aquário, câncer

O livro de segredos de vovó Alice

Em outubro de 2013, quando recebeu o Prêmio Nobel, a escritora canadense Alice Munro deu uma entrevista sobre seus hábitos e preferências literárias. Ao ser perguntada sobre o que considerava importante na hora de escrever um conto, ela disse que, no começo de sua carreira, o importante era que suas heroínas tivessem um final feliz. Havia inclusive começado a escrever histórias com uma versão própria da narrativa da Pequena Sereia, em que a protagonista recebia uma recompensa à altura de seus esforços para se adaptar à vida fora d’água. No entanto, Munro diz ainda que, ao amadurecer e entrar em contato com outros textos, suas inclinações mudaram: “Aí eu fui para o trágico. E eu gostei”.

O sorriso em seu rosto quando faz essa afirmação é uma imagem ao mesmo tempo esclarecedora e desconcertante. O leitor de seus livros sabe o que está por trás dele: uma infinita e extremamente complexa rede de acontecimentos que se afetam mutuamente, de maneiras nem sempre compreensíveis, mas em relações nítidas o bastante para intuirmos a estranha coerência do destino de suas personagens, por mais difíceis ou trágicos que eles possam ser. “Destino”, aliás, é uma palavra que provavelmente sequer aparece em toda sua obra – assim como, em uma charada cuja resposta seja “vermelho”, essa palavra não aparecerá nem uma única vez.

Não vou arriscar nenhuma explicação desse sorriso. Não vou oferecer uma análise da síntese que ele nos proporciona. Só queria aproveitar a oportunidade do aniversário recente da escritora para mencionar que o nome desse blog teve sua origem em um livro dela, e que uma das primeiras postagens era uma anotação breve sobre a relação entre Câncer e a tragédia. Desenvolvi um pouco mais esse ponto em um pequeno ensaio posterior, mas sempre achei que o momento de concluir minha tarefa com o assunto seria ao escrever algo mais elaborado sobre os contos de Alice Munro.

Cheguei à conclusão de que esse momento chegou. Ou melhor, entendi agora que ele nunca vai chegar. Não é que eu me recuse a reduzir uma obra à expressão do signo solar de quem a escreveu; já fiz essa brincadeira algumas vezes, com Kafka, com García Márquez, com Shakespeare. A questão é que, no caso de Alice, especificamente, a tarefa me parece de antemão fadada às mais elevadas escalas de um tipo específico de insucesso – aquele em que eu ficaria páginas e páginas de debatendo com as palavras, inutilmente, para tentar encontrar um modo de dizer algo que desde o começo eu sabia ser impossível de explicar.

Nada muito diferente do cotidiano de muitos escritores e ensaístas. Mas é algo que de vez em quando a gente prefere evitar. Até porque, nesse caso, sinto que estou diante de uma força que vai defender com unhas e dentes seu direito de me causar assombro e perplexidade (com unhas, dentes e um sorriso tão aberto quanto impenetrável).  Há, talvez, um mistério central na obra de Alice, e há certamente uma infinidade de segredos particulares em cada um de seus contos. Mas sinto que eles não estão aguardando nenhuma interpretação, nenhum desvelamento, e muito menos uma especulação hermenêutica baseada no signo da pessoa.  

De modo que este texto é basicamente uma recomendação de leitura, além de uma homenagem. Leiam o livro de segredos de vovó Alice: uma obra com mais de uma centena de contos nunca gratuitamente complicados, mas sempre incrivelmente complexos, em que as reverberações de cada gesto se entrecruzam numa figura ao mesmo tempo robusta e delicada, desenhando-se por trás de toda dor e todo o sofrimento das personagens. Vidas inteiras são despedaçadas, mas parece que isso nos revela uma forma mais profunda de integridade. Trata-se de um anteparo sempre incomum, mas nem por isso menos verdadeiro: o fato de essa rede ser indescritível em sua singularidade não implica que ela não esteja lá.

Enfim, cá estou tentando compreender o que eu disse que não ia tentar explicar. Mas me ocorreu agora que a questão da tragédia na obra de Alice Munro requer a visualização de três camadas para ser assimilada. Na primeira estão os títulos de livros como O Progresso do Amor, O Amor de uma Boa Mulher e Vida Querida, que repercutem aquela fase inicial de sua trajetória como contista, quando o importante era o final feliz. Esses títulos podem ser atribuídos à irônica permanência de uma capa de otimismo e ingenuidade em alguns de seus contos mais dilacerantes.

Na segunda camada, está o que todo mundo percebe quando abre um desse livros e começa a efetivamente ler as histórias: uma imensa sensibilidade para os aspectos mais frágeis da condição humana, nossas inevitáveis experiências com a perda, a morte, a violência e a crueldade, nossas eventuais alegrias em meio a essa confusão toda, e nossa possível conciliação com todo o conjunto desses fatores (nunca com apenas uma parte deles). Eu poderia dizer que esta sensibilidade em particular é tipicamente canceriana, acrescentando algo do ascendente em Aquário para dar conta da complexidade. Mas o que eu queria dizer é que minha compreensão da própria astrologia começou com a leitura da obra de Alice Munro.

Pois, na terceira camada, o que eu sentia ao ler os contos dela é algo muito semelhante ao que sinto ao ler mapas astrológicos. Há um destino ali: suas razões podem não ser compreensíveis, seu desenho não está totalmente claro, mas há elementos suficientes para entender que os acontecimentos de uma vida, inclusive os mais sofridos, não são fatos isolados, e fazem parte de uma trama cuja urdidura se dá a conhecer por estes meios (a literatura, os astros). Então, o trágico que se manifesta inevitavelmente na trajetória de cada um tem como pano de fundo uma trama. Essa trama é uma imagem, uma textura, um jogo de oposições e ressonâncias. Então, eu comecei a aprender a ler mapas lendo Alice Munro.

Depois, é claro, vieram as técnicas, a bibliografia específica, a experiência prática. Mas foi a experiência de leitura dos contos dela que preparou esse terreno, criando o hábito da convivência com sensações que atravessaram de um lugar para o outro. Com a astrologia, há sempre a sensação de que cada mapa é infinitamente complexo, mas nunca gratuitamente complicado; de que é possível encontrar a trama que está por trás da dor e do sofrimento de cada personagem, mesmo que isso nunca deixe de causar assombro e perplexidade; e de que essa trama tem sua coerência, sua força e sua presença, revelando uma forma mais profunda de integridade.

Agradeço aos céus pelo dia em que entrei numa livraria e saí de lá com aquele livro verde com uma folha na capa de uma senhorinha canadense que eu nunca tinha ouvido falar. A partir dali, mergulhei na obra dela como só mergulharia em algo novamente ao estudar os astros e os signos. Que essas coisas estejam interligadas é um dado a mais na percepção da infinita rede de relações de que se compõem nossas vidas. No entanto, o que está por trás (mas por trás mesmo) de tudo isso é algo que eu não sei dizer, e provavelmente nunca saberei, a não ser que venha um dia a descobrir o que está por trás do sorriso no rosto de Alice.  

escorpião, touro

Emoções complicadas

Foto: Ieda Magri

Esqueçam a onisciência, a onipotência, a onipresença: nenhum atributo é tão característico do Deus dos testamentos quanto sua solidão. Enquanto isso, nas mitologias politeístas os deuses são apresentados sempre em relações uns com os outros, vivem aos gritos entre si, e o próprio isolamento de Hades no mundo dos mortos o leva causar uma crise cósmica envolvendo várias outras potências durante o rapto de Perséfone. Os mitos são constelações, e não há estrela que brilhe solitária em seu centro, mas um desenho feito do conjunto de contatos e contágios entre elas. Tampouco, de um ponto de vista narrativo, encontramos neles uma causa dominante para os efeitos subsequentes, mas sim uma simultânea aparição de forças contraditórias.

Pensei nisso depois de ler Uma Exposição, romance de minha amiga Ieda Magri recentemente publicado pela Relicário, e do qual ouvi de outra amiga na ocasião do lançamento: “Esse é o livro mais taurino que você vai ler na vida”. E é; nem era de se esperar outra coisa. A Ieda tem Sol em Touro, Ascendente em Touro, e isso falando só de memória: vendo mapa deve ser possível encontrar tanta coisa em Touro que a redução determinista e astrológica estaria mais que justificada. O livro chega a ser literalmente sobre um boi, em algumas passagens importantes e memoráveis; há no estilo uma materialidade capaz de nos fazer sentir nossos próprios dedos nas entranhas do animal; a narradora se define como uma “camponesa” logo nas primeiras frases; como se não bastasse, fala-se de comida o tempo inteiro. Mais taurino que isso, impossível. Mas, como nos mitos antigos, na astrologia nenhum deus aparece sozinho. Nenhum arquétipo também.

Ou, para retomar a imagem: em se tratando do cosmos multipolar do zodíaco, toda aparição de uma força constela outras que lhe são contrastantes, ou mesmo opostas. Touro, para começo de conversa, não existe sem Escorpião. E, para começar a explorar o livro da Ieda por outras perspectivas, esse início de diálogo é mais que suficiente. Pois é Escorpião que nos aguarda no centro da trama de retorno ao lar: o embate emocional intenso com a figura materna, a crise transformadora e irreversível, o amadurecimento a fórceps da alma que, não sem um momento de revolta, reconhece sua parcela de dor e acolhe seu quinhão de sofrimento neste mundo. Todos nós vamos nos deparar em um momento ou outro da vida com certas condições da existência diante das quais não há negociação possível. Todos nós jogamos algum tipo de jogo em que colocamos todas as nossas fichas no fundo sabendo que é para perder.

O texto fala muito em sacrifício, aliás. São muitas as mortes que o atravessam. Este é um tema de Escorpião. No entanto, há um pano de fundo taurino que não nos deixa nunca esquecer como a morte é um assunto corriqueiro, e como qualquer visita ao açougue ou ao supermercado envolve a aceitação tácita do morrer como parte da vida, por mais que nossos olhos estejam resguardados dessa verdade. Tal perspectiva pode tanto alterar por um momento nossa relação com o açougue e com o supermercado, tornando-a mais solene ou reflexiva, quanto pode trazer a um plano mais prosaico e cotidiano algumas mortes que a princípio nos parecem grandiosas. De um jeito ou de outro, é o eixo Touro-Escorpião que demonstra sua capacidade de contaminação mútua e seus trânsitos internos.

Touro, afinal, trata dos ciclos naturais, das mortes previsíveis, das mudanças cíclicas entendidas como eventos necessários da natureza. Touro é simples. Escorpião governa as transformações dolorosas, os fins abruptos, os expurgos devastadores e necessários para os recomeços a partir do nada. Escorpião é complicado. Agora, vai tentar estabelecer limites nítidos entre um e outro para você ver no que dá. E é bom que seja assim, porque estamos falando de signos opostos complementares: a alma taurina e pacata, por exemplo, que se mantiver em estado de defesa contra as intrincadas tramas emocionais que ameaçam a sua tranquilidade, vai vê-las surgir disfarçadas, inadvertidamente, em hábitos compulsivos e comportamentos sintomáticos, que atuarão de um modo mais insidioso e prolongado nas bases de suas alegrias cotidianas (quem explicou essa dinâmica em detalhes foi um taurino com ascendente em Escorpião, chamado Sigmund Freud). Já a alma beligerante de Escorpião que, por sua vez, permanecer para sempre chafurdada nas intensidades de seus infernos particulares, talvez se esqueça de há também algo de comum e regular nesses processos, e que ficar futucando as feridas pode acabar impedindo formas de cura que precisam apenas do tempo certo para acontecer em paz.

E foi desse jeito, na oscilação entre estes polos, que senti as coisas se complicando no livro. Foi assim que eventualmente elas se simplificaram também. O tempo todo, percebi algo de extraordinário implícito no ritmo regular dos trabalhos e dos dias, enquanto, mesmo nos eventos menos previsíveis, nota-se um tom de lúcida aceitação dos ciclos naturais, ainda que essa clareza possa surgir a posteriori. Fica então a pergunta: nossas grandes perdas, nossas derrotas mais significativas, nossas limitações mais peremptórias, serão elas tão clamorosas e imprevistas assim, ou, em retrospectiva, poderão ser vistas como parte de um ciclo que se esgotou por si mesmo, que morreu quando tinha de ser, que acabou de morte morrida, por mais que na hora a tenhamos sentido como uma agressão sem aviso e sem justificativa?

A pergunta, aqui, é se devemos considerar as profundidades da nossa vida psíquica como expressões (um pouco mais estranhas, é verdade) das superfícies corpóreas e dos ritmos regulares do mundo da natureza, ou se até as superfícies corpóreas mais simples e constantes podem ser apreendidas como algo mais profundo e mais intrincado do que parecem à primeira vista. Sinto que a resposta está em Touro e Escorpião, mas que talvez a polivalência dessa fonte nos impeça de ter uma formulação clara e simples a respeito. Ou melhor, ela existe. Li outro dia na internet. Diz assim: “Você é uma plantinha com emoções complicadas”. Não que resolva o assunto para um lado ou para outro, mas acho que nenhuma frase explica tão bem do que estamos falando quando falamos em Touro e Escorpião.

Agora, outra singularidade que me chamou atenção, no romance, é algo que ele compartilha com passagens da prosa de Alice Munro, de Jhumpa Lahiri, de Elena Ferrante, de Marilynne Robinson, de Lygia Fagundes Telles. Parece que o tema do confronto – e dos cuidados, e do estranhamento – entre e mãe e filha está agora se dando a conhecer com mais frequência na literatura, e a cena da asma tal como descrita no livro já mereceria fazer parte de qualquer antologia nesse sentido. “O pai não há, ele não significa nada na hora da asma”, afirma, por sinal, a narradora. Assim, se há uma relação evidente do livro com o Lavoura Arcaica de Raduan Nassar, há uma diferença que chama tanto a atenção quanto a semelhança.

Pois já não temos aqui uma figura masculina que impõe sua centralidade pela mera disposição dos lugares à mesa. No lugar do pai autoritário e sozinho em seu trono, contra o qual se voltavam os instintos edipianos e as hordas primitivas, surgem as variações daquilo que já foi conhecido pelos nomes de Gaia, Deméter, Perséfone, Hera, Ártemis, Atena. A primeira dessas, em particular, parece deixar suas pegadas arquetípicas no livro, em se tratando de um princípio cosmogônico – em grande medida impessoal – que dá e tira a vida segundo uma necessidade que só ela conhece. É Gaia quem abre uma fenda na terra para que Perséfone seja raptada para o Hades. Ela não se identifica nem com um lado nem com outro da contenda, ela é basicamente o cenário da disputa, mas um cenário ativo, cujas portas se abrem e fecham de acordo com as necessidades internas do drama. Porque certas coisas precisam acontecer.

Gaia se confunde com a própria Terra. E a Terra, como alguns defendem, é um dos corpos celestes que podem um dia substituir Vênus no ofício da regência de Touro. O outro é Ceres, ou seja, Deméter segundo os romanos. Eu ficaria com essa alternativa, considerando que o casal Hades/Perséfone tem por sua vez uma associação intrínseca com Escorpião. Deste modo, Gaia participa da história de maneira mais abrangente, tendo sob seus domínios o conjunto do eixo Touro-Escorpião, na medida em que nela se encontram não apenas a terra cultivada e a nutritiva das planícies taurinas, mas também os subsolos ocultos e complexos das energias escorpiônicas. Gaia é a ligação e a passagem entre esses mundos, e é ela que restabelece o equilíbrio eventualmente ameaçado entre eles, porque ambos estão sob sua jurisdição.

Curiosamente, porém, desde que conhecemos a maneira traumática como se desenrola a história de Perséfone, sabemos que este restabelecimento de uma harmonia possível entre os deuses da lenda pode ser dar das formas mais perturbadoras. Sabemos, também, que perdas e limitações serão tão bem distribuídas quanto ganhos e conquistas no decorrer dessa história. No final, há de fato o restabelecimento de uma espécie de equilíbrio, as coisas retomam certo prumo, torna-se possível falar novamente de comida, e do trabalho, e da chuva, e de como os dias de inverno desse ano estão até menos frios que os do ano passado. Mas sabemos o custo que foi para que as coisas chegassem a este ponto novamente.

Logo no início do livro, a narradora afirma para justificara a viagem: “Me vi às voltas com a necessidade de compreender meu passado camponês, antes que ele me engolisse”. Pois bem. Não havia escapatória. Isso de engolir é da natureza de Gaia. Mas, no final das contas, há algo indicando que esta foi uma refeição como muitas outras na longa história da terra, o que de maneira alguma torna menos importante: é exatamente a capacidade de operar esse pêndulo que torna o livro especial. Ou seja, a maneira como ele não se detém nem no lado simples nem no complicado das coisas, mas transita entre eles como quem precisa fazer uma visita de rotina aos próprios demônios, sendo que “rotina” aqui é algo mais complexo do que parece – e “demônios”, por outro lado, menos.

Mas não é tarefa fácil, essa de não fazer uma opção clara por um lado ou por outro em um embate de diferenças tão marcantes. Vejam Tolstoi, por exemplo. Anna Karennina pode ser um romance de uma meticulosa arquitetura, mas no desfecho há uma oposição evidente entre o casamento camponês de Levin e Kitty e as sofisticadas confabulações afetivas de Anna e Vronski. A simpatia do autor estava claramente com a simplicidade. Mas é bom notar que, já a essa altura da vida, Tolstoi estava encaminhando seus textos para a defesa de uma doutrina, e que essa doutrina seria ao mesmo tempo tão grandiosa em seus propósitos e tão básica em suas premissas que não deixa dúvidas quanto a pelo menos um ponto: não se deixem enganar pelas simplificações que correm por aí esses dias. Os russos têm emoções complicadas.

De emoções complicadas é feito também o livro da Ieda, que, de certo modo, passa a integrar igualmente o cânon da “Rússia americana” a que se referiu o Ricardo Benzaquen de Araújo comentando a obra de Gilberto Freyre. Mas nem por isso ele deixa de ser simples, como uma plantinha. E essas variações surgem de onde menos se espera. Isso porque, em momento algum, o texto se deixa pender para o predomínio de um único deus na tecitura de seus embates: quando muito, há um protagonismo da terra, há a presença de Gaia, mas mesmo essa não pode ser definida senão através de um conjunto de atributos ambivalentes e contraditórios. Vai saber, talvez a vida emocional de nosso planeta esteja longe de ser simples. A das plantas não é. A dos animais não-humanos, então, nem se fala. Enquanto de nós mesmos, e de nossos semblantes tão preocupados, talvez eles tenham a impressão de que somos apenas um episódio simples e breve do cosmos – e que logo simplesmente passaremos, como as estações do ano, ficando de nossas angústias apenas uma vaga lembrança de um aroma de outono quando as folhas já estão todas caídas no chão.   

astros

Como sobreviver a Mercúrio Retrógrado

Sabe-se que Mercúrio Retrógrado tem entre suas funções fazer a gente se lembrar de algo que a gente esqueceu. Sabe-se também que Mercúrio Retrógrado tem a ver com imprevistos e falhas de planejamento. Pois bem: é só juntar as duas coisas para concluir que Mercúrio Retrógrado está aí para nos lembrar da imprevisibilidade da vida, da qual a gente meio que se esquece sempre que faz nossos planos e previsões, enquanto, como igualmente se sabe, Hermes ri. E um dos sinais mais claros de como a gente tenta domar esse lado meio imponderável da coisa toda é, bem – toda essa atenção que volta e meia ganham as artimanhas de Mercúrio Retrógrado.

Por um lado, parece bom que esta força traquinas da natureza esteja retomando seus direitos e a reverência que merece através da circulação de informações astrológicas. Por outro, é cada vez mais comum vermos por aí manuais sobre como sobreviver a uma temporada de Mercúrio Retrógrado, com dicas tais como “evite assinar contratos”, “mantenha a calma e siga adiante”, ou “não esqueça de fazer o backup e de revisar o carburador”. O curioso disso é que se refaz um caminho comum a todo tipo de linguagem simbólica ou religiosa no ocidente: a um momento de verdadeiro respeito pela força do mito e do inconsciente, segue-se a transformação de suas imagens em alegorias, com seus respectivos ensinamentos de códigos de conduta.

Aconteceu com Jesus Cristo, uma força disruptiva e pisciana que mais confundiu do que esclareceu com suas parábolas e gestos ambivalentes, e acabou dogmatizada pela instituição que em tese falava em seu nome; aconteceu com as divindades pagãs absorvidas no sincretismo popular medieval, depois convertidas nas figuras alegóricas das peças didáticas conhecidas como “moralidades”, povoadas por personagens como a Justiça, a Pureza e a Parcimônia; e acontece hoje no comércio dos arcanos do tarô, com seus breves manuais explicativos, em que o Hierofante se reduz a palavras-chave como Casamento e Sabedoria, sem que esteja nada claro o que o Casamento tem a ver com Sabedoria e vice-versa (com tantos argumentos válidos em contrário).  

Aconteceu com os sonhos também. Freud e Jung captaram a vida própria das imagens oníricas e seu poder de questionar todas as nossas convicções conscientes; depois, vieram os dicionários de imagens e símbolos psíquicos para garantir à consciência que nem tudo está fora do controle, que um objeto longilíneo representa o falo e uma voz feminina representa a anima, então podemos dormir tranquilos, pois nenhum súcubo não catalogado virá nos visitar no meio da noite. De modo que a história da psique aparece como uma história da retomada de controle territorial do ego sobre os significados de significantes que ele não produz, mas dos quais toma conta assim que assumem o aspecto de uma ameaça: e assim chegamos às previsões sobre o imprevisível e impagável Mercúrio Retrógrado.

Acontece que a astrologia não é uma ciência explicativa do comportamento dos astros; é antes um espaço de escuta do que eles têm a dizer, o que presume que eles sempre terão algo novo a dizer, e não que repetem a mesma ladainha de três em três meses. Saber que Mercúrio está ou estará retrógrado ajuda, é claro, mas ajuda sobretudo se você souber entender que assim estão criadas as condições para que ele te surpreenda, e que, portanto, de nada vai adiantar se você não esquecer de fazer o backup dos arquivos nem de revisar o carburador, mas permanecer surdo para as mensagens que estão chegando através de outros utensílios até então silenciosos.  

Mercúrio rege a linguagem, afinal, então faz sentido que seus movimentos mais irreverentes causem pequenos curtos-circuitos na maneira como costumamos manejar signos e símbolos. Mercúrio Retrógrado torna-se assim uma pequena Saturnália, um carnaval em versão de bolso, quando as classificações usuais mostram suas insuficiências e as checklists da semana se revelam comicamente incapazes de dar conta de suas emergências.  “Espere o inesperado” parece ser a única dica em última instância apropriada para este movimento – mas mesmo ela pode acabar tendo o mesmo destino das outras. Chega uma hora em que de tanto ouvir as mesmas frases e recomendações elas perdem o sentido para nós, e então o que precisamos não é de mais frases feitas, e sim de um renovado respeito pelas potências desconhecidas que nossa linguagem nunca conseguirá delimitar.

gêmeos

Sob o signo da distração

Talvez você não saiba, mas os doze trabalhos de Hércules podem ser associados aos doze signos do zodíaco. Eu mesmo só descobri isso agora, quando tinha coisa mais importante para fazer e inventei de ficar fuçando a internet ao invés disso. Áries, por exemplo, é associado à lição aprendida durante a captura das éguas furiosas de Diomedes: após reunir algumas delas, e na pressa para terminar logo o trabalho, o herói deixa as éguas capturadas aos cuidados do amigo Abderis, que nem de longe tem as mesmas qualidades hercúleas, e acaba devorado impiedosamente. Hércules não chega a se abalar muito com o episódio, mas está claro que o trabalho não é um completo sucesso. Nota mental para arianes: não deixar bestas famintas aos cuidados do amigo.

Mas a história que realmente chamou minha atenção e me fez parar para contar o caso foi a de Gêmeos. Trata-se do trabalho em que Hércules precisa colher umas tais famosas maçãs de ouro das Hespérides. Não me perguntem o que é Hespéride, porque não faço ideia, e pra mim já deu de catar conhecimentos aleatórios por hoje; o fato é que, comparado às demais tarefas, essa parece bem mais fácil, a tal ponto de Hércules (de hábito eficaz e intransigente em seus esforços) acaba parando no caminho, voltando-se para as distrações que aparecem. Numa dessas, ele encontra Atlas, que já não aguenta mais segurar o mundo nas costas e lhe pede uma forcinha. Hércules presta socorro, e no final das contas é Atlas que vai colher as maçãs para ele, num trabalho que se revela mais complicado do que ele tinha previsto. Sozinho ele não teria conseguido.

Moral da história: a procrastinação compensa. Se você tem algo de importante para fazer pela frente, pode ser fundamental que você se deixe distrair com outros assuntos, para descobrir – ainda que sem querer – os instrumentos e informações necessárias à realização do trabalho. Notem, aliás, que Gêmeos é o signo oposto complementar de Sagitário (a flecha que vai direto ao ponto), e vive meio que arquetipicamente às turras com Capricórnio (que quer ver as coisas todas feitas de uma vez). Porém – e isso vale especialmente para capricorninianes – a procrastinação é uma arte, e, como tal, deve ser praticada por amor e com autêntico desinteresse. Não vale adiar as tarefas e ficar procurando aqui e ali as distrações que serão mais úteis; só aquelas praticadas com genuína negligência pelos resultados serão recompensadas.

Tem também o fato, é claro, de que, se você parou para ajudar o amigo, aumentam as chances de retribuição. Mas, se não me engano – e, em se tratando de Gêmeos, aumentam as possibilidades –, o Hércules da lenda parou para ver o que estava acontecendo e saiu do seu caminho mais por curiosidade mesmo. Foi isso que teve efeito, e não a disposição piedosa, o cuidado solidário, a preocupação com o destino do mundo. Existe um valor intrínseco na dispersão, um atributo característico da multiplicação de objetivos secundários, assim como  existe uma virtude própria em todas essas abas abertas no navegador da internet. Como diz a canção: navegar é preciso, viver nem é.

Portanto, se você parou o que estava fazendo para ler esse texto, isso não quer dizer que o universo vai te recompensar com uma ajudinha a mais nos serviços que deixou para depois. Mas quer dizer, sim, que você está exercendo uma qualidade humana cuja importância não podemos quantificar. Vai saber: quem garante que Hamlet não teria sido poupado daquela desgraça toda se tivesse adiado só um pouquinho mais sua vingança, descobrindo que Fortimbrás estava com suas tropas às portas no reino da Dinamarca? E Romeu e Julieta, então – não é certo que um pouquinho menos de foco naquele negócio de se matar poderia ter encaminhado a história para outro desfecho?

Mas reconheçamos que, com isso, a humanidade teria sido privada de algumas de suas mais belas tragédias. E, se entendemos que Gêmeos poderia evitá-las, é porque Gêmeos, de fato, não é um signo trágico. Mas isso não quer dizer que não seja épico. Vale lembrar algo que o crítico literário Georg Lukács afirmou sobre os heróis das epopeias: para eles, o problema não é decidir o quê fazer, mas descobrir se terão força, coragem e habilidades necessárias para realizar suas tarefas. De modo que podemos agora acrescentar: se terão as capacidades hesitantes, o caráter meio desatento, o gosto pela cultura inútil e a inclinação a dar trela para distrações no meio da tarde que só os grandes heróis possuem nos momentos decisivos. Na hora H, é válido dar aquela olhadinha nas redes sociais ao invés de enfrentar o próximo serviço que temos pela frente. No que se refere aos doze trabalhos de Hércules, pelo menos, podemos afirmar com somente contando com essas virtudes eles vieram a ser concluídos.

arcanos

Todas as histórias do mundo

O Tempo e a Raposa Girando a Roda da Fortuna (c. 1526) | Albrecht Dürer

Uma vez eu fiz uma viagem acreditando que era para nunca mais voltar. Estava com vinte e poucos anos, andava me sentindo estagnado e sem perspectivas na vida; um amigo vinha dando boas notícias de oportunidades de trabalho na Espanha, e consegui o dinheiro da passagem, mais alguma coisa para me manter no começo. A ideia era entrar em contato com conhecidos que moravam em Barcelona e eventualmente me estabelecer por lá mesmo, embora todas as possibilidades estivessem em aberto. Menos a de retornar ao Brasil; eu não havia me despedido de praticamente ninguém, é verdade, mas sentia que esse silêncio deliberado só reforçava minhas intenções; Capricórnio, claro, e com ascendente em Escorpião, como se não bastasse.

O detalhe é que o amigo que ia me receber em seu apartamento acabou tendo que voltar a Belo Horizonte, por causa de um imprevisto. Foi assim que fui parar em um albergue onde convivia sobretudo com latino-americanos em busca de trabalho no país. Evitei os hostals de mochileiros porque pretendia gastar menos, e porque não estava no clima de festa que ia encontrar neles. Durante dias, dividi um quarto de quatro camas apenas com um rapaz da Andaluzia (sul da Espanha), chamado Max, que estava também procurando um emprego em Barcelona.

O problema aí era que ele já vinha perdendo as esperanças de conseguir trabalho, e parecia cada vez mais transtornado com a situação.  Por isso, as noites naquele quarto eram muito ruins: eram agitadas, tensas, barulhentas, apesar da ocupação apenas parcial. Max era franzino, mas irritadiço, e dispersava muita energia no ambiente, com gestos curtos e nervosos, que nunca pareciam completar a ação que começavam. Às vezes ele saía do quarto no meio da madrugada, como que por um impulso ou uma urgência, e depois voltava aparentando uma saciedade somente provisória. Estava implícito em seu semblante que um novo impulso surgiria em breve, e que ele precisaria sair novamente.

Max estava viciado em crack. Em determinado momento, passou a usar no quarto mesmo, durante a noite. De dia, às vezes, ainda era possível conversar com ele sobre oportunidades de trabalho, sobre as garotas de Barcelona, sobre os gols do Ronaldinho Gaúcho, mas aos poucos aquelas trocas se tornavam meras concessões que ele fazia a uma existência cotidiana já quase esquecida, quase dispensável entre uma pedra e outra. Sua personalidade e sua psique eram territórios cada mais ocupados pela droga e sua devastação. Aqui e ali, vegetações esparsas ainda resistiam, porém sem esperanças de sobreviver por muito tempo.

Isso é o que eu digo agora, claro. Na época, durante aquele par de semanas em que convivemos, eu mesmo estava cansado e transtornado demais para ter uma visão de conjunto do problema. Não sabia o que fazer para ajudá-lo e não sabia o que fazer para ajudar a mim mesmo. Tinha perdido a noção dos motivos que me fizeram estar ali, naquele quarto, naquela cidade, naquele país, e tampouco conseguia reunir forças para ir embora. Algo viscoso parecia me prender, e eu não tinha amigos por perto para me ajudar.

Só viria tomar uma decisão diante de um episódio tão tenso que, frágil como eu estava, não me sobrou alternativa a não ser uma saída covarde (pelo menos é o que eu digo para mim hoje). Na noite em que as outras camas foram ocupadas por dois jovens equatorianos, quietos e simpáticos, Max teve um surto de xingamentos xenófobos, acusando-os de serem os responsáveis por ele não conseguir emprego em Barcelona. Na sequência, ele começou a ter espasmos semelhantes aos de um ataque epiléptico, e foi socorrido por uma garota que surgiu no quarto. Eu não consegui ajudá-lo, nem oferecer auxílio para os equatorianos aterrorizados. Literalmente fugi do albergue, sem saber para onde ir.

Vaguei pela cidade noite adentro, deprimido, me achando o indivíduo mais estúpido do mundo. Minhas pretensões de autossuficiência e meu obstinado desprendimento agora me pareciam apenas a expressão de um caráter deficiente. Com o propósito de conhecer o mundo, eu o havia abandonado, e não podia reclamar agora de estar sozinho numa terra estranha, exausto, com medo e sem lugar para passar a noite. Eu podia procurar outro albergue, é claro, mas já estava tarde e não fazia mais sentido gastar o dinheiro de uma diária inteira. Fui para uma estação de trem. Como havia sido idiota, aliás, a ideia de evitar os albergues de mochileiros para buscar paz e silêncio.

Nisso me lembrei de um grupo de ingleses com quem tivera os poucos minutos de diversão que me ocorreram até ali na viagem. Eles haviam ido para Amsterdam, e inclusive deixaram comigo o nome do albergue onde iam se hospedar. Decidi ir encontrá-los lá, o que era uma atitude ao mesmo tempo normal e esquisita. Tudo que a gente faz nessa época da vida é ao mesmo tempo normal e esquisito. No meu caso, hoje acho particularmente estranha a inclinação que eu tinha para viajar sozinho, fazendo amizades em pousadas e botequins, e decidindo meu itinerário de acordo com sugestões e oportunidades que iam aparecendo. Não era a primeira vez que eu fazia aquilo; mas seria a última.

Nunca encontrei os ingleses mochileiros e beberrões no albergue holandês. Mas, já na entrada, conheci duas meninas brasileiras que vinham tendo problemas com a calefação do quarto. Elas eram do Rio de Janeiro, já tinham passado um tempo em Paris, e iriam para a Espanha depois. Uma delas me perguntou se era verdade que mineiro bebe muito, e eu disse que não, a verdade é que mineiro passa muito tempo bebendo e conversando, mas a quantidade de bebida no final das contas nem é tanta. Ela buscou uma cerveja para a gente ficar bebendo e conversando.

Continuamos conversando até tarde da noite. Na manhã seguinte, continuamos conversando. E nos dias que vieram depois. Fomos para a Espanha juntos. Acabei voltando para o Brasil, acabei me mudando para o Rio: tudo o que eu queria na vida era continuar conversando com ela. Ficamos casados por cerca de oito anos. Temos um filho, capricorniano com ascendente em Gêmeos, que está com dezenove anos. Quase a idade de quando eu fiz uma viagem achando que era para nunca mais voltar.


Watch out / for a simple twist of fate, diz a canção de Bob Dylan que eu estava escutando agora há pouco. Estive assistindo também uma série irlandesa chamada Normal People. Trata do relacionamento de dois jovens entre o fim do ensino médio em sua cidade no interior e o início da vida universitária em Dublin. Dito assim parece até um recorte breve, para uma série tão atravessada por transformações na vida e na personalidade dos protagonistas, e em certo sentido é mesmo – no total não devem ser passar dois anos entre o início e o fim da primeira temporada. Mas é mesmo impressionante a quantidade de coisas que acontecem nessa época: a intensidade das mudanças, o inesperado das reviravoltas. Não dá tempo nem de respirar.

Acho que foi por isso que me lembrei ontem da minha viagem para a Espanha. Outra coisa que chama a atenção – na série como na vida – é, além da sucessão de situações emocionalmente tensas e dilacerantes que vivenciamos nessa parte da juventude, a maneira como nós parecemos procurar essas situações, de modo aparentemente inadvertido, mas talvez guiados por uma necessidade que só nossos mais silenciosos instintos conhecem. Não é simplesmente inexperiência, não é apenas ingenuidade: talvez exista uma inteligência própria no modo como nos colocamos nas piores encrencas, e que nos leva a fazer as maiores tolices, talvez porque encrencas e tolices são muitas vezes o caminho mais rápido entre o ponto A e o ponto B. E nessa época da vida é preciso ir rápido do ponto A para o ponto B. Não dá para esperar dez anos de terapia.

O curioso é que, olhando de fora, os movimentos da juventude talvez pareçam até mais aleatórios do que os de qualquer outra parte da vida. Com certeza são mais impensados: às vezes a gente se mete em certos buracos por mera curiosidade, e consegue sair deles (quando consegue) só para encontrar outras armadilhas logo à frente. Em retrospecto, portanto, dá para supor que a alma jovem vai em direção a essas armadilhas porque elas fazem parte de uma história que está construindo, e que precisa delas em seu roteiro. Em retrospecto. Durante o turbilhão dos acontecimentos, tudo pode parecer meio sem sentido mesmo.

Aprendi recentemente que os arcanos do tarô expressam essa aparente aleatoriedade das mudanças na carta da Roda da Fortuna. Ela simplesmente indica uma mudança de rumo súbita: o que está em cima estará em baixo, e vice-versa. Eis que a roda gira (e gira rápido) quando temos dezoito, dezenove anos. Numa semana você não sabe o que quer fazer da vida; na outra, começou a faculdade e encontrou a carreira dos seus sonhos; na seguinte, percebe que não há vagas na carreira dos seus sonhos. Talvez seja esse o caminho para você descobrir o que realmente quer fazer da vida, e cada volta dessa roda seja um pequeno ajuste numa composição cujo conjunto só será visto mais para frente. Mas a gente fica zonzo só de pensar.

Na mitologia grega, a roda é representada como o tear das filhas da Nyx, a deusa da Noite. Elas representam as três fases da Lua, e, portanto, os altos e baixos das marés. Outra filha da noite é Nêmesis, que distribui os destinos, e teoricamente garante certo equilíbrio nessa distribuição – embora possa parecer muito pouco claro quais são os critérios que ela usa, tanto no que se refere às variações da fortuna no decurso de uma existência, quanto na maneira como sortes e revezes são distribuídos entre os humanos. Quando penso em Max, por exemplo, fica muito difícil entender quais são os critérios.

Mas “critério” é uma palavra muito logocêntrica para tratar daquilo que está por trás das maquinações da roda, aquilo que se põe em movimento na mais profunda escuridão da noite. Moira, o destino, governa as províncias do insondável, e, mesmo que nos fosse concedida uma audiência, descobriríamos estar diante de uma senhora que não vê a menor necessidade de expor seus motivos. Nossa razão é insuficiente, e, para dar conta de suas limitações, temos símbolos cujo significado está além do âmbito do racional. A Roda da Fortuna é um deles, e qualquer tentativa de desvendar seus padrões será, na melhor das hipóteses, sujeita a um silencioso escárnio.

Ou, talvez, e mais exatamente: indiferença. As criaturas envolvidas no funcionamento da roda podem muito bem ser entidades burocráticas, que já viram de tudo, inclusive todas as teorias que já inventamos a seu respeito. E elas sabem que nenhuma hipótese dá conta do aspecto meramente mecânico do seu trabalho, do atendimento a índices de produtividade que é delas exigido, porque a proliferação de destinos humanos não para de aumentar – e elas não param de ter que inventar novas histórias e reviravoltas, novos roteiros com twists carpados triplos, que sejam ao mesmo tempo minimamente verossímeis, para um público cada vez mais desconfiado das convenções do gênero.


Por outro lado, e para terminar: assim como os arquétipos zodiacais, os arcanos têm a maravilhosa qualidade de permitirem uma constante amplificação de seus sentidos através da acumulação de imagens, narrativas e ideias relacionadas, sem sacrifício do poder de síntese de suas ideias centrais. A pesquisadora Yoshi Yoshitani, por exemplo, associa a Roda da Fortuna à figura de Anansi, um trickster da mitologia ganesa, apresentado sob a forma de uma aranha e que faz e desfaz encrencas para se divertir e passar o tempo, até que um dia se rebela contra o Senhor do Céu e sua mania de guardar Todas as Histórias do Mundo para si.

Anansi desafia o Senhor do Céu a uma contenda da qual acaba saindo vencedora, e se torna ela própria a Senhora de Todas as Histórias. O mito parece de fato adequado à Roda, e acrescenta a ela um componente significativo. Yoshitani nos faz lembrar que o que é tecido pela roda são todas as histórias do mundo, todos os destinos possíveis, e assim não surpreende que seja impossível reconhecer um padrão em suas mudanças. O que ela traz são todas as mudanças – inclusive as mais imprevistas, as mais improváveis, capazes de virar o jogo do dia para a noite.

Em seu conto A Biblioteca de Babel, o escritor argentino Jorge Luis Borges imaginou uma interminável sucessão de prateleiras nas quais estariam todas as narrativas da humanidade, sem nenhuma exceção, posto que estariam naqueles livros todas as combinações possíveis entre as letras do alfabeto. Assim, em meio a ao caos fragmentário e sem sentido de fileiras e fileiras de livros com combinações esdrúxulas e ilegíveis, estaria o caos fragmentário e sem sentido do conjunto de combinações que conseguiríamos ler.  Elas incluiriam a história da vida de cada um de nós, assim como a totalidade de suas variações. A história que contei na primeira parte desse texto está lá, assim como as inúmeras varações dela que podemos imaginar, se cada volta da roda da fortuna tivesse chegado a um ponto um pouquinho diferente. Sim, estão lá todas as histórias, com todas as suas versões. O nome disso vertigem.

Já me perguntei o que teria acontecido se não tivesse aleatoriamente conhecido aqueles ingleses aleatórios que por falta de opção me fizerem pegar aquele trem para Amsterdam que acabou me levando para o resto da minha vida. Pelo menos na Biblioteca de Babel de Borges, essa história está contada; mas para ser sincero, não sei se gostaria de saber o que está escrito nela. Conhecer essa versão da história retiraria da que já conheço sua necessidade intrínseca: a inevitabilidade que, em retrospecto, parece acompanhar a narrativa dos fatos. A não ser que sejam ambas necessárias. A não ser que sejam todas necessárias.

Nesse caso, se a oficina de produção de destinos da Roda da Fortuna funciona madrugada adentro, é porque de lá que saem cada uma dessas histórias. O arcano foi associado ao inesperado e ao surpreendente porque são essas reviravoltas que chamam mais atenção, mas ele é responsável por todas as reviravoltas. Isso explica o que há de aparentemente aleatório e arbitrário em suas deliberações; o fato é que a Roda não delibera, não decide nada; ela simplesmente realiza absolutamente todas as versões da fortuna, indiferente às classificações humanas do bom e do ruim, do desejável e do indesejável, do certo e do errado. Ela é uma força cega de criação de histórias.  

Assim, quando você se depara com a roda na vida, pode saber que a mudança a que ela diz respeito não obedece a nenhuma necessidade de fundo ou padrão ordenador. Ou seja: não pode ser compreendida em termos de carma e nem simplificada por meio da ideia de um eterno retorno. Não é a mesma história que está sendo contada de novo e de novo; são as múltiplas histórias em suas singularidades que precisam acontecer. Mas isso não deixa de ser uma necessidade, e cabe então a cada um de nós vivermos nossas histórias, com suas tramas específicas, épocas intensas, detalhes circunstanciais e momentos decisivos. Só de fazer isso você já está participando do segredo que a roda guarda em suas engrenagens.

Porque “arcano” significa segredo, mistério, enigma. Portanto, se cada carta do tarô é considerada a chave para um mistério nunca totalmente revelado, e sua imagem remete a algo que podemos conhecer de modo apenas provisório e aproximado. Exatamente o que C. G. Jung chamava de símbolo: a melhor enunciação disponível para algo que não sabemos dizer completamente. De modo que algo da Roda da Fortuna ficará por ser dito mesmo que a gente chegue a algum tipo de conclusão especulando sobre seu significado; algo que permita a conciliação entre opostos tão extremos como o aleatório e o necessário, a arbitrariedade e a fatalidade.

Mas prevejo que, se um dia eu tiver a oportunidade de exigir de Deus uma explicação para o caos estapafúrdio que é a vida humana sobre a Terra, vou aceitar como plausível apenas uma possibilidade de resposta. E, se isso acontecer como imagino, descobrirei então que tudo estava explicado desde sempre pela imagem da Roda da Fortuna. Lá do além, lá de onde se supõe que Ele ri quando a gente faz nossos planos para a vida, imagino uma figura talvez menos sarcástica, de um tom mais oscilante entre o entretido e o resignado. Um senhor obediente diante das ordens de Moira, e que me dirá de maneira simples e direta: “Todas as histórias precisam existir”.

Todos os signos

A técnica do escritor em doze signos

Passei uma atividade para meus alunes de Oficina de Produção de Texto na faculdade e acabei fazendo o dever de casa também. O desafio é criar dicas de escrita inspiradas no texto “A Técnica do Escritor em Treze Teses” do Walter Benjamin. Adoro essas sugestões do Benjamin no que elas têm de oscilação entre o geral, o específico e o idiossincrático, ao abordar temas como a qualidade dos materiais da escrita, ruído ambiente, pausas e acelerações, quando passar a limpo um texto, por que virar pelo menos uma noite trabalhando em um projeto é importante. As minhas dicas, é claro, acabaram sendo divididas por signos do zodíaco. Ficou assim:

Áries: cuide com carinho das passagens mais difíceis e delicadas do texto. As outras você pode despachar como quem decepa cabeças no campo de batalha.

Touro: evite deixar o trabalho pesado para as segundas-feiras. Se possível, evite deixar o trabalho leve para as segundas-feiras. Se possível, evite as segundas-feiras.

Gêmeos: perder o amigo para não perder a piada é aceitável, dependendo da piada. Mas cuidado para não ficar sem amigos.

Câncer: desconfie quando você chora lendo o que escreveu. Talvez seja mesmo comovente, mas de preferência faça um teste com leitores capricornianos.

Leão: acolha as críticas com humildade e preste atenção nas deficiências que elas iluminam. Suas qualidades são menos interessantes que seus defeitos.

Virgem: aquele erro de tipografia que saiu na versão impressa do seu texto no jornal dez anos atrás continua lá e nunca será possível consertá-lo. Lide com isso.

Libra: deixe para definir o título no final. Com o trabalho já terminado, fica mais difícil capitular diante da necessidade de uma escolha como esta.

Escorpião: sim, o processo criativo pode ser intenso, sofrido, esmagador, dilacerante. Mas o estilo do seu texto, não.  

Sagitário: se você se sentir léguas à frente do seu público leitor, dê a meia-volta para buscá-lo. Nessa viagem, você é o guia, não um desbravador solitário.

Capricórnio: literatura serve pra quê? Escritor é profissão? De que os escritores vivem? Tente não ficar se fazendo essas perguntas. Se for impossível, escreva um livro com as respostas.  

Aquário: aposte em inovações, mas sempre com uma camada de temperança. Uma convencionalidade bem treinada é o melhor disfarce para o relâmpago da revolução.

Peixes: aceite que no final não vai dar para passar pro papel tudo que você imaginou. E que isso não é desculpa para nem começar.

astros, touro

Botando a Culpa no Signo

É óbvio que a astrologia ajuda e ajuda muito e ajuda muita gente em muita coisa nessa vida, mas por via das dúvidas ainda vou escrever um livro intitulado Botando a Culpa no Signo: um Guia Prático e Rápido para mostrar como e por quê. Agora, astrologia demais às vezes atrapalha, e vou dar um exemplo agorinha mesmo de como isso acontece para vocês. Semanas atrás, eu vinha querendo juntar com mais três casais de amigos na parte aberta da garagem aqui do prédio para cantar os parabéns para o Gabriel, meu filho geminiano e entusiasmado, que aos dois anos de idade praticamente nunca viu esse time de tios do tipo pandêmico mais recluso e cuidadoso; pensei que eu e o Tiago (meu filho capricorniano e gastronômico) podíamos fazer umas comidinhas de festa junina e uma panela de carne cozida que ia ficar de bom tamanho, o importante mesmo era a gente se encontrar. Mas aí fui ver meus trânsitos astrológicos para o dia em que ia acontecer o convescote, e tinha uma quadratura de Urano em Touro em trânsito com minha Ceres em Aquário, sendo que Urano tem a ver com amigos, Ceres tem a ver com comida (para quem quiser saber mais sobre ela tem um texto aqui), quadratura é um aspecto difícil, então Urano em quadratura com Ceres = Situação Difícil Envolvendo Amigos e Comida. Decidi não fazer nada na cozinha para evitar esse desgaste a mais, afinal a vida já anda complicada que chega sem a gente ter uma pilha extra de louça para lavar na segunda-feira. Acontece que marcamos um vinho na pracinha, e depois começou a ventar muito na pracinha, aí viemos aqui para a garagem, depois de mais de ano sem se ver ao vivo, imaginem se alguém queria ir embora. Mas comida? Zero, fora uns queijinhos que depois das sete já não enganavam mais ninguém. Fiquei incomodado, claro, tenho Ceres em Aquário na casa 4, sendo que Aquário é regido por Urano e tem a ver com amigos também, enquanto a casa 4 é literalmente a casa da gente mesmo, então Ceres em Aquário na casa 4 = Um Sujeito Que Gosta de Alimentar os Amigos Quando Eles Vão Na Casa Dele (como se não bastasse, sou mineiro, faço questão). Pois bem. De repente, lá estávamos nós, com conversa animada, vinho sobrando, garagem liberada, mas sem nadinha para comer nem a expectativa de um jantar, quando alguém deu a ideia de que a gente podia pedir uma pizza. Nada mais natural e prático: houve comentários de aprovação, certo clamor de expectativa, íntimas especulações sobre estabelecimentos e sabores, até que todas atenções se voltaram para mim, que na condição de anfitrião deveria referendar o pedido com uma protocolar palavra de estímulo. Acontece que aí eu lembrei que esse negócio de amigos e comida podia muito bem dar ruim nesse dia, e que eu já tinha decidido cancelar todo planejamento anterior com o propósito de evitar esse problema, e imaginei que uma simples pizza encomendada na melhor das intenções podia muito bem vir acompanhada dos transtornos mais imprevistos (a literatura está cheia desses casos), e lembrei também que eu já estava conciliado com a ideia de simplesmente driblar a tal quadratura matando meus amigos de fome, então de um jeito não tão ostensivo, mas não menos desajeitado e certamente não menos convicto que esse, disse algo como NADA DISSO VOCÊS ESTÃO DOIDOS NINGUÉM VAI PEDIR PIZZA AQUI HOJE NÃO. Segue-se certo silêncio constrangido, eles talvez imaginando que eu devo ter lá meus motivos, eu muito convicto que de tinha que barrar aquela iniciativa ensandecida, resultando que todo mundo meio que resolveu pedir sua pizza em separado no caminho de volta para casa, e o encontro foi encerrado logo em seguida em um clima de desânimo e afobamento. Agora vejam bem: acordei hoje sem pilha de louça extra para lavar, sem conta extra na mercearia para pagar, sem desgaste com os vizinhos por causa da ocupação da garagem até mais tarde, porém ao mesmo tempo acordei me sentindo mal e provavelmente muito pior do que se tivesse pilha de louça conta vizinhos e tudo o mais, e sabe por quê? Porque eu me tornei O AMIGO QUE NÂO DEIXOU OS AMIGOS PEDIREM UMA PIZZA, sim, eu fiz isso, e basicamente porque não-sei-o-quê estava fazendo sabe-se-lá-qual-aspecto com o-esse-nunca-ouvi-falar em algum lugar a milhões de quilômetros de nosso planetinha azul. Sim, eu me tornei essa pessoa, e como se não bastasse havia dois taurinos entre os amigos esfomeados, cuja amizade me parece agora perdida para sempre e com justa causa. Então estou escrevendo esse texto em parte para me justificar com eles, explicando, se aceitarem me escutar, que eu posso até ser O MALUCO DOS SIGNOS, e posso ser inclusive O MALUCO QUE FAZ OU DEIXA DE FAZER AS COISAS POR CAUSA DO MAPA ASTRAL, mas que eu não sou nem quero nunca ser O AMIGO QUE NÃO DEIXA AS PESSOAS PEDIREM UMA PIZZA, porque isso é uma coisa horrível e imperdoável e crime de prescrição não prevista no código penal. Estou escrevendo também para me redimir de ter dado um mau exemplo de uso dos saberes astrológicos, porque sempre digo que quando você vê um aspecto difícil no seu mapa a melhor coisa que você tem a fazer a aceitar os impulsos e vontades com que você vai criar condições para a referida encrenca se manifestar (esses impulsos e vontades vão acontecer, acredite, como quando você meio que do nada decide fazer uma refeição para os amigos e servi-la na garagem do seu prédio). Então, se aparece uma oposição de Plutão com sua Vênus e você sente aquela atração inexplicável por uma criatura misteriosa que muito provavelmente vai te colocar em encrenca, vai com cuidado, mas vai sim, porque essas coisas têm o hábito de nos dar uma rasteira pelos flancos quando a você tenta se esquivar delas fingindo que não está nem aí. Eu por exemplo, que fiz o que pude para afugentar os maus espíritos que assombravam a questão dos amigos e comidas ontem, acabei exatamente por isso perdendo para sempre amizades muito estimadas, ao tentar escapar das armadilhas que ameaçavam meu bem-estar dominical. Tudo o que fiz para evitar a catástrofe acabou me enredando mais na armadilha onde acabei me afundando de um jeito ou de outro. Sabem Édipo Rei? Então, mais ou menos por aí, com a diferença que no caso Édipo não se tem notícia na história de amigos taurinos querendo pedir uma pizza, de modo que minha tragédia é muito maior. Mas eu não devia reclamar, porque vivo repetindo que é melhor você viver o sofrimento de uma situação do que viver o sofrimento de tentar evitá-la e não conseguir, sendo que uma situação necessária vai encontrar um jeito de se fazer acontecer (acho que foi o Jung que disse isso, se não disse devia ter dito, é o tipo de coisa que o Jung diria). Então, se eu tivesse feito as comidinhas e a carne cozida talvez tivesse sim me metido em algum tipo de enrascada cansativa e estressante, mas seria agora um ser exausto e estressado com muito mais respeito por mim mesmo. É aquela história, casa de ferreiro espeto de pau, no caso um espetinho nu sem nem uma tira de alcatra ou um pedaço de abobrinha para enganar a fome. Por outro lado, espero que esse texto seja o suficiente para explicar meu comportamento mórbido e errático de ontem, fazendo de um jeito enviesado já agora o que eu disse que ia fazer depois, já que querendo ou não acabei usando o negócio dos signos para mostrar meu arrependimento e pelo menos tentar conquistar de volta a estima perdida. Sigam-me para mais dicas de como colocar a culpa nos astros, aliás estou pensando inclusive em montar um serviço de atendimento particular nessa área, não é pouca coisa o que tenho a oferecer. Fez bobagem? Converse com a gente que temos uma desculpa. Traiu? Só pode ser o ingresso de Marte na sua casa 3. Atraso na entrega no trabalho? Mercúrio retrógrado, professor, aqui o parecer de uma firma especializada. Magoou? Pode deixar que a gente explica.

Proibiu de pedir uma pizza? Eu prometo: trago o amigo taurino de volta em três dias!

aquário, astros, leão

O retorno de Tchekhov

“Se quiser a minha vida, venha e leve-a”. Esta é a frase que Nina faz chegar a Trigórin no terceiro ato de A Gaivota. Trata-se de uma peça do escritor russo Anton Tchekhov, que teve uma importante reestreia em 17 de dezembro de 1898, após uma primeira temporada de pouco êxito em São Petersburgo; de modo que o autor, então morador de uma área rural, ficou feliz em fazer uma viagem curta para ter a oportunidade de assisti-la em sua versão moscovita e mais bem-sucedida. A passagem de Anton pela cidade, no entanto, foi marcada por um outro evento menos comentado dos registros da história literária. No mesmo dia em que assistiu a peça, ele se encontrou, em uma estação de trem, pela última vez, com Lydia Avilova. Anos antes, ela lhe enviara uma mensagem de conteúdo idêntico e por meio parecido ao utilizado por Nina no espetáculo. Agora, eles despediam-se um do outro em uma plataforma enevoada e gélida, enquanto ele via se afastar para sempre aquela que havia sido o grande amor da sua vida.

A cena traz toda a melancolia que podemos esperar do encerramento de uma relação intensa e intermitente, feita de momentos apaixonados e longos intervalos de distanciamento. Segundo o biógrafo David Magarshack, Tchekhov chegou ainda a cogitar que aquela história tivesse um final semelhante ao de “Sobre o amor” (um dos tantos contos que escreveu inspirado, ao menos em parte, por sua relação com Avilova), no qual há um beijo no desfecho. Mas Lydia permanecia casada, e além disso estava acompanhada de dois de seus três filhos na estação de trem. Ela sabia bem que o tempo deles tinha passado, que suas chances de ficarem juntos – se é que existiram – tinham sido desperdiçadas, quando ela se arriscou ao enviar para ele aquela mensagem, por exemplo, e ficou aguardando uma resposta que não veio. Ou seja: um beijo, àquela altura, seria um motivo de embaraço e desgosto, talvez até mesmo um gesto de desespero.

Ainda assim, é um pouco triste imaginá-los renunciando definitivamente às possibilidades que uma sentiram existir para ambos. Tchekhov e Avilova haviam se conhecido dez anos antes, na casa de um irmão do marido dela. Ela faria o seguinte relato sobre essa ocasião, no livro Tchekhov em Minha Vida (ela viria a ser também uma escritora conhecida no âmbito russo): “Como é difícil às vezes explicar ou mesmo perceber o significado de um acontecimento… Na verdade, nada aconteceu. Nós simplesmente olhamos um nos olhos do outro. E, ao mesmo tempo, quantas coisas havia naquele olhar que trocamos! Eu senti como se algo estivesse explodindo dentro de mim, como se um foguete tivesse sido lançado naquele momento, triunfante e cheio de energia. Tenho certeza de que Tchekhov sentia o mesmo, e nós olhamos um para o outro, surpresos e felizes”.

Sim, de fato: como é difícil explicar ou mesmo perceber o significado de um acontecimento. E quantas coisas pode haver em um só olhar. No caso dos dois, quando a gente acompanha os movimentos seguintes, a impressão é de que naquele instante – naquele foguete – em que “nada aconteceu”, já estavam implícitos os dez anos seguintes, em que eles não teriam um segundo de sossego na vida, porque se amavam, porque queriam estar juntos, porque precisavam ficar juntos, e quando, no entanto, não podiam ficar juntos, porque não havia como, não havia onde, não havia com que desculpa, não havia com que dinheiro; só havia o porquê.

É mesmo impossível não pensar nos finais alternativos que essa história poderia ter tido. A obra de Tchekhov, como comentei, está cheia deles. O próprio “A Dama do Cachorrinho”, um dos mais belos e conhecidos contos de todos os tempos, oferece algo nesse sentido, quando os protagonistas, ambos casados com outras pessoas, e ambos apaixonados um pelo outro, após muitos desencontros e hesitações, se veem afinal recusando qualquer outro caminho que não fosse sua parceria, mas ao mesmo tempo não conseguem se desvencilhar das amarras matrimoniais e sociais que lhe estão impostas (pelos costumes, pela moral, pela igreja, pelas circunstâncias financeiras).

“Tornava-se evidente para ambos que o fim ainda estava distante e que o mais difícil e complexo apenas se iniciava”, assim termina o conto. Anton e Lydia provavelmente sentiram isso em algum momento de seu relacionamento, essa solidariedade imiscuída na paixão (“amavam-se como gente próxima e querida, como dois termos amigos, como marido e mulher”, diz ainda o narrador do conto), porém, no mais das vezes, se desentenderam e desencontraram. Quando ela estava disposta a romper seu casamento e arriscar tudo com ele, ele normalmente dava para trás. Quando era ele que a procurava, ela não sentia confiança suficiente, ou já tinha se desiludido demais para deixar-se levar pelo entusiasmo.

As coisas para ele eram mais simples, certamente. Não era ele quem tinha toda uma vida pela frente para ser visto como a mulher divorciada e que largou o pai de seus filhos para viver uma aventura com um escritor. Em se tratando de adultério, aliás, cabe lembrar que havia então na Rússia uma elevadíssima autoridade literária, intelectual e religiosa, que já havia proferido uma sentença bastante clara a respeito de mulheres inconstantes que viviam casos extraconjugais. Estou me referindo a Leon Tolstói, estou me referindo a Anna Karenina. Não vou dar spoiler, mas vai lá ler o livro para ver como é que a história acaba.

O detalhe interessante, aí, é que não apenas Lydia estava condicionada em suas decisões e hesitações por esse tipo de ambiente, em que a figura de Tolstói sobressaía em toda sua magnitude e imponência. A psique de Tchekhov, em certo sentido, era inclusive mais vulnerável às suas pregações, pois, quando conheceu Lydia, ele próprio era um seguidor do tolstoísmo. Sim, isso existia na época: uma doutrina que defendia a retomada de valores camponeses e de uma vida comunitária simples, em contraste com a decadência dos sentimentos citadinos e suas sofisticadas tramas amorosas. No caso de Tchekhov, a pregação acontecia inclusive no âmbito doméstico, onde sua posição de arrimo de família, no convívio com irmãos alcóolatras e um pai cronicamente desempregado, lhe dava o crédito moral de que precisava para lançar os mais rígidos julgamentos no mundo ao redor.

Justiça seja feita, contudo: Tolstói era um escritor tão incrível que conseguia intercalar em suas imensas parábolas alguns dos mais perfeitos parágrafos da literatura, e as construía como quem ergue o que hoje são para nós algumas esplêndidas catedrais góticas (já não importa para que elas foram erguidas, o importante é que foram, e agora podem ser admiradas). Apenas com o tempo ele se restringiu ao papel do profeta e do patriarca que recebia os discípulos em sua célebre fazenda. Mas foi já quando as coisas estavam avançando nesse sentido que Tchekhov entrou em contato com suas ideias, de modo que, quando estava com vinte e poucos anos, passou por uma espécie de conversão religiosa, cujos traços são bastante perceptíveis em sua obra de juventude.

A obra precoce de Tchekhov, aquela que ele escreveu até os 30 anos, tem, portanto, duas facetas principais. A primeira são os contos brevíssimos e de natureza humorística que ele escrevia para ganhar dinheiro em publicações semanais, e que lhe rendiam o suficiente não apenas para seu sustento, mas também para o da família, acrescidos aos ganhos com a carreira médica. Na segunda categoria, estão as narrativas pedagógicas com que ele ilustrava o pensamento de seu mestre ilustre, Leon Tolstói, tal como em “O sapateiro e força maligna”, publicado em 1888, ou seja, quando ele estava com 28 anos.

Esse é o contexto que precisamos ter em mente para tentar entender a primeira reação de Anton ao encontro com Lydia. Permitir-se aquela paixão significaria para ele perder não somente o controle de si, mas também abandonar um terreno duramente conquistado durante os anos anteriores, tanto no que se refere à conduta ética que costumava ostentar, tanto no que trata da trajetória profissional e intelectual que vinha seguindo. Não que esse caminho e essa conduta estivessem lhe proporcionando muitas alegrias; muito pelo contrário, ele reclamava bastante de tudo o que sentia estar em desacordo com seus ideais. Mas era um lugar que ele já conhecia, que havia construído para si com esforço, e onde ele podia se sentir um adulto sério em com um propósito definido na vida.

Voltando então à ocasião do primeiro encontro. De imediato, tomado por sensações que não se encaixavam bem no papel de um tolstoísta digno e respeitável (a atração por uma mulher casada), ele recusou os próprios sentimentos. Porém, entrou em um período de enorme inquietude. Por um lado, não conseguia simplesmente fazer a vida voltar a um estado anterior; por outro, não conseguia dar nenhum passo adiante. Foi uma crise de proporções inéditas em sua personalidade e valores, até porque havia fracassado na escrita de um romance, gênero no qual ele precisaria ter sucesso para que suas conquistas literárias correspondessem à estatura ética que almejava. “Tudo o que escrevi até agora é apenas lixo em comparação com o que gostaria de ter escrito”, ele afirmou a seu editor em 1888. Bom, ele estava chegando aos trinta anos nessa época. Quem conhece Saturno e seus retornos sabe bem do que ele está falando.

No entanto, em meio à turbulência, ele acabou, sim, tomando uma decisão. Não exatamente uma decisão apaixonada, e é aqui que eu queria chegar, desde o começo: ele optou por renovar seu compromisso com ideais de transformação social, ao fazer uma viagem de longo prazo a Sacalina, uma ilha na Sibéria usada para o exílio de condenados pela justiça russa. O pretexto era de estudar as condições de vida na ilha (o livro resultante da viagem saiu no Brasil pela Todavia, recentemente). E, se é verdade que o gesto estava de acordo com a atitude científica e reformadora que Tchekhov vinha adotando diante das mazelas sociais da Rússia, parece-me que estava de acordo até demais. Não dá para descartar um componente saturnino enviesado, de sacrifício e repressão de qualquer possibilidade de alegria. Sacalina e Lydia eram os polos opostos de um eixo em que de um lado estava o moralismo de Tolstói, e de outro estava seu desejo e seu afeto individual. Tchekhov dobrou a aposta no primeiro.

Sei que tem gente aí agora perguntando: ok, Gustavo, até agora tudo certo, mas e o signo? E o signo, Gustavo? Primeiramente, vale ressaltar que estamos falando de um aquariano, o que, por questões técnicas, costuma ser motivo de disputa. Sim, Tchekhov nasceu no dia 16 de janeiro de 1860, e sim, é fácil relacionar seu realismo eventualmente resignado ao arquétipo de Capricórnio. Porém, singularidades do calendário russo no século XIX fizeram com que ele estivesse, por assim dizer, doze dias atrás do nosso, de modo que Tchekhov teria nascido quando o Sol estava em Aquário: os doodles do Google estão aí sempre no dia 29 de janeiro para não me deixar mentir.

Mas queria dar ênfase a outro ponto, no que se refere ao zodíaco. Pois, até aqui, estivemos o tempo todo tratando de uma fase da vida do escritor russo em que podemos reconhecer semelhanças com uma fase de nossas vidas quando, depois de 28 ou 29 primaveras, o inverno de uma experiência de autoquestionamento, bastante incisiva, costuma pedir ajustes e revisões em nosso comportamento. Nesse caso, o signo de Saturno no mapa de Tchekhov assume grande importância, assim como acontece com o signo de Saturno nos nossos mapas, uma vez que a Saturno (incluindo o signo e a casa onde está situado) relacionamos esse tipo de crise e seu desenlace. Pois bem: Tchekhov tinha Saturno em Leão.

Leão é o signo oposto complementar de Aquário. Nessa balança, se de um lado estão o impulso reformador, um comportamento mais cerebral e científico, e uma grande capacidade dedicação à coletividade e ao mesmo à humanidade como um todo, do outro estão o prazer com a vida, um espírito criativo e artístico, e a busca da autossatisfação, que se reverte em uma generosa capacidade de satisfazer. Ou seja: onde Aquário é trabalho, Leão é brinquedo, e onde Leão é desejo, Aquário é propósito. Nós todos temos ambos os signos em nossos mapas pessoais; a questão é onde, e como.

Então, podemos presumir que o aspecto leonino da personalidade de Tchekhov estava atravessado pela presença de Saturno na região de sua psique mais diretamente vinculada a atender suas vontades individuais. Funciona assim: onde nosso senhor dos anéis se situa, haverá normalmente uma espécie de atrofia das qualidades daquele arquétipo, que vai durar pelo menos até por volta dos 30 anos, quando a execução de um ciclo saturnino completo na vida do indivíduo torna possível (ou demanda) que essas qualidades sejam despertadas. Existe uma alternativa a esse padrão, que é o exagero ostensivo e forçado dos comportamentos associados ao signo de Saturno (o Saturno em Libra com uma vida amorosa agitada e vazia, o Saturno em Capricórnio com conquistas profissionais precoces até demais, por exemplo). No entanto, o mais comum é as coisas se passarem como se passaram com Tchekhov: as qualidades e comportamentos do signo oposto ganham destaque na primeira parte da vida, e o retorno de Saturno se torna um intenso puxão do outro lado da balança, chamando a pessoa a viver algo que ela negligenciou ou negou antes.

Nesse sentido, a posição do Saturno tchekhoviano é particularmente incômoda. Pois se, por um lado, Saturno se sente em casa em Aquário, signo do que é o regente tradicional (e onde se encontra no momento), por outro lado, sua força restritiva será mais desconfortável no signo de Leão. E, no entanto, será aceita, com a desculpa ou a justificativa de que o prazer e a alegria são sentimentos egoístas, que não correspondem às necessidades mais imediatas da sociedade, ou argumento parecido. Saturno em Leão (ou Saturno na casa 5) pode muito bem abrir mão de viver a própria vida amorosa em favor de algum ideal, de algum projeto, de algum bem maior coletivo, e pode também repetir esse gesto quando sentir uma íntima ameaça a essa persona trabalhosamente criada. Ou seja: ele pode até mesmo fazer uma viagem a uma ilha na Sibéria, se for para negar a si mesmo o que mais profundamente deseja e precisa.  

NO entanto, isso não quer dizer que Saturno seja mais fácil de lidar quando está em outra posição no mapa. Saturno é sempre Saturno. Reparem, por exemplo, em como o caso de Anton Tchekhov se parece com o de Franz Kafka, que, no momento exato da completude de um ciclo de Saturno em sua vida, encontrava-se massacrado por obrigações prosaicas e tarefas rotineiras de seu emprego burocrático. Mais de uma vez, expressou seu fastio com essa condição, que o impedia de escrever (Saturno em Gêmeos); mas, na hora de fazer uma mudança, escolheu acumular obrigações ainda mais fastidiosas ao seu cotidiano, tornando-se sócio de uma fábrica de amianto, dobrando a aposta nos flagelos que o oprimiam, e, por consequência, se vendo ainda mais enredado em tudo em que o impedia de avançar na vida (o que, no caso de Kafka, se confundia com fazer literatura).

Nada com que a gente não consiga se identificar, em pelo menos uma área da vida, em pelo menos uma época da existência: esse apego insistente no sofrimento, essa estranha luxúria da infelicidade. Todos temos Saturno no mapa, e com ele essa capacidade de tomar decisões que reforçam padrões de conduta, mesmo quando sua rigidez se torna um risco iminente ao próprio fluxo vital que nos alimenta.  Como disse o Felipe Charbel em uma resenha recente sobre os diários de Kafka, todo mundo tem sua versão da fábrica de amianto, “uma situação de desconforto que era melhor ter evitado, mas na qual nos envolvemos como resultado de uma escolha absurda, a pior decisão possível em um momento crucial da vida”. Acrescento: todos nós temos uma viagem a Sacalina.

Mas talvez a gente precise mesmo dobrar a aposta em algo que não faz mais sentido para descobrir o que faz. Talvez a gente só se disponha a realmente romper as amarras quando elas ficam apertadas no nível do irrespirável. Talvez o sapo proverbial, que se deixa morrer na água fervida lentamente, só consiga encontrar as forças necessárias para se libertar da fervura se for colocado numa panela de pressão. É justamente isso que o retorno de Saturno é: uma panela de pressão, na qual a fervura já não pode ser ignorada, e cujo chiado permanecerá em nossa cabeça enquanto não encontrarmos uma verdadeira saída para nossos dilemas, ao invés de simplesmente aumentar o fogo, como se isso fosse resolver alguma coisa (no caso do sapo astrológico, posso adiantar que ele encontra força e inteligência para isso em Urano; escrevi sobre isso em mais detalhes aqui).

Em outras palavras. Talvez a fábrica de amianto tenha sido indispensável para que, pouco tempo depois de se meter nessa enrascada (que lhe tomava ainda mais tempo e energia), Kafka virasse uma noite escrevendo O Veredito, que viria a ser conhecido o primeiro texto importante de sua obra. A propósito, esse é um ponto importante em que a astrologia e a psicologia de C. G. Jung (com sua atenção a narrativas e processos arquetípicos) se encontram: em ambos os casos, as coisas acontecem “em direção a”, com uma finalidade, que pode ser deduzida da natureza dos arquétipos e astros em questão, mesmo quando tratamos de movimentos aparentemente contrários ao desenlace da história. No final das contas, percebemos que eles fazem parte essencial da narrativa, que cumpriram um papel importante nela.

Nessa perspectiva, Kafka não seria Kafka sem sua fábrica de amianto, Tchekhov não seria Tchekhov sem a viagem a Sacalina. Em seu caso, o absurdo da escolha e o desconforto da situação foram bem descritas em suas reações à realidade da ilha siberiana – de cheiros desagradáveis e oficiais corruptos, de barracos insalubres e crianças maltrapilhas, onde as eventuais festividades eram tristes e até mesmo as cartas de amor eram “repulsivas”. É verdade que, com o relato onde estão estes registros, a viagem cumpriu o objetivo de revelar uma realidade ignorada em Moscou e São Petersburgo, e assim a dimensão mais aquariana e política do gesto não foi totalmente desperdiçada, por mais que o mero desgosto domine algumas passagens do livro. É também verdade que essa era apenas a intenção mais visível do ato, sendo que próprio Tchekhov o atribuiu à relação nascente com Lydia, em uma carta a Helen Lintrayov: “Eu simplesmente tinha que fugir a todo custo. Fugi de sensações muito fortes como um covarde foge do campo de batalha”.

No próprio relato da viagem, por outro lado, surge já uma nova faceta do escritor. Há trechos em que Tchekhov abandona o olhar moralista e científico, ou meramente desaprovador, em favor de uma visão mais compadecida e compreensiva da condição humana, a partir do que viu na ilha. Nesse ponto, ele percebe como seria despropositada seria a ideia de converter os condenados de Sacalina a uma doutrina absolutamente distante de seu cotidiano. Nesse momento, ele, através de suas palavras, concede aos seus ‘personagens’ um pouco do calor humano que lhes era negado tanto por seus carrascos quanto por seus supostos redentores, e abandona o posto do missionário que levava a palavra de Tolstói para as criaturas perdidas naquele rincão nos escanteios do mundo, começando então a falar com a voz de Anton Tchekhov, na qual sobressaía uma visão mais empática, que não deixa de ser uma expressão de Aquário, porém mais amadurecida e calejada pelas maldades deste mundo.

De modo que, em retrospectiva, a viagem a Sacalina veio a ocupar um lugar importante na trajetória pessoal de Tchekhov, embora no sentido contrário ao de suas motivações iniciais. Um forte indício disso é o fato de que, logo após o retorno da ilha, seu primeiro movimento foi ir atrás de Lydia em São Petersburgo, declarando-se então pela primeira vez para ela, que já havia demonstrado antes disposição para renunciar a tudo para ficar com ele. Mas a essa altura era ela que já não sentia ter forças para tanto, e começaram aí os muitos anos de desencontros e hesitações, incluindo uma ocasião na qual conseguiram ficar juntos e sozinhos, mas foram surpreendidos pela visita inesperada de dois amigos, bem como o episódio em que, tomada por uma onda de paixão em confiança, Lydia enviou a Tchekhov um exemplar dos Contos Reunidos dele, com um bilhete: “Página 267, linhas 6 e 7”. A referência era a um trecho onde se lia: “Se quiser a minha vida, venha e leve-a”.

Porém, quando essa mensagem o alcançou, Tchekhov estava já acometido por uma enfermidade que, a longo prazo, viria a ser fatal, e não podia ir buscar a vida que ela lhe oferecera. Mas a transformou em ótima literatura. É importante então notar que nenhum dos tristes desdobramentos dessa história elimina a importância criativa e vital da mudança ocorrida em 1890, quando Tchekhov retorna da viagem. Podem reparar: a partir daí, as parábolas moralizantes passam a ser substituídas por narrativas em que a percepção da fragilidade da condição humana ocupa um papel central, em momento algum ultrapassado pelo julgamento sumário. As infinitas e ao mesmo tampo tão precisas nuances entre o trágico e o cômico de que talvez ele foi capaz surgiram aí. O Tchekhov que a gente mais conhece e mais estima como escritor aparece nesse momento, após o encontro com Lydia, após a viagem a Sacalina, após o retorno de Saturno.

Ou, como afirma David Magarschack, para encerrar: “A viagem em si mesma, que desconcerta seus biógrafos como desconcertou sua família e amigos, permanece um completo mistério a não ser que, como observa um recente estudioso russo, ela tenha se dado ‘por uma profunda razão pessoal’. E esta razão apenas poderia ser seu amor por uma mulher jovem e casada, que ele escondeu de todos como sempre escondia seus sentimentos íntimos do resto do mundo; pois, durante a fase tolstoiniana de sua vida, Tchekhov apenas poderia encarar uma situação como aquela com desgosto e repulsa. Como seu amor por Lydia era muito forte para ser controlado, ele resolveu fazer uma longa e árdua viagem para curá-lo. Mas o grande paradoxo é que a viagem a Sacalina produziu o efeito oposto: ela não o curou de seu amor – ela o curou de suas obsessões tolstoinianas”.

Ou, traduzindo para termos zodiacais: ela não matou o Leão que ele descobriu existir dentro de si, e sim deu a ele o alimento que vinha sendo negado. O covarde que fugiu do campo de batalha voltou cavalgando a fera selvagem da paixão que o afugentara. Nascia assim o autor de algumas das mais belas – e tristes, e difíceis – histórias de amor que conhecemos. O Saturno de Tchekhov nunca deixou de estar lá, em Leão, e haveria sempre uma espécie de sombra (realista, resignada) em sua visão do destino dos apaixonados. Porém, para que as histórias de amor simplesmente comecem, é preciso uma boa dose de otimismo e entusiasmo leonino na história. Acho que foi isso que Tchekhov sentiu ao voltar da ilha e procurar Lydia naquele ano. Por um momento ele foi puro gosto pela aventura amorosa, desejo de conquista, afirmação da vida, brilho no olhar. Se terminasse aqui (e por que não terminá-la?) essa história teria sem dúvida um final feliz. Ou, pelo menos, um final aberto, no qual pudéssemos intuir uma chance de felicidade.

capricórnio

A alma e as formas

A viagem dos Reis Magos (c. 1435) | Sasseta

“Não acredito nesse negócio de astrologia. Como, aliás, todo bom capricorniano”. A frase, se bem me lembro, está em um conto do Luís Fernando Veríssimo, mas é de uma ironia tão fácil e irresistível que podemos considerá-la de domínio público. Lembrei dela ao revisar esse texto que escrevi ano passado; relendo agora, e fazendo alguns ajustes, parece ter sido um esforço no sentido de justificar minha condição não apenas de capricorniano que acredita na astrologia, como também de capricorniano astrólogo. Porém, pensando agora, trata-se de algo que existe aos montes por aí, por mais que o senso comum insista em nos estranhar, e por mais que eu mesmo me sinta instado a explicar a aparente contradição entre o pragmatismo caprino e as viagens astrais. Para ficar em apenas mais dois exemplos, tem o Simon Vorster, responsável pelo Raising Vibrations, um dos mais interessantes e (claro) consistentes canais sobre astrologia no Youtube (eu apostaria num ascendente em Gêmeos, ou Libra), e a Júlia de Carvalho Hansen, que além de astróloga capricorniana é poeta com ascendente em Peixes. Ainda assim, em todos esses casos, posso garantir que se trata de gente capri até os ossos (principalmente os ossos), o que aliás não deveria surpreender o observador mais atento. Raparem: coincidência ou não, o dia do astrólogo é capricorniano.

Sim, o dia do astrólogo acontece sob o mesmo sol em que nós, os incompreendidos, fazemos aniversário. O que certamente não é uma casualidade é o fato de esse dia acontecer na mesma data da Noite de Reis, 06 de janeiro. Pois eram astrólogos persas, ou magi, os “três homens sábios” que leram os sinais dos céus para encontrar o local de nascimento do menino Jesus, segundo o Evangelho de Mateus. O império persa, vale lembrar, foi um dos que conferiu à prática da astrologia um amplo papel social, depois do babilônico e do egípcio. Seus magos eram reconhecidos no oriente como sábios não apenas pelos conhecimentos técnicos e científicos que acumularam, como também pela participação em momentos chave da vida política da região. É possível inclusive que o evangelista os tenha incluído na história de Cristo para conferir maior legitimidade à sua narrativa – sobretudo se considerarmos a possibilidade de Mateus ter sido capricorniano também, uma vez que a gente costuma mesmo fazer referência à tradição para sustentar nossos pontos de vista. No mínimo, temos o hábito de salpicar aqui e ali em nossos textos uns nomes e obras já reconhecidos, ou então de desconhecidos supostamente veneráveis, para passar a impressão de que a gente sabe do que está falando, ou pelo menos conhece quem sabe.

A propósito, e já que mencionei os astrólogos persas e tal: Criação, de Gore Vidal, é um belo romance histórico sobre a Pérsia e arredores alguns séculos antes do nascimento de Cristo. Ele se passa durante o reinado de Xerxes, portanto no século V a.c., e é narrado por um embaixador do império nas terras do oriente e do ocidente, que durante suas viagens entra em contato com personagens como Sócrates, Buda e Confúcio. Pois esse foi o período em que foram concebidas as transformações filosóficas, espirituais e políticas que mudaram o curso do mundo antigo e criaram os fundamentos de muito do que veio a seguir (falei com mais detalhe sobre isso na postagem sobre o fim da Era de Peixes e o início da Era de Aquário, que deixei aqui outro dia). Com a astrologia não poderia ser diferente, de modo que, nesse intervalo, até a queda do Império Romano, estabeleceram-se não apenas uma, mas diversas e antinômicas bases possíveis – éticas, científicas, espirituais – pelas quais podemos hoje nos guiar no estudo dos astros.

A antiguidade astrológica deixou então como legado vários livros e nomes importantes, nos quais o ramo capricorniano da astrologia pode se ancorar com confiança para estabelecer os alicerces de sua prática. Mas gostaria de mencionar agora particularmente um deles, hoje menos conhecido, talvez até obscuro, mas venerável o suficiente para dar crédito ao meu argumento da relação entre a astrologia e o capricornianismo. Estou me referindo a Jâmblico, ou Iamblichus, um filósofo e astrólogo de origem síria que veio a ser também biógrafo de Pitágoras, e que, até determinado ponto, seguiu filósofos neoplatônicos como Plotino e Porfírio em suas reflexões sobre os possíveis caminhos e saídas para que a alma encarcerada no mundo físico pudesse dele escapar. Mas, no decorrer de seus estudos – e esse é o ponto a ser ressaltado -, Jâmblico concluiu que a vinculação da alma à matéria não era de todo indesejável, possuindo potencialidades que estavam ainda por ser exploradas, o que justificava o aprimoramento dos instrumentos de orientação adequados para essas paragens sublunares.

Ele assim sugeriu que o instante do nascimento de indivíduo era de enorme importância, pois nele as potencialidades de desenvolvimento da alma em um determinado corpo ficavam estabelecidas de acordo como retrato do movimento dos planetas. Esse retrato, por sua vez, representava um ideal ao qual a experiência humana podia apenas almejar – mas não devia deixar de almejar. O estudo da astrologia serviria para que a alma encontrasse a melhor maneira de expressar-se e aprimorar-se, dadas as condições de uma configuração planetária ao mesmo tempo eterna e momentânea. Desse modo, a composição alma/corpo individual não estava exatamente submetida à dinâmica celeste como uma fatalidade imposta desde cima: ela era essa dinâmica, e ao mesmo tempo uma manifestação parcial dela aqui nesse mundo, que contava com as pistas deixadas lá em cima para reencontrar-se consigo mesma.

Hoje em dia, há quem pense que os adeptos da astrologia buscam uma espécie de fuga dos sofrimentos e das dificuldades da vida terrena, recorrendo a superstições para não ter que encarar a falta de sentido em um mundo desencantado. Essa caricatura escapista corresponde a um determinado estereótipo do jovem místico. Outros entendem que a astrologia até funciona, e pode funcionar muito bem, mas não tem dimensão ética alguma, e é somente uma técnica que pode estar a serviço dos objetivos menos nobres; nesse âmbito ela pode até ser associada à proverbiais ambições mais pragmáticas e capricornianas. Nesse contexto, a posição Jâmblico representa uma alternativa interessante, uma vez que reafirma o valor do mundo físico tal como o conhecemos, e ao mesmo tempo indica que ele pode sim orientar-se eticamente de acordo com coordenadas astrológicas. Robert Hand desenvolveu o ponto com o caloroso brilhantismo de um sagitariano com ascendente em Câncer, na conferência intitulada Astrology, Morality, and Ethics, proferida em 2007. Mas creio que aqui se torna possível pensar novamente em Capricórnio, não como um estereótipo, mas como uma experiência arquetípica na qual todos nós em algum momento da vida podemos nos reconhecer.

De um modo geral, e ao mesmo tempo bastante específico, estou falando da experiência deste mundo e da experiência neste mundo. Poucas coisas são mais diretamente associadas ao signo de Saturno do que tal concepção da vida mundana como algo que tem valor em si mesmo, incluindo aí aquilo que manifestamos em termos de aprimoramento e evolução nos limites dessa existência. Nessa perspectiva, faz sentido que a astrologia seja comemorada em uma data capricorniana, pois Capricórnio é sobre honrar o mundo físico, desenvolver suas potencialidades, aproveitar seus recursos com inteligência, e entender que suas limitações são a única maneira pela qual a alma passa a existir nas formas. Disso tudo se deduz a possibilidade de um determinado comportamento moral, sem que precise ser moralista; a ética capricorniana passa pelo real e não deixa nunca de utilizá-lo como ponto de partida, mas tem como ponto de chegada uma versão diferente e melhor da realidade; assim, longe de conferir à matéria um aspecto vil e decaído, Capricórnio mostra como ela é justamente o veículo pelo qual conhecemos o espírito.

Ao mesmo tempo, existe uma resignação tipicamente capricorniana, na linha do “foi o que deu pra fazer no pé em que as coisas estão”, que não deixa de ter sua dose de leveza e libertação dos imperativos categóricos de aprimoramento do mundo. Pese um pouco mais a mão nesse sentido, porém, e a resignação se torna nosso famoso baixo astral – Capricórnio pode ser, sim, um signo pesado. Isso acontece sempre que faz o caminho inverso do mencionado, e, no lugar do esforço de transformação da matéria com suas próprias mãos, traz para o chão, por força de sua gravidade, tudo aquilo que lhe parece de um idealismo sem bases no mundo concreto. Aqui reencontramos o capricorniano cético e melancólico da frase lá do começo, agora sem o bem humorado reconhecimento de sua ambivalência. Mas algum grau de melancolia sempre vai fazer parte de nosso repertório, junto com a ironia e o esforço em tornar a experiência mundana mais digna e, quem sabe, sagrada. Curiosamente, talvez isso nos diga algo também sobre a história de um deus que encarna em um corpo humano, e termina por ter a data de seu nascimento associada a esse arquétipo. Sua história termina com uma pesadíssima cruz na qual ele está preso como uma alma estaria presa ao corpo humano, segundo os neoplatônicos; mas ela começa com a infusão de uma alma divina em um corpo humano, de tal modo que sua carne e pele e ossos não são um obstáculo a ser recusado ou um pecado merecedor de flagelos. São justamente um instrumento que a Alma encontrou para se movimentar entre nós.

Por último, queria enfatizar que o ethos do aconselhamento astrológico não prevê nunca uma recomendação de renúncia ao mundo e seus desejos, ambições e disputas. Mas acredito ser papel do astrólogo (inclusive do astrólogo capricorniano) identificar quais desejos, ambições e disputas recebem o suporte do retrato tirado do cosmos no instante do nascimento de um indivíduo, e quais atendem a impulsos que talvez não tenham o mesmo estímulo. É como se os ciclos planetários formassem uma intrincada rede de fluxos para a qual buscamos uma espécie de adaptação do corpo, embora o corpo neles esteja imerso o tempo inteiro, e esteja ativamente engajado nessa adaptação, não tendo como escapar das contradições do mundo nem querendo – o que torna tão mais significativa a possibilidade de acompanhá-los como quem participa de uma espécie de dança. É claro que há sempre algum grau de conflito e a possibilidade de tropeços, o que torna tudo mais difícil, interessante e divertido, no que diz respeito à imensa riqueza dos passos que somos convidados a dar.

Uma coisa é certa: o fatalismo que a astrologia antiga ou medieval conheceu tem um papel restrito nos atendimentos hoje em dia, pelo menos nos meus (mais informações sobre leituras e consultas, aqui). Por outro lado, existe certa tendência em consentir com o uso da astrologia para finalidades desprovidas de qualquer justificativa moral, como se fosse apenas uma técnica isenta de premissas e implicações nesse campo, o que tampouco me parece apropriado, dada a premissa de que é possível conciliar interesses pessoais com os interesses do cosmos, o que aliás é um boa definição do resultado de uma boa leitura. Mas atenção: do ponto de vista do indivíduo, esse resultado não se traduz nem entusiasmo, nem em uma triste aceitação das coisas como elas são, mas em uma relação mais pacificada com o real e o possível, que seja também revigorante na mobilização das energias disponíveis para a mudança e para as conquistas que almejamos. Eu pelo menos entendo assim.

Por fim, o fato de poder verificar, diariamente, algumas confirmações exatas da interação entre assuntos humanos e símbolos cósmicos (inclusive e talvez sobretudo quando se trata de temas bem concretos e imediatos), é para mim motivo mais do que suficiente o mergulho nesse mundo da linguagem astrológica como meio para encontrarmos as mais perenes verdades. Por ora, entretanto, bastam-me as verdades provisórias com que me deparei para suspeitar de que um astrólogo sírio que viveu há mais de dois mil anos tem algo de muito certeiro para dizer sobre nossa prática hoje. Talvez eu não saiba ainda expressar com total exatidão o que vejo de tão correto em sua perspectiva, mas vou continuar tentando, por isso peguei esse texto para revisar e acabei praticamente o reescrevendo, com o propósito de tentar me aproximar um pouco mais do espírito que o animou, através da carne da palavra. Acho que consegui melhorar um pouco o texto, e estou meio feliz e meio resignado com o que deu pra fazer. Vida que segue. Feliz dia do astrólogo capricorniano.

Todos os signos

Os signos de Ferrante (enquete)

My Brilliant Friend

Estamos de volta. Explicando o motivo do longo período de hibernação da página: toda a nossa equipe ficou nos últimos meses mobilizada para uma única tarefa, e tem se dedicado com fervor detetivesco (e ascendente em Escorpião) a preencher uma notável lacuna nos conhecimentos astro-literários de nossa época. As reuniões de pauta foram tomadas por debates acalorados sobre indícios recolhidos, e temos postergado a publicação dos resultados dessa busca em nome da prática de um jornalismo investigativo sério e imparcial. A questão é que a escritora italiana cuja identidade se oculta no pseudônimo de Elena Ferrante é de signo desconhecido. A autora de A Amiga Genial, Dias de Abandono e A Vida Mentirosa dos Adultos teve assim seus livros analisados em busca de pistas que apontassem para a configuração de seu mapa astral, e acreditamos estar perto de um furo de reportagem como nenhum outro na história recente da crítica literária, que irá preservar a íntima discrição da artista porém abrindo caminho à exploração da dimensão interplanetária de seus romances. Por outro lado, temos que admitir que os resultados até agora foram relativamente inconclusivos, e gostaríamos de saber mais sobre a percepção do público leitor a respeito. O formulário permite que se marque até três opções, valendo para Sol, Lua e Ascendente. Em nome do desenvolvimento dos estudos ferrantianos, agradecemos pela participação.