta que a gente escuta quando falamos que um planeta vai estar retrógrado nas próximas semanas ou meses é algo do tipo: “Mas como assim, outro? De novo? Por que esses trecos têm que ficar andando pra trás o tempo inteiro e atrapalhar nossa vida, qual é o problema com eles?”. Acho a pergunta pertinente; vamos às possíveis respostas.

No caso de Vênus, especificamente, a primeira explicação que me ocorre é a de que ela precisa fazer esse movimento para executar um lindo e famoso pentagrama, formado pela sucessão de pontos médios de sua distância em relação à Terra, na órbita de ambas ao redor do Sol (esse da animação). Ou seja: Vênus valoriza a beleza, a harmonia, o equilíbrio, e se, para alcançá-las, precisa dar uns passinhos para trás, transtornando por uns tempos a vida dos pobres terráqueos, paciência. Ela vai fazer sua dança assim mesmo. Você que lute.

Isso, é claro, partindo do princípio que somos meras vítimas indefesas de movimentos planetários tão mais amplos que nós. Porém, 1) o movimento aparentemente retrógrado de Vênus só existe em relação à Terra e, 2) só existe em relação a nós. Se não fôssemos “nós”, não existiria Vênus, aliás. Aquele amontado de rochas e gases com suas eternas chuvas de enxofre que faz esse caminho bonitinho apenas se tornou um símbolo da beleza da harmonia através da criatividade humana, e da nossa capacidade de produzir nexos e analogias.

Isso nos leva à refutação da segunda possível resposta: a de que os movimentos retrógrados ou aparentemente retrógrados de um planeta não têm nada a ver com os assuntos humanos. Têm sim, e basicamente por um motivo: nós os inventamos, os planetas, e seus respectivos movimentos retrógrados. Inventamo-os enquanto símbolos de nossa experiência, e talvez os tenhamos “inventado” exatamente para nos dar algumas pistas do caminho que temos a fazer para seguir adiante nessa brincadeira de esconde-esconde, ou nesse complexo jogo de tabuleiro, que é o universo. Um planeta retrógrado então pode muito bem estar dizendo: retroceda duas casas. Preste mais atenção. Os mitos e narrativas que associamos a ele servem como indícios da área da vida em que isso deve acontecer.

Outra coisa que nós humanos fazemos é identificar padrões. Só que nessas horas às vezes a gente dá uma roubada. Por exemplo: essa animação aí de cima foi baseada em dados do geocientista Steven Dutch, da Universidade de Wisconsin, que, em 2012, criou um gráfico interativo demonstrando como os movimentos de Vênus e da Terra ao redor do Sol formavam um “desenho admirável, porém não exato”, uma espécie de pentagrama “quase perfeito”, uma vez que as órbitas estão representadas como círculos, e não elipses (Vênus, porém, tem a órbita mais próxima de um círculo do sistema solar, o que torna o pentagrama realmente próximo da realidade).

Descobri isso esses dias. Mais especificamente, no dia em que Vênus começou sua retrogradação.  O que me leva à terceira resposta para as perguntas que enumerei lá no começo – e ter descoberto que a perfeita simetria na representação da relação Vênus-Terra é na verdade atravessada por falhas e imperfeições me parece significativo para ela. Afinal, os relacionamentos humanos, regidos por Vênus, também estão sujeitos a esse tipo de ilusão e de ajuste. Precisam passar por revisões periódicas e cíclicas, muitas vezes difíceis, porque tratam justamente de conflitos que foram ignorados ou reprimidos durante os 18 meses anteriores.

É isso que acontece quando Vênus começa a retrogradar. Aparecem os pontos fora da curva. Aquilo que não corresponde às nossas ideias e ideais sobre a realidade (o que deve ser particularmente válido para esse período retrô de agora, dadas as relações Vênus/Netuno no intervalo). Porém, de maneira alguma essa percepção nos coloca à mercê dos caprichos de um planeta ou de uma divindade. Ela nos coloca em contato com ela em um sistema de cooperação mútua. Lembrem-se: Vênus precisa de nós para existir. Ela precisa de nós para retrogradar. Sem nós humanos, não há o desenho perfeito, nem a percepção de suas falhas.

A oportunidade torna inevitável a menção aos também célebres versos de Leonard Cohen em Anthem: “Ring the bells that still can ring / Forget your perfect offering / There’s a crack in everything / That’s how the light gets in”. Ou seja: toquem os sinos que puderem tocar, e se esqueçam de suas oferendas perfeitas; há uma falha em todas as coisas, e é por aí que entra luz entra nelas. Enfim: Vênus retrógrada é essa falha. Mas é também essa luz. Uma coisa não existe sem a outra. Reparem bem: esse mais perfeito pentagrama aí de cima, o que omite as imperfeições da trajetória de Vênus, pode muito bem atender aos nossos anseios por um universo ordenado e harmônico e belo. Porém, nele, a não ser a que a gente perceba seus luminosos defeitos, reina a mais completa escuridão.

astros, peixes

Aprendendo a nadar

David Hockney | A Bigger Splash (1967)

Marte ingressa em Peixes por agora, no começo dessa quarta-feira, onde vai seguir seu curso por seis semanas. É o último signo em que deve permanecer por um tempo regular antes dos muitos meses de suas idas e vindas em Áries, a partir do final de junho. Trata-se do planeta cujas mudanças no elíptico zodiacal são mais perceptíveis para nós à flor da pele, porém seu ingresso em um determinado signo geralmente é acompanhado de efeitos muito diferentes no ânimo de cada um de nós. Os piscianos, por exemplo, com Marte em Peixes podem ter um influxo de energia de tirar o sono. Já o pessoal de Áries tem maiores chances de sentir um sono de tirar as energias.

Isso, por um lado, reforça o fato de que, mesmo em épocas de condicionamentos tão restritivos como os atuais, até mesmo indivíduos que estejam vivendo as mesmas rotinas e repetições diárias sob o mesmo teto podem ter enormes diferenças de comportamento, que independem das circunstâncias externas mais aparentes, mas não deixam de estar vinculadas a influxos mais sutis do ambiente. Nós somos “de Marte” do mesmo jeito que somos “de Lua”.  Por outro lado, é das interações, conflitos e negociações entre esses vetores que se faz a vida em comum, de modo que o Marte em Peixes aqui em mim saúda o Marte em Peixes aí em você. Espero que de alguma forma eles se entendam.

Mas nada impede que a gente aproveite o momento para compartilhar um exercício de entendimento do que significa “Marte em Peixes” em um plano mais estritamente simbólico e arquetípico. A primeira expressão que me vem à cabeça é “Guerra Santa”. Por razões óbvias: Marte é planeta guerreiro, e Peixes é a região do zodíaco associada ao sacrifício. A combinação parece propícia ao martírio, bem como à luta obstinada em defesa de ilusões, justamente quando elas se mostram mais insustentáveis. Há algo em Peixes que torna Marte um agente das mais fantasiosas batalhas. No entanto, há algo também capaz de dar um fim a toda luta e sofrimento.

Nesse último sentido, Marte ingressando em Peixes é como uma flecha que cai na água. Ou como um caçador que não quer mais apenas lutar pela sobrevivência, e decide sair em busca do cálice sagrado. Se a gente parar para pensar, o que há de sagrado no cálice? O espaço em seu interior. Acontece que o espaço no interior do cálice é o mesmo espaço ao redor do caçador. Não é preciso sair para buscá-lo. É só respirar. Marte, portanto, em circunstâncias normais, trata de garantir sua sobrevivência. Mas o signo de Peixes é tudo menos “circunstâncias normais”; em Peixes, a existência se basta. Marte em Peixes se parece então com uma flecha que cai na água, aprende a ser peixe, e de repente começa a nadar.

livros

Kafka contra o “e daí?”

Imagem: Peter Kuper

Tenho a alegria breve, mas recorrente, de todo início de semestre poder discutir com a turma de ingressantes do curso de Letras onde leciono alguns clássicos da literatura mundial. Um deles é A Metamorfose, do escritor tcheco Franz Kafka. Esse livro quase nunca sai do programa da disciplina, porque há sempre interpretações que me surpreendem, experiências de leitura que me comovem, ênfases em que nunca prestei atenção antes. A maneira como cada aluno entende a história varia de forma surpreendente. Isso, é claro, deve-se ao fato de que a narrativa não trata apenas da transformação de um homem em um gigantesco inseto, mas também das metamorfoses da família de Gregor Samsa, o protagonista, a partir do momento em que o vê em sua forma monstruosa.

O elemento fantástico poderia até ser retirado do texto, que ele manteria suas linhas gerais. A situação de Gregor no quarto onde fica isolado com frequência se parece com a de alguém sofrendo de um mal súbito e ao mesmo tempo lentamente degenerativo, sob os cuidados (e a repulsa) de parentes que não sabem como lidar com a catastrófica mudança. No mais das vezes, aliás, o comportamento da família está longe de ser exemplarmente compadecido, e eles o rejeitam (o que ele se tornou) de maneira peremptória e escandalizada. Porém não chegam a expulsar o inseto de casa, de modo que ele sobrevive por um período, contando com a ajuda eventual da irmã ou de uma faxineira.

Essa situação se alastra por mais tempo que o leitor imagina a princípio. Talvez por mais tempo que ele estaria se preparado para aguentar. Nesse sentido, o relato integra uma tradição narrativa que vai de Rei Lear, a tragédia de William Shakespeare, a Breaking Bad, a série criada por Vince Gilligan, nas quais uma situação intolerável ou destrutiva prossegue por tempo demais deixando um rastro de caos e sofrimento. Em resumo, são experiências trágicas em que o pior está no começo, e o que vem a partir daí é o pior do pior, o pior mais pior ainda, o pior em sua versão piorada ao quadrado – de modo que a corda da insensatez e crueldade humanas estica e estica e estica, e parece que não vai nunca arrebentar.   

Uma das características mais marcantes do ritmo de A Metamorfose é, então, o quanto o livro exige do leitor em termos de estômago para tolerar o sofrimento de Gregor. Mas uma hora a corda arrebenta, e, em tais circunstâncias, isso não deixa de ser motivo de alívio. Acho que não conta como spoiler dizer que Gregor terminará morto e descartado. Por mais melancólico que seja, esse desenlace é esperado e previsível, dentro do universo de relações construído no texto. O que de certa forma nos surpreende é a maneira como a narrativa em seguida se desloca para o lado de fora do apartamento, quando o pai, a mãe e a irmã de Gregor saem para dar um passeio.

Só então nos damos conta da extensão do período em que permaneceram confinados lá, e nós leitores com eles. O narrador afirma que eles teriam ficado meses sem sair de casa, e descreve como aproveitam a luz do sol durante um passeio de bonde. Em seguida, os três falam entre si dos novos empregos que conseguiram; comentam como a situação da família não parece de maneira alguma má, vista daquele ângulo; e os pais sentem como que uma confirmação de seus bons prospectos, quando Grete Samsa, a irmã de Gregor, se põe de pé diante deles ao saltarem do bonde, espreguiçando-se e estendendo o corpo jovem.

Gosto dessa cena, da sugestão de uma metamorfose orgânica concluída, após uma etapa de intensa e dolorosa reclusão – o movimento de Grete como o de uma borboleta saindo do casulo à luz do sol. Gosto particularmente da transformação que Grete sofre no decorrer da trama. Gosto do final do conto, portanto – embora o próprio Kafka não gostasse. Ele afirmou em uma carta que o teria escrito quase a contragosto. Foi o que deu para fazer, é como se dissesse, pelo que me lembro; foi o que saiu na hora.

O fenômeno não é incomum em sua obra. Mas não quero me dispersar aqui, por mais que ache o tópico interessante. Vamos voltar ao encerramento de A Metamorfose, portanto: à família que sai para a rua depois de meses de confinamento, vivendo o luto pela perda de um parente, e ao mesmo tempo tendo, enfim, um descanso de um longo e inimaginável esforço, exigido por circunstâncias imprevistas, que de súbito se tornaram absolutamente determinantes em suas vidas. Qualquer semelhança com nossa realidade de agora só reforça aquela observação anterior: não se trata, necessariamente, de um conto fantástico.

E, nem por isso, deixam de ser incríveis as variações da reação de quem lê. É sobre isso que eu queria falar. Essas reações podem variar inclusive para uma mesma pessoa. Na primeira vez que li, por exemplo, lembro de como a atitude da família me pareceu abominável. Na segunda vez, percebi que eu mesmo talvez não agisse de modo muito distinto nas mesmas circunstâncias. Na terceira, achei bonito o final, em que os três integrantes da família recuperam sua autoestima ao contornar a crise financeira que os ameaçou (há indícios de que antes dela os três viviam meramente à sombra do primogênito). Depois, acho que consegui conciliar um pouco essas perspectivas.

E olha que estamos falando apenas das minhas impressões. Agora imaginem acrescentar a esse caleidoscópio as leituras de vários alunos por semestre. É verdade que nem todos comentam o texto, nem todos leem, mas ainda assim são muitas perspectivas, que decorrem de diferentes campos de experiência, situações sociais, hábitos mentais, bagagens familiares, lembranças, temores, expectativas. Às vezes, o que a pessoa comeu no café da manhã interfere no jeito como ela lê o texto. Às vezes – vamos supor uma relação mais direta – a pessoa tem pânico de baratas.

E, no entanto, faz parte do nosso trabalho (sobretudo do meu, no caso) tentar entender como essas variações se articulam com sistemas mais amplos de valores. Não cabe a mim, do modo como entendo minhas tarefas docentes, oferecer uma interpretação correta do texto, mas tampouco devo me deixar levar por um relativismo preguiçoso, que ignore as potencialidades de um trabalho crítico mais atento. Ou seja: interpretações, percepções e julgamentos referentes à leitura têm implicações e consequências, carregam uma adesão natural a determinados valores, e isso deve ficar claro para eles, para os alunos. Do mesmo modo, algumas escolhas implicam a rejeição de outros valores, ou pelo menos uma escala de prioridades.  

Trata-se, assim, de uma questão pessoal e política. A maneira como respondemos a uma narrativa, por um lado, tende a estar de acordo com nossos sentimentos morais, e por outro apresenta certa coerência com nossas posições e ações práticas. O conhece-te a ti mesmo do oráculo de Delfos se aplica, então, ao trabalho do professor na leitura e interpretação de textos em sala de aula. Meus esforços nesse caso estão voltados para que meus alunos se conheçam um pouco melhor, compreendendo o que valorizam e o que repudiam a partir dessas leituras, conferindo algum grau de abstração às reações mais imediatas e concretas que elas proporcionam.

Nesse trabalho, é sempre possível identificar afirmações parecidas e recorrentes sobre um texto e seus personagens, ainda que opostas ou conflitantes, integrando sistema de valores em disputa. O interessante, e um pouco triste, no caso de A Metamorfose, é como as duas principais tendências verificadas – a que compreende a atitude da família de Gregor ao falar de alegrias e bons prospectos no final, após enfim sair de um confinamento de muitos meses, e a que condena a pressa com que ela se recupera da perda, sem nenhuma menção a Gregor durante o passeio – podem vir a ser bastante reais e conflitantes para muitos de nós, num futuro até bem próximo.

Aliás, muitos dos debates que já fizemos sobre o texto de Kafka partiram de um conflito entre alunos que entendiam as preocupações mais pragmáticas, de caráter material ou financeiro, da família de Gregor, e outros que demonstravam maior sensibilidade à fragilidade existencial e ao sofrimento psíquico prolongado de que trata o conto. Mas o relato serve também para que a gente perceba como essas não são tendências que se excluem mutuamente. Em situações extremas como as de A Metamorfose, e em circunstâncias extremas como as atuais, mais do que nunca é necessário o exercício de uma sensibilidade que ultrapasse o âmbito das primeiras reações instintivas.

Costumo ver meus alunos fazendo isso também: presumindo que, por mais que se identifiquem com maior naturalidade a um dos personagens ou perrengues do texto, é sempre preciso ter certa dose de atenção para o lugar de onde o outro está partindo. Ou seja, vejo-os assumir posições distintas, mas com cuidado para alcançar uma espécie de solidariedade mútua, diante de um caso tão singular. Em situações como a do conto de Kafka, portanto, e em situações como a de agora, isso não é mais do que reconhecer o elemento humano que está em jogo, e tal como está em jogo, em suas diversas facetas, envolvendo-se nessas contradições e nuances.

Por isso, de tudo o que já ouvi sobre A Metamorfose de Kafka, e já ouvi muita coisa (inclusive muitos “não deu pra ler, professor”, ou então, “ih, achei meio chato, só consegui chegar na terceira página”), a única coisa que teria realmente me tirado do sério, a única coisa que acharia inadmissível, a única que eu não teria tentado compreender como expressão de uma posição moral ou política legítima e coerente, seria um “e daí”. Tipo: “Pô, professor o cara virou uma barata e morreu, que que você quer que eu faça? E daí?”. Ou: “Foda-se que o sujeito morreu, que é que eu tenho a ver com isso?”, o que seria praticamente a mesma coisa.

Eu ficaria perplexo se um aluno dissesse algo assim sobre um personagem de ficção. Agora imaginem isso vindo alguém ocupando um cargo público importante, e respondendo a uma pergunta sobre 5.000 mortos entre a população que governa. Não vou me estender nesse comentário, porque ninguém merece (aliás na semana que vem voltaremos a nossa programação regular, de reflexões e brincadeiras astrológicas). Só queria deixar o registro que esse “e daí” que escutamos nessa última semana não diz respeito a nenhuma prioridade política ou econômica, não se articula com nenhum conjunto de valores, não compõe nenhum sistema de pensamento, por mais básico que pudesse ser. É apenas uma afirmação a mais da crueldade narcísica que não conhece nada além do próprio vazio.

Não escrevo para mudar a opinião de quem é capaz de consentir com essa atitude; esses, infelizmente, estão irremediavelmente perdidos. Esse “e daí” – e as aprovações que recebeu, em sua suposta “autenticidade” – é mais um tapa na cara de quem insiste em discutir com os partidários do foda-se institucionalizado. “Nós não vamos mudar, nem diante de 5.000 mil mortes, e nem diante de uma morte próxima, nem diante de ameaças à nossas próprias mortes”, é o que acredito que estão implicitamente dizendo. “Vocês ainda não entenderam: a vida para nós deixou de ter qualquer significado”.

Em tempo: quando alguém fala “e daí”, quando alguém declara que não tem nada a ver com algum assunto, não estamos mais no âmbito da política. Viver politicamente é ter a ver com os assuntos. Por isso, é mais inacreditável ainda que a declaração tenha partido de onde partiu. Não falo da pessoa, mas do cargo. Mas queria terminar lembrando dos meus alunos, cujos comentários sobre o texto do Kafka costumam ir no sentido oposto, não por estarem no outro polo do espectro político, mas por estarem inseridos nele, envolvidos com a questão humana que ele presume, e que requer tomadas de posição difíceis, jamais solucionáveis na base de um simples dane-se. Acho que foi também a falta que sinto deles, e desses debates, que me estimulou a tratar do texto de Kafka aqui.

Aquilo que vivemos presencialmente, nos cursos de humanas e artes das universidades, é, com bastante frequência, justamente o extremo oposto desse “e daí” inacreditavelmente presidencial. Talvez seja por isso que queiram sufocar – e em última instância extinguir – aquilo que somos e fazemos. Não se trata de combater uma postura política específica a partir de outra; para fazer isso todos serão muito bem-vindos em minhas aulas, só para dar um mínimo exemplo, onde talvez eu possa ajudar também a compreender melhor os valores implicados em cada posicionamento. Trata-se de eliminar a própria política do debate, uma vez que ela presume o respeito a posições contrárias às nossas, e um mínimo de sensibilidade ao sofrimento do outro.

Enfim, são muitas as metamorfoses possíveis e provavelmente em curso no período que estamos vivendo agora. Não sei exatamente quais, mas imagino que requeiram energia e dedicação do nossos corpos, mentes e almas. Infelizmente, cá estamos nós perdendo tempo com quem é imune a qualquer tipo de transformação ou mudança. Mas isso há de passar. E a literatura continuará aí, sendo não apenas um ponto de encontro para visões de mundo semelhantes, como também uma forma de elaborar visões de mundo distintas. Ela serve pra muita coisa; só não serve para a negação do mundo humano, com seus desejos, conflitos e conciliações. Para isso realmente bastam duas palavrinhas. Para isso ninguém precisa ler ou escrever livros. Para isso, de fato, basta dizer “e eu com isso?”. Para isso basta o “e daí”.

capricórnio, gêmeos, peixes

O potencial, o real e o ideal

Lamentação de Cristo (c. 1305) | Giotto

Outro dia escrevi aqui sobre Gêmeos e Capricórnio, mas deixei passar um dos temas mais importantes dessa relação: a maneira como ambos personificam as figuras do puer e do senex, ou da Criança Divina e do Velho Sábio (prefiro os termos em latim porque não carregam uma conotação positiva ou negativa). Acho que o assunto tem a capacidade de mostrar como todos nós todos temos “Gêmeos” e “Capricórnio” operando em nossa dinâmica psíquica – em alguns casos mais acentuadamente, em outros menos –, o mesmo valendo para todos os outros arquétipos do zodíaco, de modo que a interação e as negociações entre eles é que configuram de fato um mapa astral.

Por outro lado, o puer e o senex são figuras arquetípicas da psicologia analítica junguiana cuja associação com apenas um signo ou par de signos seria equivocada: há traços da criança que encontramos em Leão, por exemplo, assim como há traços do velho que podemos encontrar em Aquário. Por aí vai. E, assim como ambos podem funcionar como polaridades nos conflitos de uma mesma pessoa, eles podem funcionar como polaridades nos conflitos internos de um só signo, pela maneira como um muitas vezes presume e implica o outro. Mais à frente veremos como isso funciona em Peixes, signo no qual a criança e o velho coexistem em uma unidade problemática e rica em imagens significativas.

Voltando a Gêmeos, porém. Aqui o puer aparece em sua versão 1.0: é Hermes, ou Mercúrio, filho de Zeus, irmão mais novo de Apolo, em quem ele pregou uma peça pouco depois de nascer. Isso nos faz lembrar que existe algo de malandro e travesso na “criança divina”, mas também que existe algo de divino na malandragem geminiana. E isso é algo que a gente pode facilmente deixar passar nas descrições mais caricatas ou maliciosas de Gêmeos, um signo que, por sua própria natureza, convida a esse tipo de descrição. Fica o registro, portanto: haverá sempre algo em Gêmeos que partilha do código genético dos deuses – e haverá sempre algo nos deuses que parece proteger a alma geminiana.

Em um plano arquetípico, aliás, entendo que Gêmeos pode fazer o que quiser a vida. Veio ao mundo para brincar nos campos do Senhor, em parte por contar com a condescendência dos velhos, em parte por saber entretê-los e encantá-los (o que o aproxima do pícaro, do bufão, do bobo, do comediante). Isso é até certo ponto válido para quem tem o ascendente em Gêmeos, e algo semelhante pode ser dito do ascendente em Leão (mais informações sobre essa interpretação do papel do ascendente no horóscopo, aqui). Agora, se você é geminiano, ou tem a Lua em Gêmeos, pode ir tirando seu cavalinho da chuva, porque isso já complica um pouco mais as coisas.

A puerilidade geminiana pode até ser divina, mas nem mesmo o deus Hermes esteve à salvo de tomar uns tombos na vida. Muitas vezes, para grande surpresa dele próprio. O puer tem o impulso de transitar por aí como se fosse destinado a ser bem recebido em todos os lugares – afinal, ele é tão inocente, tão despreocupado, tão engenhoso, tão engraçadinho – até se ver diante de uma porta que bate na sua cara como se dissesse: te saquei, malandro, aqui não. Deste modo, seja sob a forma de pessoas, acontecimentos ou obstáculos, o senex vai aparecer ao puer como uma força restritiva ou limitadora, da qual ele depende para conferir as virtudes da consistência e da profundidade aos resultados de seus diversos talentos.

Então, quando digo que o puer-senex é um par que existe como tal em nossa dinâmica psíquica, é porque um depende do outro para se desenvolver. Mas nada impede que um indivíduo se identifique com o puer e projete o senex em um mundo que lhe parece limitador e restritivo, ou em figuras de autoridade que considera moralistas e enrijecidas, na tentativa de preservar um estado de eterna inocência infantil, e de preservar-se das frustrações da vida. A gente vê o tempo inteiro pessoas alegando que, se não fossem as estruturas externas limitadoras, elas teriam realizado as obras geniais que existem em latência no seu espírito. O que muitas vezes está implicado aí é que essas pessoas optaram por não internalizar a estrutura restritiva – o senex, agente do esforço, da paciência e da forma, fundamental na realização de qualquer trabalho de fôlego – de modo a não ver seus ideais reduzidos ao que a realidade seria capaz de fazer deles.

Quem já se arriscou em um trabalho criativo sabe: todo tipo de realização artística implica uma dose de resignação. O senex em nós existe para que este processo seja levado até o fim. O puer existe em nós existe para que ele comece. Por outro lado, há quem se identifique unilateralmente com a figura do senex, e alega que, se não fossem os irresponsáveis, os inconsequentes, os preguiçosos – em uma palavra, os “artistas” –, nossa sociedade estaria em um estado menos deplorável. Em toda pessoa que afirma isso, existe um puer reprimido, que quer ganhar asas e voar, ou simplesmente permitir-se algumas tardes de ócio criativo. Mas, infelizmente, o ódio destrutivo se torna o substrato alquímico de quem nega a si mesmo esses prazeres.

Ou seja, um se compromete com uma linha de ação, e não vai alterá-la nem sob a mais forte inspiração divina. Outro não se compromete com nada nem ninguém, pois nada nem ninguém parece merecer o compromisso que ele guarda para quando a hora certa chegar. No campo dos relacionamentos, então, o puer estará sempre postergando a consagração de laços estáveis, quando não está simplesmente saltando de um relacionamento para o outro, e não só por imaturidade. Às vezes, ele carrega o sentimento de estar destinado a algo especial, e o rompimento precoce das relações é uma forma de evitar que se desdobrem da maneira ordinária e tão ameaçadora para o ideal.

Quanto ao padrão de comportamento do senex nessa área, vou precisar de fazer ainda um texto à parte com um estudo de caso, o do escritor russo e aquariano Anton Tchekhov, que só descobriu o puer que existia nele após seu retorno de Saturno, aos trinta anos. A história é intrincada e merece ser bem descrita. Farei isso em breve. Dá para antecipar que, enquanto a volatilidade é o traço mais marcante do puer enquanto amante, o senex ocupa com sua rigidez um polo oposto, fixo e encastelado. “Encastelada”, porém, é, curiosamente, a situação arquetípica em que encontramos a puella, a versão feminina do puer.

Ela é a princesa que, nos contos de fadas, encontra-se à espera de um milagre. Mas o comportamento ativo e volátil do puer mercurial e a atitude aparentemente passiva e fixa da puella sonhadora são iguais em sua rejeição do compromisso e do engajamento em uma história verdadeira. A propósito: que a puella se queixe da falta de seriedade ou bravura de seus pretendentes pode muito bem ser o motivo pelo qual ela escolhe pretendentes pouco sérios, ou pouco corajosos, para ter de quem se queixar. Até certo ponto, o puer e a puella vivem muito bem e despreocupadamente no plano das potencialidades abertas e imaginadas. Na medida em que o tempo passa, porém, eles podem precisar mais e mais de ter a quem culpar pelo fato de nada ter sido realizado.

Aliás, uma boa maneira de identificarmos uma possível adesão unilateral nossa a um desses arquétipos é um excesso de reclamações gratuitas a respeito do outro. Quando a gente começa a distribuir sem critério lamentos e acusações sobre a natureza pueril ou inconsequente de pessoas com quem nos relacionamos, no presente ou no passado (pessoas que talvez até possuam essas características, mas não a ponto de merecer tanto de nossas atenções e memória), é provável que exista algo em nós precisando de descanso, liberdade e ânimo criativo. Por outro lado, quando a gente começa a denunciar o moralismo ou o materialismo do resto mundo ao redor, sem que ninguém tenha pedido nossa opinião, é possível que nossa opinião esteja enviesada pelo desejo inconsciente de receber um pouco de admiração e de respeito bem mundanos (ou seja, a admiração e o respeito que as realizações mundanas outorgam ao senex).

Podemos ter uma afinidade maior com um desses arquétipos sem converter isso em uma neurose mais grave, é claro. Assim como podemos alternar entre um e outro no tempo e no espaço. Um equilíbrio absoluto entre esse tipo de polaridades é por definição impossível – tudo o que podemos tentar obter é uma espécie de equilíbrio dinâmico. Nem por isso análises pouco equilibradas do fenômeno são menos enriquecedoras, e as mais famosas se notabilizaram exatamente por tomarem partido de um ou de outro.

Recomendo, em primeiro lugar, um estudo que é notavelmente anti-puer, não necessariamente tomando o partido do senex, mas vendo-o da perspectiva do arquétipo materno feminino (que seria em parte responsável pelo menino mimado que ele se tornou, mas também capaz de lhe impor limites de uma origem mais atávica e profunda). Falo do livro de Marie-Louise Von Fraz, Puer Aeternus: a luta do adulto contra o paraíso da infância, que começa por uma análise da dimensão pueril de O Pequeno Príncipe e da personalidade de seu autor, Antoine de Saint-Exupéry. A autora, cabe lembrar, foi colaboradora de Carl Jung, e se tornou conhecida por suas análises da psicologia dos contos de fadas.

Outro livro importante, este mais abertamente favorável aos talentos e inspirações do puer (justamente no confronto com as limitações e rabugices do senex) é The Puer Papers, de James Hillman. E, para quem quiser ter uma visão mais ironicamente balanceada, indico o último ensaio de Liz Greene do primeiro volume dos Seminars on Psychological Astrology, que que já mencionei nas indicações bibliográficas dessa postagem aqui. Este tem a vantagem de ver o assunto na perspectiva da astrologia e do zodíaco. Mas a primeira parte do ensaio não presume nenhum conhecimento prévio nessa área, e pode ser útil mesmo para quem quiser ver as coisas de um ponto de vista estritamente psicológico.

Agora, para terminar, temos o puer e o senex em Peixes, como mencionei lá no começo. E aqui as coisas ficam bem interessantes. Porque, por mais que a gente queira matizar os raciocínios e os estereótipos, dá para ver como Gêmeos e Capricórnio costumam representar bem os comportamentos polarizados do puer e do senex, respectivamente. Quando falamos de Peixes, no entanto, a infantilidade e a senioridade coexistem no arquétipo de modo mais intrincado e sutil; em Peixes habitam uma criança e um ancião que são uma mesma pessoa, e isso gera alguma confusão, como era de se esperar, mas pode também criar uma nova espécie de beleza, através justamente do resultado do confronto entre o potencial e o real. Dá para a gente ver isso no comportamento de alguns piscianos. Mas, antes, para termos um caminho para a aproximação a esse fenômeno, dá também para gente ver como isso aparece na história de Jesus Cristo.

Pois Cristo, além de ser um inaugurador apropriado da Era de Peixes que se encerra agora, integrou também a linhagem da criança divina. Aliás, Liz Greene observa como o puer arquetípico muitas vezes aparece com as mãos ou os membros machucados ou mutilados, o que parece ser uma consequência de seu contato com o mundo, com a matéria, com a realidade. Um primeiro exemplo é Ícaro, herói tipicamente juvenil, que recebeu suas asas de Dédalo, sob advertências para que não se deixasse levar pelo entusiasmo, sendo que nem isso impediu que ele as queimasse ao ir de encontro ao sol. Jesus, por sua vez, partilha desse destino de um modo ao mesmo tempo mais trágico e menos catastrófico: sua derrocada no plano terreno é um fracasso que não deixa nunca de prometer futuros sucessos.

Notem: a humanidade a princípio não recebe muito bem sua palavra, com seus ideais elevados e pouco práticos, meio piscianos mesmo, e pelo menos parte dela, a que se encontra em posições de autoridade estabelecidas e imperiais, se mostra bem convicta de que cravá-lo em uma cruz e expor sua corporeidade humana sangrando é a melhor coisa a fazer. Dostoievski explorou esse argumento em “O Grande Inquisidor”, um conto enxertado no romance Os Irmãos Karamazov, que pode ser lido separadamente; nele, Cristo retorna e é mais uma vez crucificado por ordem de um senex da igreja inquisitorial que está plenamente consciente de sua filiação.

Mas, por mais doloroso que seja seu fim, ele depende dessa morte para permanecer como uma espécie de ideia, fomentando o sonho de que um dia o reino que prometeu chegará, será realizado, está por vir. Existe então certa cumplicidade entre a dimensão espiritual, a que se eleva para além do raso das ambições terrenas, e a material, que a traz para o chão de modo que possa alçar outro tipo de voo. O mito não diz respeito apenas ao personagem, mas está inevitavelmente ligado à sua história, a tal ponto que suas escolhas e o que lhe é imposto desde fora se entrelaçam e se confundem. Em um certo sentido, Cristo se oferece em sacrifício no plano material para manter vivo o sonho do que prometeu.

Nesse sentido, para quem já chegou aos 40, como eu, é interessante perceber que Jesus Cristo nunca chegou a ser exatamente um adulto. Ele mal superou seu retorno de Saturno e já foi correndo caçar encrenca que interromperia sua vida pouco depois. Carregou sua cruz, é verdade, mas só por um caminho bem curtinho; esse caminho pode muito bem ser sum símbolo do que todos nós temos que suportar em nossas trajetórias individuais, mas não deixa de ter sido para ele relativamente breve, levando-o a uma morte precoce. Ou seja, o Jesus histórico nunca deixou de ser um puer. Mas o Jesus simbólico é também a cruz, a matéria, e realidade que o nega e o rechaça, e, portanto, é a promessa que ainda assim sobrevive à crucificação, é o reino impalpável e imune a qualquer teste do real que nasce junto com ela.

Por isso, o tipo de sonho e de idealismo que encontramos em Peixes pode ser tão resistente à realidade dos fatos. Porque não aponta para algo que se imagine realizável nesse mundo, não se trata de um potencial a ser testado aqui. Muito pelo contrário: esse mundo pode refutar a aspiração pisciana de todos os modos possíveis, pode até mesmo pregá-la numa cruz e fazê-la sofrer humilhações e derrotas, que ainda assim ela sobreviverá, será inclusive alimentada pela frustração e pela violência. É claro que isso pode ter consequências complicadas no plano individual, e com frequência tem. Mas nem por isso deixo de ver no plano arquetípico uma bem-vinda síntese, ainda que aberta para o futuro e para o porvir, na história dos confrontos e dos encontros entre puer e senex.

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Eu e meu irmão

Foto: Ramon Lisboa | EM | D.A. PRESS

Estava aqui pensando em estratégias para lidar com o isolamento, em como há práticas simples que podem ser valiosas nessas horas. Coisas que rendem assunto, tomam o tempo e abrem insólitas janelas em espaços confinados. Aí me lembrei de uma época em que eu e meu irmão costumávamos contar um para o outro pelo telefone de manhã os roteiros dos filmes que víamos de madrugada. Bom, a gente ainda não era irmão nessa época. Quer dizer, nós éramos, já havíamos decidido ser irmãos gêmeos inclusive, mas por outro lado éramos menos irmãos do que a gente ia ser. Complicou né? Essa história é meio tortuosa mesmo, e ao mesmo tempo é simples. Não vai dar para seguir adiante sem contá-la. Vamos deixar o confinamento e suas aflições de lado por enquanto. A partir daqui esse fica sendo um texto sobre meu irmão e eu.

O começo é fácil de entender. No papel, nós somos primos. Meu pai e a mãe dele são irmãos. Meu pai se casou com minha mãe mais ou menos na mesma época que a mãe e o pai dele se casaram, e logo em seguida ambos casais tiveram filhos, de modo que nós dois nascemos com alguns meses de diferença (ele é o mais velho). Creio que ambos os casais se separaram mais ou menos na mesma época também – ficaram juntos uns poucos anos – de modo que nós permanecemos filhos únicos durante um tempo. Os outros primos de nossas famílias tinham irmãos. Nós não. Esse foi um dos motivos pelos quais decidimos ser irmãos um do outro. E, para ganhar dos outros primos em termos de irmandade, já que gente saiu perdendo, decidimos ser mais do que isso, decidimos ser irmãos gêmeos.

Os outros motivos dessa definição – talvez os mais importantes – foram: um, a convivência, graças à proximidade física (fomos vizinhos durante um tempo, os casais do parágrafo anterior compraram apartamentos um de frente pro outro), e, dois: o imponderável, porque não dá para medir ou explicar a afinidade que sentimos desde o começo. Na minha lembrança aliás a gente nunca não-foi-irmão; preciso fazer um esforço para recordar os detalhes de antes de a gente ser. Mas, como eu disse, a gente ia ficar mais irmão ainda depois. É aqui que o enredo se complica.

Aconteceu que, cerca de uma década após as separações de nossos pais, a minha mãe e o pai dele se casaram. Não se confundam, nem se preocupem, não há nada de incestuosamente trágico nessa história; lembrem-se que os irmãos eram o meu pai e a mãe dele. A minha mãe e o pai dele então foram concunhados durante um tempo, perderam o contato (pelo menos é o que consta nos autos) durante muitos anos, reencontraram-se e se apaixonaram um pelo outro depois. Resultado: nós continuamos primos para todos os efeitos legais, mas passamos a morar juntos, com nossos pais que eram casados entre si. Já não éramos irmãos apenas por opção. Havia uma boa dose de destino também.

Esse casamento é uma história à parte, com amizades rompidas, novas suspeitas e antigas ilações. Foi um baque na tradicional família mineira (embora não comportar esse tipo de arranjo seja o menor dos problemas da tradicional família mineira, que em suas boas versões até os comporta; enquanto nas outras as perversões são tão mais sutis, que elas se tornam imunes a esse tipo de golpe). Porém, de nossa parte, minha e do meu irmão, não havia preocupação com o escândalo nem gosto em fomentá-lo. Nós estávamos ocupados demais curtindo adoidados a vida adolescente em uma Belo Horizonte que cujas ruas conquistávamos junto com um bando de amigos adolescentes também, e que tínhamos conhecido não na família, nem no colégio, nem no clube, mas na rua mesmo. E nós estávamos curtindo adoidados a vida de irmãos.

É verdade que nesse meio tempo eu e ele havíamos já ganhado irmãos de outros casamentos de nossos pais (a propósito, acho meio-irmão um termo horroroso). Até peguei para mim, de forma ainda mais ilícita e sorrateira, os irmãos que ele ganhou no segundo casamento do pai dele (essa é também toda uma outra história, que merece ser contada à parte, assim como a dos irmãos que ganhei dos outras casamentos do meu pai, mas aí a trama se enreda de maneira mais estranha e meticulosa, remetendo a segredos familiares muito bem guardados – acreditem, estou contando a parte descomplicada). Vamos então voltar àquilo que já consegui esclarecer: estamos eu, ele, minha mãe e o pai dele vivendo juntos como uma família feliz e serena e saudável. Ou melhor, talvez não tão serena, nem não tão saudável assim.

Acontece que nessa época a gente bebia muito, fumava muito, e topávamos experimentar quaisquer produtos orgânicos ou químicos que apareciam na nossa frente com a promessa de alterar nossos estados de consciência. Muitas vezes nós quatro juntos, em família. As compras de supermercado incluíam garrafas de conhaque e pacotes de cigarro que constavam no orçamento doméstico, em uma categoria prioritária, junto com o arroz e o feijão. O outro componente importante de nossa convivência era a música. Chico Buarque, Legião Urbana, The Doors, Velvet Underground, Tom Waits e Joni Mitchell viviam uma daquelas bandejas em que cabiam um seis CDs, e que ficava rodando lá em casa o dia inteiro.

Talvez, por razões óbvias, eu não me lembre de alguns detalhes dessa época. Sei que minhas notas na escola caíram muito e que terminei o ensino médio no sufoco. Meu irmão se enrolou ainda mais nesse aspecto. Mas tampouco isso era motivo de preocupação. A adolescência é uma etapa leonina e autocentrada da vida, que, dadas as condições certas, pode ser dedicada ao prazer como nenhuma outra que vem antes ou depois. Aliás, ela põe em cena os temas do eixo de opostos complementares Leão e Aquário – a sensação de ser especial e o desejo de integrar um grupo – de tal modo a criar conflitos intrincadíssimos. Mas pode também encontrar uma espécie de solução provisória para a conciliação desse eixo, e acredito que foi isso que nós vivemos.

Sim, foi isso: porque nós estávamos brincando. E a brincadeira, pela maneira como nos envolve em um entusiasmo inconsequente, é justamente o tipo de experiência capaz de articular essa negociação entre o atípico e o ordinário. Havia brincadeiras perigosas, é claro. Mas normalmente não deixavam de ser brincadeiras, sobretudo aquelas tardes conversando e compondo as canções da banda que nunca existiu, aquelas reuniões ao mesmo tempo sérias e hilárias de planejamento dos zines que nunca rodaram, aquela nossa capacidade de passar uma noite inteira dançando e pulando e gritando em um galpão mal ajambrado de Santa Tereza, para depois ver a manhã nascer com deslumbrado encanto, ou com indisfarçável exaustão, enquanto fazíamos a pé o caminho de volta pra casa, ou comíamos pasteis em uma lanchonete do centro da cidade.

Até mesmo o lugar que viria a ser um de nosso preferidos na cidade, uma boate chamada A Obra, era uma espécie de canteiro de obras de mentirinha, ainda que fosse um inferninho de verdade. Ainda é, por sinal, e a gente espera que ela sobreviva a esse perrengue do vírus. Outros lugares importantes eram o canteiro central da avenida Getúlio Vargas na Savassi, o edifício Maletta no centro, a Bródei em Santa Tereza: éramos capazes de percorrer esses lugares numa só noite como quem salta as casas de um jogo de tabuleiros, depois de tirar uma carta como “tome três flamejantes de uma vez na Casa da Vovó”, ou, “salte três casas para chegar logo ao Prado porque tem um amigo lá que está salvando”, ou, “você chegou no fim da linha, vá tomar a saideira no Mercadão”.

É aqui que eu queria chegar. Porque foi aqui que, mais do nunca, eu e o Érico nos tornamos irmãos: brincando juntos na cidade à noite. Rindo muito. Viajando um tanto. Cantando às vezes. É verdade que a gente já havia brincado muito antes na infância, mas acho que não com a mesma intensidade e a dedicação exigidas por uma adolescência movimentada e festeira. Pelo menos de minha parte, posso dizer que foi ali que ganhei para o resto da vida uma força e uma confiança que de modo algum possuía antes. Acho que vi isso acontecendo com outros amigos também. Tem gente que se ferra muito quando é criança, por conta das estruturas familiares ou da falta delas, mas que com sorte encontra depois nos amigos “da rua” uma fonte genuína de segurança e fraternidade, mesmo que depois essa configuração se disperse. Freud que não nos ouça, mas acho que mesmo quem sai dos primeiros anos de vida como o ego estraçalhado pode acabar tendo uma segunda chance. E, se me permitirem critérios um pouco mais relaxados, eu diria que ganhei não um, mas muitos irmãos nessa época.

Por outro lado, tive sorte incrível de que meu irmão mais próximo na rua era também meu irmão em casa, e que na adolescência minhas circunstâncias familiares eram também uma bem-vinda bagunça, parecida com a da rua, de tal modo que a vida em casa se confundia com a vida fora dela. Era tudo uma festa só. Naturalmente, quem tiver um pouco de familiaridade com roteiros de filmes de bandas de rock como The Commitments ou Quase Famosos (que mencionei outro dia nesse post aqui), ou ainda do tipo de Boogie Nights, já percebeu que, uma vez alcançado o ápice desses prazeres irresponsáveis, as coisas tendem a ir ladeira abaixo. Foi o que aconteceu.

O casamento da minha mãe e do pai do meu irmão durou poucos anos. Uns dois ou três. Parece que foi mais. Deu tempo de fazer muita besteira. Vou poupar vocês dos pormenores do final, e quem sabe como termina esse tipo de filme pode imaginar. Eu e meu irmão, porém, fugimos ao princípio entrópico por uns tempos, e conseguimos prolongar um pouco nosso clímax, embora com um pouco mais de bagagem sobre os revertérios da vida. Não nos separamos; fomos morar juntos num apartamento no centro, onde nos tornamos mais e mais irmãos, por força de uma convivência em que, aos porres homéricos e delírios idílicos, foi acrescentada a solidariedade nos períodos de grana curta, a atenção nos momentos de ansiedade extrema, o cuidado nos momentos de saúde instável. Aí já não dependíamos de ter pais casados para reforçar nosso vínculo. Não dependíamos nem de ter pais irmãos para nos sentirmos familiares. A essa altura acho que a gente nem lembrava mais que um dia havíamos sido primos.

Isso durou mais ou menos até eu vir para o Rio, quando me casei pela primeira vez. Mas ainda cheguei a voltar para lá, para o mesmo apartamento, depois da separação, uns sete anos depois, na sequência do meu retorno de Saturno; ele recebeu o tinha sobrado de mim para revivermos um pouco a adolescência perdida. Pouco depois foi ele que se casou. Hoje ele mora com a mulher e um filhinho lindo – meu afilhado – que não precisa ficar sabendo de nada desses maus exemplos do pai que estou registrando aqui (fica combinado assim: essa postagem se autodestruirá em cinco minutos).

Agora, rumando já para uma conclusão, por que é que eu resolvi contar essa história para vocês mesmo? Bom, em primeiro lugar teve o pretexto de explicar o motivo pelo qual meu irmão não era ainda totalmente meu irmão, ainda que já fosse meu irmão gêmeo, quando a gente costumava contar um para o outro os filmes que a gente via de madrugada. Isso começou quando tínhamos uns dez anos, eu morava na casa da minha mãe e ele na dele, e passamos a ficar acordados até mais tarde nas férias para assistir o Corujão. Era falando disso que eu ia começar o texto dessa semana.

O outro motivo pelo qual acabei pegando esse desvio está implicado aí. Eu gosto de contar histórias. Podem ser histórias da minha vida, roteiros de filmes que assisti, causos inventados ou acontecidos. Já tive problemas com isso quando me mudei para o Rio, e demorei a perceber que “contar histórias” não é uma prática incorporada à sociabilidade daqui como é lá em Minas Gerais. Lá em Minas, você pode muito bem estar em uma conversa animada em um bar que, se você de repente disser, “nó até lembrei de uma história aqui”, as pessoas vão parar e te escutar, o tempo que for. A história nem precisa ter um final grandioso. Você pode fazer as digressões que quiser. Basta manter os copos de cerveja cheios e ter uma tarde relativamente vazia.

Aqui no Rio, por outro lado, se você for reter a atenção das pessoas em uma mesa de bar por mais de dois minutos, elas vão entender que tudo aquilo só pode ser uma preparação para o desvelamento do significado último do universo. Ninguém fala tanto tempo de uma vez só se não tiver algo de inédito e assombroso para revelar. Em suma, demorei um tempo para perceber que eu vivia decepcionando as pessoas, até mesmo quando contava histórias interessantíssimas do meu ponto de vista como essa minha e do meu irmão. Hoje sei que, quando eu falava“nó até lembrei de uma história aqui”, as pessoas ao redor se entreolhavam

com um misto de enfado e desespero que dizia: “Putz. Lá vem. No mínimo meia hora”.

Costumo dizer que me tornei professor em parte por isso: se eu me lembrar de uma história durante uma aula e resolver contá-la, meus alunos vão ter que ouvir, alguns vão até fingir que estão interessados. Em termos de público, não preciso de mais do que isso. Talvez, pensando agora, eu tenha criado esse blog no mesmo espírito, com vantagem adicional que aqui eu nem preciso ensinar os conteúdos do semestre, e se quiser posso enxertar as narrativas que quiser em um texto sobre Gêmeos ou Netuno, assim como posso enxertar uma coisa ou outra sobre Escorpião ou Mercúrio num texto que não tenha nada a ver com isso.

Esse texto, aliás, ia ser sobre Câncer e Sagitário, ia ser sobre O Beijo da Mulher-Aranha do Manuel Puig, ia ser sobre o confinamento e a arte de contar histórias no confinamento (o romance do Puig se passa quase todo dentro de uma cela, mas um personagem está sempre contando enredos de filmes para o outro, de tal modo que o horizonte se abre de forma infinitamente vasta para quem está lendo). Acabou não sendo um texto sobre signo nenhum em particular, acabou sendo um texto sobre meu irmão. Para quem está se perguntando: ele é pisciano. Mas tampouco estou falando da relação especial que acredito existir entre Peixes e Capricórnio, e que nossos signos solares bem representam. Isso também vai ficar para outra hora.

Acho, enfim, que a verdadeira motivação do dessa semana é um tanto quanto óbvia, e ao mesmo tempo ficou encoberta por tudo que veio antes. Vou pedir a vocês mais cinco minutinhos para desenvolver esse ponto (aprendi esse tipo de polidez aqui no Rio; se fosse lá em Minas, eu dizia que o texto termina logo ali). O fato é que, como provavelmente é o caso com muita gente, a quarentena me pegou num momento em que estou perto de algumas das pessoas que mais amo, mas longe de outras. Já está bom demais que seja assim, de todo modo a situação proporciona sentimentos contraditórios. Por um lado, sou grato pelas circunstâncias da minha vida atual, pois já passei por períodos na vida em que ser surpreendido por uma pandemia significaria estar sozinho por longos meses sem ninguém para me ouvir ao vivo contar histórias. Nas atuais circunstâncias, portanto, sou feliz por estar casado com uma mineira que não só escuta minhas histórias, como conta as dela também.

Nossa relação é aliás em parte construída sobre isso: as histórias da infância dela no Canadá, as histórias da minha adolescência em Belo Horizonte. Entre tantas outras. Mesmo ficando só nesses recortes, é incrível como não param de brotar histórias. Mas agora, mais do nunca, isso tem acontecido, e acho que não só aqui em casa, pois o confinamento parece favorecer as dinâmicas da memória, abrindo janelas dentro de janelas em direção ao passado, uma vez que as voltadas para o futuro estão tão bloqueadas e sujas. Mas é interessante como as boas lembranças de épocas felizes têm o poder de renovar o ânimo para as que virão, e o fato de que algo foi um dia possível parece indicar que pode ser possível novamente. Não estamos precisando de muito mais do que isso para plantar umas sementinhas de otimismo, e é por aí que ia ser o argumento sobre Sagitário e Câncer.

No entanto, acabei escrevendo um texto sobre meu irmão, e aproveitei para contar uma história só pelo prazer de contá-la mesmo. Mas também porque a vida inteira tive a imensa sorte de ter uma resposta fácil para uma pergunta difícil e hoje tão imediata, que até outra dia não fazíamos a nós mesmos, por falta de motivos para que sequer a pensássemos, e que agora parece ser tão definidora na vida de cada um. Enfim, não me lembro de um instante sequer na vida em que eu não responderia rápido a questão sobre como quem gostaria de passar uma quarentena. Lógico que hoje outras pessoas estariam na lista, e que, havendo a possibilidade, eu ia querer é levar um mundão de gente para uma sitiozinho no interior de Minas, onde a gente pudesse passar o tempo contando causos um para os outros, à salvo da pestilência, em uma espécie de Decameron roceiro e capiau com cachaça, tropeiro, risos, fogueiras e serenatas.

Mas, mesmo nas épocas em que estive mais sozinho, mesmo nas épocas em que estive mais arredio ao contato humano, mesmo na época em que deliberadamente afastei as pessoas de mim ou elas se afastaram mesmo sem querer, eu não pensaria duas vezes em responder à pergunta hipotética que um hipotético interrogador me faria, sobre a remota possibilidade de um dia termos que nos manter isolados por causa de um vírus, e com quem escolheríamos passar esse tempo se nos fosse dada a oportunidade: “Meu irmão. Quer dizer, ele é meu primo. É uma longa história. Quer que eu conte? Não? Juro que é rapidinho. Ah, tudo bem. Correria né. Entendo. Mas anota aí. Se eu pudesse escolher, nesse negócio de quarentena eu ia querer estar com meu irmão.”

áries, libra

O Zen e a arte de descascar batatas

A costureira (1665) | Jan Veermer

Tem aquela história de um sujeito que chegou para trabalhar em uma fazenda e deram para ele a tarefa de remendar todas as cercas do terreno. Em questão de horas elas estavam remendadas. Aí perceberam como ele era eficaz, e deram para ele um monte de lenha para partir com um machado. Em minutos já não tinha lenha nenhuma para partir. As coisas foram seguindo nessa toada até que já não havia quase mais nada para fazer, além de descascar as batatas do almoço; deram para ele mais essa missão, com a certeza de que não ia durar mais que um piscar de olhos. A única diferença era que nesse caso ele ia precisar escolher as batatas boas e dispensar as que estavam ruins. De modo que anoiteceu e ele ainda estava lá, diante da primeira batata, sem ter decidido ainda se ela entraria no primeiro ou no segundo grupo.

A anedota é simples, a moral da história é clara: algumas pessoas, por mais competentes que sejam, simplesmente não conseguem tomar decisões. Não é da natureza delas, assim como não é da natureza do vento escolher qual caminho tomar. Agora, querem ver como as coisas de repente se complicam? Eu pergunto, invocando a dúvida que me parece realmente relevante diante dos fatos narrados: esse nosso personagem simplório e hesitante, o pau-pra-toda-obra-menos-aquelas-que-envolvem-escolhas, o exímio cortador de lenha e fracassado descascador de batatas, ele é de Áries ou de Libra? Porque de um ou outro desses signos ele é, isso fica evidente de imediato. Daí a decidir qual já é outra história.

E olha que nem libriano eu sou para ficar me entretendo demais com esses dilemas. O problema é que justamente esse estereótipo do libriano indeciso me parece insuficiente para chegar à resposta. Consigo facilmente ver o protagonista da anedota como um ariano também. Quem me garante que a velocidade dele para remendar cercas não se deve a um espírito impaciente, que não se deixa demorar em segundos pensamentos antes de partir para ação? E quem me garante que a imagem dele diante das batatas a descascar não é a de um ser exasperado com a tarefa impossível de ficar tomando decisões criteriosas e fundamentadas, quando tudo o que ele queria era sair descascando geral para ir embora logo dali?

Porém, todavia, entretanto, contudo: quem me garante que essa pessoa não era um libriano inconsciente de suas mais autênticas faculdades mentais até o momento em que se encontrou, justamente, diante da necessidade de tomar uma decisão? Quem assegura que ele não conseguiu de fato ver na questão das batatas uma série de nuances, variáveis, influxos, interferências, modulações, nodos, protuberâncias, capazes de ocupar a mente por uma tarde inteira, de maneira que, a partir de um simples to peel or not to peel, brotaram algumas possíveis respostas para as mais antigas encrencas filosóficas da humanidade? Em resumo, quem me garante que nosso protagonista na verdade não era uma Hannah Arendt dos tubérculos?

Pois é. A Hannah Arendt era libriana. E era botar duas batatas na frente dela para sair um tratado de batatologia capaz de mudar completamente nossa visão do assunto. Curiosamente, trata-se de uma autora que teve na ação um dos temas fundamentais de suas reflexões. Ou melhor, curiosamente não, coerentemente: pensar sobre a ação é, basicamente, o que Libra faz da vida. Independe se isso se dá no âmbito do não-sei-se-caso-ou-compro-uma-bicicleta ou da crítica da Crítica da Razão Prática.  

Isso tampouco quer dizer que Libra é incapaz de agir; Libra é capaz de agir sim, mas no caso libriano o problema não é a precipitação, e sim a demora mesmo. Pois entre o pensamento e o ato existe uma distância que nunca será simples de transpor. Enquanto em Áries acontece o contrário: o ato vem antes do pensamento, e a distância entre eles persiste, só que no sentido oposto. O que nos dá uma boa base para explorarmos um mesmo tópico em ambos os signos. Ele diz respeito à temporalidade de nossos gestos – ou, em bom português, o problema do timimg.

As coisas vão fazer mais sentido se a gente lembrar que Libra é um signo cardinal, dos que estão de fato voltados para a ação, a iniciativa e para a resolução de problemas (os demais são Áries, Câncer e Capricórnio). O fato de associarmos a resolução de conflitos ao arquétipo libriano faz parte desse jogo. Acontece que o conflito é um tema do eixo de opostos complementares Áries-Libra do mesmo modo como a ação é: aparece em ambos os lados da figura. Em Áries, o conflito com o mundo externo é parte natural da existência imediata, e a ação rápida decorre da defesa do eu diante do outro. Em Libra, por outro lado, o conflito é internalizado, o eu e o outro coexistem na mente individual, e a ação demora porque antes eles precisam se entender.

Com frequência, então, Áries age como se estivesse sozinho no mundo, porque em sua experiência arquetípica ele está – é o caçador solitário na floresta, atento a cada movimento ao redor, capaz de aniquilar uma ameaça em um gesto, porém despreparado para lidar com o componente imprevisível do comportamento humano. Áries não lida bem com a ambiguidade, e prefere ter uma relação direta com as coisas – mesmo que seja uma relação de luta – o que implica também uma dificuldade em conviver com o conflito.  Para Áries, conviver com um conflito é como ouvir constantemente e noite após noite o barulho de um animal rondando o acampamento no escuro da floresta, e não poder fazer nada a respeito. Uma tortura.

Libra, por outro lado, vai noite após noite juntando informações, pensando a respeito do que fazer para lidar com a ameaça, pensando em se será bicho ou será gente, até o momento em que a ameaça – qualquer que seja – avança sem que nada de efetivo tenha sido feito para enfrentá-la. Nessa situação, o libriano estaria em desvantagem. Agora vamos supor que ao invés de estarmos em uma floresta estamos em um tribunal de júri. Recolher informações a partir dos semblantes dos jurados, aguardar o momento certo para apresentar uma evidência, esperar a hora de fazer um discurso decisivo – tudo isso são virtudes que Libra pode exercer muito bem nesse domínio.

Mas ainda assim Libra só vai tomar uma decisão realmente certeira se tiver Áries em seu mapa ajudando de alguma forma. E vice-versa: se Áries simplesmente partir para cima do bicho por puro desespero, vai acabar sendo comido também. O interessante é que tanto em um caso como no outro o ideal não é exatamente que a reflexão venha antes da ação; o ideal é que as duas coisas aconteçam juntas. É verdade que a vida ia ser muito menos divertida se Áries e Libra não tivessem seus descompassos, que sem o erro não existiria a comédia, e que sem a comédia não existiria Charles Chaplin. Mas, quando o eixo Áries-Libra funciona bem, o gesto é perfeito, e não apenas acontece no timing correto como subverte nossas concepções usuais de tempo e espaço.

Quem entendeu isso bem foram os orientais. A gente é que com frequência não entende os orientais direito. O Tao Te Ching, de Lao-Tsé, é muitas vezes confundido como um elogio da inércia e de um deixar-se levar pela vida de traços piscianos e zeca-pagodísticos; nada mais distante da realidade (nada contra Peixes, e muito menos contra Zeca Pagodinho, muito pelo contrário; estou dizendo apenas que o pensamento pagodiniano não é aplicável aqui). O livro, em diversos momentos, se pretende inclusive como uma espécie de instrução para o governante nos moldes do que viria a ser o Príncipe de Maquiavel, e, portanto, oferece dicas e aforismos voltados para a tomada de decisões bem concretas e mundanas. Mas, sim, Lao-Tsé acredita que uma determinada atitude do espírito é mais favorável para que as decisões certas aconteçam.

Nós perderíamos muito do seu ensinamento se caracterizarmos essa atitude como particularmente ativa ou particularmente reflexiva. O desafio é justamente não decidir agir, mas criar condições para que a ação se dê por força própria em nosso corpo, no tempo exato, e ao mesmo tempo não a deter por conta da desconfiança que sentimos diante de sua espontaneidade. Quem deu um exemplo de como isso pode acontecer foi o acadêmico alemão Eugen Herrigel em O Zen e a Arte do Arco-e-Flecha, livro em que relata sua experiência como professor visitante na Universidade de Tóquio.

Lá, ele foi convidado a cursar disciplinas como Cerimônia do Chá, Arranjo de Flores, Esgrima e Arquearia, optando pela última e descrevendo depois no relato a longa experiência aí iniciada. Desculpem o spoiler, mas preciso dizer que ele vai acabar  acertando uma flecha atrás da outra bem no meio do alvo. No final da história, ele entende que sua longa série de fracassos decorreu do fato de que ele sempre decidia soltar a corda do arco e só depois a soltava; ou então ele, ao tentar evitar esse mecanismo, decidia soltar antes de decidir, aí soltava mais rápido, antes da hora, precipitadamente, por pura ansiedade.

O livro é um clássico que vale a leitura integral, mas gostaria sobretudo de lembrar uma passagem de sua conclusão. Nela, Herrigel menciona o método empregado por um mestre esgrimista com alunos que chegam a residir com ele para alcançar melhores resultados. No início da convivência doméstica, ao aluno são atribuídas tarefas rotineiras como cortar a lenha e lavar a louça. Nenhuma palavra ou lição a respeito da esgrima. Porém, para maior espanto do discípulo, ele passa a levar fortes golpes do mestre com um bastão enquanto está realizando estas atividades, sempre de maneira imprevista e intermitente. De modo que desenvolve uma tensionada prontidão para defender-se dos golpes, mas ainda assim nunca consegue antecipá-los. E pior: sempre que ele se coloca em guarda para receber uma estocada de um lado do corpo, ela acaba vindo no outro, e, sempre que se prepara para conter um golpe em determinado momento, ele acaba chegando só instantes depois.

O aluno vai então percebendo instintivamente que é inútil manter aquele estado de alerta. Não porque esteja a salvo do perigo, mas porque não há como prever qual será a ameaça e quando ela se lançará contra ele. Além disso, as energias para manter o corpo e a mente predispostos à defesa contra um possível ataque são sempre gastas inutilmente, e podem ser valiosas para a defesa contra um ataque real. Se ele aguarda o golpe vindo do lado esquerdo, por exemplo, e o recebe do lado direito, o tempo necessário para redirecionar sua força de proteção é motivo de uma demora significativa. Incapaz de solucionar o problema, incapaz de defender-se dos golpes, o aluno aceita sua sujeição à imprevisibilidade do mestre.

Até que um dia, enquanto está lavando a louça ou cortando a lenha, sem se ocupar mais que o mínimo com sua proteção, ele de repente se vê interrompendo um golpe desferido como todos os outros – em um momento inesperado, de um flanco desguarnecido. Não é nada que ele estivesse aguardando. Ele não decide se defender. Ele tampouco decide não decidir. Ele simplesmente se defende. Suas energias e talentos estão totalmente disponíveis para reter o golpe do bastão espontaneamente, no instante em que ele é percebido. A partir daí, o mestre o considera apto a iniciar a prática da esgrima.

Moral da história: há em nossa ansiedade um forte elemento de preparação para golpes que nunca chegam. Há, por outro lado, golpes que efetivamente chegam quando tudo parece indicar que estamos a salvo de seus riscos. Mas podemos nos defender deles assim como o vento decide qual caminho tomar: sem pensar duas vezes. O que não implica tomar atitudes impensadas, mas encontrar um modo de ação no qual o pensamento não aconteça nem antes nem depois do gesto, mas simultaneamente, de tal maneira que um não se diferencie do outro. Pode parecer difícil. Mas veja bem: não é nada muito diferente do que faz um bom jogador de futebol quando decide fazer um lançamento e faz. A questão aí é como a gente pode aprender com eles a fazer lançamentos na vida.

Ah, que saudade dos lançamentos do Ronaldinho Gaúcho, por falar nisso. Pena que na vida hoje em dia ele parece não pensar nem meia vez antes de fazer o que faz. Olhei aqui agora, o Ronaldinho é de Áries. Isso explica muita coisa: o poder de explosão, a intuição corporal, a decisão rápida. Aquele gol contra o São Paulo em 2013. Enfim, um jogador completo. Inteligente. Deve ter algo acentuando Libra no mapa também. E ao mesmo tempo, deve ter algo capaz de avacalhar a relação Áries-Libra em proporções ronaldescas. Enfim, há dessas pessoas no mundo, capazes de feitos olímpicos inimagináveis – mas vai saber o que acontece quando a gente pede que descasquem umas batatas.