peixes

Histórias de Cronópios e Peixes

Mercúrio logo vai começar mais uma temporada retrô. Dessa vez em Peixes, e meu sentimento diante de um trânsito como esse é o de que somos cronópios partindo para uma viagem. Falei outro dia brevemente aqui a respeito dessas criaturas piscianas e lendárias que encontramos na obra do escritor virginiano e argentino Julio Cortázar: são verdes, úmidas, adoram cantar e recitar versos, porém são muito distraídas, vivem sendo atropeladas e choram. Muito ao contrário, os famas, com quem os cronópios coabitam um universo imaginário, são criaturas práticas e organizadas, meio taurinas, meio virginianas, meio que de Capricórnio – em resumo, de um signo de Terra qualquer. Daí o contraste entre a maneira de viajar entre esses tipos tão diferentes:  

“Quando os famas saem em viagem, seus costumes ao pernoitarem numa cidade são os seguintes: um fama vai ao hotel e indaga cautelosamente os preços, a qualidade dos lençóis e a cor dos tapetes. O segundo se dirige à delegacia e lavra uma ata declarando os móveis e imóveis dos três, assim como o inventário do conteúdo de suas malas. O terceiro fama vai ao hospital e copia as listas dos médicos de plantão e suas especializações (…) Quando os cronópios saem em viagem, encontram os hotéis cheios, os trens já partiram, chove a cântaros e os táxis não querem levá-los ou lhes cobram preços altíssimos. Os cronópios não desanimam porque acreditam piamente que estas coisas acontecem a todo o mundo, e na hora de dormir dizem uns aos outros: ‘Que bela cidade, que belíssima cidade!’ E sonham a noite toda que na cidade há grandes festas e que eles foram convidados. E no dia seguinte levantam contentíssimos e é assim que viajam os cronópios”.

Perceberam a diferença? De um lado está a constância de Touro, o detalhismo de Virgem, o planejamento capricorniano; do outro está o mais incauto otimismo de Peixes.  Mas o que eu queria comentar é menos essa virtude da imprevidência cronopiana do que a reação deles aos contratempos e imprevistos. Tem uma coisa aí que acho interessante e que tem a ver com o arquétipo de Peixes de maneira mais ampla. Isso porque a ilusão e o autoengano são temas piscianos por excelência, e, por mais que os cronópios sejam fofos, a gente pode muito bem ler o resultado de suas viagens nessa chave. Eles simplesmente não querem encarar a realidade, e por isso imaginam uma cidade que não existe, onde os trens saem na hora, não chove a cântaros e os táxis os levam para as festas para as quais foram convidados.

Essa talvez seja inclusive a reação típica de Peixes diante dos pequenos inconvenientes de um Mercúrio retrógrado: ao invés de lidar com o problema, imaginar um mundo onde ele sequer existiu um dia. No entanto, eu não estaria aqui escrevendo sobre o assunto se supusesse que a relação de Peixes com a dura realidade das coisas e dos fatos se interrompe aí, no plano do estereótipo. Sim, o estereótipo existe e está por todos os lados, mas o arquétipo está igualmente espalhado pelo mundo, e com ele a gente tem muito a aprender. Curiosamente, acho que dá para explicar a diferença entre uma coisa e outra a partir da reputação que Peixes tem de ser meio trouxa.

Sim, Peixes é meio trouxa; porém sua trouxice se manifesta em duas etapas diferentes, e na segunda, cá entre nós, Peixes está sendo mil vezes mais esperto que a gente. Vou tentar esclarecer esse ponto separando a característica em dois momentos de um mesmo arco narrativo. No primeiro, Peixes é meio trouxa de maneira estereotipada mesmo: deixa-se enganar, iludir, deslumbrar, e prefere acreditar em belas palavras ou viver em sonho a despertar para a vida como ela é. Por isso, a experiência arquetípica pisciana passa sempre por um choque de realidade, e a história de Peixes só começa mesmo com a descoberta que as coisas não são exatamente como lhe parecem.  

Para dar uma dimensão concreta a essa narrativa, podemos imaginar uma criança que cresce admirando o pai por sua inteligência ou integridade, quando ele na verdade comete seus deslizes, ou não é lá de grandes feitos mentais, o que todo mundo ao redor consegue perceber. Mais cedo ou mais tarde (geralmente mais tarde) isso vai se tornar evidente, às vezes em um simples gesto, ou por causa de uma palavra entreouvida a respeito dele. Reparem, o que acontece aí não é exatamente que o pai tenha sido incapaz de sustentar a máscara a longo prazo; quando se trata de Peixes, ninguém precisa usar máscara nenhuma, porque o pisciano mesmo vai se encarregar da idealização. Por isso, ele se torna responsável pelo pai herói que criou, e que se revelou uma farsa, sem que pai mesmo jamais tenha sido um farsante.

Mas é aqui mesmo que a mágica acontece. Ela depende, claro, de que Peixes não reincida em seus delírios e encontre desculpas para desacreditar o real. Ela, a mágica, vai emergir do próprio real e conferir-lhe um novo aspecto de sonho, porém agora com outro tipo de fundamento. Porque é aqui que o famoso amor incondicional pisciano surge: na hora que ele descobre que não precisa admirar o pai para amá-lo, e que aquela criatura tímida, meio tola, meio limitada, que acabou de se revelar para ele, pode ser também o objeto da mais terna e mais ilimitada compaixão.  

É a própria realidade, então, que se torna motivo da mais profunda aceitação e da mais autêntica ternura para Peixes. Isso pode acontecer também, por exemplo, com alguém que acredita ter um talento especial para o canto, um dia descobre que não tem talento nenhum, e justamente aí descobre que mesmo assim ama cantar. Tal como no discurso final de Nina, a protagonista da peça A Gaivota, de Anton Tchekhov. Isso tudo, é claro, não acontece sem uma dose de resignação, mas do outro lado está a experiência de uma felicidade que passou pelo teste mais difícil que há.

Por esse motivo, o amor segundo Peixes, no plano arquetípico, é incondicional: não porque esteja disposto a aceitar quaisquer condições, mas porque já aceitou justamente aquelas que lhe causaram a maior reversão de expectativas. Nesse sentido, a tarefa pisciana é tão enorme que não surpreende que seja o último signo da roda zodiacal. Peixes aparece quando já não há mais nada a fazer a não ser conhecer a realidade, aceitar a realidade e amar a realidade mesmo assim. Um pouco como os cronópios amam as cidades que visitam, mesmo quando elas parecem rejeitá-los.

Podemos chamar essa trouxice de trouxice de segundo grau. E, se digo que há uma espécie de esperteza aí, é porque o amor incondicional é um amor verdadeiramente livre, não implica nenhum tipo de apego, e, portanto, não deixa ninguém preso a uma relação. Um pisciano que tenha sido enganado em uma parceria afetiva, por exemplo, pode até perdoar quem o iludiu, ao entender que também participou do engano; mas isso não quer dizer que vá voltar de coração aberto para uma relação abusiva. O perdão é libertador na medida em que realiza a transformação alquímica da mágoa em compaixão, mas uma compaixão que se dá a certa distância, que mantém uma perspectiva. Essa transformação se dá no âmbito de Peixes.

Além disso, o amor incondicional não é nunca o amor por uma pessoa específica, e muito menos por um aproveitador sacana: é por algo que existe nele também, mas que pode ser igualmente encontrado em outras pessoas menos nocivas e perigosas. Se Peixes é capaz de oferecer a outra face ao agressor, portanto, muitas vezes é porque já está livre da raiva que ele lhe causou, e então já está mesmo olhando para o outro lado, cuidando de outros assuntos, sem forjar nenhuma atitude específica para responder à agressão. A capacidade que essa postura tem de desarmar um oponente é inestimável, e essa é a grande esperteza de Peixes: a de agir sem esperteza nenhuma.

O poeta Walt Whitman nasceu sob uma conjunção exata de Saturno e Plutão em Peixes, ambos muito próximos de seu ascendente. Um mapa assim pode tornar um indivíduo o porta-voz de sensações piscianas de toda uma geração. Ele se celebrizou como um sujeito meio doido e meio pateta que andava pelas ruas catando assunto para seus cantos. Porém, era notável a maneira como era capaz de simplesmente elencar imagens do real em seus poemas, e acolhê-las e aceitá-las de maneira ao mesmo tempo desiludida e maravilhada, em todas as suas imperfeições e singularidades. Tal como no poema em que ele vai falando dos rostos que encontra pelas ruas, dos mais lamentáveis aos mais imponentes, dos mais graciosos aos mais debilitados, para complementar de repente: “I see them, and complain not, and am content with all / Do you suppose I could be content with all if I thought them their own finale?”.

Eu as vejo, e não reclamo, e estou satisfeito com as coisas como elas são. Mas você acha que estaria satisfeito se acreditasse que as coisas terminam aí? Essa é uma afirmação pisciana, tanto em sua aceitação do mundo, quanto na percepção de que o mundo como é, com seus defeitos e desgraças inclusive, implica algo que ainda está por vir e que valerá a pena conhecer. Ou, mais objetivamente: “Estou ciente e quero continuar”. Essa é a frase da maturidade pisciana, com ênfase no “ciente”, na consciência de uma imagem do mundo que pode não ser a ideal, mas é bela e maravilhosa inclusive pelas falhas que apresenta.

Do mesmo modo, enfim, o encanto dos cronópios com as cidades que os rejeitam, sua aceitação das condições com que são recebidos, revertem assim as expectativas de quem espera que tais contratempos sejam apenas motivo de fastio e irritação. Em um plano mais cotidiano, isso não deixa de ser algo que podemos muito bem exercitar com Mercúrio retrógrado em Peixes, e prometo que não faltarão oportunidades. A partir de agora os aplicativos vão pifar, os táxis estarão lotados, choverá a cântaros, e a internet vai cair o tempo todo. O pacote completo. Mas, se tivermos aprendido alguma coisa com os cronópios, a despeito de Mercúrio e seus pequenos contratempos, ainda assim vamos dormir pensando: “Que bela cidade, que belíssima cidade”.

Todos os signos

Venha para o cabaré

Tenho um resultado de enquete ainda para honrar, mas antes disso acho que chegou a hora de discutir um assunto importante com vocês leitores. É que alguns já me disseram que com frequência não sabem se estou brincando ou escrevendo a sério nessas postagens (naquela sobre Aquário-o-grande-vilão-do-zodíaco, por exemplo). Explico então: nem eu sei. Sério mesmo (ou melhor, mais ou menos): o limite entre a gravidade e a zoeira aqui é muito tênue, e é bastante possível que eu passe de uma coisa para outra sem nem perceber. Isso tem a ver com meu jeito de escrever e com fato de que esse para mim é um espaço de distração e brincadeira. Mas isso está também totalmente relacionado ao próprio assunto da página, e é aí que as coisas ficam bem interessantes.

Astrologia é um assunto engraçado. E é bom que seja assim. Do arquétipo ao estereótipo é um pulo, e se o salto for bem executado a gente está disposto a perdoar todo tipo de galhofa com as patetices dos nossos signos. Mas existe algo a mais no fato de que a astrologia é sempre um assunto engraçado, ao mesmo tempo em que está longe de ser irrisório. Não conheço nenhum outro fenômeno com esse poder. Mesmo em épocas sombrias, e mesmo quando falamos a sério, costumamos falar de astrologia meio que rindo. Trata-se de um reconhecimento do enorme descompasso entre o absurdo de suas premissas e das premissas com que tocamos nosso cotidiano. Ao mesmo tempo, trata-se da inquietante percepção de que nem por isso a astrologia deixa de ser com frequência inteiramente razoável.

Rimos com a astrologia, portanto, porque ela não faz o menor sentido, e ao mesmo tempo na prática a gente percebe que faz. Existe nesse riso um leve temor e tremor existencial diante das implicações de qualquer acerto astrológico carrega consigo, por mínimo que seja, e ainda que seja o acerto de um estereótipo, desses que proliferam em memes e tuítes correndo soltos por aí (tipo os da página deliciosamente intitulada Não acredito em astrologia, mas…). Muitas vezes é um riso de nervoso, mas também de libertação, que vem da percepção de que não estamos no controle das coisas com nossa razão e nossa ciência. É o bobo da corte dentro de nós escarnecendo da vaidade do soberano que gostamos de ostentar, e sinalizando que há, sim, mais coisas entre o céu e terra do que supõe nossa vã filosofia (aliás, cuidado com astrólogos que se levam muito a sério: eles acham que retomaram o controle das coisas por outros meios).

De minha parte, sou de ficar estatelado achando graça de como alguns aspectos e trânsitos astrológicos se manifestam na minha vida, dos meus amigos e na das pessoas que fazem consultas comigo. Tem algo de muito bizarro acontecendo aí. Essa incredulidade de fundo me causa um constante e sempre renovado assombro com o fato de que, segundo uma série de evidências, existe no universo algo em operação que não entendemos com clareza, que nos envolve em um drama de proporções cósmicas, e para o qual não temos palavras em nosso vocabulário regular, mas cuja descrição conta já com um conjunto de símbolos e termos técnicos bem consolidados. Ajudar a desenvolver e aprimorar ainda mais estes símbolos, aqui nesse espaço, é tarefa que me investe de imensa pompa e galhardia. Sério mesmo. Até onde dá pra ser.

Desse modo, a experiência da astrologia não precisa ser compreendida apenas pelo lado da dissolução de certezas e hábitos mentais enrijecidos que nos isolam do cosmos que nos rodeia. Ao nos colocar em contato com esse cosmos, ela pode muito bem nos fazer dançar junto com ele. Conhecer o mapa astrológico do nosso nascimento, então, nos permite entender um pouco melhor como a banda toca para cada um de nós. A propósito, há quem acredite que somos todos um único Ser brincando de dividir-se em diversas personalidades e aparências. A visão de mundo que a astrologia oferece pode muito bem ser entendida assim, como a de um baile de máscaras em que o Ser se fantasiou de Áries, de Leão, de Capricórnio etc. (e das infinitas combinações entre esses arquétipos que encontramos em cada mapa astrológico) para se perder e se encontrar por meio dessas fantasias.

Tudo parece reduzir-se a um jogo ou a uma brincadeira, porém qualquer um que já se envolveu em um jogo ou em uma brincadeira sabe como jogo e brincadeira são coisas sérias. Ao mesmo tempo, qualquer um que já se envolveu em coisas sérias sabe como, mudando um pouco o ponto de vista, elas podem ser infinitamente engraçadas. Mais uma vez, o limite entre uma coisa e outra quase não existe, e tenho a sensação de que conviver com essa ambiguidade é antes um hábito sanativo do que uma ameaça à nossa lucidez. Por isso, em cada texto que posto aqui, percebam que há sempre um subtexto, uma mensagem subliminar, que é uma espécie de convite. Percebam que na trilha sonora dessa página tem sempre Liza Minelli ou Louis Armstrong cantando lá no fundo: “Life is a cabaret, old chum. Come to the cabaret”.

A vida é um cabaré, meu velho. Venha para o cabaré. Ou, dizendo de outro modo, como já comentei antes. Conheci dois tipos de malucos na vida: os que acreditam em astrologia e os que não acreditam. Destes últimos, há os que possuem a excentricidade adicional de querer discutir o assunto, mas respeito muito a maluquice das pessoas, e não faço questão de convencer outros doidos de que a minha loucura está com a razão. A ajuda que posso oferecer é para quem não sabe se está em um grupo ou no outro. Isto é, a turma do “Eu até vejo que minha mãe é bem capricorniana, mas sei lá, não acredito muito nesse negócio de signo”. É principalmente para esses que meu convite é direcionado.

Notem: a astrologia, a princípio, não é mesmo exatamente uma crença, mas uma percepção e uma experiência, que pode ser vivida em diferentes graus, mas cuja natureza é sempre a mesma. Portanto, se você se identifica com características atribuídas ao seu signo solar; se já identificou essas características em amigos e conhecidos; se já disse algo como “ah, isso é porque eu sou de Áries”, ou, “isso é muito coisa de geminiano mesmo”, você já está dizendo uma sandice sem tamanho. Você está dizendo que a posição de um corpo celeste situado a não sei quantos milhões de quilômetros da Terra no momento em que uma pessoa nasceu tem alguma relação com o comportamento dessa pessoa muitos anos depois. Ou seja, maluco. Completamente pirado. Não tem mais volta. Junte-se a nós.

virgem

O segredo de Virgem

Edward Hopper | Sun in Empty Room (1963)

Pode parecer exagero. Mas juro que fiquei constrangido quando contei para meu orientador o que estava querendo pesquisar no doutorado. Na época estava terminando o mestrado sobre a obra de Julio Cortázar, um autor argentino, e para a sequência estava pensando em fazer um projeto sobre outro autor argentino, Jorge Luis Borges. Minha Lua em Gêmeos tem uma repulsa instintiva a qualquer tipo de especialização, e aquela coincidência na questão da nacionalidade aconteceu a contragosto. Mal sabia eu na época que não estaria apenas me especializando na literatura de um país, estaria também me especializando em um arquétipo do zodíaco. Foi quando preparei a enquete sobre escritores e signos que percebi; eu não tenho apenas Saturno em Virgem; tenho mestrado e doutorado em Virgem também.

É verdade que, de todos os signos, Virgem foi um dos que me criou mais dificuldades na hora de escolher uma dupla para a enquete, pela quantidade de bons autores virginianos (ou de autores de minha preferência) que encontrei na minha pesquisa (os outros foram Escorpião e Aquário). Se escolhi Borges e Cortázar, portanto, deve ter sido mesmo para facilitar um pouco minha tarefa, aproveitando as investigações já realizadas. Por outro lado, por mais que eu conheça bem as obras de ambos, não estou achando a tarefa nem um pouco fácil, agora que eles ficaram entre os primeiros lugares na votação. Sim, Borges e Cortázar tiveram em comum o fato de serem argentinos e virginianos, mas as maneiras como uma coisa e outra aparecem em seus textos não poderiam ser mais distintas, aparentemente opostas inclusive. Deixemos a questão nacional para o âmbito dos estudos acadêmicos. Vamos enfocar aqui o problema do virgianismo.

O caso de Borges é mais simples, embora nos leve a uma faceta menos conhecida para quem o identifica como um autor de narrativas fantásticas e complexas. Pois ele nunca deixou de ser um bibliotecário, e a biblioteca, como espaço organizado e devotado à prática silenciosa da leitura, é certamente um espaço virginiano. Não por acaso Borges tratava bibliotecas como uma espécie de templo onde se sentia totalmente em casa, e imagino que, como as sacerdotisas que cuidavam da localização correta dos implementos sagrados nos templos dedicados ao Sol no Egito antigo, ele pensava a disposição dos livros na estantes como algo de fundamental importância para o bom funcionamento do mundo. Não por acaso, imaginou uma biblioteca infinita que se confundia com o universo, e um universo cujo posto mais desejável era o de guardador de livros. “Sempre pensei que o paraíso seria uma espécie de biblioteca”: uma das frases mais famosas de Borges é, sem dúvida, uma frase virginiana.

Mas, para além disso, existe também aquilo que o crítico Alan Pauls chamou de uma “política do pudor” nos textos de Borges, sobretudo os do final dos anos 1920, quando realmente há uma espécie de recato que transparece de maneira muito singular em seu estilo. Não estou dizendo que por isso um aspecto puritano de Virgem tenha sido ressaltado; é antes uma qualidade virginiana mais sutil, atravessada por uma irônica avaliação das debilidades humanas em geral, e das faltas pessoais em particular, que aparece nessas passagens. A modéstia aí resulta uma cosmovisão que não salva ninguém de ocupar um humilíssimo lugar no universo, e ganha dimensão política na medida em que percebe o ridículo dos entusiasmos retóricos de figuras messiânicas ou fanáticas. Existe em Virgem uma refinada percepção do patético da condição humana, de tal modo que a exaltação leonina (o signo que a precede na roda zodiacal) dá lugar a uma atitude mais circunspecta, e atravessada por um fundamental senso de inadequação.

Transformar essa inadequação em piada torna-se assim um dos passatempos preferidos de Virgem. Verdade seja dita: virginianos estão entre as pessoas mais capazes de identificar não apenas as patetices e defeitos dos outros, como também os próprios defeitos e patetices. Sempre que seu perfeccionismo se articula com uma natureza irônica e perspicaz, não sobra ninguém na hora de distribuir críticas e tiradas sagazes. Mas nada que não possa ser feito em consonância com um comportamento cuidadoso, tal como atesta Borges nessa passagem de sua biografia do poeta Evaristo Carriego:  “A ternura é a coroação dos dias, dos anos. Outra virtude do tempo é o humor. É condição que implica um delicado caráter: nunca se distraem os ignóbeis nesse puro gozo simpático das debilidades alheias, tão imprescindível ao exercício da amizade. É condição que surge com o amor”. Um delicado caráter, aliás, é uma ótima definição do que encontramos escondido na alma virginiana. Que ela possa parecer às vezes tão rígida e impenetrável, porém, é assunto que ainda dá o que pensar.

Prosseguiremos pensando nisso, portanto. Mas, quando a gente chega em Julio Cortázar, as coisas de saída mudam um pouco de figura. De figuras, na verdade: Cortázar foi um escritor de múltiplos semblantes cuja obra poderia ser aproveitada na explicação de vários arquétipos do zodíaco. A linguagem lúdica e inventiva de seus romances remete a Gêmeos, enquanto a estrutura inovadora de O Jogo da Amarelinha é aquariana; há algo de sagitariano em seus textos críticos, enquanto os famosos cronópios (essas “criaturas verdes e úmidas, que adoram cantar e recitar versos, mas são muito distraídas, vivem sendo atropeladas e choram”) são definitivamente piscianos. Agora, muita gente considera que Cortázar foi sobretudo um grande contista. De minha parte, considero que na evolução da forma de seus contos se desenrola um dos grandes dramas de Virgem.

Para abordar esse ponto queria antes lembrar que o termo “virgem”, tal como deu origem ao nome do signo, não diz respeito a alguém intocado sexualmente. Ele se referia antes a mulheres que não eram casadas, não eram “posse” de nenhum homem, e, portanto, eram conhecidas como aquelas que não se deixavam vender. Essa é a pureza que associamos ao arquétipo virginiano. Há nele um forte impulso para a integridade, que precisa ser constantemente buscada e alcançada em rituais diários, com a delimitação firme de um território imune às impurezas e máculas do mundo externo. Tudo isso depende de gestos definidores, incisivos, claros, capazes de dizer onde termina seu espaço e começa o meu.

Os contos da primeira fase da carreira literária de Cortázar correspondem perfeitamente a esse ideal. São encerrados em si mesmos através da mais perfeita disposição dos elementos internos da narrativa, como máquinas ajustadas com exatidão para um funcionamento inequívoco, que não tolera nenhuma interferência do mundo externo. Foi nessa época que o escritor cunhou a frase segundo a qual, no embate com o leitor, enquanto o romance pode ganhar a luta por pontos, o conto pode ganhar por nocaute. Sem dúvida, a força de Áries e a índole performática de Leão participam dessa sentença. Mas é Virgem que a utiliza para traçar o limite nítido do território do jogo; é Virgem que vislumbra uma estratégia de luta impecável, a sequência mais correta dos golpes, para encerrá-la com o soco certeiro com que se encerram alguns dos melhores contos.

No entanto, olhem que interessante. Quando a gente vai acompanhando a obra de Cortázar durante seu período de maturidade, uma coisa diferente começa a acontecer. Os contos já não são tão mais perfeitos em suas articulações internas, ou, quando são, isso é exposto e explorado por um narrador que percebe a impossibilidade de se chegar a qualquer verdadeira perfeição. “Tango da volta”, por exemplo, é narrado por um habilidoso artífice, um perito no ofício de contar histórias, que monta a narrativa a partir de relatos de terceiros em busca de encontrar todas as peças de um quebra-cabeça, ou criar a mais bela teia de aranha que atrairá o leitor para seu centro. Mas o próprio narrador parece nunca deixar de sentir que seu conto é atravessado por falhas e imperfeições que não dizem respeito à sua capacidade de encerrá-lo em uma unidade fechada, mas a uma espécie de falta que é própria da condição humana de maneira geral.

A partir daí, não há conto de Cortázar que não traga consigo uma espécie de lamento pela falibilidade de nossos esforços em alcançar a perfeição. Assim, eles deixam de ser íntegros no sentido mais aparente do termo – o da autossuficiência que se fecha para influências externas – e se tornam dilacerados a um primeiro olhar, porém adquirindo um outro tipo de integridade, mais profunda e oculta. “Liliana chorando” é um bom exemplo disso, embora “A autopista do sul” apresente também esse efeito, e “Final de jogo” esteja entre os mais tristes e belos contos de Cortázar. Todos eles tratam da morte, da perda e dos males incuráveis da humanidade, aqueles que nenhuma narrativa ou jogo ou máquina poderá deixar de fora de seus domínios, por mais que exista o impulso virginiano de tentar.

Virgem estava então claramente manifesto naqueles trabalhos iniciais. Mas não deixou de aparecer num segundo momento. Pois se, nos primeiros contos, havia uma história secreta acontecendo estrategicamente sob a superfície imediata das palavras, cuja revelação acontecia no instante final e decisivo, nas histórias seguintes os contos passaram a guardar em si um outro tipo segredo, que diz respeito à derrota final que nos aguarda a todos, e que reside na intimidade dos cômodos mais resguardados do arquétipo de Virgem. Assim como o símbolo do Yin e do Yang reserva sempre espaço para um pontinho preto na parte branca, e para um pontinho branco na parte preta, os templos dedicados à cura do corpo e à purificação da alma precisam deixar entrar um pouco da doença e da morte em seus ambientes sagrados. Virgem, quem diria, é justamente o signo que tem como destino conhecer e acolher essa necessidade.  

Não por acaso, trata-se também do signo que ao mesmo tempo mais entende (e eventualmente rejeita) os seguintes versos de Leonard Cohen, outro virginiano célebre: “Ring the bells that still can ring / Forget your perfect offering / There’s a crack in everything / That’s how the light gets in”. Há uma falha em todas as coisas, é como a luz entra nelas; e a perfeição, portanto, se realmente chegasse a ser alcançada segundo nossos padrões do ideal e do desejável, muito provavelmente seria então algo escuro e sem vida. Algo muito semelhante pode ser dito a respeito da evolução da forma do conto na obra de Cortázar. Se olharmos de novo vamos perceber que mesmo os contos mais meticulosamente arranjados tinham algum tipo de defeito, e que esse defeito era sua maior virtude. Pois é virtude alojar algo de tão humano onde nenhum ser vivo parece poder entrar.

A propósito, isso de não poder entrar é algo que a gente sente com muita força diante de Virgem. O território que eles delimitaram para si é tão claramente fechado que não dá nem para imaginar uma intromissão nos ritos que parecem ocorrer lá dentro. Reparem como, tanto no caso de Cortázar quanto no de Borges, a primeira impressão a respeito de como Virgem se manifesta em suas obras remete a esse tipo de encerramento: a figura do velho sentado em sua biblioteca, a forma do conto fechada em si mesmo. Mas é olhando de novo que a gente descobre algo além dessa visão estereotipada, ainda que não incorreta. É olhando de novo que a gente vê a rachadura por onde a luz entra, o pontinho claro sobre a superfície escura.

O recato, a humildade, o humor, uma certa tristeza, e uma silenciosa esperança: esses são os traços que a gente acaba percebendo por trás dos aparentes limites intransponíveis virginianos. Quanto a essa última característica, creio que está relacionada a uma frase da Cal Garrison sobre Virgem: “Chega uma hora em que eles precisam abrir mão da perfeição que a tanto custo alcançaram para si, para deixar que Deus mostre a eles o que a perfeição realmente é”. Existe, portanto, uma espécie de renúncia que precede a abertura virginiana para a luz que entrará pelas frestas do quarto e do conto.

Acho que tanto Cortázar quanto Borges abriram mão de algumas perfeições em suas obras e em suas vidas, e assim abriram espaço para que algo de mais significativo acontecesse nelas. O que está além desse ponto já é da ordem do indizível e impronunciável. Creio, enfim, que esse é o segredo mais bem guardado dos escritores virginianos. Não adianta ter mestrado ou doutorado ou o que quer que seja para comentar esse mistério. É algo que, com cuidado e um pouco de sorte, a gente simplesmente vê acontecer. Embora talvez a gente venha a descobrir que esse acontecimento tampouco é extraordinário, e com isso possa retomar um pouco do aspecto prático e cotidiano do arquétipo. Um pouco como as sacerdotisas egípcias, que viam o sol nascer todas as manhãs, sua luz entrando pelas frestas dos templos, uma vez assegurado que os objetos sagrados estavam todos no lugar.

astros

Os amores difíceis

Corações Livres (2002) | Dir. Susanne Bier

“Tornava-se claro para ambos que o fim ainda estava distante, e que o mais difícil e complexo apenas se iniciava”. Essa frase – referindo-se a um começo – curiosamente encerra A Dama do Cachorrinho, um relato do escritor russo Anton Tchekhov que frequenta todas as listas de melhores contos de todos os tempos. O trecho surge quando o par romântico da história percebe que não encontrará tão cedo solução para o problema que enfrenta durante a narrativa: o de se amarem, mas já estarem casados com outras pessoas. Seja por circunstâncias históricas, seja por questões éticas, parece-lhes impossível resolver o assunto em um lance só. Não enfrentar o problema, porém, tampouco é uma opção. De tal modo que se veem enredados em condições bastante complicadas, que não dizem respeito diretamente aos seus sentimentos mútuos, mas são incontornáveis para que esses sentimentos possam se expressar.

Me lembrei desse conto em particular porque Juno está pairando sobre nós com particular intensidade esses dias, e eu diria inclusive nos últimos tempos. Em consultas e com amigos, andei conversando com muita gente – direta ou indiretamente – sobre Juno. Do ponto de vista astronômico, trata-se de um grande asteroide, conhecido por esse nome desde 1804. Do ponto de vista astrológico, diz respeito a acordos, condições e contratos que regem os relacionamentos. Creio que este é um assunto cuja dificuldade e complexidade só aumentou desde que Tchekhov publicou seu relato em 1899 (de fato, as coisas estavam apenas começando), e isso se reflete nas maneiras bastante concretas como ele se apresenta agora cada um de nós.

Mas permitam-me uma digressão: lá atrás, já encontramos a figura de Juno vinculada a assuntos como a infidelidade, a quebra de contratos, e o que cada um está disposto a aceitar para manter uma relação. Juno foi a esposa de Júpiter na mitologia romana, assim como Hera foi de Zeus na mitologia grega. Ganhou fama de ciumenta e intratável por conta de suas reações diante das escapadelas do marido, porém era bastante engenhosa na hora de traçar os limites do tolerável. Podia agir com uma capacidade de definição que não tinha de irracional ou colérica, quando decidia que havia chegado o momento de tomar uma atitude mais brusca. Já a partir daí, podemos ter uma ideia não apenas dos temas que são regidos por Juno, mas também do tipo de comportamento que ela estimula ou incita.

A gênia dos asteroides Martha Lang-Wescott se refere a Juno como um “ponto do casamento”, que conecta as energias de Vênus e Plutão. Em Vênus, os afetos se manifestam em uma feliz troca de cortesias e carinhos que não precisa nunca se deter em negociações e definições restritivas, ou lidar com as realidades duras da vida; em Plutão, tudo é definitivo em um plano sexual e espiritual mais oculto ou profundo, onde acontecem as fusões dos pares e as separações irrevogáveis como a morte. Se Juno está entre uma coisa e outra, ela é responsável justamente pela dimensão prática, cotidiana ou contratual que não encontramos em nenhum desses lados, mas é parte importantíssima dos relacionamentos. Até porque, em última instância, pode fazer com que relacionamentos comecem e, sobretudo, terminem – mesmo quando o amor e a atração sexual nunca deixaram de existir entre duas pessoas.

Juno retém de Plutão, portanto, uma dimensão trágica nos assuntos que a envolvem, mas tem na conexão com Vênus o recurso à diplomacia e aos acertos retificadores de um mundo em vias de dilacerar-se. Se as coisas vão andar num caminho em outro é o que muita gente está se perguntando agora. Pode acontecer, por exemplo, da questão sobre ter ou não filhos assomar e tornar-se tão complicada quanto incontornável entre duas pessoas. Não há alternativa, nesse caso, que não seja colocar o assunto sobre a mesa, para descobrir se há uma solução negociada ou não há solução alguma. O mesmo pode acontecer nos acordos a respeito de relacionamentos à distância, nas opções por relacionamentos não-monogâmicos, nas reverberações de casos extraconjugais: Juno pede disposição para a conversa, mas não garante que ela seja o suficiente para se encontrar uma saída.

Então, se Juno diz respeito ao casamento, tem tudo a ver com separações também. É aí que sua capacidade de tomar uma decisão difícil mais claramente se sobrepõe às flutuações venusianas. Até porque seus piores traços se manifestam quando uma decisão dessa natureza é evitada em nome de uma suposta harmonia, gerando um possível ciclo de agressões, ressentimentos e vinganças. Aliás, Juno é também sobre o balanço de créditos e débitos que nunca deixa de existir em parcerias, eventualmente envolvendo questões financeiras mesmo, que requerem uma abordagem ao mesmo tempo prática e sensível às circunstâncias. Considerar a realidade desses trâmites é parte importante do tipo de atenção de Juno requer e proporciona, quando está particularmente ativa no céu ou em relação a um mapa pessoal.

Ela nos permite entender melhor aquilo que é inegociável, e as condições sem quais não estamos dispostos a prosseguir. É natural que a gente aceite algumas decisões em comum a contragosto numa relação, mas o peso desses gestos para nós pode muito bem acarretar um desequilíbrio que não terá como ser corrigido depois. Há casais que se mantêm por anos em uma divisão de papéis no qual o lugar de quem “abriu mão de muita coisa” é ocupado um dos parceiros com certa luxúria recriminatória e inclinações passivo-agressivas, que não têm como chegar a bom termo. Chegar a um termo já é uma conquista nesse caso.

Por outro lado, e pelos mesmos mecanismos, Juno nos faz perceber aquilo que pode ser sim objeto de concessões e acordos. Mas isso não necessariamente é sinal de facilidades, muito pelo contrário: parte daquilo que se complicou para nós desde a publicação do conto de Tchekhov decorre da ampliação do espectro de temas que precisam ser discutidos e acertados com frequência em um relacionamento. Santa complicação: assuntos que em outros tempos eram definidos pela tradição, pelos costumes religiosos ou pelos papeis sociais de gênero, por exemplo, passaram a ser colocados sobre a mesa em uma base diária, requisitando uma busca de soluções tão criativas quanto provisórias. É bom que seja assim, por mais que a gente tenha ainda muito o que aprender com o tipo de flexibilidade e dinamismo que isso envolve.

Minha impressão, portanto, é a de que nossa sensibilidade para esse tipo de demanda nos relacionamentos só vai aumentar – e que com isso eles vão continuar ficando mais difíceis, complicados e recompensadores. Pensem: até outro dia as pessoas não podiam nem se separar, as mulheres eram subjugadas das formas mais ostensivamente legais (do ponto de vista jurídico), e ter amantes regulares era uma opção vulgarizada para contornar os efeitos dessa rigidez. O conto de Tchekhov acontece justamente quando duas pessoas decidem se insurgir contra essas circunstâncias, mas ainda não sabem por onde fazê-lo, mas não conseguem desistir de tentar.

Não sei qual é o mapa astral do conto, não cheguei a ver em quais condições estelares Dimitri e Anna se conheceram, mas suspeito estavam sob uma forte influência de Juno. Ela, que antigamente era vista como a deusa do casamento, responsável pela dimensão contratual das parcerias afetivas, passou a ser também deusa das separações – e das infinitas zonas de sombra que existem entre uma coisa e outra. Quanto a essas zonas de sombra, acho também que muito do que caracterizam como o ‘amor líquido contemporâneo’ decorre da nostalgia de um tempo em que as convenções sociais conferiam uma espécie de rígida estabilidade aos relacionamentos. O que temos agora é realmente mais incerto, mas nem por isso é menos consistente.

Muito pelo contrário. Enfim, se eu estiver certo, e Juno passar a fazer cada vez mais parte de nossas vidas, estaremos justamente repassando a cada dia os acordos e definições que temos como nossos parceiros. Isso não nos transformará em frios advogados de causas interminavelmente recorridas por um motivo simples: há, sim, uma importante dimensão afetiva nesses diálogos, por mais pragmáticos que possam parecer. Se o ressentimento e a agressão impensada são decorrentes de assuntos mal manejados nessa esfera, isso quer dizer que o respeito, o cuidado e a inteligência são as virtudes necessárias para manejá-los bem. Contratos não são apenas representações de afetos: eles são também um lugar onde os afetos acontecem. Ajustá-los com atenção e justiça é também uma forma de carinho. Juno não diz respeito apenas a problemas e conflitos práticos que precisam ser resolvidos. Ela vê os problemas e conflitos como um outro espaço em que o amor pode se manifestar.

Todos os signos

Enquete: Literatura Comparada

Não tive como escrever uma postagem nova hoje, mas imaginei um punhado. É que estou querendo fazer uma série partindo da comparação de trechos das obras de escritores com o mesmo signo solar. A brincadeira envolve encontrar semelhanças onde as diferenças são óbvias, e enfatizar diferenças onde as parecenças são mais evidentes de antemão.

Formulei algumas duplas a partir da minha lista de autores preferidos, mas vou precisar de ajuda para escolher por onde começar, daí a enquete. Estou secretamente na torcida por algumas das opções, mas não por serem as mais fáceis de elaborar, muito pelo contrário. Capricórnio gosta de resolver esse tipo de encrenca. Quem quiser pode assinalar mais de uma opção. Obrigado a todo mundo que votar.

astros

O Sol e a Sombra

Pinterest

“O Sol é o único objeto natural que não conhece dilema íntimo”. Lembrei dessa definição de C. G. Jung diante do resultado da enquete que fiz aqui sobre quem seria o grande vilão do zodíaco. Nada a ver com o primeiro lugar que Gêmeos conquistou, com folga até, pois esse título era aguardado e não surpreendeu ninguém. A gente sabe que Gêmeos é o signo mais de boa que tem, a gente sabe que é o que menos leva a sério esse tipo de brincadeira. Então, na hora de brincar sobre quem é o maior vilão do zodíaco, a gente vai lá e vota em Gêmeos, nem que seja só para dar aquela zoada básica em quem vai saber zoar de volta.

Tampouco o que me chamou no resultado foram o segundo ou terceiro colocados. Foi o último. Porque lá atrás, com um votinho apenas, destacou-se, por contraste, a lamentável performance leonina. Confesso que esperava mais; até entendo, por exemplo, que Touro tenha sido deixado no fim da fila também; mas o fato de Leão não ter ganhado nem de Touro é algo a se observar. Fiquei até curioso de saber quem foi a alma que remou contra a corrente e encontrou motivos para cravar o voto solitário. No fim das contas, Leão ganhou uma espécie de título também: o de signo menos demonizado do zodíaco.

O engraçado é que conheço gente que tem uma preguiça enorme de Leão e de suas vaidades, caprichos, exuberâncias. Mas acho que até essas pessoas, na hora de escolher um vilão zodiacal, acabaram escolhendo outro signo, porque por algum motivo não tem graça implicar com leoninos. Eles realmente não vão ligar muito, vão no máximo dar aquela olhadela para baixo e notar meio que de passagem nossas diversões bobas e levemente ridículas, mas não o suficiente para merecer um comentário. Em seguida, vão voltar para o que estavam fazendo antes.

Porque Leão é isso: esse envolvimento autossuficiente naquilo que se está fazendo, esse prazer desinteressado naquilo que se está criando. Por isso, o jogo, a arte e a brincadeira se alojam no arquétipo leonino. É verdade que, como disse antes, a brincadeira tem uma dimensão geminiana também, mas nesse caso estamos falando mais propriamente dos jogos e truques com a linguagem que fazem a gente suspeitar que existe algo de irremediavelmente encapetado em Gêmeos. Já em Leão, reina a inocência dos divertimentos infantis.

É essa inocência que no trecho de Jung aparece como um “desconhecimento de dilemas íntimos”, onde a “discrepância que se apoderou da alma humana pode se desfazer harmoniosamente”. Porque o Sol é o regente de Leão. Jung, a propósito, era leonino também. Curiosamente, o conceito de sombra é fundamental em sua obra: um aspecto desconhecido ou oculto da personalidade, rejeitado pelo ego por não se adequar a expectativas e valores sociais, e passível de um trabalho que o incorpore à consciência através da psicoterapia.

Acontece que o Sol não tem sombra, literalmente falando. Pois como poderia ter uma sombra, o Sol? Algo semelhante acontece no arquétipo de Leão: é feito de pura luz, e se compraz em queimar suas energias infindáveis, ao mesmo tempo generoso e indiferente aos seres que estão em volta. Agora, antes que se dê a entender que estou livrando a cara dos leoninos de quaisquer acusações de vilania, duas ressalvas. A primeira, mais óbvia, é que justamente por ser assim, Leão pode se tornar particularmente cego para as próprias falhas.

Pois, sim, o Sol desconhece dilemas e harmoniza discrepâncias – mas só mesmo ele, o Sol, faz isso. Nós somos apenas humanos recorrendo a alguns símbolos para tentar entender melhor o que somos e o que nos acontece. Aquele entre nós que realmente se acreditar em posse de atributos solares será como o Rei que já não escuta senão elogios para si próprio. A propósito, a figura do Rei se encontra no arquétipo de Leão, não apenas em seus aspectos luminosos, mas nos sombrios também.

A outra ressalva é a de que, de certo modo, o Sol recebeu todos os votos da enquete. Porque aquilo que reconhecemos como nosso signo ou o signo de nossos amigos e conhecidos é na verdade o signo solar de cada um de nós. Vejam só que maravilha essa virada de jogo: o regente leonino passa assim em um só golpe da última para uma primeira e invencível colocação. Porém, se o que a gente entende como o signo das pessoas é o fogo que elas queimam, de maneira alguma isso serve como síntese das qualidades que estão em jogo em um mapa astrológico natal.

O Sol, decerto, é parte importante dessa brincadeira, e sobretudo uma parte evidente, que se expõe ao escrutínio público, e por isso se torna a maneira como identificamos vilões e heróis no zodíaco. Nesse sentido, não surpreende que as pessoas tenham o hábito de tatuar na pele símbolos de seus signos solares. Nosso Sol é algo de que a gente se orgulha, e não precisa nem ser um Sol em Leão. Pode ser um Solzinho em Virgem, mais humilde mesmo. Mesmo os geminianos, por mais que possam participar de nossos rituais de avacalhação de seu signo, no final das contas acham o máximo ser de Gêmeos.

Aproveitando, uma vez escrevi aqui um texto sobre o ascendente e prometi que depois explicaria como entendo que se dá a relação entre o signo ascendente e a aparência física das pessoas. Essa é uma boa oportunidade. O símbolo do ascendente não é algo que a gente tatua na pele porque o ascendente é a própria pele. Melhor dizendo: é nossa aparência, da maneira como a produzimos e expomos sem maiores cálculos e ponderações, do mesmo modo como a gente realiza outras atividades corporais de maneira impensada, como bater o coração e correr o sangue pelas veias.

Sim, isso são coisas que a gente faz, embora não sejam coisas que a gente decide fazer. Passarinho não decide voar porque acaba de nascer: de repente ele vai lá e voa. Por isso o ascendente é uma energia que vibra em nós de maneira positiva, espontânea, natural, como uma árvore produzindo seus frutos, porque produzir seus frutos é algo que a árvore faz. É a maneira como lhe coube participar dessa imensa dança que é o universo, sem que em momento algum ela tenha que ter deliberado a respeito.

No caso de nós humanos, as coisas são mais complicadas, é claro. No entanto, vez ou outra elas são simples assim. Quando isso acontece, presenciamos os arquétipos zodiacais agindo com inteireza: não sem dilemas íntimos, mas os aceitando com menos dificuldade, e não sem manifestar sua sombra, mas ficando à vontade com ela. Isso acontece através do ascendente, e se ele se torna mais identificável em nosso comportamento em algum momento da vida, isso é um bom sinal, de que estamos nos preocupando menos com o escrutínio público e as expectativas sociais – e por isso mesmo, às vezes, recebendo um retorno muito mais positivo do ambiente imediato.

Mas no geral o que fazemos é tentar articular as energias mais contraditórias, tal como se apresentam nos signos solares, lunares e em todos os demais planetas do horóscopo. O zodíaco, portanto, não tem um grande vilão, e todos nós de uma maneira ou de outra mobilizamos todos os arquétipos em uma combinação única e irrepetível de suas cumplicidades e conflitos. “As forças psíquicas não têm uma direção única e muitas vezes se dirigem umas contra as outras”, escreveu também Jung em outra formulação que cabe bem aqui.

Então: algumas colisões são simples, e podem se reduzir aos humores variáveis de um dia. Outras são mais complicadas e podem levar uma vida que chegar a bom termo, como por exemplo a das forças psíquicas que chamamos de Sol, Lua, Vênus, Marte, Saturno, Ascendente, etc., tal como aparecem em nosso mapa natal. Pois tudo isso compõe essa magnífica mandala que todo mundo carrega consigo, com as linhas rajadas que nela se entrecruzam tecendo em nós uma complexa rede de relações que aos poucos a gente vai entendendo melhor – desde o começo de tudo. E também, é claro, desde o nosso nascimento.

aquário

De Aquário e outros demônios

Muito se discute sobre qual signo é o grande vilão do zodíaco. Na minha opinião, as coisas acontecem mais ou menos assim. Satanáries sai na frente por razões óbvias, mas acaba ficando no segundo páreo por razões óbvias também: é incapaz do tipo de manipulação estratégica que uma atitude realmente demoníaca requer. Escorpião é outro candidato natural, e talvez gostasse de ficar com o título, mas seu potencial para a vilania é comprometido pelas intensas crises existenciais que o tiram de cena de tempos em tempos. Há quem aposte em Gêmeos como um candidato surpresa, e vejo bastante potencial aí – o problema é que um verdadeiro vilão precisa saber se levar a sério. Enfim, acho que consigo encontrar uma limitação ou outra como essas em todos os arquétipos. Menos, entretanto, quando se trata de Aquário.

Ironicamente, trata-se do mais aéreo e desencarnado dos signos, uma espécie de anjo zodiacal, com frequência oscilando entre a curiosidade, a excitação e a indiferença diante dos assuntos humanos. Aliás, da última vez que escrevi sobre aquarianos, citei uma fala de uma personagem humana d’A Tempestade de Shakespeare, mas agora me ocorre que Aquário aparece na peça sob a forma de Ariel, criatura espiritual sem nenhum verdadeiro compromisso com os perrengues desse mundo.

Para Aquário, então, todos os outros signos se manifestam em criaturas corpóreas de traços distorcidos e presas ao solo pela força da gravidade – enquanto ele flutua entre nós. Isso, porém, o coloca em uma posição de permanente deslocamento, de tal modo que o inadequado parece ser ele. É justamente sua leveza que o torna suscetível de incorrer em algumas das mais terríveis manifestações de vilania, por causa da complexa dinâmica que gera no que se refere aos temas da adequação e do pertencimento. Qualquer desequilíbrio nessa balança é uma ameaça: o senso de inadequação cria o impulso para participar de grupos e coletividades, mas esse impulso requer o contraponto de uma reserva e de uma distância que de algum modo precisam ser preservadas.

Nesse sentido, acho, sim, que Aquário deve manter sempre algo de sua excentricidade e de seu desinteressado interesse nos dramas que nos ocupam tanto aqui nesse planeta. A indiferença que de costume lhe é atribuída como uma falha ou deficiência de caráter é, na verdade, sua salvação.  Pois o aquariano que busca uma total adequação à forma humanoide, envolvendo-se demais em nossos dramas e mimetizando nossos padrões mais ordinários de conduta, está condenado a sofrer um tipo de rejeição cujo resultado é um ressentimento incurável e destrutivo. Reparem em como essa dinâmica está bem representada em algumas de suas nuances no mais aquariano dos vilões: o Coringa.

Refiro-me aqui especificamente à maneira como ele foi representado na última produção cinematográfica que protagonizou. Pois existe, naturalmente, uma dimensão geminiana no joker como comediante e piadista, capaz de fazer malabarismos com a linguagem e dar piruetas nos nossos padrões morais; e existe também nele um aspecto escorpiônico, intensamente destrutivo e cheio de profundas reentrâncias psicológicas. Mas o recente Coringa de Joaquin Phoenix se notabilizou por ser um sujeito excêntrico e um espírito delicado que se alça à condição de ídolo das massas em condições extraordinárias, após sofrer uma série de humilhações em seus esforços por integrar-se de maneira regular à sociedade. Embora não destituído de questões psicológicas (e psiquiátricas), é na dinâmica da exclusão e do pertencimento que se situam os aspectos mais significativos da trama de sua ascensão.

Ou, melhor dizendo, a trama de sua descida ao inferno. Pois, como bem notou minha amiga Carolina Assunção em seu podcast sobre o ethos do Coringa, as imagens da descida ao subsolo são decisivas na composição cênica do filme. É de lá que Arthur Fleck vai ressurgir como um barão da ralé, um atiçador de ânimos, um rabble rouser luciferino que lidera quase involuntariamente a insurreição das massas contra as estruturas do sistema.  

Falei em Lúcifer não por acaso. É ele, afinal, o tema arquetípico que melhor expressa a sombra no arquétipo aquariano, e sua associação ao signo é um forte argumento a favor do título de príncipe das trevas para um signo de resto tão angelical. Pois Aquário, por um lado, tem no mito grego de Prometeu uma de suas narrativas decisivas, vinculando-se à ideia do “portador da luz”, aquele que roubou o fogo dos deuses para entregá-lo aos homens (isso explica muito do impulso aquariano de tornar-se um agente de desenvolvimento das ciências e tecnologias, voltado sempre para a evolução e aprimoramento da espécie humana). Por outro lado, Lúcifer também significa, exatamente, “portador da luz”, e não por acaso é um anjo decaído. Aquário, em resumo, é um signo do capeta, literalmente falando, e isso parece ter uma relação justamente com o lado mais iluminista e luminoso de sua personalidade.

Voltando então ao Coringa, onde as duas coisas também se encontram e se confundem. Notem que há um ressentimento satânico por todas as humilhações e derrotas sofridas durante a descida ao inferno; porém, em sua figura arquetípica, nunca deixa de existir o potencial de iluminar com o riso os aspectos mais patéticos de nossa sociedade. O jogo social precisa do Coringa – ou de alguma de suas variações aquarianas – para não se perder por completo na aparência de seriedade de suas brincadeiras. Nós precisamos que Aquário permaneça sempre uma espécie de lembrança da bobagem que são nossos trâmites cotidianos. Pois tudo o que se passa na sociedade é de certo modo brincadeira, convenção, jogo; o problema é que a gente se esquece muito facilmente disso.

Nesse sentido, o Coringa tem o potencial de cumprir um papel semelhante ao do bobo da corte nos seus primórdios, isto é: lembrar ao rei o que há de ridículo em toda sua pompa e circunstância, assim como em todo o aparato que rodeia as câmaras e decisões reais. O bobo tem uma função política e terapêutica que representa bem a importância de uma figura que participa e não participa do jogo ao mesmo tempo. Pode ser uma figura totalmente anômala, mas de costume será apenas levemente bizarra e excêntrica, o suficiente para deslocar-se um pouco do centro do palco do drama humano.

O interessante aqui é que essa é figura dispensável para a sociedade como um todo, ou pelo menos, digamos assim, para seu funcionamento regular; e, por isso mesmo, a sociedade depende dela para existir com um mínimo de consciência do seu modo de funcionamento. De tal modo que o riso do Coringa não é necessariamente um sinal de sua danação; pode muito bem ser um indício da nossa, pois, se as coisas chegaram ao ponto em que a denúncia do ridículo que nos rodeia é feita com tal estardalhaço, é porque as coisas foram longe demais. Curiosamente, portanto, interessa-nos que alguns aquarianos mantenham um ar de indiferença e distância em relação a essas rotinas: é desse ponto de vista que se tornam capazes de corrigir nossas esquisitices e evitar que a gente se enrede em círculos infernais.

Sim, o inferno somos nós. E Aquário só se torna o signo mais satânico do zodíaco porque, de saída, não está equipado para lidar com as baixezas de nosso comportamento. Sua disposição para integrar a sociedade, mesmo estando de antemão separado dela, é a própria origem das rasteiras que vai levar de modo desavisado no percurso. De modo que, aos aquarianos que decidiram participar do jogo com gosto e entusiasmo – existem nesse tipo também –, o que a gente recomenda é precaução, porque o ser humano é um bicho vil, ingrato e imprevisível, e nunca se sabe o que é capaz de fazer para se dar bem contra quem resolve se envolve na luta corpórea que travamos aqui com tantos golpes abaixo da cintura.  

Agora, na medida em que algo em Aquário permaneça à parte, diferente, distante, à salvo da humanidade, o arquétipo permanecerá sendo o próprio meio pelo qual a luz se propaga entre nós. Trata-se, é verdade, de uma luz eventualmente irônica, muitas vezes anárquica, que com frequência expressa através de um riso malicioso e desconcertante, porém que, em toda a sua leveza, fica para sempre marcada em nossas retinas  – como a meia-lua do sorriso do gato aquariano da Alice, pairando por um momento no céu escuro, antes de desaparecer.