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O retorno de Tchekhov

“Se quiser a minha vida, venha e leve-a”. Esta é a frase que Nina faz chegar a Trigórin no terceiro ato de A Gaivota. Trata-se de uma peça do escritor russo Anton Tchekhov, que teve uma importante reestreia em 17 de dezembro de 1898, após uma primeira temporada de pouco êxito em São Petersburgo; de modo que o autor, então morador de uma área rural, ficou feliz em fazer uma viagem curta para ter a oportunidade de assisti-la em sua versão moscovita e mais bem-sucedida. A passagem de Anton pela cidade, no entanto, foi marcada por um outro evento menos comentado dos registros da história literária. No mesmo dia em que assistiu a peça, ele se encontrou, em uma estação de trem, pela última vez, com Lydia Avilova. Anos antes, ela lhe enviara uma mensagem de conteúdo idêntico e por meio parecido ao utilizado por Nina no espetáculo. Agora, eles despediam-se um do outro em uma plataforma enevoada e gélida, enquanto ele via se afastar para sempre aquela que havia sido o grande amor da sua vida.

A cena traz toda a melancolia que podemos esperar do encerramento de uma relação intensa e intermitente, feita de momentos apaixonados e longos intervalos de distanciamento. Segundo o biógrafo David Magarshack, Tchekhov chegou ainda a cogitar que aquela história tivesse um final semelhante ao de “Sobre o amor” (um dos tantos contos que escreveu inspirado, ao menos em parte, por sua relação com Avilova), no qual há um beijo no desfecho. Mas Lydia permanecia casada, e além disso estava acompanhada de dois de seus três filhos na estação de trem. Ela sabia bem que o tempo deles tinha passado, que suas chances de ficarem juntos – se é que existiram – tinham sido desperdiçadas, quando ela se arriscou-se ao enviar para ele aquela mensagem, por exemplo, e ficou aguardando uma resposta que não veio. Ou seja: um beijo, àquela altura, seria um motivo de embaraço e desgosto, talvez até mesmo um gesto de desespero.

Ainda assim, é um pouco triste imaginá-los renunciando definitivamente às possibilidades que uma sentiram existir para ambos. Tchekhov e Avilova haviam se conhecido dez anos antes, na casa de um irmão do marido dela. Ela faria o seguinte relato sobre essa ocasião, no livro Tchekhov em Minha Vida (ela viria a ser também uma escritora conhecida no âmbito russo): “Como é difícil às vezes explicar ou mesmo perceber o significado de um acontecimento… Na verdade, nada aconteceu. Nós simplesmente olhamos um nos olhos do outro. E, ao mesmo tempo, quantas coisas havia naquele olhar que trocamos! Eu senti como se algo estivesse explodindo dentro de mim, como se um foguete tivesse sido lançado naquele momento, triunfante e cheio de energia. Tenho certeza de que Tchekhov sentia o mesmo, e nós olhamos um para o outro, surpresos e felizes”.

Sim, de fato: como é difícil explicar ou mesmo perceber o significado de um acontecimento. E quantas coisas pode haver em um só olhar. No caso dos dois, quando a gente acompanha os movimentos seguintes, a impressão é de que naquele instante – naquele foguete – em que “nada aconteceu”, já estavam implícitos os dez anos seguintes, em que eles não teriam um segundo de sossego na vida, porque se amavam, porque queriam estar juntos, porque precisavam ficar juntos, e quando, no entanto, não podiam ficar juntos, porque não havia como, não havia onde, não havia com que desculpa, não havia com que dinheiro; só havia o porquê.

É mesmo impossível não pensar nos finais alternativos que essa história poderia ter tido. A obra de Tchekhov, como comentei, está cheia deles. O próprio “A Dama do Cachorrinho”, um dos mais belos e conhecidos contos de todos os tempos, oferece algo nesse sentido, quando os protagonistas, ambos casados com outras pessoas, e ambos apaixonados um pelo outro, após muitos desencontros e hesitações, se veem afinal recusando qualquer outro caminho que não fosse sua parceria, mas ao mesmo tempo não conseguem se desvencilhar das amarras matrimoniais e sociais que lhe estão impostas (pelos costumes, pela moral, pela igreja, pelas circunstâncias financeiras).

“Tornava-se evidente para ambos que o fim ainda estava distante e que o mais difícil e complexo apenas se iniciava”, assim termina o conto. Anton e Lydia provavelmente sentiram isso em algum momento de seu relacionamento, essa solidariedade imiscuída na paixão (“amavam-se como gente próxima e querida, como dois termos amigos, como marido e mulher”, diz ainda o narrador do conto), porém, no mais das vezes, se desentenderam e desencontraram. Quando ela estava disposta a romper seu casamento e arriscar tudo com ele, ele normalmente dava para trás. Quando era ele que a procurava, ela não sentia confiança suficiente, ou já tinha se desiludido demais para deixar-se levar pelo entusiasmo.

As coisas para ele eram mais simples, certamente. Não era ele quem tinha toda uma vida pela frente para ser visto como a mulher divorciada e que largou o pai de seus filhos para viver uma aventura com um escritor. Em se tratando de adultério, aliás, cabe lembrar que havia então na Rússia uma elevadíssima autoridade literária, intelectual e religiosa, que já havia proferido uma sentença bastante clara a respeito de mulheres inconstantes que viviam casos extraconjugais. Estou me referindo a Leon Tolstói, estou me referindo a Anna Karenina. Não vou dar spoiler, mas vai lá ler o livro para ver como é que a história acaba.

O detalhe interessante, aí, é que não apenas Lydia estava condicionada em suas decisões e hesitações por esse tipo de ambiente, em que a figura de Tolstói sobressaía em toda sua magnitude e imponência. A psique de Tchekhov, em certo sentido, era inclusive mais vulnerável às suas pregações, pois, quando conheceu Lydia, ele próprio era um seguidor do tolstoísmo. Sim, isso existia na época: uma doutrina que defendia a retomada de valores camponeses e de uma vida comunitária simples, em contraste com a decadência dos sentimentos citadinos e suas sofisticadas tramas amorosas. No caso de Tchekhov, a pregação acontecia inclusive no âmbito doméstico, onde sua posição de arrimo de família, no convívio com irmãos alcóolatras e um pai cronicamente desempregado, lhe dava o crédito moral de que precisava para lançar os mais rígidos julgamentos no mundo ao redor.

Justiça seja feita, contudo: Tolstói era um escritor tão incrível que conseguia intercalar em suas imensas parábolas alguns dos mais perfeitos parágrafos da literatura, e as construía como quem ergue o que hoje são para nós algumas esplêndidas catedrais góticas (já não importa para que elas foram erguidas, o importante é que foram, e agora podem ser admiradas). Apenas com o tempo ele se restringiu ao papel do profeta e do patriarca que recebia os discípulos em sua célebre fazenda. Mas foi já quando as coisas estavam avançando nesse sentido que Tchekhov entrou em contato com suas ideias, de modo que, quando estava com vinte e poucos anos, passou por uma espécie de conversão religiosa, cujos traços são bastante perceptíveis em sua obra de juventude.

A obra precoce de Tchekhov, aquela que ele escreveu até os 30 anos, tem, portanto, duas facetas principais. A primeira são os contos brevíssimos e de natureza humorística que ele escrevia para ganhar dinheiro em publicações semanais, e que lhe rendiam o suficiente não apenas para seu sustento, mas também para o da família, acrescidos aos ganhos com a carreira médica. Na segunda categoria, estão as narrativas pedagógicas com que ele ilustrava o pensamento de seu mestre ilustre, Leon Tolstói, tal como em “O sapateiro e força maligna”, publicado em 1888, ou seja, quando ele estava com 28 anos.

Esse é o contexto que precisamos ter em mente para tentar entender a primeira reação de Anton ao encontro com Lydia. Permitir-se aquela paixão significaria para ele perder não somente o controle de si, mas também abandonar um terreno duramente conquistado durante os anos anteriores, tanto no que se refere à conduta ética que costumava ostentar, tanto no que trata da trajetória profissional e intelectual que vinha seguindo. Não que esse caminho e essa conduta estivessem lhe proporcionando muitas alegrias; muito pelo contrário, ele reclamava bastante de tudo o que sentia estar em desacordo com seus ideais. Mas era um lugar que ele já conhecia, que havia construído para si com esforço, e onde ele podia se sentir um adulto sério em com um propósito definido na vida.

Voltando então à ocasião do primeiro encontro. De imediato, tomado por sensações que não se encaixavam bem no papel de um tolstoísta digno e respeitável (a atração por uma mulher casada), ele recusou os próprios sentimentos. Porém, entrou em um período de enorme inquietude. Por um lado, não conseguia simplesmente fazer a vida voltar a um estado anterior; por outro, não conseguia dar nenhum passo adiante. Foi uma crise de proporções inéditas em sua personalidade e valores, até porque havia fracassado na escrita de um romance, gênero no qual ele precisaria ter sucesso para que suas conquistas literárias correspondessem à estatura ética que almejava. “Tudo o que escrevi até agora é apenas lixo em comparação com o que gostaria de ter escrito”, ele afirmou a seu editor em 1888. Bom, ele estava chegando aos trinta anos nessa época. Quem conhece Saturno e seus retornos sabe bem do que ele está falando.

No entanto, em meio à turbulência, ele acabou, sim, tomando uma decisão. Não exatamente uma decisão apaixonada, e é aqui que eu queria chegar, desde o começo: ele optou por renovar seu compromisso com ideais de transformação social, ao fazer uma viagem de longo prazo a Sacalina, uma ilha na Sibéria usada para o exílio de condenados pela justiça russa. O pretexto era de estudar as condições de vida na ilha (o livro resultante da viagem saiu no Brasil pela Todavia, recentemente). E, se é verdade que o gesto estava de acordo com a atitude científica e reformadora que Tchekhov vinha adotando diante das mazelas sociais da Rússia, parece-me que estava de acordo até demais. Não dá para descartar um componente saturnino enviesado, de sacrifício e repressão de qualquer possibilidade de alegria. Sacalina e Lydia eram os polos opostos de um eixo em que de um lado estava o moralismo de Tolstói, e de outro estava seu desejo e seu afeto individual. Tchekhov dobrou a aposta no primeiro.

Sei que tem gente aí agora perguntando: ok, Gustavo, até agora tudo certo, mas e o signo? E o signo, Gustavo? Primeiramente, vale ressaltar que estamos falando de um aquariano, o que, por questões técnicas, costuma ser motivo de disputa. Sim, Tchekhov nasceu no dia 16 de janeiro de 1860, e sim, é fácil relacionar seu realismo eventualmente resignado ao arquétipo de Capricórnio. Porém, singularidades do calendário russo no século XIX fizeram com que ele estivesse, por assim dizer, doze dias atrás do nosso, de modo que Tchekhov teria nascido quando o Sol estava em Aquário: os doodles do Google estão aí sempre no dia 29 de janeiro para não me deixar mentir.

Mas queria dar ênfase a outro ponto, no que se refere ao zodíaco. Pois, até aqui, estivemos o tempo todo tratando de uma fase da vida do escritor russo em que podemos reconhecer semelhanças com uma fase de nossas vidas quando, depois de 28 ou 29 primaveras, o inverno de uma experiência de autoquestionamento, bastante incisiva, costuma pedir ajustes e revisões em nosso comportamento. Nesse caso, o signo de Saturno no mapa de Tchekhov assume grande importância, assim como acontece com o signo de Saturno nos nossos mapas, uma vez que a Saturno (incluindo o signo e a casa onde está situado) relacionamos esse tipo de crise e seu desenlace. Pois bem: Tchekhov tinha Saturno em Leão.

Leão é o signo oposto complementar de Aquário. Nessa balança, se de um lado estão o impulso reformador, um comportamento mais cerebral e científico, e uma grande capacidade dedicação à coletividade e ao mesmo à humanidade como um todo, do outro estão o prazer com a vida, um espírito criativo e artístico, e a busca da autossatisfação, que se reverte em uma generosa capacidade de satisfazer. Ou seja: onde Aquário é trabalho, Leão é brinquedo, e onde Leão é desejo, Aquário é propósito. Nós todos temos ambos os signos em nossos mapas pessoais; a questão é onde, e como.

Então, podemos presumir que o aspecto leonino da personalidade de Tchekhov estava atravessado pela presença de Saturno na região de sua psique mais diretamente vinculada a atender suas vontades individuais. Funciona assim: onde nosso senhor dos anéis se situa, haverá normalmente uma espécie de atrofia das qualidades daquele arquétipo, que vai durar pelo menos até por volta dos 30 anos, quando a execução de um ciclo saturnino completo na vida do indivíduo torna possível (ou demanda) que essas qualidades sejam despertadas. Existe uma alternativa a esse padrão, que é o exagero ostensivo e forçado dos comportamentos associados ao signo de Saturno (o Saturno em Libra com uma vida amorosa agitada e vazia, o Saturno em Capricórnio com conquistas profissionais precoces até demais, por exemplo). No entanto, o mais comum é as coisas se passarem como se passaram com Tchekhov: as qualidades e comportamentos do signo oposto ganham destaque na primeira parte da vida, e o retorno de Saturno se torna um intenso puxão do outro lado da balança, chamando a pessoa a viver algo que ela negligenciou ou negou antes.

Nesse sentido, a posição do Saturno tchekhoviano é particularmente incômoda. Pois se, por um lado, Saturno se sente em casa em Aquário, signo do que é o regente tradicional (e onde se encontra no momento), por outro lado, sua força restritiva será mais desconfortável no signo de Leão. E, no entanto, será aceita, com a desculpa ou a justificativa de que o prazer e a alegria são sentimentos egoístas, que não correspondem às necessidades mais imediatas da sociedade, ou argumento parecido. Saturno em Leão (ou Saturno na casa 5) pode muito bem abrir mão de viver a própria vida amorosa em favor de algum ideal, de algum projeto, de algum bem maior coletivo, e pode também repetir esse gesto quando sentir uma íntima ameaça a essa persona trabalhosamente criada. Ou seja: ele pode até mesmo fazer uma viagem a uma ilha na Sibéria, se for para negar a si mesmo o que mais profundamente deseja e precisa.  

NO entanto, isso não quer dizer que Saturno seja mais fácil de lidar quando está em outra posição no mapa. Saturno é sempre Saturno. Reparem, por exemplo, em como o caso de Anton Tchekhov se parece com o de Franz Kafka, que, no momento exato da completude de um ciclo de Saturno em sua vida, encontrava-se massacrado por obrigações prosaicas e tarefas rotineiras de seu emprego burocrático. Mais de uma vez, expressou seu fastio com essa condição, que o impedia de escrever (Saturno em Gêmeos); mas, na hora de fazer uma mudança, escolheu acumular obrigações ainda mais fastidiosas ao seu cotidiano, tornando-se sócio de uma fábrica de amianto, dobrando a aposta nos flagelos que o oprimiam, e, por consequência, se vendo ainda mais enredado em tudo em que o impedia de avançar na vida (o que, no caso de Kafka, se confundia com fazer literatura).

Nada com que a gente não consiga se identificar, em pelo menos uma área da vida, em pelo menos uma época da existência: esse apego insistente no sofrimento, essa estranha luxúria da infelicidade. Todos temos Saturno no mapa, e com ele essa capacidade de tomar decisões que reforçam padrões de conduta, mesmo quando sua rigidez se torna um risco iminente ao próprio fluxo vital que nos alimenta.  Como disse o Felipe Charbel em uma resenha recente sobre os diários de Kafka, todo mundo tem sua versão da fábrica de amianto, “uma situação de desconforto que era melhor ter evitado, mas na qual nos envolvemos como resultado de uma escolha absurda, a pior decisão possível em um momento crucial da vida”. Acrescento: todos nós temos uma viagem a Sacalina.

Mas talvez a gente precise mesmo dobrar a aposta em algo que não faz mais sentido para descobrir o que faz. Talvez a gente só se disponha a realmente romper as amarras quando elas ficam apertadas no nível do irrespirável. Talvez o sapo proverbial, que se deixa morrer na água fervida lentamente, só consiga encontrar as forças necessárias para se libertar da fervura se for colocado numa panela de pressão. É justamente isso que o retorno de Saturno é: uma panela de pressão, na qual a fervura já não pode ser ignorada, e cujo chiado permanecerá em nossa cabeça enquanto não encontrarmos uma verdadeira saída para nossos dilemas, ao invés de simplesmente aumentar o fogo, como se isso fosse resolver alguma coisa (no caso do sapo astrológico, posso adiantar que ele encontra força e inteligência para isso em Urano; escrevi sobre isso em mais detalhes aqui).

Em outras palavras. Talvez a fábrica de amianto tenha sido indispensável para que, pouco tempo depois de se meter nessa enrascada (que lhe tomava ainda mais tempo e energia), Kafka virasse uma noite escrevendo O Veredito, que viria a ser conhecido o primeiro texto importante de sua obra. A propósito, esse é um ponto importante em que a astrologia e a psicologia de C. G. Jung (com sua atenção a narrativas e processos arquetípicos) se encontram: em ambos os casos, as coisas acontecem “em direção a”, com uma finalidade, que pode ser deduzida da natureza dos arquétipos e astros em questão, mesmo quando tratamos de movimentos aparentemente contrários ao desenlace da história. No final das contas, percebemos que eles fazem parte essencial da narrativa, que cumpriram um papel importante nela.

Nessa perspectiva, Kafka não seria Kafka sem sua fábrica de amianto, Tchekhov não seria Tchekhov sem a viagem a Sacalina. Em seu caso, o absurdo da escolha e o desconforto da situação foram bem descritas em suas reações à realidade da ilha siberiana – de cheiros desagradáveis e oficiais corruptos, de barracos insalubres e crianças maltrapilhas, onde as eventuais festividades eram tristes e até mesmo as cartas de amor eram “repulsivas”. É verdade que, com o relato onde estão estes registros, a viagem cumpriu o objetivo de revelar uma realidade ignorada em Moscou e São Petersburgo, e assim a dimensão mais aquariana e política do gesto não foi totalmente desperdiçada, por mais que o mero desgosto domine algumas passagens do livro. É também verdade que essa era apenas a intenção mais visível do ato, sendo que próprio Tchekhov o atribuiu à relação nascente com Lydia, em uma carta a Helen Lintrayov: “Eu simplesmente tinha que fugir a todo custo. Fugi de sensações muito fortes como um covarde foge do campo de batalha”.

No próprio relato da viagem, por outro lado, surge já uma nova faceta do escritor. Há trechos em que Tchekhov abandona o olhar moralista e científico, ou meramente desaprovador, em favor de uma visão mais compadecida e compreensiva da condição humana, a partir do que viu na ilha. Nesse ponto, ele percebe como seria despropositada seria a ideia de converter os condenados de Sacalina a uma doutrina absolutamente distante de seu cotidiano. Nesse momento, ele, através de suas palavras, concede aos seus ‘personagens’ um pouco do calor humano que lhes era negado tanto por seus carrascos quanto por seus supostos redentores, e abandona o posto do missionário que levava a palavra de Tolstói para as criaturas perdidas naquele rincão nos escanteios do mundo, começando então a falar com a voz de Anton Tchekhov, na qual sobressaía uma visão mais empática, que não deixa de ser uma expressão de Aquário, porém mais amadurecida e calejada pelas maldades deste mundo.

De modo que, em retrospectiva, a viagem a Sacalina veio a ocupar um lugar importante na trajetória pessoal de Tchekhov, embora no sentido contrário ao de suas motivações iniciais. Um forte indício disso é o fato de que, logo após o retorno da ilha, seu primeiro movimento foi ir atrás de Lydia em São Petersburgo, declarando-se então pela primeira vez para ela, que já havia demonstrado antes disposição para renunciar a tudo para ficar com ele. Mas a essa altura era ela que já não sentia ter forças para tanto, e começaram aí os muitos anos de desencontros e hesitações, incluindo uma ocasião na qual conseguiram ficar juntos e sozinhos, mas foram surpreendidos pela visita inesperada de dois amigos, bem como o episódio em que, tomada por uma onda de paixão em confiança, Lydia enviou a Tchekhov um exemplar dos Contos Reunidos dele, com um bilhete: “Página 267, linhas 6 e 7”. A referência era a um trecho onde se lia: “Se quiser a minha vida, venha e leve-a”.

Porém, quando essa mensagem o alcançou, Tchekhov estava já acometido por uma enfermidade que, a longo prazo, viria a ser fatal, e não podia ir buscar a vida que ela lhe oferecera. Mas a transformou em ótima literatura. É importante então notar que nenhum dos tristes desdobramentos dessa história elimina a importância criativa e vital da mudança ocorrida em 1890, quando Tchekhov retorna da viagem. Podem reparar: a partir daí, as parábolas moralizantes passam a ser substituídas por narrativas em que a percepção da fragilidade da condição humana ocupa um papel central, em momento algum ultrapassado pelo julgamento sumário. As infinitas e ao mesmo tampo tão precisas nuances entre o trágico e o cômico de que talvez ele foi capaz surgiram aí. O Tchekhov que a gente mais conhece e mais estima como escritor aparece nesse momento, após o encontro com Lydia, após a viagem a Sacalina, após o retorno de Saturno.

Ou, como afirma David Magarschack, para encerrar: “A viagem em si mesma, que desconcerta seus biógrafos como desconcertou sua família e amigos, permanece um completo mistério a não ser que, como observa um recente estudioso russo, ela tenha se dado ‘por uma profunda razão pessoal’. E esta razão apenas poderia ser seu amor por uma mulher jovem e casada, que ele escondeu de todos como sempre escondia seus sentimentos íntimos do resto do mundo; pois, durante a fase tolstoiniana de sua vida, Tchekhov apenas poderia encarar uma situação como aquela com desgosto e repulsa. Como seu amor por Lydia era muito forte para ser controlado, ele resolveu fazer uma longa e árdua viagem para curá-lo. Mas o grande paradoxo é que a viagem a Sacalina produziu o efeito oposto: ela não o curou de seu amor – ela o curou de suas obsessões tolstoinianas”.

Ou, traduzindo para termos zodiacais: ela não matou o Leão que ele descobriu existir dentro de si, e sim deu a ele o alimento que vinha sendo negado. O covarde que fugiu do campo de batalha voltou cavalgando a fera selvagem da paixão que o afugentara. Nascia assim o autor de algumas das mais belas – e tristes, e difíceis – histórias de amor que conhecemos. O Saturno de Tchekhov nunca deixou de estar lá, em Leão, e haveria sempre uma espécie de sombra (realista, resignada) em sua visão do destino dos apaixonados. Porém, para que as histórias de amor simplesmente comecem, é preciso uma boa dose de otimismo e entusiasmo leonino na história. Acho que foi isso que Tchekhov sentiu ao voltar da ilha e procurar Lydia naquele ano. Por um momento ele foi puro gosto pela aventura amorosa, desejo de conquista, afirmação da vida, brilho no olhar. Se terminasse aqui (e por que não terminá-la?) essa história teria sem dúvida um final feliz. Ou, pelo menos, um final aberto, no qual pudéssemos intuir uma chance de felicidade.

astros, peixes

Sonhos de Cassandra

Troia em chamas (c.1759) | Johann Georg Trautmann

Diz-se que, no local da Grécia Arcaica onde seria situado o templo de Delfos (consagrado a Apolo), havia outrora uma profunda fenda no chão de um terreno onde ovelhas costumavam pastar. Se alguma delas se aproximasse demais da fenda e olhasse para dentro, começaria a “pular de maneira espantosa e balir num tom aflito, anormal”, segundo Diodoro Sículo. Os humanos que investigassem o mistério também entravam em estado de transe, e um deles, em seu delírio, passou a predizer o futuro. Por isso o local veio a ser considerado miraculoso: o povo acreditava que o oráculo havia sido uma dádiva de Gaia, a deusa da Terra.

Como muitas pessoas se perdiam e desapareciam dentro da fenda, pareceu adequado aos habitantes dos arredores designar uma única profetisa, que seria encarregada de receber seus espíritos, sob a proteção da serpente Píton. Este foi o “dragão-fêmea, monstro enorme e horrendo” que Apolo derrotaria para assumir o posto de oráculo de Delfos, na narrativa dos hinos homéricos. Esta luta e sua vitória coincidem com uma substituição de aspectos arcaicos da antiga religião por uma visão mais ordenadora e racional do mundo. Foi também nessa época que Apolo se diferenciou de seu irmão Dionísio, um deus da natureza, passando a representar a objetividade, a índole científica e a clareza lógica que caracterizou a Grécia
Clássica.

A oposição e complementação entre Apolo e Dionísio ficou conhecida através da obra de Nietzsche sobre o nascimento da tragédia. No entanto, conhecemos menos a história de Cassandra, a filha de Príamo que sonhou com a derrocada de sua família e da cidade de Troia, mas não encontrou quem acreditasse em sua profecia. Anos antes, ao frequentar o templo de Delfos, ela havia recusado um pedido de Apolo, e foi amaldiçoada pelo deus com o descrédito de todas as suas visões. Desesperada por prever um futuro terrível e não ter como prevenir os seus familiares, Cassandra passou a chamar a atenção para seus vaticínios de formas incomuns ou mesmo exageradas, sem nunca obter sucesso. Pode-se dizer que começou a balir como as ovelhas da lenda, no que viria a ser descrito no século XIX como o típico comportamento de uma mulher histérica.

A analista junguiana Laurie L. Schapira estudou a maneira como o diagnóstico da histeria esteve vinculado ao descrédito da intuição feminina nesse período. Pois se, por um lado, o poder premonitório de Cassandra se manteve na experiência de inúmeras mulheres, Apolo seguiu fazendo seu trabalho de desqualificá-las como criaturas descontroladas. O próprio Freud pode ser acusado de ter reduzido poderes verdadeiramente estranhos de feiticeiras medievais ao “meramente histérico”, acompanhando Edward Jorden, autor da primeira obra em língua inglesa sobre o assunto. O estado de transe ou de possessão fica assim compreendido como um sintoma, com a simulação de desmaios e tremores para realizar algum tipo de chantagem ou manipulação emocional.

Mas as duas coisas não são excludentes. Podemos presumir que Cassandra de fato tenha o dom de prever o futuro, e que, ao perceber-se incapaz de persuadir os outros do que vê, passa a utilizar formas mais insidiosas de convencimento, que podem acabar distorcendo sua própria visão. Ou então, diante da crueldade da barreira imposta pelo ressentimento de Apolo, ela simplesmente recai no desespero e começa a berrar feito uma louca. De um jeito ou de outro, possui motivos suficientes para sentir-se vitimizada durante boa parte de sua história, pois tem sua imagem pública e seu ego massacrados não apenas por Apolo, como também por Príamo, Agamenon, Hécuba e Clitemnestra, a tal ponto que ela mesma já não crê suas visões. O trabalho clínico que Schapiro narra diz respeito a longas trajetórias de mulheres tentando recuperar a crença em si mesmas.

Quanto à astrologia, não me parece casual que o mito de Cassandra tenha reaparecido através da questão da histeria justamente quando Netuno passou a integrar nosso mapa do cosmos, na segunda metade do XIX. Netuno é o regente de Peixes, e Peixes é sem dúvida o arquétipo mais intimamente ligado à história de Cassandra. É verdade que geralmente o associamos ao aspecto vago e delirante dos cultos dionisíacos, assumindo por esse viés o contraste com as formas e a lógica apolíneas. Mas Peixes merece mitos femininos para ser explicado e compreendido, até porque suas águas são a origem de tudo, e quando damos um nome à origem de tudo a chamamos de Grande Mãe.

Sabemos que Peixes está em contato com os mananciais intuitivos e premonitórios que corriam no fundo da fenda de Delfos. Esse poder está de acordo com a natureza psiquicamente permeável do signo. Sabemos também como esse aspecto da personalidade pode ser diminuído e desacreditado na sociedade contemporânea, ou isolado como sinal de debilidade e loucura. Com isso, cria-se sempre o risco de que Peixes reincida permanentemente no papel de vítima, ou crie relações de dependência que o tornam um chantagista do zodíaco em potencial, como tentei descrever em outra postagem. 

Assim, o desejo que têm de fazer com que os outros vejam o que surge em suas visões, o descrédito que suas estranhas percepções encontram no mundo social, e a maneira como a realidade dos sonhos é destituída de valor à luz do dia – tudo isso pode tornar a história de Cassandra bastante real para alguns piscianos. O caminho para se lidar com esse impasse é um fortalecimento do ego que não signifique a supressão da alma; basicamente, é o de descobrir-se na posição da pitonisa protegida pela serpente, uma personificação de forças naturais que assume face humana, mas não se identifica exclusivamente com a vítima ou com o algoz do mito.

capricórnio

A alma e as formas

A viagem dos Reis Magos (c. 1435) | Sasseta

“Não acredito nesse negócio de astrologia. Como, aliás, todo bom capricorniano”. A frase, se bem me lembro, está em um conto do Luís Fernando Veríssimo, mas é de uma ironia tão fácil e irresistível que podemos considerá-la de domínio público. Lembrei dela ao revisar esse texto que escrevi ano passado; relendo agora, e fazendo alguns ajustes, parece ter sido um esforço no sentido de justificar minha condição não apenas de capricorniano que acredita na astrologia, como também de capricorniano astrólogo. Porém, pensando agora, trata-se de algo que existe aos montes por aí, por mais que o senso comum insista em nos estranhar, e por mais que eu mesmo me sinta instado a explicar a aparente contradição entre o pragmatismo caprino e as viagens astrais. Para ficar em apenas mais dois exemplos, tem o Simon Vorster, responsável pelo Raising Vibrations, um dos mais interessantes e (claro) consistentes canais sobre astrologia no Youtube (eu apostaria num ascendente em Gêmeos, ou Libra), e a Júlia de Carvalho Hansen, que além de astróloga capricorniana é poeta com ascendente em Peixes. Ainda assim, em todos esses casos, posso garantir que se trata de gente capri até os ossos (principalmente os ossos), o que aliás não deveria surpreender o observador mais atento. Raparem: coincidência ou não, o dia do astrólogo é capricorniano.

Sim, o dia do astrólogo acontece sob o mesmo sol em que nós, os incompreendidos, fazemos aniversário. O que certamente não é uma casualidade é o fato de esse dia acontecer na mesma data da Noite de Reis, 06 de janeiro. Pois eram astrólogos persas, ou magi, os “três homens sábios” que leram os sinais dos céus para encontrar o local de nascimento do menino Jesus, segundo o Evangelho de Mateus. O império persa, vale lembrar, foi um dos que conferiu à prática da astrologia um amplo papel social, depois do babilônico e do egípcio. Seus magos eram reconhecidos no oriente como sábios não apenas pelos conhecimentos técnicos e científicos que acumularam, como também pela participação em momentos chave da vida política da região. É possível inclusive que o evangelista os tenha incluído na história de Cristo para conferir maior legitimidade à sua narrativa – sobretudo se considerarmos a possibilidade de Mateus ter sido capricorniano também, uma vez que a gente costuma mesmo fazer referência à tradição para sustentar nossos pontos de vista. No mínimo, temos o hábito de salpicar aqui e ali em nossos textos uns nomes e obras já reconhecidos, ou então de desconhecidos supostamente veneráveis, para passar a impressão de que a gente sabe do que está falando, ou pelo menos conhece quem sabe.

A propósito, e já que mencionei os astrólogos persas e tal: Criação, de Gore Vidal, é um belo romance histórico sobre a Pérsia e arredores alguns séculos antes do nascimento de Cristo. Ele se passa durante o reinado de Xerxes, portanto no século V a.c., e é narrado por um embaixador do império nas terras do oriente e do ocidente, que durante suas viagens entra em contato com personagens como Sócrates, Buda e Confúcio. Pois esse foi o período em que foram concebidas as transformações filosóficas, espirituais e políticas que mudaram o curso do mundo antigo e criaram os fundamentos de muito do que veio a seguir (falei com mais detalhe sobre isso na postagem sobre o fim da Era de Peixes e o início da Era de Aquário, que deixei aqui outro dia). Com a astrologia não poderia ser diferente, de modo que, nesse intervalo, até a queda do Império Romano, estabeleceram-se não apenas uma, mas diversas e antinômicas bases possíveis – éticas, científicas, espirituais – pelas quais podemos hoje nos guiar no estudo dos astros.

A antiguidade astrológica deixou então como legado vários livros e nomes importantes, nos quais o ramo capricorniano da astrologia pode se ancorar com confiança para estabelecer os alicerces de sua prática. Mas gostaria de mencionar agora particularmente um deles, hoje menos conhecido, talvez até obscuro, mas venerável o suficiente para dar crédito ao meu argumento da relação entre a astrologia e o capricornianismo. Estou me referindo a Jâmblico, ou Iamblichus, um filósofo e astrólogo de origem síria que veio a ser também biógrafo de Pitágoras, e que, até determinado ponto, seguiu filósofos neoplatônicos como Plotino e Porfírio em suas reflexões sobre os possíveis caminhos e saídas para que a alma encarcerada no mundo físico pudesse dele escapar. Mas, no decorrer de seus estudos – e esse é o ponto a ser ressaltado -, Jâmblico concluiu que a vinculação da alma à matéria não era de todo indesejável, possuindo potencialidades que estavam ainda por ser exploradas, o que justificava o aprimoramento dos instrumentos de orientação adequados para essas paragens sublunares.

Ele assim sugeriu que o instante do nascimento de indivíduo era de enorme importância, pois nele as potencialidades de desenvolvimento da alma em um determinado corpo ficavam estabelecidas de acordo como retrato do movimento dos planetas. Esse retrato, por sua vez, representava um ideal ao qual a experiência humana podia apenas almejar – mas não devia deixar de almejar. O estudo da astrologia serviria para que a alma encontrasse a melhor maneira de expressar-se e aprimorar-se, dadas as condições de uma configuração planetária ao mesmo tempo eterna e momentânea. Desse modo, a composição alma/corpo individual não estava exatamente submetida à dinâmica celeste como uma fatalidade imposta desde cima: ela era essa dinâmica, e ao mesmo tempo uma manifestação parcial dela aqui nesse mundo, que contava com as pistas deixadas lá em cima para reencontrar-se consigo mesma.

Hoje em dia, há quem pense que os adeptos da astrologia buscam uma espécie de fuga dos sofrimentos e das dificuldades da vida terrena, recorrendo a superstições para não ter que encarar a falta de sentido em um mundo desencantado. Essa caricatura escapista corresponde a um determinado estereótipo do jovem místico. Outros entendem que a astrologia até funciona, e pode funcionar muito bem, mas não tem dimensão ética alguma, e é somente uma técnica que pode estar a serviço dos objetivos menos nobres; nesse âmbito ela pode até ser associada à proverbiais ambições mais pragmáticas e capricornianas. Nesse contexto, a posição Jâmblico representa uma alternativa interessante, uma vez que reafirma o valor do mundo físico tal como o conhecemos, e ao mesmo tempo indica que ele pode sim orientar-se eticamente de acordo com coordenadas astrológicas. Robert Hand desenvolveu o ponto com o caloroso brilhantismo de um sagitariano com ascendente em Câncer, na conferência intitulada Astrology, Morality, and Ethics, proferida em 2007. Mas creio que aqui se torna possível pensar novamente em Capricórnio, não como um estereótipo, mas como uma experiência arquetípica na qual todos nós em algum momento da vida podemos nos reconhecer.

De um modo geral, e ao mesmo tempo bastante específico, estou falando da experiência deste mundo e da experiência neste mundo. Poucas coisas são mais diretamente associadas ao signo de Saturno do que tal concepção da vida mundana como algo que tem valor em si mesmo, incluindo aí aquilo que manifestamos em termos de aprimoramento e evolução nos limites dessa existência. Nessa perspectiva, faz sentido que a astrologia seja comemorada em uma data capricorniana, pois Capricórnio é sobre honrar o mundo físico, desenvolver suas potencialidades, aproveitar seus recursos com inteligência, e entender que suas limitações são a única maneira pela qual a alma passa a existir nas formas. Disso tudo se deduz a possibilidade de um determinado comportamento moral, sem que precise ser moralista; a ética capricorniana passa pelo real e não deixa nunca de utilizá-lo como ponto de partida, mas tem como ponto de chegada uma versão diferente e melhor da realidade; assim, longe de conferir à matéria um aspecto vil e decaído, Capricórnio mostra como ela é justamente o veículo pelo qual conhecemos o espírito.

Ao mesmo tempo, existe uma resignação tipicamente capricorniana, na linha do “foi o que deu pra fazer no pé em que as coisas estão”, que não deixa de ter sua dose de leveza e libertação dos imperativos categóricos de aprimoramento do mundo. Pese um pouco mais a mão nesse sentido, porém, e a resignação se torna nosso famoso baixo astral – Capricórnio pode ser, sim, um signo pesado. Isso acontece sempre que faz o caminho inverso do mencionado, e, no lugar do esforço de transformação da matéria com suas próprias mãos, traz para o chão, por força de sua gravidade, tudo aquilo que lhe parece de um idealismo sem bases no mundo concreto. Aqui reencontramos o capricorniano cético e melancólico da frase lá do começo, agora sem o bem humorado reconhecimento de sua ambivalência. Mas algum grau de melancolia sempre vai fazer parte de nosso repertório, junto com a ironia e o esforço em tornar a experiência mundana mais digna e, quem sabe, sagrada. Curiosamente, talvez isso nos diga algo também sobre a história de um deus que encarna em um corpo humano, e termina por ter a data de seu nascimento associada a esse arquétipo. Sua história termina com uma pesadíssima cruz na qual ele está preso como uma alma estaria presa ao corpo humano, segundo os neoplatônicos; mas ela começa com a infusão de uma alma divina em um corpo humano, de tal modo que sua carne e pele e ossos não são um obstáculo a ser recusado ou um pecado merecedor de flagelos. São justamente um instrumento que a Alma encontrou para se movimentar entre nós.

Por último, queria enfatizar que o ethos do aconselhamento astrológico não prevê nunca uma recomendação de renúncia ao mundo e seus desejos, ambições e disputas. Mas acredito ser papel do astrólogo (inclusive do astrólogo capricorniano) identificar quais desejos, ambições e disputas recebem o suporte do retrato tirado do cosmos no instante do nascimento de um indivíduo, e quais atendem a impulsos que talvez não tenham o mesmo estímulo. É como se os ciclos planetários formassem uma intrincada rede de fluxos para a qual buscamos uma espécie de adaptação do corpo, embora o corpo neles esteja imerso o tempo inteiro, e esteja ativamente engajado nessa adaptação, não tendo como escapar das contradições do mundo nem querendo – o que torna tão mais significativa a possibilidade de acompanhá-los como quem participa de uma espécie de dança. É claro que há sempre algum grau de conflito e a possibilidade de tropeços, o que torna tudo mais difícil, interessante e divertido, no que diz respeito à imensa riqueza dos passos que somos convidados a dar.

Uma coisa é certa: o fatalismo que a astrologia antiga ou medieval conheceu tem um papel restrito nos atendimentos hoje em dia, pelo menos nos meus (mais informações sobre leituras e consultas, aqui). Por outro lado, existe certa tendência em consentir com o uso da astrologia para finalidades desprovidas de qualquer justificativa moral, como se fosse apenas uma técnica isenta de premissas e implicações nesse campo, o que tampouco me parece apropriado, dada a premissa de que é possível conciliar interesses pessoais com os interesses do cosmos, o que aliás é um boa definição do resultado de uma boa leitura. Mas atenção: do ponto de vista do indivíduo, esse resultado não se traduz nem entusiasmo, nem em uma triste aceitação das coisas como elas são, mas em uma relação mais pacificada com o real e o possível, que seja também revigorante na mobilização das energias disponíveis para a mudança e para as conquistas que almejamos. Eu pelo menos entendo assim.

Por fim, o fato de poder verificar, diariamente, algumas confirmações exatas da interação entre assuntos humanos e símbolos cósmicos (inclusive e talvez sobretudo quando se trata de temas bem concretos e imediatos), é para mim motivo mais do que suficiente o mergulho nesse mundo da linguagem astrológica como meio para encontrarmos as mais perenes verdades. Por ora, entretanto, bastam-me as verdades provisórias com que me deparei para suspeitar de que um astrólogo sírio que viveu há mais de dois mil anos tem algo de muito certeiro para dizer sobre nossa prática hoje. Talvez eu não saiba ainda expressar com total exatidão o que vejo de tão correto em sua perspectiva, mas vou continuar tentando, por isso peguei esse texto para revisar e acabei praticamente o reescrevendo, com o propósito de tentar me aproximar um pouco mais do espírito que o animou, através da carne da palavra. Acho que consegui melhorar um pouco o texto, e estou meio feliz e meio resignado com o que deu pra fazer. Vida que segue. Feliz dia do astrólogo capricorniano.

Todos os signos

Os signos de Ferrante (enquete)

My Brilliant Friend

Estamos de volta. Explicando o motivo do longo período de hibernação da página: toda a nossa equipe ficou nos últimos meses mobilizada para uma única tarefa, e tem se dedicado com fervor detetivesco (e ascendente em Escorpião) a preencher uma notável lacuna nos conhecimentos astro-literários de nossa época. As reuniões de pauta foram tomadas por debates acalorados sobre indícios recolhidos, e temos postergado a publicação dos resultados dessa busca em nome da prática de um jornalismo investigativo sério e imparcial. A questão é que a escritora italiana cuja identidade se oculta no pseudônimo de Elena Ferrante é de signo desconhecido. A autora de A Amiga Genial, Dias de Abandono e A Vida Mentirosa dos Adultos teve assim seus livros analisados em busca de pistas que apontassem para a configuração de seu mapa astral, e acreditamos estar perto de um furo de reportagem como nenhum outro na história recente da crítica literária, que irá preservar a íntima discrição da artista porém abrindo caminho à exploração da dimensão interplanetária de seus romances. Por outro lado, temos que admitir que os resultados até agora foram relativamente inconclusivos, e gostaríamos de saber mais sobre a percepção do público leitor a respeito. O formulário permite que se marque até três opções, valendo para Sol, Lua e Ascendente. Em nome do desenvolvimento dos estudos ferrantianos, agradecemos pela participação.

leão, peixes

Sonho de uma noite de Leão

Firedreaming | Malcom Maloney Jagamarra

Há uma descrição da cosmologia dos aborígenes da Austrália central segundo a qual a criação se divide basicamente em duas partes. Na primeira existe o “tempo do sonho”, dreamtime: uma dimensão eterna e primordial, também chamada de Alcheringa, com paralelos em outras culturas, mas que nesse caso ganha um aspecto mais especificamente onírico, não no sentido de tratar de coisas que não existem, mas presumindo que qualquer coisa, para existir, precisa ser sonhada antes. O segundo momento da criação é o canto. Ele implica que não bastou sonhar o mundo para que ele passasse a ser: foi preciso cantá-lo também, e só partir daí ele passou a ter os contornos que tem, de modos que suas paisagens e relevos são canções. Isso mesmo: cada montanha, cada cânion, cada riacho, seria então uma espécie de partitura, inscrita na superfície da terra através da própria voz de criaturas ancestrais, que pela primeira vez os percorreram enquanto cantavam o mundo. 

Acho que são os infinitos os motivos de encanto com essa ideia. Um deles está mencionado em O Oráculo da Noite: a história e a ciência do sonho, de Sidarta Ribeiro (2019), para quem a Alcheringa permite “uma experiência tão plena e aumentada, que voltar à vigília é como regressar a um sonho e adormecer é como despertar”. Também são muitas as possibilidades de expandi-la com analogias e especulações, como fez Bruce Chatwin em seu Songlines (1987), em uma mistura de ensaio e ficção que confere maior ênfase ao ato de “cantar a terra”, segundo ele continuamente repetido por tribos nômades em suas migrações. Nas duas leituras, o enfoque é alterado, mas a interdependência do sonho e do canto permanece, ao mesmo tempo em que a autossuficiência de ambos juntos se faz sentir. Nesse sentido, trata-se de uma cosmogonia incrivelmente exata e completa; nem por isso há guerras, disputas nem labutas envolvidas na criação do mundo; ele emergiu da imprecisa dimensão primordial, mas ganhou a precisão de seus traços geológicos através das melodias que então foram entoadas.

Na parte que me toca, chama a atenção que um cosmos assim gestado precisaria apenas de dois arquétipos zodiacais para ganhar existência. O primeiro deles é Peixes, pois é aí que o sonho se aloja, embora tradicionalmente o estereótipo do pisciano sonhático tenha mais a ver como uma iludida falta de senso prático do que com o potencial ato de criação de tudo que existe. Mas sim, podemos presumir que é das águas que surge do todo o resto, sobretudo quando supomos que basta entoar o sonho com a criatividade do canto para torná-lo real. É aí que entra Leão, pois o canto é arquetipicamente leonino, como são todas as ações dramáticas e performáticas que envolvem algum tipo de prazer ou brincadeira, como por exemplo – e por que não – a própria criação do cosmos.

Aliás, talvez exista alguma mitologia segundo o qual o mundo em que vivemos surgiu por ter sido um dia brincado por crianças, a partir de sua imaginação, e essa mitologia seria igualmente leonina e pisciana. Bom, talvez tivesse com componente de Gêmeos também. Mas não vou estender esse texto para muito além daqui. A ideia é justamente entretê-los com a possibilidade de um universo que dependeu apenas dessas desses dois atributos para brotar: a imaginação e a criatividade, o sonho e o canto. Percebam como cada um deles sozinho possui ainda algo de unilateral e insuficiente, e que o modelo fica meio capenga se tirarmos uma de suas pernas; juntas, porém, elas me fazem sentir que as coisas podem ter sido mesmo assim, e que podiam inclusive ter parado por aí. No que dependesse só de Peixes e Leão, acho totalmente possível uma divisão do trabalho em que cada um teria uma dessas tarefas, e as duas juntas teriam sido responsáveis pelo surgimento do universo. O que veio depois é lucro.  

Ou prejuízo, é claro, dependendo do ponto de vista. Pois isso inclui a própria ideia de “trabalho”, e só mesmo um capricorniano para mencionar tal palavra (pior: “divisão do trabalho”, Capricórnio com Saturno em Virgem) em um texto sobre uma cosmogonia tão alheia a esse conceito. Afinal, estamos falando de um mundo cujas estruturas e linhas gerais são de responsabilidade dos sonhadores, dos artistas e dos brincantes, que são os verdadeiros sustentáculos de tudo o que viria a seguir, e que não teria vindo se não tivesse sido sonhado e cantado. Estamos falando de um mundo em que a formiga depende da cigarra basicamente para existir, e onde o ócio e arte não são recompensas pelos esforços de um longo dia de canseira, mas sim as premissas onde tudo se inicia. Parafraseando Sidarta Ribeiro, seria um mundo onde ingressar na esfera do sono e da diversão seria o movimento mais sério que você teria a fazer.

Agora, se você parar para pensar, nada impede que as coisas sejam mesmo assim. E que cada um de nós, assim como as estrelas, os rios e os leopardos, seja uma canção que está sendo cantada nesse momento. Algumas canções são complicadas, outras são tristes, outras parecem não fazer sentido algum, e tem sempre as que dão bastante trabalho (ih, fiz de novo, foi mal). Mas nem por isso deixam de ser música, assim como as ravinas mais estreitas e os penhascos mais exaustivos não deixavam de ser o mundo tal como cantado pelos ancestrais dos aborígenes australianos, que o olhavam à sua volta como se contemplassem um espetáculo, e entendiam que só mesmo aqueles que sonham poderiam ter executado uma tão esplendorosa realidade.

aquário, peixes

A hora da virada

Paisagem com queda de Ícaro (1560) | Pieter Brueghel

Lembro de quando vi o dia raiar pela primeira vez. Bom, talvez eu já tivesse visto antes, mas não com a mesma consciência e expectativa. Eu devia estar com cinco ou seis anos, havia chegado em casa de uma festa por volta das quatro da madrugada – era a primeira vez que ficava acordado até tão tarde –, e decidi que ia fazer um esforço para não dormir antes do sol nascer. O engraçado é que por algo motivo eu acreditava que isso acontecia de uma hora para a outra; tipo, que as luzes do céu literalmente se acendiam de repente. Aí fui para a janela, para ficar de tocaia, para estar lá no instante exato do súbito desanoitecimento. Calculei que seria às seis horas em ponto, mas podia ser antes, talvez às cinco e quarenta e cinco. Quando chegou a hora, foi decepcionante descobrir que o dia ficava claro mais ou menos do mesmo jeito que ficava escuro mesmo: aos poucos, e sem nenhum dramático instante de iluminação da abóbada celeste.

Essa recordação me voltou esses dias, ao ler sobre o suposto início da Era de Aquário. Digo “suposto” não porque questione o advento em si, mas sim a ideia de que possamos determinar onde ele começa. Pois, até onde entendo, a sucessão de era zodiacais acompanha a precessão dos equinócios, causada pela leve inclinação do eixo de rotação da Terra, que em cerca de 26.000 anos realiza uma volta completa, alterando a cada dois mil e tantos anos as constelações que acompanham os solstícios e equinócios, mas sem que exista uma definição clara sobre quando uma constelação substitui a outra no rodízio.

É verdade que as constelações já são desenhos que nós mesmos criamos, e que nada nos impediria de traçar seus limites no horizonte com a mais absoluta exatidão, assim como foi feito com as regiões celestes que determinam a passagem do Sol de um signo para o outro, durante seus ciclos anuais. Mas não consta que isso tenha sido feito, de modo que, no pé em que as coisas estão, o fim da Era de Peixes e o começo da Era da Aquário só podem ser compreendidos como um processo que leva muitos anos, talvez séculos, para se completar. Em tempo: a precessão dos equinócios acontece no sentido inverso do verificado nos movimentos do Sol e outros astros em torno da faixa zodiacal. Sendo assim, a Era de Aquário vem depois da Era de Peixes, que por sua vez sucedeu a Era de Áries, e por aí vai.

Por outro lado, não há dúvidas de que estamos num momento de passagem. Torna-se natural procurar o evento que vai significar o ponto de inflexão. Muita gente fez isso recentemente com a Grande Conjunção de Júpiter e Saturno em Aquário, sabendo que não se tratava do tiro de largada para novos tempos, mas prevendo que num futuro talvez não muito distante a veremos como a linha traçada entre uma época e outra. É uma aposta semelhante à de quem situa o início da Era de Aquário no ingresso de Plutão nesse signo em 2023/24, ou de quem mobiliza todo esse conjunto de trânsitos planetários para dizer que podemos até estar vivendo um lento amanhecer, porém mais cedo ou mais tarde as coisas vão clarear de vez. Nesse sentido, quem diria, os astrólogos se assemelham a Eric Hobsbawn, o historiador que dividiu os séculos em “eras” – das revoluções, dos impérios, dos extremos – sem respeitar as divisões cronológicas mais evidentes, mas se atendo a episódios significativos que marcam grandes mudanças conjunturais, para com eles estabelecer fortes marcos de periodização.

A diferença é que a astrologia nesse caso trabalha com milênios, o que torna tudo um pouco mais abstrato e um pouco mais divertido. Tem também o fato de que astrólogos, como são metidos a saber o futuro, estão inclinados a descobrir seus indícios no presente, desvendando pistas do porvir como quem desenterra ossos soterrados de civilizações antigas, numa espécie de arqueologia às avessas, cujas grandes descobertas são sementes e não ruínas. Em resumo, e para ser mais exato, a astrologia funciona em uma temporalidade diferente da concepção linear que desfia causas e efeitos de acontecimentos, e trata da sincronia entre movimentos da história humana e dos símbolos criados durante a própria história humana (pela consciência humana) para representar a si própria. Nesse sentido, ela implica uma correlação dinâmica e simpática de todas as coisas do cosmos, incluindo pessoas, épocas e constelações.

Voltando então à questão dos primórdios da era de Peixes. Faz sentido pensar que suas primeiras luzes tenham raiado ali por volta do século V a.c., quando coexistiram sobre a Terra, por um breve lapso de tempo, novas referências espirituais como o Buda, Lao-Tsé e Confúncio. Talvez Sócrates possa ser incluído no pacote. Pois em todos esses casos estamos tratando de mestres cujos ensinamentos se voltaram para a cura da alma humana e sua libertação do sofrimento aparentemente inescapável dessa vida, seja através do despertar (Buda), seja através da aquiescência com o curso natural das coisas (Lao-Tsé), seja através do respeito aos rituais sagrados que governam a sociedade (Confúncio, embora neste caso a ênfase esteja no rito e não no sacro, o que confere ao confucionismo um teor mais virginiano, formando um contrapeso oposto e complementar às imprecisões piscianas do taoísmo de Lao-Tsé).

Sócrates, nessa linha de raciocínio, estaria mais inclinado a performar aquele lado “só sei que nada sei” do arquétipo de Peixes, por vezes também manifestado com uma autêntica confusão mental, na linha do “gente me explica que que tá acontecendo” – mas que nunca deixa de nos fazer suspeitar a existência de uma enorme sabedoria por trás dessa afirmação de dúvida e desconhecimento. Ele tem também em comum com outros líderes espirituais o fato de não ter deixado uma obra escrita de próprio punho. Há quem afirme que isso se deve à máxima arquetipicamente pisciana de que o amor verdadeiro não deixa rastros; as más línguas vão dizer que está mais para falta de senso prático ou preguiça mesmo.

No entanto, ainda estava por acontecer o episódio que iria declarar oficialmente aberta a temporada do “ama a teu próximo como a ti mesmo, ainda eu isso às vezes te faças parecer meio trouxa”. Foi com o nascimento e a palavra de Cristo que a Era de Peixes deixou para trás os tempos da brutalidade ariana daquele Jeová impaciente que criou o mundo em seis dias e fustigou as criaturas que ousaram duvidar do seu poder. Agora, as coisas iam ser diferentes, anunciaram os cronistas mais crédulos: o amor incondicional do divino pela criatura humana estava garantido pela experiência da encarnação, e o sofrimento dilacerante nesse mundo teria como contrapeso a promessa de um retorno ao lar. Nesse aspecto, a Era de Peixes pode ser compreendida também como a Era das Grandes Ilusões, embora fique sempre a suspeita de que os verdadeiros iludidos somos nós, que dizemos encarar a realidade, enquanto Peixes parece de fato conhecer algo que está por trás ou além do real: é a própria realidade cruel do mundo que para Peixes não passa de um sonho.

De um jeito ou de outro, seria possível detectar indícios significativos do começo de uma era pisciana cerca de dois mil anos atrás. Isso retrospectivamente, é claro. Pois o que fiquei me perguntando esses dias foi até que ponto estes marcos temporais puderem ser percebidos na época como sinais da aurora novos tempos. É verdade que, no caso de Jesus Cristo, pelo menos doze indivíduos acreditaram de largada nos despropósitos que de repente ele disparou a dizer; e o que realmente impressiona nesse caso é a fama que eles adquiriram depois como pessoas muito lúcidas e respeitáveis, se você parar para pensar na desconfiada recepção que esses marginais receberam na época. Certo também que Buda arregimentou um séquito razoável ainda em vida, que Lao-Tsé não foi um completo desconhecido, e que Confúncio chegou a ter um cargo de ministro em um grande reino da região da China. Mas nenhum deles deixou de parecer um doido sectário aos olhos de vários de seus contemporâneos; por outro lado, a Damares Silva também tem um cargo de ministra na república que hoje se supõe ser o Brasil, e nem por isso tem gente dizendo que a Era de Aquário vai começar numa goiabeira.

Justiça seja feita, porém. Dois mil anos atrás, segundo a lenda pelo menos, foram três astrólogos persas que cruzaram meio mundo carregando uns presentinhos mirrados (mas cheios de carga simbólica) para o menino pobre que nasceu num presépio da Judeia, e que viria a ganhar celebridade mundial como o ser mais pisciano que já esteve entre nós. Eles podem muito bem ter sido guiados por um fenômeno semelhante ao que se verificou recentemente no céu, se estiver certa a associação da Estrela de Belém com a Grande Conjunção periódica de Júpiter e Saturno, que se repetiu em dezembro de 2020. Fica assim reforçada a hipótese de que a era aquariana está começando agora, ou está dando as caras definitivamente, assim como a de Peixes teria ganhado novo fôlego quando surgiu aquele peculiar objeto brilhando no céu da Antiguidade.

Vai saber. Todas as possibilidades estão em aberto. Esse é meu ponto. Mas, se a era de Aquário está mesmo começando agora, é possível que seus representantes estejam mais inclinados a dar um fim nessa história de ficar esperando o Reino dos Céus; talvez considerem o tal amor incondicional uma conversa mole para entorpecer as massas com esplêndidas e infundadas esperanças. Como Prometeu, esses novos arautos serão filhos rebeldes dos deuses, com um intelecto fortalecido e voltado para a emancipação humana, não criaturas dóceis de afetos delicados que vão se deixar abater por dúvidas e inseguranças sentimentais. Serão contra qualquer tipo de autoridade, e talvez já tenham feito dispersar mesmo os apóstolos que começaram a acreditar em tudo o que dizem como se fosse a revelação da palavra divina. Talvez nem sejam pessoas humanas, mas uma outra forma de inteligência, vinda de outra galáxia, fazendo-se passar por um de nós, pelo menos até a gente começar a acostumar com as ideias incomuns e dádivas extraordinárias que trouxeram para nós.

Em se tratando de Aquário, afinal, as maiores chances são de que algo muito diferente do que imaginamos venha um dia a ser identificado como esse evento transformador. Talvez não tenhamos condições agora de entender exatamente o quê, por mais que o fato esteja se passando ao nosso lado. Somos um pouco como o camponês em “Paisagem com Queda de Ícaro”, a pintura de Pieter Brueghel descrita em um poema de W. H. Auden. Reparem que, por mais que um episódio de ressonância mítica seja o tema da tela, ele segue seu trabalho de maneira impassível, assim como o “delicado barco de luxo que devia ter visto / algo surpreendente, um rapaz caindo do céu / precisava ir a alguma parte e continuou calmamente a velejar” (na tradução de José Paulo Paes).

Pois bem. Ícaros talvez estejam caindo do céu e mártires talvez estejam nascendo ao nosso redor nesse exato momento. Mas é bem possível que a gente na verdade precise ser um pouco mais como o camponês de Brueghel e o navio de Auden nesse momento. Forçar a vista em busca de evidência de que uma nova era ou mesmo um ano novo muito diferente anterior estão se aproximando pode nos deixar cegos para as necessidades mais imediatas do leme ou da lavoura. Não vamos mudar as estações de ano por decreto, elas tampouco se alternam de um dia para o outro, a não ser em nossos calendários e folhinhas que num só puxão fazem um dia substituir o outro. A essa altura, e gente aprendeu que não é assim que as coisas acontecem.

“Calma. Só aos poucos é que o escuro fica claro”, escreveu Guimarães Rosa. Também de Rosa: “Quando nada acontece, há um milagre que não estamos vendo”. Vai ver que os milagres são tímidos, a ponto de se retraírem quando tentamos expô-los à força, ou quando ficamos tempo demais na moita encarando uma paisagem, à espera de surpreendê-los. Ainda assim, nada impede que sigamos observando o amanhecer pela janela, não com a expectativa de que ele vá acontecer de uma só vez e de repente, mas sabendo que ele não deixa de ser milagroso só porque acontece todos os dias, de um modo sempre meio casual e previsível. A próxima virada do ano tampouco trará esse momento de iluminação que tanto aguardamos, mas respire, mantenha a calma, continue tocando o barco, e perceba. Pode ser que já tenha uma luzinha aparecendo ali por trás da montanha. Daqui a pouco aparece outra. Um tom diferente de azul, pelo menos. Depois fica mais claro acolá. Sim, é assim que o dia amanhece.

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Bons ventos

[Desenho: Bia Callegari]

Os arquétipos astrológicos contam muitas histórias, e uma delas é a que se narra a partir da sucessão dos signos fixos no zodíaco. Ela começa com a energia impessoal de Touro: força de sustentação dos ciclos da natureza, feita de momentos de esforço consistente e descanso merecido, onde acontecem as renovações regulares com as quais o corpo se confunde com cosmos. Touro é aquilo que garante o crescer e o florescer periódico das plantas, e aceita com dignidade seu perecimento, porque entende que ali já está contida a semente de um reinício. Touro é a constância da vida e da morte, repetindo-se indefinidamente. Não estamos falando necessariamente de uma vida ou de uma morte quando falamos de Touro.

Uma vida acontece quando um eu se isola e se reconhece nesse processo. A esse eu chamamos também de Sol, que resplandece em sua permanente juventude, independente de tudo e ao mesmo tempo centro de todas as coisas. Um centro. A energia que emana do Sol é a energia que emana de Leão, cuja vitalidade desconhece os ciclos do tempo orgânico e terreno, e se esbanja no derramar-se inesgotável do verão como se não houvesse amanhã. Porém sabemos que há, por mais distante que possa ser. Sabemos que o inverno há de vir e que o próprio Sol um dia vai acabar, porque sua vida é um evento no universo, ou melhor, um evento do universo, como todos nós somos. Algo que se destaca a ganha existência própria apenas por um instante, ainda que nesse instante exista algo de eterno – como as estrelas que brilham no céu noturno mesmo depois de terem se apagado.

De modo que a verdadeira consciência da finitude do corpo e da noite da alma se dá no âmbito de Escorpião. Essa consciência por si mesma causa transformações que não estavam no roteiro leonino. Escorpião é a descoberta de uma fissura, uma feiura, uma falha, na superfície brilhante de si enquanto Sol, e a prospecção das profundidades ocultas que agora pedem para ser integradas à personalidade. Esse processo exige a morte do eu que havia antes. Uma morte. Ela se dá em uma catarse, em uma espécie de gozo, que significa a dispersão de energias longamente represadas. Em Escorpião acontece o encerramento abrupto de uma história que por muito tempo se demorou nesse fim – e quando ele chega nunca é simples ou fácil, mas é sempre uma forma explosiva de cura e de libertação.

Enfim, atravessada a crise, a força dos fixos torna-se novamente impessoal, porém agora não mais atrelada aos ritmos do corpo, que já foi delimitado, dilacerado e curado. Aquário é a luz que brilha quando todas essas energias se dissipam no céu, como se fossem vento; é a matéria que se deixa e dissolver e espalhar quando atinge a perfeição provisória do círculo; é a libertação dos limites da forma, com a consciência do espaço ilimitado. Aquário percebe que todos os sóis do universo coabitam um mesmo espaço, e nele nascem e nele morrem nos mais diferentes formatos e tamanhos, sendo que juntos formam uma rede de sóis interligados onde todos brilham juntos e nenhum deles está no centro.

Júpiter acabou de ingressar em Aquário, onde vai permanecer por cerca de um ano; Saturno já está lá há alguns dias, e fica durante dois anos e alguns meses; em 2023, Plutão chega para uma estadia de mais de uma década. Cada vez mais essas energias tão terrenas ou telúricas vão ganhar ares aquarianos, e a capacidade de disseminar-se em todos os recantos do cosmos sem ter origem em nenhum deles especificamente. Que esses bons ventos nos levem.

sagitário

Da natureza dos tebetês

Fenômenos da internet costumam ser intrigantes. Isso de postar fotos antigas na quinta-feira, por exemplo. Por que logo na quinta-feira, um dia tão expansivo, orientado para o futuro, sagitariano? Por que rememorar o passado justamente quando nossos olhos estão voltados para a frente e para o fim de semana? Não faria mais sentido fazer isso às segundas, o dia da Lua, moon day, regente de Câncer e de nossa memória afetiva? E por que essa sacanagem de terem enfileirado os dias da semana em uma monótona sequência numérica (segunda, terça, quarta etc.), quando em tantas outras línguas essa lista faz referência aos planetas e aos mitos associados a eles?

A propósito, Jueves, quinta-feira em espanhol, se refere a Jove, o outro nome romano de Júpiter e de seu equivalente grego Zeus – um deus farrista e que tinha muitos atributos em excesso, mas com certeza não o saudosismo. Thursday é Thor’s day, dia de Thor, o jupiteriano deus nórdico do trovão e do relâmpago, que onde aparecesse chegava chegando e bagunçando a zorra toda, que nem a Ludmilla (a Ludmilla, aliás, tem Júpiter em Sagitário, descobri no astrotheme). Já a quinta-feira do calendário Hindu é Brhaspativaar, ou Guruvaar, sendo que Bhrspatti é Júpiter, o planeta, e também o Senhor do Discurso Sagrado, preceptor dos deuses, conhecedor de basicamente tudo, também famoso como GURU, O CARA. Mais uma vez: por que Throw Back Thursday e não Here We Go Thursday, ou Fuck This Shit Thursday, ou Metendo as Cara e Chutando os Balde Thursday? Porque o arquétipo de Sagitário se encontra tão sub-representado em uma das práticas internéticas mais características do dia que dedicaram ao seu regente?

Bom, tenho duas hipóteses. A primeira é a teoria da compensação dos opostos, segundo a qual o mesmo mecanismo que criou a menos popular Motivation Monday (para distribuir ânimo e esperança no dia em que estes atributos estão mais escassos) teria criado o TBT. Mas nesse sentido estaríamos supondo que a quinta-feira é por natureza um dia tão carregado de expectativas, tão palpitante de possiblidades, que teria sido necessário equilibrá-la com certa nostalgia. Mas acho que não chega a tanto: nem o otimismo das quintas é tão certo, nem a melancolia é parte intrínseca das postagens repetidas. Às vezes elas parecem ter o efeito inverso mesmo. Daí minha segunda especulação.

Porque, não sei se vocês já notaram, mas tem dias que o TBT parece ter sido criado para Sagitário esbanjar as viagens que já fez pelo mundo. E mesmo quem não é sagitariano acaba sendo um pouco na hora de repostar o registro daquele mochilão pelo sudeste asiático.  Esse é um ponto importante: se existe uma relação entre a viagem e o tebetê, existe uma relação entre o tebetê e Sagitário. Porém, especificamente nesses casos, a rememoração de andanças e experiências não me parece motivada pela sensação de uma falta, de uma carência, como acontece com a memória no âmbito canceriano e lunar. Não vejo ninguém nessas horas dilacerado pela saudade do Timbuktu, e a razão é simples: o Timbuktu, arquetipicamente falando, não está nas nossas origens, muito pelo contrário. Ele é justamente um símbolo daquilo que extrapolou nossas origens; ele foi um de nossos destinos.

O TBT é sagitariano, portanto, mas não tem nada a ver com saudade. É sobre a infusão de ânimo que oferecem aquelas memórias de algo que expandiu o horizonte de nossas experiências e a narrativa da nossa vida, desfazendo os limites e fronteiras aos quais parecíamos restringidos em nossa terra natal, por nossa herança familiar ou situação financeira. Mesmo quem não tem o passaporte todo carimbado vai identificar lembranças desse tipo: “TBT do dia em que passei pra universidade federal”, por exemplo, se encaixa nesse registro, assim como “lembrança daquele dia lindo em que lancei meu primeiro livro de poesia”. A pessoa não está lamentando o fato de que esse dia não volta mais; está celebrando o fato de que ele aconteceu, e de que desde então sua trajetória no mundo esteve carimbada por essa entrada em uma terra estrangeira, que a partir daí ela passou a conhecer e desbravar.

Concluo que as rotinas da internet parecem antes reforçar o espírito dos dias do que servir como antídoto para suas inclinações. As mensagens motivacionais de segunda-feira só aumentam a falta de paciência para começar a semana, enquanto a nostalgia tebetista tem sua origem no relativo entusiasmo quinta-feiriano, e o retroalimenta. Por outro lado, em qualquer outro dia que não estivesse reservado especificamente para esse fim, ficar postando coisas antigas pareceria sim uma atitude de lamento diante da perda. Ninguém ia aguentar, por exemplo, se em plena segunda todo mundo entrasse na ladainha de que minha terra tem palmeiras onde canta o sabiá e as aves que aqui gorjeiam não gorjeiam como lá. Enquanto na quinta-feira, ninguém vai achar que você está particularmente em estado de banzo simplesmente porque a imagem que você recuperou está um pouco desbotada. As lembranças de quinta não são as lembranças do que se perdeu, e sim a presença do que foi acrescentado.

Em resumo: o TBT não é sobre o lugar de onde partimos, mas sobre um lugar onde um dia chegamos. Tem um efeito estimulante, no sentido de reacender a chama que nos levou a cruzar aqueles mares e arriscar aquele curso, aquela publicação, aquela jornada. A foto aí de cima, por exemplo, é de uma viagem que fiz para Lisboa, Barcelona e Londres com meu filho mais velho. Quando olho para ela hoje, o sentimento não é de maneira alguma melancólico, mas de expectativa pelas viagens que estão por vir, pelos lugares que ainda vou conhecer, pelos conhecimentos que ainda vou conquistar. Não sei exatamente o que aconteceu naquele dia em Portugal, quando tiramos esse retrato. Às vezes parece que o momento em que registramos essa imagem ainda nos aguarda, que ele ainda vai chegar, e que ainda precisamos nos mover para chegar (de novo) até ele.

Dizem que toda imagem vem acompanhada de uma espécie de rótulo com o qual o cérebro de imediato a classifica em um registro temporal. O dejà vu, por exemplo, seria a consequência de um erro desse mecanismo, quando uma cena vista no presente recebe o rótulo de “lembrança”, e gera um pequeno curto-circuito na linearidade com que tentamos organizar os fatos. Estes pequenos embaraços e desconcertos à nossa consciência do tempo são bem-vindos, e o TBT é um deles. Trata-se de uma lembrança cujo desenterrar em um dia específico da semana traz consigo o rótulo de um futuro possível. É como se estivéssemos recordando coisas fantásticas que ainda vão nos acontecer.

astros

A época das transformações

“Tenho 36”. A fala encerra Frankie and Johnny, uma peça de Terrence McNally adaptada para o cinema em uma produção de 1991 com Michelle Pfeiffer e Al Pacino. O número faz referência à idade da personagem de Pfeiffer, e preciso de umas pinceladas de contexto para justificar a citação. O dia está nascendo lá fora; eles estão no apartamento dela, onde passaram a noite discutindo e brigando; junto com o nascer do sol surge um momento de conciliação, que aparece por si mesmo, seguindo os ritmos da vida e dos relacionamentos em seus turbulentos inícios. Trata-se de uma comédia romântica, afinal. Clair de Lune, de Debussy, está tocando no rádio. Ela pergunta, “pro que der e vier?”, e ele responde, “pro que der e vier”. Ela: “Tenho 36”.

Dá para imaginar que é um momento feliz no filme. Porém, seria mais adequado caracterizá-lo como um momento de paz e tranquilidade, seguindo a sugestão da trilha sonora. Há também um toque agridoce de melancolia, que está tanto na música como na paleta de cores do amanhecer, e não retira do instante seu frescor, porém lhe confere indícios de maturidade. Ela tem trinta e seis anos, portanto: já não é exatamente uma garota, viveu perdas e desilusões. Sabe como os sonhos de sua juventude estavam em desacordo com a realidade, e provavelmente decidiu viver a realidade mesmo assim, mas tem horas que dá vontade de desistir de tudo: dos sonhos, da vida, da realidade. É isso que ela quase faz quando percebe algumas condições da história de amor que está começando. Quase.

Astrologicamente, estamos falando de alguém que, mesmo em meio ao entusiasmo do começo de uma paixão, acabou de viver um desafio saturnino. Acontece com todo mundo: após a crise que chega pouco antes dos trinta, Saturno dá as caras mais uma vez cerca de sete anos depois, em uma quadratura que põe à prova o que foi conquistado antes em termos de compreensão de si e do mundo. Desse ponto de vista, há de fato um potencial recomeço, ou pelo menos a chance de uma renovação dos votos de confiança que a vida e o real às vezes exigem nessa época, seja em nossas experiências afetivas, seja em nossas experiências familiares, seja em nossas trajetórias profissionais. O filme trata um pouco disso.

No entanto, queria falar hoje sobre o que vem a seguir. Queria falar sobre o que acontece depois do fim desse filme. Pois, sendo uma comédia romântica de matizes realistas e amadurecidos, ela termina com uma versão um pouco diferente do “e foram felizes para sempre” da fábula; algo como “e foram felizes na medida do possível”, ou “e foram razoavelmente felizes por um bom tempo”, ou “e ficaram felizes por uns dias e depois voltaram a brigar por causa de outro assunto, e aí resolveram esse assunto também, mas aí ele ficou emprego, a mãe dela ficou muito doente, eles perderam um bebê, e ficou difícil ser feliz de novo”. De um jeito ou de outro, está claro que o momento de paz e tranquilidade que presenciamos foi apenas um momento – e que logo as coisas vão ficar complicadas novamente.

É sobre isso que eu quero falar: sobre como as coisas sempre ficam complicadas novamente, inclusive mais complicadas do que eram antes. Até porque essa percepção dá um novo tipo de valor aos momentos em que tudo se simplifica e alcança uma síntese evidente e provisória (em uma decisão, em uma canção, em um gesto). Para desenvolver esse ponto, em se tratando de movimentos planetários, não basta termos os trânsitos de Saturno como referência, pois, pasmem, Saturno não complica as coisas o suficiente: está entre os chamados “planetas sociais”, que regem a relação entre indivíduo e sociedade, e não alcançam nem os territórios mais obscuros da psique nem as vastidões menos exploradas do cosmos. É aí que entram Urano, Netuno e Plutão, justamente os planetas com que nos acostumamos a conviver dos 36 anos em diante.

Tenho 41. Gosto de observar como esses planetas se manifestam nas leituras que faço. Uma das razões pelas quais eles se tornaram importantes para mim é bastante previsível: seus trânsitos foram muito perceptíveis na minha trajetória individual. Até certa idade, eu estava de fato aprendendo a manejar habilidades e limitações mais diretamente associados aos planetas pessoais e sociais (com ênfase, é claro, para o retorno de Saturno e seus desdobramentos). Então veio o retorno do Nodo Norte, que já era uma novidade, sobre a qual escrevi nessa outra postagem; mas foi na sequência, durante os trinta e tantos e depois, que uma sucessão de trânsitos regulares (aqueles que todos nós vivemos mais ou menos na mesma idade) se mostraram capazes de abalar de maneira mais decisiva e transformadora minha forma de entender e agir no mundo.

Supõe-se que as conquistas de um retorno de Saturno bem vivenciado – com suas crises, rupturas e mudanças de rumo – a essa altura estarão consolidadas, para que você consiga enfrentar esses outros desafios em diferentes recortes da existência. E é verdade, é um pouco assim mesmo que acontece, como se você tivesse passado de fase na vida, contando com mais força e mais recursos, mas também podendo aguardar novas pelejas. Por outro lado, seria um equívoco tratar esses obstáculos apenas como “maiores” que os anteriores – eles são de outra natureza, e não aceitam as mesmas soluções que encontramos antes. Redefinem mais do que imaginamos existir para ser redefinido, desconstruindo crenças e certezas que nós nem sabíamos que estavam lá.

Já escrevi uma postagem específica sobre a quadratura de Plutão, que ocorre nessa época. Tenho ascendente em Escorpião, e considero Plutão meu regente, daí o interesse específico nesse trânsito. Os outros são a quadratura de Netuno e a oposição de Urano. Dependendo do seu mapa, um deles pode se tornar mais relevante, e é possível e provável também que você seja apresentado em diferentes momentos da vida às exigências desses “deuses de transformação”, para usar uma expressão de Howard Sasportas; há quem chegue aos 30 já bastante escolado em suas angústias e reviravoltas. Mas, como já dei a entender, não pretendo me estender aqui nas repercussões isoladas ou individuais de Urano, Netuno e Plutão, e sim nas implicações de aparecerem um atrás do outro durante uma época específica e alargada da vida de todos nós.

Em tempo: essa é uma época particularmente fértil para o trabalho psicanalítico ou outras formas de terapia. Isso me faz lembrar uma frase de Carl Jung, segundo a qual até os 40 anos o que vivemos é a “luta pela sobrevivência”: só depois de encerrar esse ciclo estamos em condições de saber quem realmente somos, o que realmente queremos, e quais arquétipos estamos destinados a encenar de maneira genuína em nossas vidas. Entendam esse número de maneira abrangente, considerando que o processo pode se estender ate os quarenta a poucos, e você tem uma consonância nem um pouco surpreendente entre conclusões da astrologia psicológica e do pensamento junguiano. Num caso como no outro, o ponto de partida é a sensação de terra arrasada que enfrentamos diante de alguns desses terremotos da meia-idade, em que forças além do nosso controle e da nossa consciência entram em ação de um modo inesperado, e precisamente quando, segundo padrões e expectativas sociais, deveríamos enfim “estar no controle” das nossas vidas e “conscientes” do que somos e queremos. Aliás, esse foi o período da vida Jung em que, após entrar em confronto aberto com Freud – algo que seria determinante em sua trajetória -, ele passou pelas crises e transformações registradas no chamado Livro Vermelho, uma obra de caráter diarístico e autobiográfico, pouco compreensível teoricamente ou como guia para o trabalho psicológico, mas repleta de alusões a uma intensa metamorfose pela qual estaria passando seu autor.

Talvez, então, a luta pela sobrevivência termine não por causa da garantia da sobrevivência, e sim pela experiência da mortalidade, que muitas vezes aparece para nós em trânsitos plutônicos; e descobrir quem realmente somos seja antes consequência do desengano do que motivo de entusiasmo, tal como sentimos diante de algumas manifestações de Netuno. Mas não digo isso para desanimar ninguém, porque após esses solavancos sempre conhecemos algum tipo de serenidade ou segurança ou alegria que desconhecíamos antes, e eles na verdade abrem espaço para novidades onde víamos um futuro já definido. Ou seja: sobre a terra revirada pela passagem dos planetas transpessoais, é possível plantar novas sementes cujos frutos até então sequer sabíamos existir, e muito menos esperávamos saborear.

Esse resultado depende de certa aquiescência, embora ela não necessariamente aconteça sem luta. Posso falar do “meu” Sol em Capricórnio, do “meu” ascendente em Escorpião, da “minha” Vênus em Sagitário e talvez até do “meu” Saturno em Virgem, mas quando se trata de Urano, Netuno e Plutão, sinto que sou eu que sou deles, não o contrário. Tal sensação compromete talvez mais do que gostaria meu senso de autonomia e individualidade, mas apenas num primeiro momento; num segundo, sinto que a própria lógica de separação entre uma parte do cosmos que é minha e outra qual pertenço está equivocada, e que sou uma manifestação singular dele inteiro – uma manifestação que posso conhecer melhor através destes símbolos.

Os planetas transpessoais, portanto, me parecem servir ao autoconhecimento tanto quanto os outros. Mas, nesse caso, algo maior que meu ego está conhecendo a si mesmo. Por outro lado, acho difícil que esses astros e as energias que eles representam venham a ser tornar realmente conhecidos por nós tão cedo; no máximo, ganhamos alguma intimidade com eles, mas ainda assim eles vão preservar algo de intimidador. Eles desorganizam muita coisa que estava pretensamente dominado por uma razão apenas pretensamente amadurecida; e tudo o que trazem é relativamente novo, tanto para a astrologia quanto para humanidade, que só veio a conhecê-los e investigá-los a partir do final do século XVIII.

De modo que me parecem fundamentais à prática astrológica exatamente por serem pouco compreendidos, ao mesmo tempo em que sua ação estranha ou inesperada tem o poder de colocar em cheque nossas crenças e convicções. Aqui peço licença para uma breve digressão ilustrativa, pois dá para explicar melhor esse ponto recorrendo à história de Johannes Kepler, o jovem astrólogo e astrônomo que, no final do século XVI, após muito trabalho, esforço e tentativas frustradas, acreditou ter descoberto a estrutura geométrica do universo. Marcelo Gleiser faz uma relato completo desse processo em Criação Imperfeita: cosmo, vida e o código oculto da natureza. Segundo Gleiser, ao observar as distâncias entre os planetas – Mercúrio, Vênus, Terra, Marte, Júpiter e Saturno –, Kepler concluiu enfim que elas podiam ser explicadas com um modelo baseado nos cinco sólidos perfeitos, os chamados sólidos platônicos: cubo, pirâmide, octaedro, dodecaedro e icosaedro. Encaixados um dentro do outro, como em uma boneca russa, faziam com que as esferas imaginárias situadas entre os sólidos correspondessem com exatidão às distâncias entre as órbitas dos planetas, e dos planetas em relação ao Sol.

A coisa toda parecia fazer muito sentido. Mas as coisas eram mais complicadas do que ele imaginava. Pois, com o tempo, após a morte de Kepler, outros planetas foram sendo identificados: Netuno, Urano, Plutão. E suas posições e movimentos nem de longe se encaixavam no modelo kepleriano, ou em alguma versão alternativa dele. Cada vez mais, nenhuma ordem, nenhuma razão pareciam dar forma sequer ao restrito aglomerado de esferas que nossos telescópios alcançavam. E mais ainda: muitos outros aglomerados, incontáveis outros sistemas foram sendo localizados nos observatórios, em uma estonteante proliferação de pontos de luz rodeados por parceiros de diferentes tamanhos, trajetórias e composições, talvez vinculados por forças obscuras e secretas, mas sem qualquer lógica que lhes determinasse a tessitura.

Kepler, vale ressaltar, afirmou ter encontrado a solução para a ordem subjacente às posições planetárias com uma epifania, que lhe teria ocorrido durante uma aula na qual demonstrava a conjunção periódica de Júpiter e Saturno no zodíaco. Na época esses eram os dois grandes protagonistas astrológicos – tendo sido apontados inclusive como símbolos para o nascimento ao anticristo –, e parece natural que Kepler os tenha envolvido na história da publicação do Mysterium Cosmographicum, o livro no qual expunha sua descoberta. Depois, ele viria a ser celebrizado como um dos primeiros cientistas a reforçar o modelo copernicano, e por ter exposto o movimento elíptico das órbitas planetárias, quando ainda se acreditava que eram circulares. Mas, como disse, a perfeita simetria que ele havia identificado na configuração do sistema solar era o resultado de uma visão provisória e fragmentada do universo, que depois seria redefinida pelo avanço das técnicas de prospecção espacial.

Em resumo: as coisas são sempre mais complicadas que a gente imagina. A astrologia, a meu ver está aí para referendar essa afirmativa, e não o contrário. Lembro-me então de uma entrevista com o diretor teatral Peter Brook em que ele dizia que “Deus é o desconcerto das consciências humanas”. A astrologia pode não trabalhar com a ideia de um único Deus, mas certamente aciona símbolos e ideias que se assemelham a deuses e deusas, sendo que no caso dos planetas transpessoais estamos sem dúvida diante de potências desconcertantes, poderosas e enigmáticas, que foram capazes de desmontar logo de saída um dos mais engenhosos e harmônicos sistemas astronômicos de que se tem notícia.

Mas acredito também que temos não apenas a necessidade, como também uma oportunidade valiosa de de contar com companhia de figuras tão ilustres em nossa jornada, durante o período que vai dos trinta e tantos até os quarenta e poucos. Sim, eu sei, na hora que o bicho pega dá vontade de mandar tais figuras ilustres para os infernos de onde vieram. Acontece que, se você sente que quer voltar no tempo, é exatamente porque o tempo passou, e você já percebeu que a realidade não se encaixa em seus esquemas. Então o melhor que você tem a fazer é mesmo aceitar e receber bem essas divindades, abrindo espaço na casa para que elas se acomodem, por maior que seja o transtorno que a princípio possam causar.

Agora, uma última observação. Nada disso refuta a paz e tranquilidade que podemos sentir, por exemplo, ao ouvir uma interpretação de Clair de Lune de Debussy sendo dedilhada no piano ao longe, ou percebendo bem dentro de nós uma fonte da mais serena convicção de que as coisas no final das contas são simples, muito simples, por mais que a gente insista em complicá-las. É uma percepção que pode surgir a qualquer momento da vida, independente da idade, e creio que ela será igualmente correta em todas as suas manifestações, em todos os lugares e pessoas. Talvez o próprio Kepler tenha sentido algo semelhante, por exemplo enquanto tentava compreender a distância entre o Sol e a Terra, e percebendo de repente que não havia distância alguma, porque a luz que ele usava para suas medições era a presença imediata do próprio Sol.

Enfim, por mais complexas que sejam as coisas, desde cedo a gente não apenas entende como também sente que é tudo uma coisa só. O que a gente aprende com o tempo é que esses momentos especiais são momentos, e que exatamente por isso são tão preciosos. Eles emergem entre uma época de complicações e outra, sem nunca criar as bases para um permanente estado de beatitude, que tampouco será alcançado com a maturidade ou o envelhecimento, mas com a forte implicação de que por trás de tudo existe uma canção sendo tocada pelas cordas do cosmos, simples o bastante para resumir tudo em poucas e pausadas notas. Que venham, portanto, os planetas e seus trânsitos e avacalhações dos esquemas que montamos para dar conta da existência: serão bem-vindos nesse sentido. Mas saibamos também que às vezes tudo se resume mesmo à luz da lua e a Debussy, a uma frase serena ou a uma sensação de pertencimento ao mundo e aos cosmos, porque às vezes isso é tudo o que precisamos saber.

touro

Sem esperança nem desespero

O cambista (1627) | Rembrandt

Existem diferentes caminhos para falar do zodíaco a partir da obra de William Shakespeare. A gente pode até brincar de separar as peças dele por signo, tamanha é a riqueza de suas tramas e a diversidade de seus personagens. Sonho de uma Noite de Verão, por exemplo, é uma peça pisciana; Hamlet tem alguma coisa de Sagitário, o Próspero de A Tempestade lembra Capricórnio, algumas comédias são bem librianas, e outras participam do arquétipo de Gêmeos. É claro que cada texto deve ter lá seu mapa com todas as nuances possíveis, e eu diria que Rei Lear, por exemplo, deve ter o Sol em Leão na casa 12, em quadratura com um Marte em Escorpião na 09 e talvez Vênus e Urano conjuntos sobre o Ascendente. Mas quando vamos falar do próprio autor não há como fugir do fato histórico fundamental com que nos deparamos em uma simples conferência na Wikipedia. Shakespeare era de Touro.

Tenho que confessar que isso é para mim motivo de um leve desconcerto. Shakespeare foi um autor que conseguiu transitar por diferentes modos narrativos, parecia mudar de ideia toda hora em suas visões de mundo e da humanidade, e tampouco nos legou um conjunto consistente de proposições a respeito do que quer que seja. Touro, por sua vez, não é conhecido por sua flexibilidade, costuma manter-se firme em um ponto de vista, e tem na constância uma de suas grandes virtudes. Um autor taurino que não surpreende por ser taurino, por exemplo, é o israelense Amós Oz. Afinal, por mais inteligente e talentoso que seja, Oz parece ter escrito basicamente o mesmo romance de umas dez maneiras diferentes. O pragmatismo pacifista e o bom senso com que ele sustenta suas posições políticas só reforçam esse ponto.

Já no caso do dramaturgo inglês, estamos diante de um aparente paradoxo. Sua obra artística é o contrário da insistência em um conjunto reduzido de temas e tipos, e não me lembro de qualquer característica evidente que remeta àquela predisposição ao monótono. Uma solução para o impasse é simplesmente dizer que a astrologia não tem fundamento algum, que esse negócio de signo não existe, por isso a discrepância; outra resposta é afirmar que a astrologia vai muito além do signo solar. Como não estou contente com nenhuma das duas, cabe-me defender a causa da taurinice shakespeariana.

De modo que vocês podem ficar tranquilos: não vou apelar para casas ou quadraturas ou asteroides para explicar a obra de Shakespeare por critérios astrológicos. Talvez fizesse isso em outro contexto, mas neste proponho-me a tarefa mais difícil de reduzi-la à expressão do um único arquétipo, ao invés de recorrer a um conjunto maior de planetas e pontos de seu mapa. A propósito, existe um asteroide chamado Shakespeare, o número 2985 segundo a Nasa, de modo que todo mundo tem Shakespeare no mapa. Em último caso, poderíamos até falar de Shakespeare a partir do Shakespeare de Shakespeare (em Aquário). No entanto, o procedimento nos enredaria num buraco de minhoca astrológico do qual não sairíamos sem graves sequelas para a tessitura do espaço-tempo.

Ficamos com a questão do signo solar, portanto. O primeiro problema que se apresenta é de como um taurino pôde escrever peças tão diferentes entre si e ter sido tão igualmente sensacional na comédia e na tragédia. A resposta mais imediata seria: para ganhar dinheiro. Este diagnóstico crítico seria consequência de uma abominável caricatura de Touro, mas eu não o descartaria de imediato. Shakespeare, de fato, ganhou muito dinheiro com as peças que escreveu. O historiador Stephen Greenblatt calcula que no fim da vida ele possuía investimentos suficientes para se aposentar na condição de cavalheiro, e inclusive identifica em diferentes momentos da obra shakespeariana os ecos de um “sonho de reabilitação”, financeira e social, que remeteriam sempre o episódio da falência de seu pai, um comerciante de luvas e objetos de couro cuja derrocada deixou a família no vermelho por logos anos.

Greenblatt argumenta que as necessidades materiais foram um forte estímulo para que Shakespeare estudasse o mercado teatral para obter êxitos de público com suas peças. Nesse sentido, e curiosamente, ele seria séculos depois ecoado por Anton Tchekhov, um autor russo que ganhou dinheiro com seus contos e sustentou a família com suas peças, tendo praticado a medicina por hobby durante boa parte da vida. Mas Tchekhov era aquariano, e não serve como referência comparativa nas demais questões que levantamos.  Quem também era taurino e ganhou uma grana com literatura foi o francês Honoré de Balzac – que, aliás, escreveu um dos parágrafos mais sensacionais sobre comida da história da literatura mundial.

Estou me referindo à descrição do restaurante Flicoteaux, no início da segunda parte de As Ilusões Perdidas, um romance inigualável quando se trata da representação dos perrengues amorosos, financeiros e culinários de um jovem interiorano em Paris. Seu protagonista, Lucien de Rubempré, está sempre endividado, enrolado e atarantado com as exigências materiais impostas à vida de um cavalheiro nos círculos elegantes onde transita. Às vezes, está faminto também, e por isso vai sorrateiramente ao Flicoteaux. Lá, tal como anunciado no boca-a-boca dos estudantes, os cartazes prometem e os garçons entregam refeições bem servidas, sem comedimento no tamanho dos potes de molhos e das cestas de pães, ainda que com zelo comedido no que se refere à qualidade dos ingredientes (ao contrário do que acontece em tantos bistrôs de Paris), fazendo de simples e pura quantidade o grande atrativo do lendário muquifo balzaquiano.

Mas Balzac não ficou só na representação dos insucessos deste ou daquele rapaz ambicioso. Estamos, mais uma vez, diante de um escritor taurino cujo espectro de representações da experiência humana atinge extremos bem distanciados, tanto em suas diferentes obras como também em questão de alguns minutos ou poucas páginas de um mesmo livro, nos quais vamos com frequência do sucesso à derrocada e da derrocada para a humilhação e da humilhação para a sorte grande, numa espécie de montanha russa que não parece ter nenhuma regularidade. Cabe observar, por outro lado, que, quando Balzac optou por dar um nome ao conjunto da grande maioria de seus escritos, esse nome foi A Comédia Humana. Portanto, creio eu, é no cômico que devemos buscar o pano de fundo sobre o qual se dão as intensas variações de humor, enredo e fortuna dos personagens de Balzac; ele é o que parece permanecer, apesar de todas as mudanças verificadas.

Vou argumentar que com Shakespeare acontece algo semelhante. Mas antes é preciso enfatizar que a comédia (e o modo cômico de ver o mundo) não tem necessariamente como ponto de partida uma inclinação para o riso e para a hilaridade. Ela pode surgir também de um bom e sólido commom sense, ou seja, uma segurança íntima e inalienável quanto à ação mais sensata em uma determinada situação, tão forte que parece decorrer não apenas de um conhecimento de códigos sociais, mas de um contato silencioso com própria natureza e seus ritmos permanentes. Isso quem tem é Touro, e sobre esse lado mais misterioso do arquétipo já escrevi com mais delongas em outra postagem (essa aqui). O ponto agora é que, embora a comédia seja assunto do âmbito do eixo Gêmeos-Sagitário, é em Touro que ela encontra sua base. É a partir dali que se expande em direção ao infinito.

Dante Alighieri, por exemplo, era geminiano. A gente supõe que ele escreveu a Divina Comédia com base no fato de que existe algo de engraçado no fato das pessoas serem condenadas a todo tipo de sofrimento no Inferno, e para Gêmeos isso pode mesmo fazer sentido. Porém, segundo o crítico Erich Auerbach, Dante não apenas foi responsável pela primeira grande obra em língua vulgar na tradição literária europeia, como também teve sua sensibilidade moldada pela cultura popular da época imediatamente anterior, quando os chamados mistérios medievais davam corpo às histórias bíblicas, trazendo-as para o cotidiano mais simples de camponeses e artesãos. Em uma análise na mesma linha, Auerbach afirma que Dante seria inimaginável sem a existência prévia de um São Francisco de Assis, líder do mais conhecido movimento de back to basics da doutrina cristã, cujo signo não sei, mas que, em suas relações imediatas com o mundo natural e o planeta Terra, foi sem dúvida alguma o mais taurino de todos os santos.

O que quero pontuar aqui é que aquele bom e velho senso comum presume certa simplicidade para servir como fundamento de uma visão cômico-cósmica da existência. Indispensável para conseguirmos ver o mundo como uma nau de loucos, ele não é exatamente o decoro das classes médias letradas e seus manuais de etiqueta, mas a convicção do trabalhador de que a vida não precisa ser mais do que um emprego honesto e um bom prato de comida, ou a certeza do camponês de que há o tempo da colheita e o tempo da semeadura. A partir daí, todo o resto é motivo de riso. A obra de Shakespeare está repleta de passagens nesse sentido, passagens tipicamente tauríneas, como no famoso diálogo entre os dois coveiros que preparam tumba de Ofélia. Fico com a impressão de que, se for para encontrar uma unidade na imensa variedade de suas peças, esse seria um bom caminho.

Stephen Greenblatt parece concordar comigo. Ele termina seu Will in the World (intitulado no Brasil Como Shakespeare se tornou Shakespeare, pela Cia. das Letras) com um capítulo chamado “O triunfo do cotidiano”, onde afirma que “Shakespare foi fascinado por ambientações exóticas, culturas arcaicas e personagens transcendentes, porém sua imaginação estava intimamente ligada ao familiar e ao íntimo. Ou melhor, ele adorava revelar a presença do comum em meio ao extraordinário (…) A imaginação de Shakespeare nunca adentrou os salões da metafísica, fechando as portas ao corriqueiro”. Ou seja, mesmo em seus voos mais altos ele nunca abandonou uma postura pé-no-chão, capaz de perceber o risível em quem anda com a cabeça nas nuvens, e trazer de volta à Terra aquele que se acreditaram ultrapassar os limites deste mundo.

Ao mesmo tempo, Greenblatt dá a entender durante todo o livro (ele mesmo feito de nuances e variações ensaísticas) que seu objeto de estudos nunca deixou de ser o filho do luveiro falido, que buscou no teatro não somente um de veículo para seus talentos artísticos, mas também um meio de vida, que tornasse possível fazê-lo recuperar a estabilidade perdida na juventude. É aqui que o arquétipo e o estereótipo de Touro se encontram. Pois acredito que, por um lado, a dedicação ao trabalho e a produtividade de Shakespeare no ofício da dramaturgia implicam aquela intimidade com os ritmos da natureza, e que suas incontáveis variações de estilo e de tema só foram possíveis por causa de uma cadência criativa permanente, cujas oscilações e preguiças ele sabia respeitar como só os taurinos sabem. Por outro lado, esse é justamente o ritmo de trabalho que o mantém a salvo das intensas flutuações da fortuna, uma necessidade para quem precisa entregar o trabalho no prazo e garantir o ganha-pão.

Lembro então de uma frase da escritora dinamarquesa Karen Blixen (que era de Áries, mas tinha a Lua e Mercúrio em Touro), quando ela disse que tentava “escrever um pouco todo dia, sem esperança e sem desespero”. Creio que essa é uma fórmula bastante correta e previsível para distinguir o tipo de passo que se espera de escritores taurinos, pelas razões expostas; curiosamente, ela me parece apropriada para descrever também autores de grandes obras cômicas. Nesse caso, estou tratando a comédia como algo capaz de englobar o trágico, um pouco como Joseph Campbell, em O Herói das Mil Faces, onde se lê que “a tragédia é o estilhaçar das formas e de nosso apego às formas, enquanto a comédia, livre e despreocupada, trata da indestrutível alegria da vida invencível”. Uma alegria e uma vida, portanto, que estão por trás das formas individuais que a tragédia vê sendo destruídas, e que as sustentam de maneira incansável e consistente. Como a linha do baixo se oculta sob as variações do grave numa canção, sem nunca deixar de estar lá.

Já o comentarista Northrop Frye lembra que as comédias de Shakespeare nunca perdem totalmente o vínculo com os festivais aos quais o termo komos faz referência. Ele se refere a ritos com que a restituição da fertilidade é aguardada e favorecida no início da primavera, o que torna os casamentos e finais felizes das narrativas cômicas um símbolo do florescimento anual que a natureza nunca deixa de garantir, desde que seu tempo seja respeitado. O “triunfo do tempo”, aliás, é o título do capítulo a esse respeito em A Natural Perspective: the development of shakespearean comedy and romance, que Frye publicou em 1965. Ele mostra que, implicado no prazer com os momentos de felicidade e abundância onde terminam as comédias, está a tristeza com os momentos de luto e de escassez em que elas se iniciam. O tempo sempre triunfa em reverter uma coisa em seu contrário, de tal maneira que sob essas mudanças se instala algo de invariável, que é ele próprio, o tempo.

“Neither hope, nor despair”: essa foi também, vale acrescentar, a fórmula que a filósofa feminista Donna Haraway encontrou para propor uma atitude frente ao pesadelo de uma tragédia climática em um de seus últimos trabalhos. O feminismo e o taurinismo têm vínculos que se explicam pelo próprio arquétipo, e Haraway pode até não ser taurina, mas o título de seu livro é. Staying with the Trouble dá uma boa ideia de como um realismo pragmático pode se articular com uma agenda ecológica pé-no-chão, que busca eficácia mesmo diante de um cenário apocalíptico, até porque o medo do apocalipse é uma questão de ponto de vista. “Nem a esperança nem o desespero” – ela afirma – “estão sintonizados com os sentidos, com a matéria consciente, com os rebentos da terra em sua massiva coexistência”. Ou seja: o cosmos e a Terra não padecem de preocupação nem de entusiasmo com o destino da humanidade, não porque sejamos desimportantes, mas porque tais sentimentos não estão entre seus hábitos. E os hábitos do cosmos e da Terra são os hábitos do tempo, que por sua vez são os hábitos de Touro, se quisermos encontrá-los em sua manifestação entre os humanos.

Nesse sentido, enfim, a própria fertilidade criativa de Shakespeare ao longo dos anos seria taurina em sua constância, fazendo do ritmo de trabalho que ele conseguiu manter a base sobre a qual surgiriam suas criações e improvisações mercuriais. Não que ele estivesse preocupado com a salvação do planeta, dadas suas aflições mais imediatas com o orçamento doméstico; mas, ao conceder sua atenção ao que é mais simples e concreto, Touro sem querer acaba se salvando de uma série de complicações desnecessárias, pelo menos do ponto de vista das necessidades do corpo, que precisa sempre cuidar antes daquilo que está ao alcance da mão. Shakespeare, de fato, nunca adentrou os portões da metafísica, mas ficou na entrada cobrando o ingresso de quem queria entrar. E, ao cuidar de seus negócios com eficácia, ele deu um bom exemplo de como devemos nos portar diante da catástrofe: sem esperança, sem desespero, e sem nunca esquecer de separar uns trocados para nos dias difíceis ir jantar no Flicoteaux.