capricórnio

Mulher de Capricórnio

[Edward Hopper | Compartment C, Car 193]

Não sei se devia confessar isso aqui, mas a essa altura já confessei: em outros tempos, tive um preconceito astrológico contra as mulheres de Capricórnio. Ele começou na infância, por conta de uma situação que envolvia uma tia meio astróloga e outra tia meio pilantra, com a primeira repetindo sempre o mesmo parecer diante das patifarias da outra: “Ah, mas isso é coisa de mulher de Capricórnio!”. Cresci ouvindo aquilo e aquilo me marcou, a tal ponto que cheguei a evitar capricornianas em minhas primeiras interações afetivas. Mas o feitiço se quebrou quando tive uma namorada capricorniana por volta dos 20 anos (acho que demorei a saber a data de aniversário dela), e a partir daí conheci outras tantas capricornianas que me fizeram rever radicalmente meus conceitos.

Então esses dias me perguntei o porquê do preconceito da minha tia, e qual seria o motivo da ressalva ser voltada para mulheres capricornianas especificamente, e não capricornianes em geral. Devia haver um componente de machismo estrutural aí, mas a questão é qual componente, o que exatamente ela via nas capricornianas que lhe parecia condenável de antemão nas mulheres e não nos homens. “Capricornianas são dissimuladas”, me lembrei dela dizendo, com insistência e nitidez. Parei para pensar nas capricornianas que conheço. Não, elas não me parecem particularmente dissimuladas, muito pelo contrário. Parecem antes ter todos os cuidados para que a gente não se engane: você vê o que você leva, você leva o que você vê.

Tenho, porém, uma hipótese a respeito do ponto de onde ela estava partindo. Pois o que realmente chama minha atenção nas mulheres de Capricórnio é sua capacidade de manter a calma e o senso prático em situações limítrofes e emocionalmente carregadas. Isso vale tanto para o término de relacionamentos quanto para a administração de mantimentos em meio a uma catástrofe: a capricorniana será aquela que consegue traçar limites claros e evitar o pior, assumindo o controle quando todo mundo está perdendo o juízo. O semblante blasé que é capaz de preservar nessas horas decorre, por um lado, da concentração na tarefa em curso, e por outro de um melancólico senso de repetição das mesmas cenas e das mesmas catástrofes. A capricorniana sente que já esteve ali antes, que já administrou a mesma crise outras vezes – e que ninguém aprendeu muita coisa desde a última vez.

Homens de Capricórnio, é verdade, também são capazes de fazer isso. Eles simplesmente não serão objeto de um mesmo tipo de julgamento por terem ostentado um semblante prático e melancólico quando o mundo começou a ruir. Sei que eu, por exemplo, nunca tive problemas com os aspectos mais áridos da minha personalidade, e pelo silêncio resignado com que às vezes expresso minhas emoções. Por outro lado, da mulher se espera certa exibição de traços sentimentais que, quando ausentes, a tornam suspeita de estar escondendo alguma coisa. Daí o “dissimulada” da minha tia. Ele passa antes pelo “insensível”. Acontece que a sensibilidade de Capricórnio funciona em outro tempo, o que lhe permite plena eficácia prática mesmo quando um significativo trabalho de luto está acontecendo em segundo plano.

A capricorniana que executa seu compromisso com a eficiência e a ética no manejo dos assuntos mundanos, portanto, o faz a partir da consciência profunda de uma perda, e de que nunca será possível reparar de fato o que foi perdido. Só é possível uma aproximação nesse sentido – mas o que for possível será feito, ao menos no que depender dela. Essa dedicação obstinada não deixa muita margem para cuidar das aparências, através da exibição dos sentimentos condizentes com o que a etiqueta social pede dessa ou daquela situação. Aliás, Capricórnio consegue ser tão contrário a ser julgado pelas aparências (você vê o que leva, leva o que vê), que chega a aparentar o inverso do que realmente é. Aqui, possivelmente, existe sim um curioso mecanismo de dissimulação.  

Pois, se o imenso cuidado com o mundo da mulher de Capricórnio pode passar por desinteresse ou fastio (uma vez que se expressa através de atos concretos que são executados com as mãos, enquanto olhamos para seu rosto), eventualmente ela vai esconder sua tristeza na mesma medida em que os julgamentos sociais a acusem de não sentir tristeza nenhuma. Não digo que venha a dissimular seus sentimentos; ela apenas não vai fazer esforço algum para ostentá-los. Daí o risco de que assuma uma feição mais ríspida ou indiferente. Tanta falta de esforço num determinado sentido pode se tornar uma espécie de esforço no sentido contrário.

Mas isso apenas em alguns casos. No geral, a mulher de Capricórnio não precisa mesmo esconder nada para que acreditem que está escondendo alguma coisa. É verdade que isso acontece também nos arquétipos de Ar e de Fogo – mulheres sendo julgadas por não se adaptarem a expectativas e modelos sociais –, mas talvez o caso de Capricórnio seja particularmente notável porque todos os signos de Terra são femininos. Algo muito semelhante, aliás, poderia ser dito sobre as virginianas, considerando o tipo de controle que elas possuem sobre o ambiente imediato e sobre si mesmas. Touro, porém, traz com maior evidência um componente que não deixa de ser essencial para os outros dois, quando nos faz lembrar que os arquétipos de Terra dizem respeito ao corpo.

E os assuntos do corpo, enfim, são conhecidos pelas mulheres de um modo que a gente nem imagina. Eu pelo menos só posso suspeitar. Mas sei que passa por aí a mais profunda afinidade entre os signos de Terra e o feminino. Em todos eles, a dimensão sensível e palpável da experiência é a que vem antes de tudo, o que torna ainda mais equivocado que às capricornianas seja atribuída qualquer forma de insensibilidade. O que elas possuem (as taurinas e virginianas também) é força suficiente para sentir e fazer ao mesmo tempo – e talvez essa sobreposição seja aquilo que minha tia chamava de “dissimular”. Ou não, sei lá, vai ver que a outra tia era meio pilantra mesmo. Só não venham me dizer que ela era assim porque era uma mulher de Capricórnio.

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O poder de Peixes

Pinterest

Hoje vou contar pra vocês um caso estranhíssimo que se passou comigo. Começou quando passei a falar de astrologia na internet. A princípio eram comentários eventuais de amigos ou conhecidos: “Escreve mais sobre Peixes”, “Por que você não escreve sobre Peixes?”, “Sou pisciane me explica aí plmdds kkkkkk”. Até certo ponto, era possível atribuir o comportamento ao estereótipo do signo (Peixes tem mesmo suas carências), e eu não iria muito além disso me pedissem para explicar a razão dos apelos esparsos. Aí aconteceu o inexplicável.  

De repente, do nada, sem aviso prévio, as requisições começaram a chegar de todos os lados. Já não eram só amigos, e a coisa se deu de tal maneira que cheguei a desconfiar de que havia até robôs forjados na deep web para advogar pela causa pisciana. Era como se eu estivesse devendo um tratado inteiro sobre o arquétipo; como se nunca tivesse escrito nem uma palavrinha sobre ele; como se minha vida dependesse disso. Até meu filho mais velho, que não é pisciano nem nada, referiu-se a um amigo que lê o blog e que teria lhe dito: “Fala pro seu pai que é pra ele escrever sobre Peixes”.

Pois bem. Cá estou eu escrevendo sobre Peixes. Não é que tenha me sentido forçado a isso, mas preciso reconhecer que eles conseguiram o que queriam, sobretudo depois dessa última leva de investidas. O que ela teve de especial foi parecer um movimento quase organizado de múltiplas frentes e braços que me atacou por todos os lados sem deixar margem de manobra, envolvendo na operação até meus familiares mais próximos e queridos. Então me pergunto: por que isso aconteceu assim precisamente agora, se os pedidos esparsos já vinham desde antes? E como eles conseguiram isso?

É aqui que, a meu ver, as coisas ficam interessantes. Desconfio que a resposta tem a ver com a questão do carma, e com a maneira como ela se expressa em Peixes, o que por sua vez se relaciona com uma espécie de superpoder que piscianos têm em comparação com outros signos. É isso que vou tentar explicar na sequência. Não sei até que ponto vou conseguir, porque um dos problemas que tenho com Peixes é que a respeito desse arquétipo suspeito de muita coisa, mas não tenho certeza de nada. O ponto de partida da investigação é o momento exato em que as pressões aparentemente articuladas começaram a chegar. Isso aconteceu exatamente logo depois que eu disse que a página ficaria sem novas publicações por um tempo.

Bom, eu estava precisando de um descanso, ou pelo menos achei que precisava. Acontece que eu estava, de fato, devendo um texto sobre Peixes. Então, na hora que anunciei minha retirada de cena, ainda que provisória, criaturas marinhas de todos os tipos apareceram para cobrar a minha dívida. Se você parar para pensar, faz sentido que as coisas funcionem assim. Você não anuncia que vai sair da cidade sem criar uma fila de credores na porta da sua casa. Se você quiser mesmo ir embora, você não diz o que vai fazer: você simplesmente vai.

Essa é inclusive a metáfora que alguns comentaristas do Zen e de outras filosofias orientais utilizam para referir-se ao possível despertar que tem o potencial de nos libertar da roda cármica (o nirvana, ou sartori, ou seja o que for). Não é recomendado, portanto, que quem vá se submeter a rigores espirituais em busca da iluminação saia por aí divulgando seu objetivo. Na verdade, o indivíduo não deve nem chegar a enunciá-lo para si próprio. As dívidas cármicas têm um apurado sexto sentido, e vão perceber fácil se você estiver planejando uma escapada. São elas que vão se apinhar no seu encalço já no dia seguinte.

Nessa lógica, o texto novo sobre Peixes que já havia prometido algumas vezes antes era o débito que eu precisava quitar; e tratá-lo como uma obrigação de caráter espiritual, sujeita ao controle do Grande Escritório de Deveres Acumulados e Promessas Não Cumpridas, não me parece totalmente despropositado, em se tratando justamente de Peixes. Pois é nesse arquétipo do zodíaco que desembocam todos os outros, e é nele que se dá o balanço de encerramento da roda zodiacal. Talvez por isso os próprios piscianos com frequência parecem carregar todos os sofrimentos do mundo nas costas. E, talvez por isso, o tema da fuga (para o mato, para o sonho, para o convento, para a enfermidade, para as drogas) seja tão comum quando se fala em Peixes.

Ou seja: piscianos precisam às vezes fugir do mundo, ou pensam nisso com frequência, porque recebem um influxo desproporcional de percepções a respeito do mal que existe nele. Nem sempre se colocam do lado de quem cobra, de quem se vitimiza, de quem sente que tem crédito com a humanidade; com frequência pendem para o de quem sente que tem uma conta enorme a pagar. Essa conta é na verdade a conta de todos nós, como se Peixes tivesse sido deixado sozinho na mesa do bar depois de todos os outros signos encherem a cara a noite inteira. O que Peixes faz nessa hora? Pede outra dose, ou dá no pé, claro. De um jeito ou de outro, a ideia é não estar mais ali.

Agora, não acho que a fuga pisciana esteja sempre condenada ao insucesso. Se a pessoa tem o ascendente em Peixes, por exemplo, ela tem mais é que encontrar mesmo sua porta de saída para toda essa encrenca que aprontamos aqui, e que será também uma porta de entrada para um mundo diferente (pode ser o mato, pode ser o sonho, pode ser a meditação, ou algum alucinógeno com o qual se entenda bem). Uma pessoa com um ascendente em Peixes, um barulho de água e uma brisa no rosto não quer guerra. Uma pessoa com um ascendente em Peixes não deve nada a ninguém.

Peixes, portanto, tem um potencial verdadeiro para se desvencilhar num pulo das labutas desse mundo. E tenho muito a aprender com Peixes para a próxima vez que resolver tirar um descanso. Mas não é exatamente esse, ainda, o poder de que falei no título. Isso não explica o curioso fenômeno do ataque do cardume cobrador, pelo menos não em seu aspecto de um esforço articulado e bem-sucedido. Esse tema explica o momento em que o ataque se formou – Peixes pode sim estar do lado de quem cobra, que quem se vitimiza, de quem reclama que o mundo não lhe dá os créditos devidos -, mas não sua abrangência e eficácia.

Pensem bem, como é impressionante isso de terem me encurralado tão logo fiz conhecer meu desejo de repouso. Até meu filho capricorniano entrou na história. Mas não creio que Peixes estivesse me manipulando emocionalmente, de maneira insidiosa, ao recorrer a meu filho; esse seria o caso de Escorpião, e já escrevi inclusive um texto sobre isso, está aqui. Não: Peixes estava conseguindo o que queria meio que sem querer mesmo. Quer dizer, sem querer querendo.

Como disse antes, é sempre meio complicado explicar as coisas que acontecem nesse arquétipo. Mas passa por aí: do mesmo modo como Peixes colhe o que não plantou em termos de culpas e fardos de outras pessoas, ele também consegue o que não necessariamente construiu com suas próprias mãos, o que não necessariamente planejou em sua mente, e até o que não necessariamente quis, pelo menos não querendo mesmo. O universo conspira a favor de Peixes tal como conspira contra Peixes, fazendo com que o arquétipo reúna tanto o papel de vítima (e esponjinha receptora da truculência do cosmos), quanto o de supremo ganhador da loteria universal (capaz de ganhar inclusive sem ter apostado). Naturalmente, se o pisciano se identificar com somente um desses aspectos, estará sujeito ao tipo de desequilíbrio que afeta todos os signos de uma forma ou de outra. Nesse caso, alguns vão se perguntar porque as coisas sempre dão errado para eles; outros, vão acreditar que não precisam fazer nada para dar tudo certo no final.

Existe, porém, uma razão genuína para essa última atitude, que não deve ser desconsiderada. É aí que está o poder de Peixes. O zodíaco conhece duas formas destacadas de otimismo: na primeira, sagitariana, as coisas vão dar certo porque vão acontecer como a gente imagina; na outra, pisciana, as coisas estarão certas do que jeito que acontecerem. Peixes, com isso, é bem capaz de delegar o rumo das coisas para forças além do seu alcance. Boa parte da ansiedade típica do signo, aliás, decorre de um bloqueio dessa função de estar de boa com o cosmos, tão importante de ser desenvolvida em alguma medida, quando se trata de Peixes. Importante porque, se você vai lidar com o cosmos como um todo (e é isso basicamente que Peixes faz), é bom você estar em condições de aceitar que ele tomará um rumo certo independente de seu controle. Porque você pode até tentar controlar sua casa, você pode até manipular as pessoas – mas controle do universo é algo que por definição você nunca vai ter.

E a verdade é que ninguém controla nada, no final das contas. Mas, enquanto nós outros podemos manter essa ilusão em uma área ou outra da vida, Peixes, olhem que coisa engraçada, o arquétipo aparentemente mais iludido do zodíaco, não se deixa enganar nesse sentido. E, diante dessa verdade inescapável do descontrole, ele não tem alternativa a não ser de fato render-se, entregar-se, renunciar à vontade pessoal como quem se entrega ao sono e ao sonho. Daí começam a expressar seus desejos como quem na verdade não quer nada, como quem não espera que aquilo seja realmente seja realizado. E a partir desse momento o inexplicável ocorre: o universo passa a funcionar do jeito que eles querem.

De modo que, para concluir a investigação, devo dizer que nunca houve nenhuma grande conspiração da Máfia dos Mares, mas apenas palavras ao vento que chegaram a mim de um jeito ou de outro. Talvez os piscianos mesmo já nem fizessem muita questão de que eu escrevesse o texto prometido; com certeza já estavam pensando em outra coisa, e foi aí que tudo se encaixou para que seus desejos fossem atendidos. Essa espécie de mágica, enfim, não deixa de ser a grande ironia que nos aguarda a todos no fim da roda cármica, pois escapar dela não depende de terminarmos o pagamento de qualquer tipo de dívida. Assim como assumir o controle do cosmos depende de entender que é impossível fazê-lo.

Enfim, o momento do despertar acontece quando a gente percebe, de repente, que nunca houve dívida alguma, e que a gente nunca paga nossa dívida cármica: a gente simplesmente sai da cidade e esquece que ela um dia existiu. Por via das dúvidas, enquanto estou funcionando nesse plano, aqui está, para todos os efeitos fiscais, o texto que eu tinha prometido sobre Peixes. Mas, quem sabe, mais cedo ou mais tarde, eu não escapo desse tipo de precaução, eu não me livro desse tipo de cálculo. Suponho que isso possa acontecer um dia – sobretudo se eu conseguir entender realmente, um dia, do que estamos falando quando falamos de Peixes.

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A alma e as formas

Natividade | Giotto di Bondone (c. 1305)

Reparando aqui: a Noite de Reis e o dia do astrólogo (sim isso existe) acontecem na mesma data, seis de janeiro. Não é difícil identificar a relação entre as duas coisas. Eram astrólogos persas, ou magi, os “três homens sábios” que leram os sinais dos céus para encontrar o local de nascimento do menino Jesus, segundo o Evangelho de Mateus. O império persa, a propósito, foi um dos que conferiu à prática da astrologia um amplo papel social, depois do babilônico e do egípcio. Seus magos eram reconhecidos no oriente como sábios não apenas pelos conhecimentos técnicos e científicos que acumularam, como também pela participação em momentos chave da vida política da região. É possível inclusive que o evangelista os tenha incluído na história de Cristo para conferir maior legitimidade à sua narrativa.

Criação, de Gore Vidal, é um belo romance histórico sobre a Pérsia e arredores alguns séculos antes do nascimento de Cristo. Ele se passa durante o reinado de Xerxes, portanto no século V a.c., e é narrado por um embaixador do império nas terras do oriente e do ocidente, que durante suas viagens entra em contato direta ou indiretamente com personagens como Sócrates, Buda e Confúncio. Afinal, esse foi o período em que foram concebidas as transformações filosóficas, espirituais e políticas que mudaram o curso do mundo antigo e criaram os fundamentos de muito do que veio a seguir. Com a astrologia não poderia ser diferente, de modo que nesse intervalo, até a queda do Império Romano, estabeleceram-se não apenas uma, mas diversas e antinômicas bases possíveis – éticas, científicas, espirituais – pelas quais podemos hoje nos guiar no estudo dos astros.

A antiguidade astrológica deixou como legado vários livros e nomes importantes, mas gostaria de mencionar agora particularmente um deles, hoje menos conhecido. Jâmblico, ou Iamblichus, foi um filósofo e astrólogo de origem síria que veio a ser também biógrafo de Pitágoras. Até determinado ponto, seguiu filósofos neoplatônicos como Plotino e Porfírio em suas reflexões sobre os possíveis caminhos e saídas para que a alma encarcerada no mundo físico pudesse dele escapar. Mas, no decorrer de seus estudos, concluiu que a vinculação da alma à matéria não era de todo indesejável, possuindo potencialidades que estavam ainda por ser exploradas, o que justificava o aprimoramento dos instrumentos de orientação da nossa vida nesse corpo e nessa Terra (para quem quiser saber mais sobre o assunto, recomendo muito essa palestra de Robert Hand sobre astrologia, moralidade e ética; a parte seguinte desse texto se baseou nela).

Jâmblico sugeriu que o instante do nascimento de indivíduo era aquele em que as potencialidades de desenvolvimento da alma em um determinado corpo ficavam estabelecidas de acordo como retrato do movimento dos planetas. Esse retrato, por sua vez, representava um ideal ao qual a experiência humana em um determinado corpo podia apenas almejar – mas não devia deixar de almejar. O estudo da astrologia serviria então exatamente para que a alma, através de um determinado corpo, encontrasse uma maneira única de expressar-se e aprimorar-se, segundo as especificidades de uma configuração planetária ao mesmo tempo eterna e momentânea. Desse modo, a alma individual não estava exatamente submetida à dinâmica celeste como uma fatalidade imposta desde cima: ela era essa dinâmica, e ao mesmo tempo uma manifestação parcial dela aqui nesse mundo, que contava com as pistas deixadas lá em cima para reencontrar-se consigo mesma.

Hoje em dia, muita gente pensa que os adeptos da astrologia buscam uma espécie de reino encantado e esotérico para não encarar os sofrimentos e dificuldades da vida terrena, e que ela não possui nada a oferecer além disso. Outros entendem que a astrologia até funciona, e pode funcionar muito bem, mas não tem dimensão ética alguma, e é somente uma técnica que pode estar a serviço dos objetivos menos nobres. Há precedentes para sustentar as duas hipóteses. Mas a posição de figuras como Jâmblico representa uma alternativa no mínimo interessante nesse cenário, uma vez que reafirma o valor do mundo físico tal como o conhecemos, e ao mesmo tempo indica que ele pode sim orientar-se eticamente de acordo com coordenadas astrológicas.

Nessa perspectiva, faz sentido que a astrologia seja comemorada em uma data capricorniana. Pois Capricórnio é sobre honrar o mundo físico, desenvolver suas potencialidades, aproveitar seus recursos com inteligência, e entender que suas limitações são a única maneira pela qual a alma passa a existir nas formas. Disso tudo se deduz a possibilidade de um determinado comportamento moral, sem que precise ser moralista. A ética capricorniana passa pelo real e não deixa nunca de utilizá-lo como ponto de partida; assim, longe de conferir à matéria um aspecto vil, isolado do espírito, Capricórnio mostra como ela é justamente o veículo pelo qual o conhecemos, e o instrumento para aprimorá-lo através de nosso corpo por meio do trabalho de uma vida.

Mas Capricórnio pode ser, sim, um signo pesado. Isso acontece sempre que faz o caminho inverso – e, no lugar de elevar a dimensão da matéria, traz para o chão, por força de sua gravidade, tudo aquilo que lhe parece de um idealismo sem bases no mundo concreto. Por outro lado, a leveza possível de Capricórnio está justamente em sua capacidade de erguer o mundo concreto alguns centímetros acima do solo. Curiosamente, talvez isso nos diga algo também sobre a história de um deus que encarna em um corpo humano, e termina por ter a data de seu nascimento associada a esse arquétipo. Sua história termina com uma pesadíssima cruz na qual ele está preso como uma alma estaria presa ao corpo humano, segundo os neoplatônicos. Mas ela começa com a infusão de uma alma divina em um corpo humano, de tal modo que sua carne e pele e ossos não são um obstáculo a ser recusado ou um pecado merecedor de flagelos: são justamente um instrumento que a Alma encontrou para se movimentar entre nós.

Por último, queria enfatizar que o etos do aconselhamento astrológico não prevê nunca uma recomendação de renúncia ao mundo e seus desejos, ambições e disputas. Mas é papel do astrólogo identificar quais desejos, ambições e disputas recebem o suporte do retrato tirado do cosmos no instante do nascimento de um indivíduo, em interação com os que estão acontecendo no momento da consulta. É como se os ciclos planetários formassem uma intrincada rede de fluxos para a qual buscamos uma espécie de adaptação do corpo, embora o corpo neles esteja imerso o tempo inteiro, e não tenha como escapar deles nem querendo – o que torna tão mais significativa a possibilidade de acompanhá-los como quem participa de uma espécie de dança. O fato desses movimentos serem sempre contraditórios e ambivalentes é, por sua vez, o que torna tudo mais difícil, interessante e divertido.

Uma coisa é certa: o fatalismo que a astrologia antiga ou medieval conheceu tem um papel restrito nos atendimentos hoje em dia. Por outro lado, existe certa tendência em consentir com o uso da astrologia para finalidades desprovidas de qualquer justificativa moral, como se fosse apenas uma técnica isenta de premissas e implicações nesse campo. Mas as premissas cosmológicas da experiência da astrologia continuam sendo, ao menos para mim, motivo do maior assombro diante do que enunciam sobre a relação entre o homem e o universo. Acho difícil vê-las assim sem deduzir algumas orientações éticas no meu trabalho e nas minhas relações com os outros. Sou capricorniano, no final das contas.

Além disso, por fim, o fato de poder verificar, diariamente, algumas confirmações exatas da interação entre assuntos humanos com os símbolos do cosmos que temos disponíveis, é motivo sempre para reafirmar o mergulho nesse mundo como o meio para encontrarmos as mais perenes verdades. Por ora, bastam-me inclusive as verdades provisórias com que me deparei até o momento para suspeitar de que um astrólogo sírio que viveu há mais de dois mil anos tem algo de muito certeiro para dizer sobre nosso mundo. Talvez eu não saiba ainda expressar com total exatidão o que vejo de tão correto em sua perspectiva. Mas, se estou aqui nesse corpo, regido por tais e tais configurações astrológicas, ao que tudo indica me sobram motivos para continuar tentando.

astros

Escrito nas estrelas

Existe um filme dos anos 1990 em que Deus aparece para os personagens através de um grande painel luminoso de beira de estrada. Eu me lembro de pouca coisa desse filme; sei que era com a Sarah Jessica Parker e com o Steve Martin, e que Deus aparecia para eles através de um grande painel luminoso de beira de estrada. O engraçado disso era a maneira escancarada e nada enigmática com que Ele se comunicava, sendo ao mesmo tempo capaz de passar totalmente desapercebido (porque, né, quem ia acreditar que era o Próprio se manifestando ali em letras garrafais, ao lado das varandas de um motel ferrado nos arredores de Los Angeles). A razão pela qual me lembrei agora desse filme e dessas cenas é a mesma que me fez ter vontade de deixar aqui mais algumas observações sobre os trânsitos astrológicos de 2020.

Para ser direto, até porque esse texto é um também um pouco sobre como as mensagens do cosmos podem ser claras, luminosas e garrafais, eu diria que Deus pode estar se comunicando com cada um de nós exatamente assim nesse início de ano. Está se expressando de maneira inequívoca, grosseira, até escrachada, porém por meio de artifícios tão ostensivos que por isso mesmo podem não parecer, digamos assim, divinos. Nós esperamos de Deus que se comporte com certa dignidade, que respeite o decoro do cargo, que mantenha um mínimo de compostura – não que nos jogue verdades na cara como uma tia bêbada que perdeu a paciência com as sutilezas da família na ceia de natal. Jesus Cristo, por exemplo, trouxe sua palavra através de delicadas e elegantes parábolas, e inclusive recusou lançar mão de quaisquer recursos cênicos milagrosos para provar seu poder e aumentar seu rebanho.

Agora, já que Jesus entrou na história, é bom deixar claro de que tipo de deus estou falando. E o deus de que estou falando atende pelo nome de Plutão, ou Hades, o soberano dos infernos na mitologia grega, e que na astrologia responde pelas camadas mais profundas da psique, por nossa relação com a mortalidade, e pelos comportamentos mais desviantes ou abusivos do ser humano. De modo que é uma mensagem vinda lá de baixo, de um lugar para onde normalmente não queremos olhar, sobre assuntos que normalmente não queremos remexer, que está sendo enunciada, sublinhada, destacada, gritada, berrada e balida para muita gente esses dias. O fato de ser uma mensagem possivelmente indesejada não a torna menos bem-vinda, e talvez ela esteja recebendo esse tratamento agora exatamente para que a gente enfim a aceite, e, com isso, a vida possa seguir adiante.

De um ponto de vista técnico, a percepção condiz com o significativo conjunto de planetas que está formando um quase inédito alinhamento em torno de Plutão até meados de janeiro de 2020. Vale notar que o fenômeno inclui Mercúrio, o mensageiro dos deuses, também aquele que fazia a ligação do plano terreno com o submundo – e, portanto, em sua aparente superficialidade, um agente fundamental da sincronia entre fenômenos psíquicos profundos e as vastas dimensões astrais. Mas creio que todos os integrantes da trupe estarão cada um à sua maneira enfatizando uma verdade que já está aí há algum tempo, mas que podemos ter tentado evitar de todo jeito até agora. Não mais: é a definitiva consciência dessa mensagem, por mais difícil que seja, que vai nos permitir começar de novo e voltar ao jogo em 2020.

É também disso que estava falando quando disse na última postagem que “o fim está próximo”. O fim é essa consciência de algo não tem mais jeito, não tem conserto, não tem remédio, nem nunca teve, na verdade. Ou, como descreveu a psicóloga e astróloga Liz Greene: “Plutão, ao que parece, rege aquilo que não muda nem vai mudar. Essa é uma questão particularmente dolorosa na época das terapias de autoajuda e da disseminada crença de que podemos ser o que quisermos (…) É irônico, e paradoxal, que a genuína aceitação do imutável seja a chave para transformações profundas na psique humana. Essa ironia de fato não parece ser comunicável a não ser nas chamas da vida. Então ela permanece um segredo, não porque ninguém irá contá-la, mas porque ninguém vai acreditar nela, a não ser que tenha sobrevivido ao fogo.”

Greene acrescenta ainda: “Terapias e meditações e dietas e encontros não têm efeito aqui; e a decisão não é mais sobre a coisa certa a se fazer, mas se devo sacrificar o braço direito ou o esquerdo”. Nesse ponto imagino a impotência que ela mesma deve ter sentido como psicóloga para ajudar seus clientes a contornar crises dessa natureza, diante da ineficácia de seus recursos e técnicas e truques terapêuticos. Estamos falando, por exemplo, do momento em que uma mulher compreende que a maneira como foi tocada por um parente quando menina foi sexualmente abusiva, ou que determinado episódio com um ex-namorado violento foi na verdade um caso de estupro – e que isso, o fato de ter sido estuprada, já não se acomoda às explicações que criou ou aceitou para evitar dar o nome às coisas, tornando-se então parte incontornável daquilo que ela é, foi e virá a ser.

Sei que, para quem começou esse texto lendo uma leve e simpática menção a uma comédia romântica, talvez aguardando uma otimista previsão de ano novo, chegamos a um ponto meio sombrio demais para os incautos. Paciência, é isso que que você recebe quando resolve ler alguém o blog de alguém com lua em Gêmeos e ascendente em Escorpião. E a partir daqui não tem mais volta. “A PARTIR DAQUI NÃO TEM MAIS VOLTA”: leia, é o que estão dizendo os sinais. Mas, naturalmente, eles vão afetar uns mais que outros, de acordo com os planetas em seus mapas natais, de maneira que o incontornável pode se apresentar de maneiras mais ou menos intensas para cada um, e pode relacionar-se com assuntos mais prosaicos, embora sempre com um certo grau de evidência e mesmo de acintosa honestidade.

Um exemplo simples é o de alguém que, diante de uma pessoa querida, porém bastante mais velha, de repente percebe com toda clareza a decadência corporal e finitude que essa pessoa encontrará em um futuro não muito distante. Outro é de um indivíduo que vem insistindo no sonho de uma determinada carreira, e se depara com um empregador descuidado, que em uma entrevista irá lhe dizer que não, de maneira alguma, ele não leva o menor jeito para aquilo. Como provavelmente seria o caso nessa situação, quando Plutão e suas barreiras intransponíveis aparecem para nós, a primeira e natural reação é de raiva, ou desespero, ou a mais absoluta impotência. Só com o tempo somos capazes de nos tornar gratos ao entrevistador que nos tirou as mais preciosas esperanças e nos encaminhou a contragosto para uma outra atividade, ou à enfermeira que nos deu uma notícia triste de maneira honesta, ou ao terapeuta que nos levou até o submundo de nossas memórias para revirar o lixo que existe lá. Só com o tempo – se é que.

Se é que: mas gratidão nesse caso é um sentimento de menor importância. Aceitar já basta. E como é difícil, às vezes, aceitar mesmo aquilo que está piscando em luzes ofuscantes diante da gente. Esses dias, para dar um último exemplo, uma pessoa que já mentiu muito para mim no passado – em uma triste história que envolve segredos familiares, manipulação e violência, o pacote completo – resolveu inventar uma história para justificar um comportamento inadequado mais recente. Foi esse o acontecimento que me fez lembrar do filme com Deus no pisca-pisca da beira da estrada.

Bom, eu estava acostumado a pensar que essa pessoa mentiu para mim no passado – não que isso permanecesse como um hábito, não que a história lá de trás continuasse de algum modo agora, com outras pessoas envolvidas. Então precisei escutar uma história escancaradamente mentirosa para cair em mim: mas é claro, essa pessoa mente, sempre mentiu, simplesmente nada mudou. Nesse caso em particular, sinto hoje o distanciamento necessário para ser capaz inclusive agradecer ao destino pelo descalabro da versão dos fatos que me foi apresentada nessa situação presente, até porque ela é bem menos ofensiva do que as anteriores. Era como um outdoor de todo tamanho feito para que eu percebesse: veja, é uma mentira. E não há como ser de outro jeito.

O que eu queria mesmo, é claro, era que me fosse contada a verdade, e sobretudo que a verdade do que vivi e vi lá atrás quando era criança fosse reconhecida, que alguma espécie de retratação me fosse concedida, ou algum traço de arrependimento presenciado. Mas é nessas horas que o destino intervém para dizer: NÃO VAI ROLAR. Disso eu até já sabia há algum tempo, mas Plutão tem esse jeito que reaparecer para a gente às vezes, quando começamos a reassumir esperanças sobre os assuntos que ele governa em nossas vidas. A vantagem é que, depois, a energia que sobra para outros assuntos é imensa, simplesmente porque as energias que gastamos confrontando o inconfrontável, durante grande parte da vida, é desmedida também.

Enfim, outro dia minha mulher me perguntou se é possível identificar um serial killer por seu mapa astral. Tive que dizer a verdade: muitos são parecidos com o meu. Segundo a própria Liz Greene, pessoas com mapas assim (tenho o Sol e Marte em quadratura exata com Plutão, entre outros detalhes adicionais) ou viram assassinos, ou viram psicólogos e coisa parecida. “Astrólogo” foi a coisa parecida que encontrei para mim. De modo que vocês podem continuar contando comigo durante o ano que virá para escrever sobre os astros. Outro dia disse que provavelmente ficaria sem escrever por uns tempos. Mas vejam bem, saímos no lucro com mais essa postagem sobre Plutão, pois tenho que manifestar de algum modo as influências íntimas que ele sempre exerceu em minha vida, e essa parece ser uma das mais inofensivas e saudáveis.

Aí ontem vi uma imagem com um texto que resume bem o que estou tentando dizer sobre os trânsitos desse fim de ano desde a postagem anterior (quem não leu e quiser ler, é só clicar aqui). Ela dizia algo assim: “2017 me mudou. 2018 me quebrou. 2019 me abriu os olhos. É 2020, e estou de volta”. Então, acho que esse comecinho de ano é uma espécie de última chamada para quem precisa ter os olhos abertos, mesmo sobre assuntos complicados, e principalmente sobre eles. Para nossa sorte – se é que a palavra é essa – Deus estará se comunicando conosco através de sinais bem evidentes. Bom, talvez não exatamente Deus, mas vários deles, ao mesmo tempo, de uma vez só. Portanto apertem os cintos, fiquem atentos aos luminosos – e que esse seja um ótimo ano novo para todos nós.

astros

O fim está próximo

O Sol ingressa em Capricórnio por volta do dia 22 de dezembro de cada ano. Para os romanos, essa era a época das Saturnálias: uma semana de festa, com comida e bebida à vontade, em que a autoridade era subvertida, a ordem social era suspensa e identidades eram alteradas. No dia 24, trocavam-se presentes. O cristianismo situou seu principal feriado próximo a esta data porque seria impossível abolir a celebração popular, então era melhor cooptá-la. Já os puritanos ingleses depois rebelaram-se contra a missa de Cristo, a Christ Mass, e Cromwell chegou a aboli-la, argumentando com certa razão de que não passava de uma orgia pagã com um verniz cristianizado.

As Saturnálias começavam sob a regência de Júpiter, e terminavam sob a de Saturno. Portanto, acompanhavam a passagem do bastão de Sagitário para o signo da Cabra. Faz sentido: um último período de licenciosidade e abundância antes do início de uma época de restrições, com a perspectiva de futuros constrangimentos motivando toda uma semana de excessos. Mas Capricórnio não precisa ser visto como um arquétipo tão árido. Após o momento sagitariano do zodíaco, ele trata, sim, da necessidade de alcançar certo equilíbrio, através de ações responsáveis e intervenções consequentes no mundo. Porém o tipo de ajuste que está em jogo agora pode ter uma importante dimensão espiritual, e é bom ter isso em mente nessa passagem de 2019 para 2020, quando a coisa toda ganhará outras proporções.

Agora, o ingresso do Sol em Capricórnio o levará de encontro a Júpiter, Saturno, Plutão e Ceres. Por volta do dia 10 de janeiro, quase todos esses astros (com o acréscimo de Mercúrio) estarão alinhados com exatidão em 20º de Capricórnio, o mesmo grau onde acontecerá então um eclipse lunar em Câncer – portanto em oposição ao aglomerado capricorniano. Quem tiver planetas no mapa natal em torno de 20º de Capricórnio, Câncer, Áries ou Libra tende a sentir o fenômeno com mais impacto. Isso vale, por exemplo, para quem está por volta dos 40 anos agora, e tem Plutão nessa região do signo de Libra, ou para quem faz aniversário por volta dos dias 09 de abril, 11 de julho, 13 de outubro e 10 de janeiro mesmo. Mas esses trânsitos têm força suficiente para ter repercussão na vida de todo mundo.

Esse é inclusive o tipo de configuração que em outros momentos seria o suficiente para criar a expectativa pela vinda do Anticristo, bastando para isso a conjunção de Saturno e Plutão que irá se consumar. A propósito, a última vez que essa conjunção aconteceu em Capricórnio foi em 1517, um mês depois de Martinho Lutero afixar suas 95 teses na igreja do castelo de Wittenberg, portanto em perfeita sincronicidade com o início da reforma protestante (que pode ser vista como um ajuste de grandes proporções diante do momento de excessos na Igreja Católica). Se os astrólogos da época soubessem a respeito de Plutão e seus demônios, isso acrescentaria um elemento talvez decisivo nas muitas polêmicas em torno do mapa de Lutero. Mas o sistema solar ia só até Saturno mesmo, o que já era o suficiente para que se chegasse a previsões bastante precisas a respeito do Apocalipse.

No entanto, é para o plano individual, para nossa experiência diária, para a mente e o espírito de cada um de nós, que, na minha opinião, todas as nossas atenções e cuidados devem estar voltados nas próximas semanas. O conjunto de trânsitos e aspectos que vão se suceder a partir da Lua Nova e do eclipse solar do dia 26 de dezembro não são o fim do mundo – e acho até que farão desse intervalo um momento de rara oportunidade para retomarmos o prumo que foi perdido nos últimos anos. É sobretudo isso que estará em jogo nesse início de 2020, creio eu: uma chance de recomeçar a partir de novas bases. E esse recomeço passa por uma definição final a respeito daquilo que não nos serve mais, e que continua fazendo parte de nossas vidas por força do hábito ou de uma exaustiva e esgotada insistência.

Isso pode acontecer em diferentes áreas da experiência, variando de acordo com o arquétipo solar e outros componentes do mapa individual. Libra, por exemplo, pode viver esse tipo de definição em relação à família, e nesse caso, curiosamente, toda essa energia no eixo Câncer-Capricórnio, tão familiar e apegado às tradições, servirá para ceifar de vez aquilo que se desgastou e vem capengando no âmbito das relações familiares. Para todos os signos, porém, esse deve ser um momento para dar um fim efetivo ao que já está acabado. Até porque, a essa altura, o que está acabado já vem acabando há tempos, e nesse processo de lento acabar-se está acabando com nossa paz de espírito e nossa saúde mental.

É disso que estou falando quando me refiro à energia que haverá disponível agora para retomarmos um certo equilíbrio. Tenho visto muita gente vivendo o desespero da tentativa de preservar o que já está findo ou remediar o que não tem conserto. Nisso, ganham em volume e estridência as discussões que parecem se dar em um mundo anterior à queda, porque presumem proximidades onde há distâncias, ou parecem querer restaurar o paraíso perdido, nem que seja na marra e na base do murro. O momento que vamos viver agora é de reconhecimento que nada disso tem volta. O que pode ser uma coisa triste, mas a essa altura creio que para muitos de a percepção virá com uma boa dose de alívio.

Amigos já me perguntaram umas duas ou três vezes, meio à brinca e meio a sério, se com esse encontro tão exato de tantos planetas e um eclipse ainda por cima o mundo finalmente acaba, depois de tantas previsões infundadas. Minha resposta tem sido que o mundo já acabou, e que agora nós estamos na expectativa é dele recomeçar. Mas, quando digo isso, penso sobretudo nas experiências individuais que estão implicadas na ideia de “mundo”: é o mundo de cada um de nós, pelo menos um aspecto importante dele, que vai encarar de vez a finitude no começo de 2020, para abrir espaço para que tudo comece de novo nessa área da vida. Então, para que isso se execute, será mesmo bem-vinda uma boa dose de energia capricorniana.

Isso, em primeiro lugar, porque Capricórnio sabe traçar limites como nenhum outro signo. Capricórnio tolera muita coisa, suporta o que der e vier, mas tem sempre um “alto lá” para quem se exceder nas liberdades com a cabra – até porque ela entende que certas coisas são inegociáveis. Em segundo lugar, Capricórnio é um tipo que conhece o silêncio, convive bem com a solidão, e acredito que boas doses de silêncio e solidão vão ser importantes nesse processo. Conjunções planetárias são fenômeno cuja sincronicidade experimentamos com nosso corpo e coração inteiros, de acordo com sentimentos que vêm de dentro, sem necessariamente serem acionados por acontecimentos externos. Mas, para vivê-los, a gente precisa deixar que elas aconteçam em nós.

Passadas as festividades natalinas, portanto, virá o tempo de preparação para essa virada significativa, muito mais significativa que a virada de ano. Terminadas as Saturnálias, será tempo de entender o que mais tem que findar. Repito que a transição tem um forte componente espiritual, apesar de tratar também de fatos concretos e realidades duras da vida. A Lua Nova do dia 26 será um belo e harmonioso impulso para o instante mais denso que há de chegar uma quinzena depois. Quem tiver um pouco de senso usará essa largada para colocar-se em posição de escuta em relação às próprias emoções e aos próprios pensamentos, pois são eles que trarão as respostas que cada um de nós aguarda, e os gestos com que vamos delimitar o primeiro dia do resto de nossas vidas. Finalmente: nós já estamos esperando isso há algum tempo.

Para terminar, lembrei de um poema de Leonard Cohen, intitulado “Discussão”, cujos primeiros versos dizem: “Você talvez seja uma pessoa que gosta de discutir com a Eternidade”. Da maneira como o poema se desenvolve, entendo esse ‘discutir com a Eternidade’ como uma discussão com finitude e com a morte. De um modo ou de outro, todos nós discutimos com a morte, tentamos confrontá-la, expressamos nossa contrariedade em relação a ela, ou diante do fato de que as coisas acabam (assim como o amor acaba, no texto de Paulo Mendes Campos). Mas chega o momento em que perdemos nossas forças para continuar essa discussão, percebemos que não há como vencê-la, e com isso – quem diria – a vida se renova e segue adiante.

Acho que esse momento vai chegar pra muita gente em breve. Da maneira como as coisas estão se arranjando no céu, vejo Plutão como o agente da finitude e da morte que estamos confrontando há algum tempo. O Sol, a Lua Cheia eclipsada e os demais planetas que vão se reunir em torno dela me parecem ter vindo para encerrar essa briga, não necessariamente pacificando os ânimos, mas silenciando-os o suficiente para que entendam: já não há pelo quê brigar. As coisas se moveram e se transformaram a ponto de terem desfeito o próprio mundo onde a briga começou. A partir daqui a história é outra, e qual será nós não sabemos – mas tenho esperança de que, também em breve, a gente saberá por onde começá-la. Feliz 2020 para todos nós.


sagitário

O mundo de Sagitário

Quando jogos de computador começaram a existir, ou pelo menos quando passei a ter contato com eles, o meu preferido era um chamado Where in the World Is Carmen Sandiego?. A personagem do título era uma criminosa ladina e cosmopolita procurada no mundo inteiro pela Interpol, e a tarefa do jogador era reunir pistas em diferentes lugares para descobrir onde ela estava se escondendo. As cidades visitadas durante a investigação (Cairo, Reykjavik, Kathmandu, Buenos Aires, Oslo, Bagdá, Bancoc, e por aí vai) apareciam com ícones de sua arquitetura ou paisagem ao fundo, enquanto a fonte do detetive fornecia uma informação que podia ser importante na busca. Mas metade da graça do jogo estava em ficar indo de uma cidade para a outra, com seus nomes estranhos e familiares ao mesmo tempo.  

A investigação é uma arte que se aloja no arquétipo de Escorpião. Porém, nesse caso, metade da graça do jogo era sagitariana. Pois é em Sagitário que sentimos esse frêmito de excitação diante de coisas que são simultaneamente próximas e distantes, cujos símbolos conhecidos atiçam nosso desejo e curiosidade, porém dizem respeito àquilo que não está acessível de imediato. Quando digo “próximas”, portanto, não falo de coisas ou cidades que estejam perto: digo apenas que essas coisas existem e fazem parte deste mundo, são realidades possíveis e inclusive já realizadas pela humanidade, estão aí faz tempo e não vão embora tão cedo. Roma, no jogo como na vida, tinha a vantagem de ser Roma e de nem por isso ser uma invenção de um filme ou de um livro ou de um jogo. Istambul era não apenas uma cidade fantástica e quase inconcebível com suas mesquitas e minaretes, era isso e era também um lugar que um dia eu ia conhecer.

Funciona assim: primeiramente, a criança entra em contato com o mundo através daquilo que está ao alcance da mão. Seu raio de atuação e conhecimento se expandem um pouco nos primeiros anos – para a vizinhança, o bairro, a escola – mas até certo ponto tudo permanece no âmbito do arquétipo de Gêmeos. Em algum momento, entretanto, ela conhecerá também sinais e vestígios de todo um enorme mundo a ser explorado. Basta um mapa-mundi para colocá-la em contato com uma espécie de vastidão que não é a vastidão do cosmos, e sim a vastidão do globo, portanto uma enormidade, mas uma enormidade de proporções humanas, compatível com nossos cálculos e medições rotineiros, passível de ser percorrida por aviões e caravelas.

Tudo isso acontece em Sagitário, em movimentos simultâneos de redução e expansão: um globo terrestre cabe na prateleira de um escritório, porém para a mente sagitariana não deixa nunca de ser uma representação de outras coisas incríveis que realmente existem lá fora. Quem colecionou aqueles álbuns com as bandeiras de todos os países sabe do que estou falando. As figurinhas mesmo podiam ser simples, um conjunto de formas e cores sem maior ambição artística, mas cada bandeirinha no álbum tinha a enorme de virtude de não ser simplesmente um desenho. Elas sempre remetiam a algo de muito diferente, que existia em alguma parte do globo terrestre, e por isso existia um pouco também ali, através daquela bandeira.

É lógico que a gente vai sempre se lembrar com carinho de alguns detalhes interessantes ou enigmáticos: a estrelinha na bandeira da Tunísia, os escritos na bandeira da Arábia, a folhinha na bandeira do Canadá. Assim como existem lugares no mundo que dá vontade de conhecer só por causa do nome, como o rapaz que protagoniza O Que Diz Molero, um romance do português Dinis Machado, e que no final do livro percorre o mundo escolhendo destinos de acordo com a sonoridade das palavras: a Pensilvânia, a Groenlândia, o Panamá. Ainda assim, por mais exóticos que possam ser os símbolos e os nomes de territórios sobre a Terra, insisto no ponto principal: todos esses lugares têm a virtude de existirem. Não são invisitáveis, por assim dizer – e isso é muito mais do que podemos dizer de muitos outros lugares.

Por exemplo: imagino que, para uma criança sagitariana e fã de Harry Potter, seja um pouco duro descobrir que Hoghwarts é um lugar fictício. A essa altura ela já fez planos de ir até lá. Para uma criança de Peixes, vamos supor, isso talvez seja um problema menor: tudo bem, ela vai pensar, Hoghwarts pode não ser algo que exista nesse mundo, mas isso nunca foi pré-requisito para as coisas existirem na minha imaginação. Sagitário, por sua vez, é imaginativo, mas está sempre antecipando com entusiasmo acontecimentos possíveis – ainda que pouco prováveis, ainda que exagerados – dos quais se vê um indício, mínimo que seja, de que um dia venham a acontecer.

Aí eu fico pensando em como deve ser o envelhecer, para esse arquétipo em particular. Se já é complicado pra mim, nem consigo imaginar como deve difícil para Sagitário aceitar as limitações que se impõem na vida na medida em que o tempo passa – como, por exemplo, a de que a gente não vai chegar a conhecer todas aquelas cidades do joguinho da Carmen Sandiego. Pois uma coisa é aceitar que a gente nunca vai chegar à Terra do Nunca do Peter Pan; outra coisa é perceber que podemos morrer sem ter conhecido a Cordilheira dos Andes ou a República Tcheca. Afinal, tudo nessa vida envolve escolhas e concessões, e, por mais dolorosa que seja essa constatação, há coisas nesse mundo mesmo que no final das contas só terão existido para nós sob a forma de uma bandeira ou um nome ou um filme.

O mesmo raciocínio vale para livros que nunca vamos ler, obras inteiras que vamos morrer sem ter conhecido. Sempre que falamos em Sagitário, essa equivalência é válida, pois nesse arquétipo há tanto os que percorrem aeroportos e hospedarias quanto aqueles que habitam livrarias e bibliotecas, sobretudo quando Mercúrio se encontra em Sagitário também. Já para quem tem Vênus em Sagitário, por exemplo, a dor do possível tornado inviável pode valer também para os encontros que nunca teremos, inclusive aqueles que eram de antemão totalmente improváveis e absurdos. Como, vamos supor, um encontro com a Rainha da Inglaterra.

Sim, a Rainha da Inglaterra. Provavelmente ela apareceu aqui porque mencionei a República Tcheca, e é de um poeta tcheco o belíssimo poema chamado Um Guarda Chuva de Picadilly (Jaroslav Seifert), que trata de um eventual flerte do leitor com a monarca britânica. Ele foi traduzido pela poeta brasileira Marília Garcia, e pode ser encontrado aqui. Aliás, bem a propósito, a Marília é uma poeta brasileira e (salvo engano) sagitariana que escreveu livros como Engano Geográfico e Paris Não Tem Centro, e cuja obra tem como marca o trânsito cosmopolita entre línguas e lugares.

Seifert menciona o tal possível encontro do leitor com a Rainha da Inglaterra na primeira estrofe do poema. É claro que esse encontro não vai acontecer; ele não é totalmente impossível, está dentro dos limites do concebível (trata-se da Rainha da Inglaterra, e não de um elfo das terras médias), mas, convenhamos, não é algo que eu ou você vamos experimentar nessa vida. Na sequência, portanto, o poeta oferece razões sábias e maduras para aceitarmos essa impossibilidade, e menciona um guarda-chuva que o filho lhe trouxe uma vez de Picadilly em Londres, para a partir daí falar de seu próprio envelhecimento, e das tantas coisas que foram se tornando impossíveis como tempo. No final, o encontro malogrado com a rainha torna-se um símbolo de todas essas coisas que, ele agora precisa aceitar, tornaram-se igualmente improváveis em sua vida (mesmo as mais simples e prosaicas, como flertar com uma mulher).

A juventude, enfim, é a parte verdadeiramente sagitariana da vida porque nela tudo é possível. Ou melhor, porque nela, tudo o que é possível de um modo geral, é possível ainda individualmente para nós. Com o tempo, mesmo aquilo que não contraria nenhum tipo de lei da física pode tornar-se uma miragem: as sete línguas que iríamos apender (incluindo alemão e russo) tornam-se um inglês instrumental que dá para o gasto, e já nem inventamos desculpas para adiar aquele curso de francês, ele simplesmente não aconteceu. No entanto, se tivermos sorte, nunca perdemos a capacidade de nos deslumbrar com pedacinhos do mundão desconhecido que chegam até nós, como bandeiras de países distantes, palavras de línguas estranhas, ícones de cidades incríveis. Se tivermos sorte, permaneceremos um pouco sagitarianos.

Porque é igualmente sagitariana aquela parte de nós que – não importa a idade – vai se inscrever no curso de alemão, vai comprar a passagem para Istambul, e vai marcar um encontro no Hype Park com uma senhora inglesa que conhecemos pela internet. Por que não? O mundo de Sagitário comporta essas coisas, e a literatura nos conta também que essas coisas nunca deixarão de provocar um frêmito de excitação, para aqueles que se mantiverem encantados com o mundo e suas possibilidades. Que algumas coisas estrangeiras permaneçam estrangeiras é então fundamental para que a gente tenha com o quê se entusiasmar, em qualquer época, em quaisquer circunstâncias. Em um paradoxo apenas aparente, é sagitariana essa necessidade que temos de nunca realmente conhecer o mundo inteiro – para que possamos continuar a imaginá-lo, enquanto estivermos a caminho, durante nossas viagens para lá.

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Dr. Sigmund de sapatos novos

Em suas memórias, o médico suíço e leonino Carl Gustav Jung trata da ruptura de sua amizade com o neurologista austríaco e taurino Sigmund Freud como uma experiência muito difícil e dolorosa. Jung e Freud entraram mais abertamente em conflito em torno de 1910, por causa de divergências na evolução do pensamento de ambos, e sobretudo por aquilo que Freud considerava uma excessiva inclinação para o “ocultismo” nos estudos de seu discípulo. Tauríneamente, Freud não arredou um dedo da convicção nos sólidos postulados científicos sobre os quais procurava erigir a psicanálise; Jung, por sua vez, afirmou que, na época do desentendimento, sentiu-se tão perdido que não encontrou alternativa a não ser buscar nas imagens de seu próprio inconsciente alguma saída para a crise.

Então teria se fixado em uma memória de sua infância, de quando estava com 11 ou 12 anos, e se dedicava apaixonadamente a brinquedos de construção. O impulso criativo reanimaria seu espírito adulto, na medida em que ele retomou a atividade lúdica, saindo para catar conchas e outros materiais de manhã e separando um tempo para utilizá-los nos intervalos do trabalho no hospital. “Mal terminado o almoço, ‘brincava’ até o momento em que os doentes começavam a chegar; à tarde, se meu trabalho estivesse terminado a tempo, voltava às construções. Com isso meus pensamentos se tornavam claros e conseguia apreender de modo mais preciso fantasias das quais até então tivera apenas um vago pressentimento”.

Esse recurso ao potencial terapêutico da brincadeira, da criatividade, do jogo e do ócio não é apenas uma característica de Leão; é também uma marca daquele tempo. Roger Caillois, em Os Jogos e os Homens, observa que as primeiras miniaturas de carros foram produzidas por operários de fábricas automotivas em que a divisão do trabalho não lhes permitia acompanhar o processo de produção do começo ao fim. Assim, chegando em casa, eles podiam reassumir o controle de todas as fases da composição de um artefato, nem que fosse como um hobby compensatório, e conseguindo com isso restituir a si mesmos uma relação artesanal com a inteireza do objeto.

Mas o arquétipo de Leão de fato atualizou esse impulso de formas diferentes através dos séculos. Cada texto que começo e termino para esse blogue, por exemplo, é uma espécie de jogo em que me envolvo com prazer e incerteza, sem saber ao certo de onde estou partindo nem onde vou chegar, mas sentindo que algo de esclarecedor – para mim pelo menos, espero que para vocês também – se realiza no percurso.

Nunca sei exatamente de onde vai surgir a peça com que começarei a montar cada texto. Nessa semana, por exemplo, ela apareceu na leitura desse trecho autobiográfico de Jung. Aí me ocorreu que é meio engraçado que ele e Freud tenham sido ambos de signos fixos (Touro e Leão), os quais existem em uma relação tensa e produtiva. Mas reparei em seguida que a coisa não para por aí: Freud tinha o ascendente em Escorpião, e Jung em Aquário, ambos no signo oposto complementar de seus signos solares. Isso quer dizer, basicamente, que a cruz dos quatro signos fixos esteve envolvida nas aproximações e afastamentos entre os dois grandes pensadores da psicologia no século XX. Opa, pensei: tem jogo aí.

Acho que em ambos os casos o signo solar aparece como a base da personalidade, e o ascendente refere-se à contribuição que ofereceram em suas obras. No caso de Freud, o vínculo com Escorpião é mais que evidente: de Totem e Tabu a Moisés e o Monoteísmo, desenvolve-se um concentrado esforço arqueológico em que são desenterrados os ossos de crimes antigos (o assassinato do pai pela horda primitiva, o assassinato de Moisés pelas tribos do êxodo), que teriam correlações exatas em episódios de cada trajetória individual, habitando os subterrâneos do inconsciente. Os sentimentos de inadequação, culpa, remorso ou angústia que surgem da repressão dessas memórias podem então ter sua origem identificada. Com isso, torna-se possível e necessário encarar os demônios ocultos na psique, para alcançar a lucidez após um intenso mergulho nas profundezas do passado.

Tudo converge para o Complexo de Édipo, também um assassino de seu pai, ao mesmo tempo detetive e criminoso, cujo expurgo de Tebas revela-se necessário para a regeneração da cidade. Aqui uma importante diferença entre as obras de Freud e Jung pode ser notada, pois no segundo caso há uma profusão de arquétipos, narrativas e símbolos que nunca se deixam reduzir a uma única história. Assim, enquanto Escorpião tende à obsessiva e quase paranoica busca de vestígios capazes de reafirmar o ponto central de suas investigações, Aquário abre mão do “uno” em favor do “múltiplo”, observando e afirmando diferenças ex-cêntricas onde outros vêm similaridades.

A ênfase no caráter sexual da libido, a propósito, não deixa de ser um componente escorpiônico das lições de Freud. Também aqui ele e Jung divergiram frontalmente da maneira como Escorpião e Aquário divergem no zodíaco. Pois o primeiro é uma força corporal, intensa, concentrada, enquanto o segundo é um arquétipo que se dispersa no ar em uma complexíssima profusão de relações em rede. Jung considerava a ênfase de Freud nas pulsões sexuais uma inclinação “reducionista”, na medida em que designava uma só fonte como energia motriz de todos os esforços e humanos. Ele acreditava que o impulso criativo, por exemplo, existia por si mesmo, e não como um excedente de desejos reprimidos.

Curiosamente, portanto, embora Jung fosse o ”ocultista” da relação, havia algo na ciência de Freud em que ele detectava uma obsessão compulsiva com o tema do sexo e da autoridade paterna. Não é incomum que Aquário veja Escorpião por esse prisma, no qual se ressalta sua perspectiva desencarnada, indiferente em relação aos instintos primitivos que lhe parecem vis ou demasiadamente humanos. Mas isso envolve também a dimensão iluminista e prometeica do arquétipo aquariano, na medida em que busca alçar o humano para além de seus limites usuais. Desse modo, e mais uma vez curiosamente, as Luzes estão do lado de Jung, embora Freud fosse o cientista da relação.

Acontece que Jung também se outorgava esse título, tinha apreço por ele, porém entendendo a ciência de um modo mais heterodoxo. De ambos, se não me engano, foi quem acompanhou mais de perto as inovações da Teoria da Relatividade e e Física Quântica, sem deixar escapar as relações da cosmovisão que essas novidades ofereciam com elementos das religiões orientais. Freud, enquanto isso, manteve-se centrado na tradição judaico-cristã, ferozmente dedicado ao problema de Deus, ou ao problema do Pai.

Enfim, Jung roubou o fogo de seu próprio Sol leonino para levá-lo aos homens através de seu ascendente aquariano; Freud manteve-se até o fim da vida irremovível do caminho em que Touro o havia situado, porém correndo riscos e desencavando desejos que apenas são aceitos e reconhecidos quando acionamos o tipo de coragem que reside no arquétipo de Escorpião. Da tensão produtiva desses cruzamentos, ambos descobriram razões que reforçaram suas crenças e os mantiveram em suas trajetórias, que, antinômicas como são, não deixam de se complementar (caberia ainda mencionara os aspectos complementares das noções de inconsciente individual e inconsciente coletivo, que estão mais propriamente atreladas aos arquétipos de Escorpião e de Peixes, tal como já comentei aqui).

Resta saber como Freud terá reagido à ruptura que levou Jung aos brinquedos de construção. Algo pode ser deduzido da correspondência entre ambos – ele alegou ter sido “despojado da autoridade paterna” de que o próprio jovem Jung o investira anos antes –, mas acho que nesse caso ele deve também ter buscado no seu Sol taurino algum tipo de conforto. No mínimo, deve ter se recostado em uma poltrona aconchegante, procurando quem sabe um bom lugar pra ler um livro, sem outro propósito além dar maciez à sua tristeza. Freud, é bom lembrar, fez o caminho de volta de Escorpião a Touro (dos mistérios ocultos à verdades elementares) quando lhe perguntaram insidiosamente a respeito de seu prazer com o fumo: “Às vezes, um charuto é apenas um charuto”.

O que então me vem à mente é uma tela do pintor Konstatin Christoff que vi em uma exposição no Palácio das Artes de Belo Horizonte muitos anos atrás. Ela se chamava “Dr. Sigmund de sapatos novos” – e mostrava um Freud felizão e sorridente com um novo par de sapatos brilhosos que teria comprado. O efeito da pintura estava na associação de uma figura tão imponente e misteriosa como a de Freud com alegria de ter comprado um par de sapatos novos. É como imaginar Escorpião contente diante de um belo prato de macarronada.

Ou seja, talvez tenha sido assim que ele lidou com a perda da amizade do discípulo: como um bom e velho taurino. Talvez a materialidade das coisas e as sensações que elas provocam não tenham deixado nunca de ser para ele uma espécie de refúgio em tempos de crise, a base de sua existência e sua personalidade, o ponto central e solar a partir do qual irradiou seu brilho para as regiões sombrias da alma humana. Assim como a criatividade e os jogos foram para Jung.

Só queria ainda acrescentar que Konstantin Christoff foi um artista búlgaro que, aos nove anos de idade, foi parar com a família em Montes Claros, no norte de Minas Gerais. Formado em Medicina pela UFMG, trabalhou como cirurgião-geral a vida inteira, mas nunca abandonou a pintura, além de ter publicado várias ilustrações na imprensa brasileira. Mais um médico artista, portanto. Descobri isso agora, ao fazer a pesquisa para tentar descobrir a imagem do quadro de Freud com sapatos novos. É engraçado o tipo de coisa que descubro e que encontro ao juntar as peças para esses jogos que vou montando aqui.

Mas infelizmente não encontrei a imagem, então terei que pedir um esforço da imaginação de vocês para terminar. Visualizem aí, com candura, sem maldade: Dr. Sigmund. Uma poltrona confortável. Pernas cruzadas. Sorrisão na cara. Charutão na mão. Sapatos novos.