escorpião, libra

O declínio do Império Escórpio-Líbrio

O jardim das delícias terrenas (detalhe, c. 1510) | Hieronymus Bosch

Os estudos acadêmicos na área de humanidades geralmente envolvem uma abordagem comparativa de seus objetos, acionando um jogo de semelhanças e diferenças em que esses vetores se alternam ou mesmo se confundem em algum momento da brincadeira. A literatura comparada, por exemplo, pode primeiro apontar distinções entre duas obras, para em seguida expor-lhes uma unidade de fundo; ou, então, notar pequenos desvios à norma ou à tradição em um corpus de textos similares, nos quais são notáveis as parecenças. De um modo geral, onde as familiaridades são evidentes, o crítico tende a buscar pontos de colisão; e, onde dois discursos mal dialogam, trata-se de buscar pontos de contato. Algo semelhante pode ser dito da signologia comparada, um ramo dos estudos astrológicos que eventualmente exerço aqui neste espaço, e ao qual será parcialmente dedicado também o presente texto, em uma perspectiva interdisciplinar, tal como exposto a seguir.

Estamos agora naquela época do ano em que o Sol deixa o signo de Libra e ingressa no signo de Escorpião. Este tipo de trânsito costuma servir para a explicação de diferenças entre os dois arquétipos do zodíaco, na medida em que é presumida uma mudança de energias através das quais as forças solares se manifestam. Tudo muito certo até aí, e de fato essa transição deve ser tão perceptível como, digamos, a mudança entre a época de Áries e a época de Touro. Mas, com base em descobertas recentes da arqueologia dos conhecimentos astrológicos, gostaria de propor agora um exercício a vocês. Vamos supor que não existissem Libra e Escorpião, não como signos isolados. Vamos supor que formassem um só arquétipo, depois dividido por conta de um movimento de separatista ainda a ser investigado pelos historiadores sígnicos, aos quais cabe a pesquisa de importantes aspectos políticos das relações interzodiacais.

Pois bem: é exatamente isso que aconteceu durante parte da antiguidade greco-romana, quando, entre finais de setembro e meados de novembro, durante um intervalo particularmente longo, entendia-se que o Sol percorria apena um signo. Este signo era Escorpião. Libra só veio a existir depois, ou, como já observei em outro texto: Libra até então nem era signo, e nem existiam librianos na época, exceto por alguns indivíduos muito à frente de seu tempo. Por outro lado, isso me faz supor que “Escorpião” tal como o entendemos hoje tampouco podia ser distinguido, pois suas características se confundiam com as do arquétipo com o qual constituía um só corpo na trama celeste, formando talvez uma espécie de escaravelho elegante e indeciso, ou uma balança vingativa com pinças cortantes no lugar dos pratos.

Mas essas soluções híbridas padecem de anacronismo. Estamos concebendo com recursos modernos aquilo que na antiguidade provavelmente era bem diferente. Para preservar o rigor acadêmico, deveríamos tentar imaginar o Librião (ou a Escobra) como uma verdadeira unidade, e não a mera adição de duas partes. Isso pode nos ajudar a compreender o movimento que culminou no divisionismo. Pois uma coisa é certa: diante dessa criatura, estaríamos lidando com uma espécie de força infalível nas artes do amor, cujos talentos para a sedução teriam um componente arcaico e instintivo que impediria o surgimento de qualquer tipo de dúvida em seu espírito de conquista. Pensem bem. Na época em que este monstro sagrado dos jogos amorosos desfilou sobre a Terra, você não tinha nenhuma chance se topasse com um deles em seu caminho. Ia direto para a alcova, atraído por algo que não dava para entender bem o quê.

Ficam poucas dúvidas quanto a saber quem é que realmente dominou o mundo naquele período histórico. Com intensidade diplomática e uso de inteligência nas guerras emocionais, creio que foi possível a criação de todo um império, embora ele tenha sido apagado dos mapas em razão dos movimentos subsequentes. Pois algo me diz que foi exatamente esse caráter de superpotência afetivo-sexual que resultou na bifurcação de Escorpião e Libra em dois países separados: imagino que o inconsciente coletivo tenha se dado conta de que o amor e o poder precisavam de representações arquetípicas distintas, do contrário corríamos o risco de passar o restante do tempo inebriados pela beleza e pelo mistério que coexistiam no espectro da junção entre ambos. Isso deve ter assumido a forma de uma decisão tomada nas mais recônditas catacumbas zodiacais, talvez sem a participação do próprio objeto da questão. Imagino os outros dez signos se reunindo escondidos e abrindo o jogo: isso tem que acabar. Ninguém aguenta mais tantas delícias. Alguém tem que por um fim nesses gozosos suplícios. Do jeito que está, não dá.

As más línguas vão dizer que quem convocou a cúpula com esse tipo de conversa foi Capricórnio (porque àquela altura ninguém trabalhava mais, estava todo mundo largando tudo para ir atrás dos lendários jardins onde reinava o mais refinado e intenso prazer, e até mesmo o senado deveria ser o cenário de agradáveis orgias). Muito justo, e eu como capricorniano tenho que reconhecer essa possibilidade. Porém, convenhamos: independente de quem deu início ao processo, uma ruptura de tal escala jamais teria acontecido sem a participação de inconfidentes de diversas naturezas, capazes de articular toda uma série de movimentos conspiratórios que culminariam na cisão do império Escórpio-Líbrio. Dividir para conquistar, suponho que tenha sido o lema da insurreição. Ou dividir para não ser conquistado, para sempre.

A propósito (vou me permitir aqui um parêntese interdisciplinar de fôlego): quando digo “convenhamos”, não estou apenas forçando uma cumplicidade com o leitor por meio de um truque retórico. O zodíaco tal como o conhecemos é uma convenção, do latim conventio, que significa assembleia, reunião, e acordo, contrato. Isso, por um lado, reforça a ideia de que o fenômeno estudado ganhou corpo em uma espécie de Convenção de Viena astrológica; por outro lado, faz lembrar que divisão da faixa do elíptico solar em doze espaços de igual tamanho é de fato uma convenção, no sentido de ter sido uma resultante de definições e disputas de agentes históricos, e não uma conjunto de leis recebidas dos céus e registradas em tábuas sagradas.

Isso faz com que sua disposição esteja sujeita a diferenças não somente no tempo, como também no espaço: na Índia, por exemplo, utiliza-se hoje o zodíaco sideral, bem mais engastado nas posições das constelações a que os nomes dos signos fazem referência. Já o zodíaco que utilizamos no ocidente desde antiguidade greco-romana é o tropical, vinculado às constelações de modo mais indireto e simbólico, e que nem tenta enganar na hora de parecer que é uma evidência do universo. O acordo tácito que resultou nos símbolos e casas zodiacais que usamos hoje teve seu momento decisivo justamente no século I a.c., em parte por obra e sugestão de Ptolomeu, em parte consolidando tradições advindas da Mesopotâmia e da Pérsia.

Quanto à explicação de como as pessoas acabam ainda hoje se comportando de acordo com as características do signo sob o qual nasceram nesse esquema arbitrário definido dois mil anos atrás, isso deixo para vocês que acreditam nesse negócio de signo. Porque eu mesmo não “acredito”, para ser sincero. Estou tão envolvido no jogo, ele faz tanto sentido para mim, que não se trata de uma questão de crença, mas de experiência. Aceito minha posição capricorniana no plano zodiacal um pouco como aceito minha nacionalidade brasileira no plano internacional, até certo ponto por ter sido condicionado pela cultura e pela política, mas também por ter confirmações diárias de que atuo no mundo como brasileiro e capricorniano em diferentes esferas da existência. Por mais que em ambos os casos estejamos falando de construções convencionais, realizadas no transcurso da história humana, que de maneira alguma estão inscritas na natureza.

É verdade, entretanto, que os limites territoriais entre as nações podem ser razoavelmente explicados por movimentos históricos onde eles começam e terminam. No caso dos signos, a coisa parece ir um pouco além, e vir de um momento anterior ou de uma dimensão paralela àquilo que concebemos como a História da humanidade, em um plano temporal linear. Em resumo, e como eu vinha dizendo um tanto metaforicamente, podemos sim imaginar algo na natureza humana – ou na natureza do cosmos, manifestando-se por meio de humanos – que optou por fazer as distinções astrológicas. Podemos sim supor uma razão segundo a qual Escorpião e Libra deveriam existir separadamente. Porém, a melhor metáfora para isso talvez não seja a da nacionalidade.

Pois, além de serem resultado de um processo histórico, as nações, tal como existem hoje, representam uma espécie de destino inescapável para o indivíduo que brota em seu território. Ou, como afirmou o escritor Jorge Luis Borges a respeito de si próprio e de seus compatriotas: “Ser argentino é uma fatalidade”. Quer dizer que, se você nasce em tal e tal lugar, e em tal e tal momento, você logo terá imputada à sua identidade (quer queira quer não) um determinada rotulagem que te acompanhará em todos documentos que assinar no decorrer da vida. A relação do sujeito com sua nacionalidade pode nem ir muito além disso, mas dificilmente fica aquém: você precisa ter uma, e aquela que ficou definida por motivo do território onde ocorreu seu nascimento acaba sendo uma solução razoável, na maioria dos casos.

Por outro lado, nunca vi Borges falando que ser virginiano era um destino incontornável, com o qual ele teria que lidar de um jeito ou de outro. Isso por dois motivos. O primeiro, mais evidente, é que o fato de você ser de Gêmeos ou de Leão ou de Peixes muda pouca coisa nos trâmites práticos da vida; normalmente, não te impedem de entrar nos Estados Unidos simplesmente porque o país cortou as relações diplomáticas com Sagitário. Assumir um signo e incorporá-lo à sua identidade pessoal é uma escolha, por mais que você não possa escolher qual signo, assim como não pode escolher ser italiano. A diferença está no fato de que uma nacionalidade, no mundo de hoje, você tem que ter. Signo é só para quem quer mesmo, o que já uma boa margem de manobra, em termos de liberdade individual.

O segundo motivo, mais importante, é que Borges não era apenas virginiano. Ele tinha o Sol em Virgem, é verdade, mas tinha também a Lua em Áries, Marte em Libra e o Ascendente em Câncer, entre vários outros componentes, tão inescapáveis quanto ignoráveis em comparação com seu signo solar. Todos somos assim, do ponto de vista da astrologia: uma combinação única e irrepetível de um conjunto de forças diferentes e dissonantes, que, ao serem mobilizadas por variados canais de manifestações em nós mesmos, acionam processo ininterrupto de conflito e harmonização, cooperação e disputa – pois sempre que um equilíbrio é alcançado de um lado da balança de poder, outro surge e exige nossa atenção em uma área diferente da vida.

A astrologia, portanto, decorre de uma cosmovisão democrática e politeísta de mundo, em que nosso corpo e nosso espírito se tornam o palco dos encontros e colisões entre os deuses, conhecidos também por meio da analogia com os corpos celestes e seus movimentos. Por mais que a gente tente tomar o controle desse jogo, ninguém – nem mesmo nosso Sol, nosso ego – está em condições de assumir poderes imperiais sobre o restante das peças do tabuleiro.  Daí chegamos a uma conclusão muito semelhante à de Carl Jung em seu Símbolos da Transformação, quando fala da coexistência de diversos arquétipos em uma só experiência individual: “O acordo com a libido é hipótese alguma é um simples deixar-se levar, pois as forças psíquicas muitas vezes não têm uma direção única e muitas vezes até se dirigem umas contra as outras (…) Colisões, conflitos e enganos são inevitáveis”.

Ou seja: é como se o mapa astral de cada um de nós representasse uma espécie de mapa-múndi individual, no qual as nações não são externas ao indivíduo e maiores do que ele, mas sim agentes internos em confronto e diálogo, que ao mesmo tempo encontram equivalência naquilo que conhecemos de mais afastado de nós (as estrelas). Por isso não temos um único signo (ou mesmo de dois, considerando o ascendente), como temos só uma ou duas nacionalidades. Somos uma determinada composição de todos os agentes dessa geopolítica fantástica, com suas negociações multilaterais, órgãos multinacionais, localismos exacerbados e expatriados em trânsito, sem que identificação com um só desses fatores seja possível. Mas somos também uma possibilidade única de coordenação e acordo entre eles, pois, como afirmou o próprio Borges naquele mesmo texto que mencionei antes, “nosso patrimônio é o universo”.

Voltando então ao problema de onde partimos, fica evidente que, se durante um período da história surgiu a ameaça de que um signo adquirisse supremacia sobre os outros, ela precisou ser evitada por um movimento de dissipação de seu poderio imperial. Esse é um modo de entender os acontecimentos. Outro é supor uma capacidade do próprio espírito do cosmos de localizar e corrigir as carências que identifica em sua manifestação humana. Ou seja: se houve um momento específico em que a alma decidiu que precisava de Libra para representar um faixa importante do prisma de sua experiência, é porque realmente estava faltando um símbolo para dar conta dessa parte de sua cartografia interna, que calha de ser também a cartografia dos céus.

Não restam dúvidas, hoje, que, se Libra não existia antigamente, devia fazer uma falta danada. No final das contas, Libra é sobre equilíbrio – mas é também sobre a oposição, sobre a percepção da oposição, a compreensão da oposição, isto é, das dualidades que atravessam o espírito e criam separações onde a unidade é só aparência. O genuíno amor libriano é uma tentativa de aproximação entre o que é diferente e distante, não um espelho narcísico onde só importa o encontro com o igual – mas para isso é preciso um olhar agudo para a dessemelhança. No jogo comparativo que a astrologia propõe, o eixo libriano é o do afastamento, que confere uma nova perspectiva ao olhar, e cria chances de negociação onde a pressuposição de uma unidade levaria à catástrofe. Na falta desse afastamento (e dos questionamentos que ele proporciona), supõe-se que facilmente rumávamos em direção ao abismo sem grandes hesitações.

Assim, se Libra surgiu de uma costela de Escorpião, pode muito bem ter sido porque um mergulho nas profundezas da psique revelou verdades que tornaram necessário esse tipo de distância. O jardim de delícias que imaginei ao supor a fusão dos dois signos pode ter se tornado um inferno, e só Deus sabe como deter todo o poder do mundo nas mãos é no mínimo um transtorno, talvez uma tortura. É verdade também que o “inferno” da lenda tem lá suas qualidades quentes e úmidas, e que sem conhecermos o caminho para esse lugar nossa experiência estaria igualmente destituída de uma faceta radicalmente transformadora. Onde Libra trata do discernimento intelectual, Escorpião sugere uma fusão corporal, gerando uma tal concentração de energias que deve mesmo resultar em uma espécie de orgasmo, que é sempre um pequeno apocalipse.

Enfim, parece que até mesmo o fim do mundo é uma experiência possível nos mundos que carregamos dentro de nós. Por isso é possível desdobrar esses raciocínios comparativos em direção ao infinito. Tanto melhor que seja assim, e que tenhamos todos esses signos e arquétipos para enriquecer a vida com símbolos e histórias e narrativas, assim como a comparação interna entre eles enriquece nossa compreensão de cada um. De semelhanças e diferenças se fazem todas as abordagens comparativas: e precisamos de Libra e de Escorpião para conhecer as separações e fusões possíveis que existem dentro de nós. Por isso nos livramos de seu domínio, embora tenha ficado uma doce lembrança de quando éramos subjugados por seus deliciosos prazeres.

Todos os signos

Filmes e signos

Amor à Flor da Pele (2000) | Dir. Wong Kar-Wai

Deve ser saudade de ir ao cinema e sentir que o tempo que passei lá dentro mudou ou enriqueceu minha percepção do mundo lá fora: daí que decidi fazer uma lista afetiva de filmes e signos. As associações se baseiam mais na lembrança do impacto que os filmes tiveram em mim do que em uma avaliação crítica deles, embora uma coisa esteja vinculada à outra, naturalmente. Entraram basicamente títulos dos anos 1990 em diante, porque foram os que tive a oportunidade de assistir pela primeira vez no cinema. Acho que não incluí quase nenhum filme recente porque sou capricorniano, e as coisas para mim precisam resistir ao teste do tempo para consolidar seu valor. São três filmes em cada categoria. Ficou assim:

ÁRIES

Começando com Um Céu de Estrelas (dir. Tata Amaral, Brasil, 1996). Uma pancada. Rápido, forte, áspero. Lembro de ter passado o resto do dia – e da vida – meio atordoado com esse filme.

Algo semelhante aconteceu com o húngaro 4 meses, 3 semanas e 2 dias (dir. Cristian Mungiu, 2007), que se relaciona também com o arquétipo de Áries através do tema das intervenções cirúrgicas e das decisões que precisam ser tomadas rapidamente.

Mais um filme que para mim foi pura adrenalina e coração batendo a mil o tempo inteiro – embora eu tenha esquecido de todos os detalhes da história poucos minutos depois de sair do cinema, o que também pode ser uma qualidade – foi Os Infiltrados, de Martin Scorsese (2006). Já na sequência de abertura dá para perceber o que vem pela frente. Nada mais ariano do que começos fortes e impactantes.

TOURO

Começando com Amor à Flor da Pele (Wong Kar-Wai, 2000). Uma lambida. Lânguido, lento, sensual. Com as texturas macias de cortinados orientais, os odores de chás fumegantes e pratos de macarrão compartilhados, as cores quentes de uma paixão tão intensa quanto resignada. Touro, assim como esse filme, é sobre o apego às coisas desse mundo, e, portanto, sobre a perda das coisas desse mundo também.

Outro que me pareceu falar disso – mas por via negativa, por assim dizer: de um modo árido, feito de poeira e escassez – é Gosto de Cereja (1997), do iraniano Abbas Kiarostami. No caso, tem ainda o fato de que, quando diferentes personagens tentam dissuadir o protagonista de tomar uma decisão extrema, o argumento mais importante que eles encontram tem a ver com comida.

Por falar em escassez, é igualmente taurina aquela compaixão que a gente sente diante da luta diária por um prato de comida retratada nos filmes do Ken Loach e dos irmãos Dardenne, por exemplo. Mas o filme que na saída do cinema me deixou tocado pela primeira vez com esse tema foi o francês Germinal (dir. Claude Berri, 1993).

GÊMEOS

Pulp Fiction (Quentin Tarantino, EUA, 1994), pela engenhosidade do roteiro, pela irônica ambivalência entre a pancadaria e a leveza, e por alguns dos diálogos mais deliciosamente geminianos da história do cinema (“Le Big Mac”).

A aguda inteligência e a despretensiosa malandragem de Gêmeos faz parte também do prazer de assistir o argentino Nove Rainhas (dir. Fabián Bielinsky, 2000), onde a astúcia mercurial e trambiqueira do personagem de Ricardo Darín recebe a recompensa que a astúcia de Mercúrio vive recebendo nas lendas gregas.

Tem também O Grande Lebowski (dir. Ethan e Joel Cohen, 1998). O lendário “the dude” talvez seja sagitariano, quanto ao signo dele eu tenho dúvidas, mas a sensação que tive ao sair do filme foi uma irrestrita hilaridade diante do amplo espectro de patetices que existe no âmbito do humano. Uma sensação geminiana.

E, como Gêmeos não é muito de seguir as regras do jogo, vou abrir uma exceção aqui para outro filme, porque não dá para falar de malandragem, esperteza e irreverência sem lembrar de O Auto da Compadecida (dir. Guel Arraes, 2000). Se João Grilo não é geminiano, eu não sei quem é.

CÂNCER

É canceriano o poderoso matriarcado do cineasta espanhol Pedro Almodóvar, assim como a sensação de uma inquebrantável delicadeza – ou de uma fortaleza estilhaçada pelos mais fortes petardos emocionais – que fica de filmes como Tudo Sobre a Minha Mãe (1999).

Outro especialista em tratar de assuntos familiares, no caso com uma objetividade ao mesmo tempo desencantada e encantadora capaz de deixar qualquer um em prantos, é o inglês Mike Leigh. Dele fico com Agora ou Nunca (2002).

Mas, como também a memória e o passado são temas do arquétipo de Câncer, me lembrei aqui de uma das primeiras vezes que fui ao cinema para ver um filme de adulto, em 1988. O filme era Cinema Paradiso (dir. Giuseppe Tornatore), que assisti no extinto Cine Pathé de Belo Horizonte (isso em si já tematiza a dimensão canceriana da vida), e foi também a primeira vez que saí de uma sala de cinema chorando. Aliás, só de falar nesse filme percebo que tem alguma coisa em mim chorando por causa dele até hoje.

LEÃO

Acho que fui rever umas três ou quatro vezes no cinema o Buena Vista Social Club (dir. Wim Wenders, 1999). Quem diria que o diretor de outros filmes tão cinzentos e melancólicos ia ser citado na luminosa sessão leonina dessa postagem. Méritos para seu amigo Ry Cooder, e, claro, para os mais que solares músicos cubanos que são os protagonistas do documentário musical.

Quase Famosos (dir. Cameron Crowe, 2000) entrou na lista para fazer justiça à vontade de deixar-o-cabelo-crescer-montar-uma-banda-de-rock-e-sair-em-turnê-pelo-mundo que dá na gente mesmo quando a gente assiste um filme sobre um fracasso. Afinal, eles chegaram quase lá, e quem nunca teve o desejo leonino de sentir pelo menos o gostinho que eles sentiram do aplauso das multidões?

Outro filme sobre o universo das artes e espetáculos que me emocionou muito foi o francês Um Lugar na Plateia (dir. Danièle Thompson, 2005). Sobre esse estou devendo até uma postagem à parte, então sem mais comentários por enquanto, deixo o link aqui quando fizer.

VIRGEM

Para estimular a forma virginiana de sentir e experimentar o mundo recomendo o israelense/egípcio A Banda (Eran Kolirin, 2007). Um filme curto, modesto e perfeitamente executado, mas construído sobre uma tristeza fundamental com os males irremediáveis da humanidade. Lembro de tê-lo assistido num cinema de subsolo em Buenos Aires, e o fato de o metrô passar por perto e estremecer a sala de vez em quando só reforçava a percepção dos silêncios que atravessam o filme e a cidade onde ele acontece.

Na mesma linha, tem também o uruguaio Whisky (dir. Pablo Stoll e Juan Pablo Rebella), que me fez imaginar Montevidéu como uma cidade virginiana; quando estive lá essa sensação só se reforçou.

Enfim, é engraçado que por algum motivo essa categoria de Virgem traga títulos curtos e despretensiosos, que têm como pano de fundo paisagens latino-americanas: a última delas é a dos cenários interioranos e metalúrgicos do brasileiro Arábia (dir. Affonso Uchôa e João Dumans, 2017). A humildade é uma virtude virginiana, e acho que poucos filmes são capazes de verdadeiramente exercitá-la em sua linguagem sem deixar entrever uma arrogância reprimida. Esse consegue.  

LIBRA

Encontros e Desencontros (Sofia Coppola, 2003). Um filme sobre o amadurecimento que em diferentes idades é alcançado por meio de experiências que envolvem o encontro com o outro, a interação com o outro, as tentativas de conhecer e compreender o outro. O modo cômico da narrativa – naquilo que envolve o gestual hesitante, os erros de tradução, a confusão dos códigos de etiqueta de diferentes culturas – é também caracteristicamente libriano.

Curiosamente, o trabalho de adaptação entre diferentes linguagens entra nesse espectro, e aqui entra na lista a adaptação de Razão e Sensibilidade (1995) para o cinema, com roteiro de Emma Thompson, direção de Ang Lee. O tipo de filme que, como a obra de Jane Austen, consegue nos tornar mais atentos a detalhes mais que decisivos em nossos hábitos e improvisos comunicacionais.

Encerrando a categoria, com uma preferência bastante pessoal, temos o dinamarquês Corações Livres (dir. Susanne Bier, 2002). Um filme que me fez entender melhor o papel de Libra, o papel de Vênus e sobretudo o papel do arquétipo da deusa Juno nas nossas vidas. Escrevi sobre isso nessa outra postagem aqui.

ESCORPIÃO

Escorpião é sobre experiências que se a gente tivesse escolha a gente preferia evitar, como a morte e os impostos. Em Encontro Marcado (Meet Joe Black, dir. Martin Breast, 1998), Brad Pitt encarna ambas, ao personificar ao mesmo tempo a própria morte e um auditor da receita. “Death and taxes”, ele diz durante uma reunião, e nessa hora a gente entende porque essas coisas se reúnem no arquétipo de Escorpião.

A propósito, Escorpião é também sobre ir ao inferno e aprender o caminho de volta, ou pelo menos ter um vislumbre dele; há vários filmes que encenam esse roteiro muito bem, e fica difícil escolher um, Mas pelo critério de impacto pessoal fico com A Liberdade é Azul (Trois Couleurs: Bleu, dir. Krzysztof Kieslowski, 1993), com a memorável atuação de Juliette Binoche.

Escorpião, enfim, é onde ficam borrados os limites entre a justiça e a vingança. Mais uma vez temos o problema de fazer uma escolha, mas certamente entre os melhores nessa linha está Batman: o Cavaleiro das Trevas (dir. Cristopher Nolan, 2008).

SAGITÁRIO

Underground: mentiras de guerra (dir. Emir Kusturica, 1995), é um filme sérvio de extravagâncias e excessos que têm como pano de fundo a movimentada história do século XX em um pedaço do oeste da Europa. É também um filme festivo: a gente sai do cinema querendo ter uma bandinha de metais correndo atrás da gente para fazer a trilha sonora da nossa vida.

As Invasões Bárbaras (dir. Denys Arcand, 2003) é mais quieto e melancólico, mas igualmente atravessado por temas sagitarianos como as ideias filosóficas, as ideologias políticas e as filosofias de vida.  

Na mesma linha, entra na lista também Os Sonhadores, de Bernardo Bertolucci (2003), que carrega o ar de certa imaturidade tipicamente sagitariana, com suas vastas emoções e pensamentos imperfeitos, envolvendo sempre o legítimo desejo por uma vida menos ordinária.

CAPRICÓRNIO

Capricórnio é sobre o encontro de nossas expectativas e desejos com as realidades da vida; é também sobre a passagem do tempo e o amadurecimento. Portanto, prêmio para o conjunto da trilogia Antes do Amanhecer, Antes do Pôr-do-Sol e Antes da Meia-Noite (dir. Richard Linklater, 1995/2004/2013).

Capricórnio é também sobre a satisfação de ter um plano bem pensando em executá-lo na prática com sucesso: prêmio para O Plano Perfeito (dir. Spike Lee, 2006).  

Podemos completar a lista com qualquer filme de Clint Eastwood na linha do macho-conservador-que-descobre-que-tem-sentimentos. Gran Torino (2008) é um exemplo. Talvez nem sejam grandes filmes, mas sempre senti que a experiência de que tratam é arquetipicamente capricorniana.

AQUÁRIO

Primeiríssimo prêmio para Happy Feet (dir. George Miller, 2006), não só porque é sobre o livre exercício da diferença como caminho para a igualdade, ou sobre como é ser abduzido por alienígenas e ir parar no planeta de uma espécie diferente da sua, ou porque tem o Sidney Magal fazendo a voz do pinguim Amoroso (e que merecia um Oscar por isso), mas também porque meu filho que tinha cinco anos na época estava sapateando no chão do cinema quando terminou a sessão.

Outro filme de sensações que eu amei muito e assisti no cinema mais de uma vez foi A Chegada (dir. Denis Villeneuve, 2016). Trata-se de uma história aquariana pelas exigências que faz ao nosso intelecto humano na compreensão de outras lógicas que parecem ultrapassar nosso entendimento, pela condição de deslocamento que a protagonista se vê colocada perante o restante dos seres humanos a partir do momento em que passa a falar a línguas dos extraterrestres, a pela ressonância do mito aquariano de Prometeu, que entregou o fogo dos deuses à humanidade.

No entanto, as tendências ao mesmo tempo revolucionárias e igualitárias desse signo têm também um lado obscuro que me faz acreditar que vamos ainda ver o melhor o e pior que ele tem a nos oferecer nos próximos anos, na medida em que a ênfase dos trânsitos planetários deixar Capricórnio para trás, e entremos definitivamente na Era de Aquário. Isso vale também para o cinema. Coringa (dir. Todd Philips, 2019) pode também não ser um filme excepcional, mas para mim é um ponto de partida na tematização dos pesadelos mais específicos de nossa vida política contemporânea. Falei um pouco desse assunto (a partir da dimensão arquetípica do personagem interpretado por Joaquim Phoenix) nessa postagem aqui.

PEIXES

Sonhos, de Akira Kurosawa (1990), que vi no cinema aos onze anos, e cujas imagens se confundiram desde então com meus próprios cenários oníricos, em uma via de mão dupla: quando revi o filme muitos anos depois, havia sonhos que me lembrava de ter tido que eram na verdade cenas do filme, enquanto havia cenas que eu acreditava ter visto no filme que tinham sido na verdade sonhos meus mesmos. Uma experiência pisciana, sem dúvida.

O Doce Amanhã (dir. Atom Egoyan, 1997) é um filme canadense sobre a culpa e a libertação da culpa de uma personagem que sobrevive a um acidente; é também conhecer os limiares entre o aqui e a acolá, e hoje parece ser pouco lembrado, recomendo muito.

Por fim, quanto à capacidade oceânica que Peixes tem de sentir toda o sofrimento e a alegria e a tristeza e a dor e a beleza do mundo ao mesmo tempo, me lembro de ter sentido algo assim durante a breve horinha que dura o documentário brasileiro Nós que Aqui Estamos Por Vós Esperamos (dir. Marcelo Masagão, 1999). Isso se repetiu em cada minuto de todas a horinhas em que revi o filme tantas vezes depois, mas foi ao sair do cinema, na primeira vez, que tive a experiência pisciana de sentir transbordando em mim um amor mais infinito pela humanidade inteira de todos os tempos.  

áries

O signo de Deus

Sabe aqueles memes com a frase “eu às 10 da noite: hoje vou dormir cedo”, que daí cortam para um “eu às 03 da manhã”, fazendo uma pesquisa nada a ver na internet, ou encasquetado com algum pensamento aleatório? Tipo “gente, que coisa, a mesma lógica que usaram para o nome do Pato Donald vale pro Fernando Pessoa”, ou “será que já comi carne da mesma vaca que bebi leite”? Então. Suponho que essa seja uma experiência imemorial, e que nossos antepassados sofriam com o mesmo problema – talvez apenas não tivessem a mesma chance de compartilhar com o mundo inteiro os motivos de suas noites insones. Aí fico imaginando a primeira pessoa que leu a Bíblia, indo para a cama tranquila depois do primeiro episódio, porque até ali pelo menos estava indo tudo bem, o mundo tinha sido criado, dentro no prazo e tudo, com alguma chance de sucesso. Aí de repente no meio da madrugada bate aquele pensamento incômodo, e toda a perspectiva de uma boa noite de sono vai por água abaixo: “Mas péra, e se a luz não fosse boa?”

Porque, né, podia não ter sido. Pelo menos é isso que a gente deduz do Livro do Gênesis. Lá no comecinho mesmo, logo depois de criar o céu e terra, Deus cria a luz (“haja luz”), aí vê que a luz é boa, e decide continuar com a luz. Quer dizer que o mundo foi criado na base da tentativa e erro, e que o Próprio não tinha muita certeza do que estava fazendo; pela maneira como a história é narrada, parece que Deus podia muito bem ter criado, sei lá, o inverno ártico, ou a apendicite, ou a pizza de estrogonofe, logo de cara, aí é que eu quero ver se ele ia ganhar todo esse crédito. O universo teria flopado na mesma hora, sobretudo se as Sagrada Escrituras começassem com algo do tipo: “Deus criou o céu e a terra, e o céu e terra era sem forma e vazios, e estavam imersos nas trevas; e Deus disse: ‘Haja o telemarketing’, e é por isso que desde então passamos o dia inteiro no escuro atendendo números desconhecidos de São Paulo”.

Pois é, às vezes eu fico pensando nessas coisas no meio da madrugada. Uma das razões pelas quais criei esse blog foi justamente para desovar tais questionamentos. Outro que já me ocorreu – e que naturalmente deve ter ocorrido a qualquer astrólogo decente – é qual seria o signo de Deus. E não me venham com essa história de que Deus não tem signo, que Deus é Tudo e Tudo é Deus, porque de soluções fáceis o inferno está cheio, e isso é apenas a típica reação de geminianos na hora de fazer uma escolha difícil. Nada disso, Deus tem signo sim, todo mundo tem, e a única coisa que torna um pouco mais difícil saber o signo de Deus é a falta de um registro confiável da data de nascimento. Mais ou menos como no caso da Elena Ferrante, a autora italiana que escreve sob pseudônimo e cuja identidade verdadeira é desconhecida. Então precisamos partir das características pessoais do indivíduo, estabelecer uma hipótese e verificá-la. Bom, a Elena Ferrante eu não sei, mas Deus, esse não me engana: aposto com vocês que Deus é ariano.

A primeira razão fica evidente pelos parágrafos introdutórios. Ninguém teria começado o universo se, no mínimo, não tivesse Áries muito forte no mapa. Pensem bem: não havia precedentes, era um trabalho inédito, as chances de cometer equívocos eram enormes, e havia tanta coisa em jogo que só mesmo com bastante iniciativa e um comportamento um tanto inconsequente alguém iria se meter nessa encrenca. Deve ter tido um elemento de impaciência também, é claro; basta imaginar como eram as coisas antes de tudo de existir; uma paradeira só, a maior tranquilidade, e se Deus fosse de Peixes (como alguns defendem) aposto que as coisas teriam continuado assim. Mas não, Deus quis acabar com a monotonia, acabou ficando de saco cheio, ficou com medo de morrer de tédio. Falou algo do tipo, “quer saber, vou começar um negócio aqui só para ver no que dá mesmo”, e cá estamos nós. Deu no que deu.

Ninguém com um mínimo de bom senso teria tomado uma decisão dessas. Mas é claro que Deus não tinha bom senso; o bom senso é uma característica taurina que foi criada depois de Deus. Antes disso aconteceram vários erros grosseiros, trapalhadas inenarráveis, precipitações idiotas, de modo que levou um tempo para Ele tomar consciência de si mesmo e adotar o hábito de pensar duas vezes antes de fazer algo. A sacada da luz lá no começo foi boa, isso a gente tem que reconhecer, deu certo mesmo. Mas fica impressão de que Ele empolgou, de que achou que era só dizer “haja isso” e “haja aquilo” que isso e aquilo iam ser bons e ele ia ficar logo livre do serviço. Assim, além de ter terminado o trabalho em seis dias (sim, seis dias, a p* do universo inteiro em SEIS dias – se isso não é coisa de ariano inconsequente e apressado eu não sei o que é), acabou metendo os pés pelas mãos em uma série de outras situações, e arriscando um punhado de outras intervenções que estiveram longe de obter o mesmo êxito.

Por exemplo, o episódio com o anjo que resolveu questionar a autoridade dele, cujos desdobramentos até hoje criam tanto transtorno. Se a crise tivesse sido bem administrada, se Ele tivesse empregado um pouco mais de tato na relação com o querubim, talvez o inferno hoje fosse apenas uma ideia criada pelos humanos para assustar criancinhas. Mas ele expulsou o filhote de casa sem nem dar chance para uma conversa, aí o outro foi lá e montou todo um exército de diabos e diabetes sem outra coisa para fazer na vida além fustigar a gente por toda a eternidade. Custava ter um pouquinho de parcimônia?  Agora, vai pedir um ariano para lidar com um conflito diplomaticamente, para você ver onde ele te manda enfiar o seu diploma. Não, não dava para aguardar um pouco o acesso de petulância do outro passar; Ele tinha que ficar todo intratável, cheio dos chiliques, só porque alguém ousou cantar de galo no Seu quintal. Então eu pergunto a vocês: quem foi que criou os anjos, já no segundo dia, e achou os anjos excelentes, e deixou eles existirem, criando condições para isso tudo acontecer? Sim, Ele mesmo. Deus.

Se a gente começar a fazer uma lista dos erros de Deus desde o início dos tempos (levando em conta apenas os registrados pelo cânone), é questão de ficar o restante dos tempos nisso, e ainda assim vai faltar umas horinhas. Mas também não é o caso de tripudiar. Só para dar mais um exemplo clássico, decorrente do anterior, teve a história com Jó também, em que o erro de Deus aconteceu de largada, no instante em que ele aceitou um desafio de Satanás, que foi lá e disse um “cê né homi de mostrar que é Deus mesmo”, e depois ficou de camarote assistindo a tragédia acontecer. Supõe-se que o divino devesse ter a compostura necessária para evitar esse tipo de picuinha, mas não: mais uma vez, quando a gente vê, lá está Ele atormentando um pobre coitado de um homem só para mostrar que é O cara. O interessante é que aí Ele aprendeu a lição de que ser o primeiro pode significar estar entre os últimos. Sério mesmo: pelo menos segundo Carl Jung, essa é a história da grande humilhação de Deus, porque, ao vencer a aposta com o capeta, Ele sofreu a mais completa derrota moral diante a humanidade.

O argumento está em Reposta a Jó, volume 11/4 das obras completas de Jung. A tal resposta seria o próprio nascimento de Cristo. Diante da força com que um mísero ser humano se mostra capaz de suportar seus caprichos, Deus comprova sua onipotência, e ao mesmo tempo sente-se pequeno; ele ganha consciência de Seus ridículos melindres, e decide encarnar na Terra em condição mortal, para experimentar altitudes apenas são possíveis a quem se submete à lei da gravidade. “Ele deve renovar-se, porque foi superado pela própria criatura”, afirma ainda Jung, indicando que a concepção cristã do amor incondicional de Deus pela humanidade depende desse movimento, efetivado, cabe observar, no período de transição da Era de Áries para a Era de Peixes, segundo a processão dos equinócios. “A intenção de Javé de tornar-se homem, que resultou do entrechoque com Jó, realizou-se plenamente na Vida e na Paixão de Cristo”.

Disso decorre um corolário que, se vale para Deus, deve valer para o pessoal de Áries de modo geral: é possível aprendermos como nossos erros. No que o pessoal de Áries tem todo o direito de responder: sim, mas para isso alguém precisa errar, então não me venham com essa história de que nós somos precipitados e competitivos e desatentos e coisa e tal, a gente primeiro faz o que tem que fazer, depois pensa no que poderia ser feito diferente. De acordo. Vejam também o caso de Hércules, que já mencionei para falar de Áries em outras oportunidades (por exemplo, aqui), e para não ficarmos só na mitologia judaico-cristã. Em um de seus trabalhos – exatamente aquele mais exatamente associado ao signo – ele tem que capturar as éguas furiosas de Diomedes (filho do deus Ares) que estariam causando devastação em certas planícies. Hércules, em sua capacidade de realizar grandes feitos, consegue executar a tarefa relativamente simples em pouquíssimo tempo. Então, para ir logo tratar de outros assuntos, deixa as éguas capturadas aos cuidados de Abderis, um amigo não tão íntimo das fúrias da natureza. Abderis acaba trucidado pelos animais.

Mas nesse caso, apesar do descuido, Hércules continua sendo Hércules, continua sendo um herói ariano. O amor incondicional só seria inventado muito tempo depois. Ele tinha ainda um punhado de trabalhos a cumprir, e dá no máximo para imaginá-lo fazendo uma nota mental (“não deixar bestas assassinas machucarem o amigo”) para evitar outras perdas. Esse é tipo determinação que Áries exibe com excelência: não aquela que se supõe infalível e imune a equívocos, mas a que entende que equívocos são inevitáveis se você se dispuser a fazer coisas que ninguém fez antes, e que isso não é motivo para deixar de fazê-las. É por isso que Áries vai errar muito na vida: porque vai agir muito, vai tentar coisas que ninguém tentou, vai assumir compromissos que ninguém ousou assumir, vai aceitar desafios que podem até parecer idiotas, mas – vai saber – numa dessas acabam sendo criadas as condições para o milagroso nascimento do redentor. Ou seja: Áries tem a sagrada capacidade de dar início a processos que ninguém faz ideia de onde vão nos levar.

Tudo isso faz lembrar uma das mais famosas frases sobre o erro e o fracasso que existem: “Ever tried. Ever failed. No matter. Try again. Fail again. Fail better.” Seu autor foi o dramaturgo irlandês Samuel Beckett, que, bem a propósito, em sua peça Fim de Jogo, celebrizou uma anedota na qual um sujeito encomenda um par de calças para um alfaiate muito renomado e exigente, famoso pela qualidade impecável de seus produtos. Então, toda vez que o cliente vai buscar as calças, elas ainda não estão prontas, porque o alfaiate tem sempre um pequeno ajuste ainda a fazer, um errinho invisível ainda a reparar, um detalhe com que não está satisfeito. Até que um dia, depois de meses, o cliente reclama: “Mas não é possível isso! Pra que esse atraso todo? Deus que é Deus fez o mundo em seis dias!”. E o alfaiate: “Sim, meu senhor, mas olhe para o mundo… e olhe para as minhas calças!”

O alfaiate, com certeza, era de Virgem. Deus vocês já sabem. E Beckett também era ariano. O engraçado é que tanto ele quando Henry James – outro escritor de Áries – são conhecidos pela inércia ou indecisão que costumam ser marcas de seus personagens. Não que eu seja capaz de oferecer uma solução para esse paradoxo, mas posso dizer quem é, de modo que vou me permitir dar uma terceirizada nessa digressão. Pois tenho uma amiga capricorniana que é também a maior especialista em Áries que conheço, e não apenas porque escreveu uma premiada tese sobre Henry James. Ela tem ainda marido em Áries, filho em Áries, melhores amigas em Áries, enfim, o pacote completo. Pensando aqui agora, é interessante que um dos últimos artigos que ela publicou tenha sido sobre a Elena Ferrante. Quem quiser, está disponível gratuitamente online aqui, numa coletânea de ensaios. Com isso, pensando bem, acho que já tenho uma aposta a respeito do signo da romancista italiana.

E, para encerrar, é como eu costumo dizer a vocês: quando resolvo escrever um desses textos para o blog, é porque sei como eles começam, mas nunca onde vão terminar. Olhando o sumário da coletânea que mencionei há pouco, reparei que o primeiro texto se chama “En los inicios de la gran aventura: modernismo, internacionalismo y vanguardias”, e foi escrito por uma colega nossa argentina e ariana, que há bastante tempo é para mim um dos melhores exemplos da maneira corajosa com que Áries se manifesta no mundo. Notem como já no título e no tema do ensaio dá para notar o vínculo: o vanguardismo requer uma disposição arrojada e desbravadora, enquanto o “início da grande aventura” tem sido basicamente o assunto desse texto. Mas não é exatamente sobre assuntos acadêmicos que eu penso ao lembrar dela, da autora, que se chama Karina Vasquez. Tem uma coisa mais importante aí.

Sabem uma canção do Lou Reed chamada “Beginning of a Great Adventure”, no álbum New York, em que ele trata da expectativa de um casal às vésperas de ter um filho? Então. É disso que estou falando, é disso que lembro quando penso no tema da aventura ao lembrar da Karina. Pois não conheço ninguém que tenha sido tão arrojada e pioneira e desbravadora na hora de decidir ter filhos, e tê-los: pela maneira como ela decidiu, pelos riscos que assumiu, pela determinação que demonstrou, pela força que tira não se sabe de onde para criá-los. Hoje ela é uma mulher com um filho de cinco anos e mais dois de cinco meses, dos quais cuida não apenas com dedicação, mas com prazer também. É claro que às vezes deve ser muito difícil, e imagino que existam momentos totalmente impossíveis no cotidiano com eles. Impossíveis para mim, é claro. Não para a Karina.

De modo que esse texto é dedicado a ela, ao Theo, ao Ulisses e ao Milton. Serve também como registro de que, se a história deles começou, foi porque alguém tomou uma atitude que aos olhos do mundo ao redor podia parecer impensável, ou impraticável: aí ela foi lá e não apenas pensou, como fez. Só podia ser de Áries. De minha parte, então, fico na esperança de que os trabalhos hercúleos de seu dia a dia ganhem a ressonância mítica que merecem (nesse sentido os nomes dos meninos ajudam), e fico feliz em poder terminar o texto assim. Agora, vejam só que coisa: nós que começamos com uma brincadeira sobre a mitologia de Deus criando o mundo, chegamos enfim na história da criação de três mundinhos por uma humana que decidiu pela sua existência.

A ênfase na decisão é para lembrar que todas as mulheres deveriam ter a opção de levar até o fim ou não esse gesto, sobretudo porque trata-se de uma escolha no âmbito estrito de seu próprio corpo. E às vezes, no início dessas histórias, o que existe não é exatamente uma decisão – tudo se assemelha mais a uma armadilha do que a uma aventura. Quem trata do assunto da legalização do aborto ignorando isso, com argumentos como “uma pessoa precisa assumir as consequências de seus erros”, entendeu tudo errado, desde o princípio. A gente precisa lidar, sim, com as consequências dos nossos equívocos, precipitações e inconsequências, porém isso implica justamente ações que retifiquem os caminhos, por mais difíceis que possam ser, ou novas decisões que os reforcem, mesmo quando não foi a intenção inicial. De maneira alguma estamos condenados ao inferno de um destino incontornável. Lidar com as consequências de nossos atos é também executar outros atos, e depois outros, e assim por diante.

Suspeito que, de todos os signos, Áries é o que mais sabe disso. Talvez por este motivo se arrisque tanto: porque sabe que sempre haverá como mudar as coisas, e isso certamente é algo que temos a aprender com Áries. Fico então pensando naquele Deus que criou o mundo e tudo: ele provavelmente teria dado um jeito de seguir adiante mesmo se a luz não fosse boa, como aliás parece ter seguido, com todas as outras falhas e confusões. Se estamos aqui hoje, é também um pouco porque, como a Karina, ele entendeu que todo o trabalho com esse negócio de universo e mundo e humanidade valia a pena. Ele achou que estava na hora de dar uma arriscada, mesmo sem ter o controle dos desdobramentos seguintes da história que ia começar ali, e mesmo com todos os erros que sem dúvida ia cometer.

Agora, uma última observação: fico pensando no que existia antes desse Deus. Pois alguma coisa devia existir. Alguém, ou algo (sem dúvida uma personalidade ou força feminina) deve ter dado origem a um ser que para todos os efeitos foi criado à imagem e semelhança de nós homens. Várias mitologias não-monoteístas têm um nome e uma imagem para ela, que podemos chamar de Grande Mãe, de acordo com o título que recebeu na lista dos arquétipos junguianos. Trata-se do lugar de gestação da existência de tudo, e onde tudo terá sido gestado porque se quis, porque sentiu-se que era a hora, porque havia receptividade e desejo e amor envolvidos – e não porque havia leis impedindo o contrário.

Com isso, podemos supor que lá nos primórdios do cosmos estava em ação uma espécie de amor incondicional, que ficaria depois oculto, perdido, desencontrado, e seria redescoberto, entre outras maneiras, na figura de Cristo, em decorrência dos erros de seu Pai, por causa deles resolveu encarnar na Terra. Assim fica mais fácil entender por que o amor está no final dessa história: ele está no começo também. É o amor da Grande Mãe pela criatura frágil e inconsequente e irritadiça e intratável que deve ter nascido de seu ventre ali por volta do final de março, começo de abril, lá um pouco antes do início dos tempos. Mas nada que não aconteça do mesmo jeito, todos os anos, em todos os lugares do mundo, de maneira sempre igual e sempre tão diferente. Sim, acho que no final das contas vou ter que concordar com os geminianos: não dá para cravar um signo para a pergunta de tirar o sono que coloquei lá no início. Porque em todo canto, todo dia, há milênios, como resultado do amor entre os humanos, e por efeito decisões ao mesmo tempo ponderadas e inconsequentes, existe sempre algo acontecendo que se parece muito com o que deve ter acontecido no instante do nascimento de Deus.

astros, Todos os signos

A viola e o arpão

Giorgio de Chirico |Enigma da chegada da noite (c. 1970)

Mulher de Porto Pim é o nome de um livro e de um conto do escritor italiano Antonio Tabucchi. No conto, um velho cantor açoriano conta sua história para um turista num fim de noite em um bar melancólico. Em determinado momento da narrativa, ele, ainda jovem, abandona seu pai, um pescador de baleias com quem crescera após a morte da mãe; o motivo desse abandono é a tal mulher de Porto Pim, por quem ele sente um fascínio súbito e apaixonado. Ao descrever a cena na qual passa em casa para pegar suas coisas antes de ir viver com ela – sob o olhar do pai, que o vê deixando o arpão e levando uma viola –, o narrador diz: “Você sabe o que é a traição? A traição, a verdadeira, é quando você sente vergonha e quer ser um outro. Eu quis ser um outro quando fui me despedir de meu pai”.

O detalhe do arpão é importante. Antes, ele fala sobre como os dois costumavam sair juntos para pescar baleias, e fica implícita a expectativa do pai de que o filho seguisse no mesmo ofício. Daí a traição a que se refere: não se trata apenas do abandono do lar e do velho taciturno, mas de toda uma ideia do tipo de vida ao qual o filho devia sua fidelidade. O gesto de carregar a viola indicava, por sua vez, que um cenário completamente diverso se descortinava para o restante da sua vida. Que a história seja contada num bar e por um cantor de bar diz muito sobre o que se seguiu. O filho do pescador se tornou o artista boêmio que narra a história. Seu destino teve um episódio trágico, mas ele não parece arrependido de ter seguido esse percurso, exceto, talvez, quando destaca a ambivalência dos sentimentos na cena que descrevi.

É o tipo de experiência que remete aos pares de opostos complementares do zodíaco, e às mil maneiras como manejamos seus atributos conflitantes no decorrer da vida, quando, por algum motivo, a dinâmica de um desses pares se torna relevante para nós. Mais especificamente, em termos astrológicos, seria legítimo dizer que foi naquele instante de pegar a viola que o narrador se decidiu por um salto à Cabeça do Dragão. Estou me referindo ao Nodo Norte da Lua, também conhecido por Rahu na tradição védica. Trata-se de um ponto calculado de acordo com o desenho da elipse lunar, e que, como os planetas, transita pelos 12 signos do zodíaco, com a diferença de carregar sempre consigo o ponto exatamente oposto, isto é, a Cauda do Dragão (ou o Nodo Sul, Ketu para a astrologia indiana). Se você gerar seu mapa no site astro.com, o Nodo Norte vai aparecer como “True Node” na versão em inglês, e como “Nodo Verdadeiro” em português (caso seja alterada a configuração da língua no canto superior direito da tela), com o Nodo Sul situando-se por consequência no mesmo grau do signo oposto complementar de onde ele se encontra.

Daria para ficar aqui enfileirando detalhes técnicos e nomes exóticos indefinidamente. Mas, quando se trata da posição desses pontos no mapa natal de um indivíduo, a ideia costuma ser mais ou menos a mesma: o Nodo Sul é a experiência já acumulada por sucessivas gerações, é aquilo que se repetiu à exaustão, é aquele conjunto de qualidades ou hábitos que parecem um lugar natural para a pessoa. É também onde encontramos traços de identidade mais imediatamente disponíveis para nós, os papeis sociais que tendemos a ocupar com mais facilidade, ou que acreditamos ter o dever de cumprir. O Nodo Norte são as experiências novas que teremos a oportunidade de viver, talentos imprevistos que serão desenvolvidos e papeis que podem ser ocupados – se assim o quisermos – mesmo que a princípio a gente não se veja de maneira alguma naquele lugar.

Como, invariavelmente, esses pontos se localizam em signo opostos do zodíaco, a posição de um sempre implica a do outro. No caso do narrador do conto de Tabucchi, por exemplo, eu apostaria que ele tem o Nodo Norte em Leão, por ter ganhado a vida tocando um instrumento, se apresentando em botequins, sentindo por esses ambientes uma atração e uma vinculação que estavam em aberto desacordo com seu passado e sua herança familiar. Desse modo, ele teria o Nodo Sul em Aquário, o que pode muito bem estar relacionado às exigências de fidelidade a uma corporação de iguais, no caso a dos pescadores, além de presumir uma capacidade de dedicação a esforços coletivos bastante característica de algumas expressões aquarianas, um signo tradicionalmente regido por Saturno. Essa posição – Nodo Sul em Aquário, Nodo Norte em Leão – é uma das que trazem com maior evidência uma possível contraposição entre o trabalho e o prazer no mapa de um indivíduo. Daí o instante da escolha entre o arpão e a viola; daí o salto a que me referi.

Analisar a posição da cauda e da cabeça do dragão em um mapa é desdobrar esse tipo de raciocínio de acordo com as variações dos arquétipos zodiacais e algumas outras variáveis (as casas onde se encontram, os planetas com que realizam aspectos etc.). Às vezes, a identificação dessa dinâmica é mais imediata, e até mesmo anedótica (sobretudo com as expressões do Nodo Sul); às vezes, se dá com qualidades mais singulares e atributos bastante originais (sobretudo no Nodo Norte). Tudo isso pode se tornar mais evidente em determinadas idades e trânsitos regulares (com frequência por volta dos 36, 37 anos, às vezes já aos 18 ou 19). De todo modo, eles criam um eixo que nunca deixa de funcionar como uma espécie de balança na vida de cada um. Sendo assim, haverá sempre momentos em que ela poderá pender mais para o passado, para o já conhecido, para as gerações que nos antecederam, as encarnações em que já percorremos a história de um arquétipo sucessivas vezes. Foi o que aconteceu comigo ultimamente.

O que vivi nas últimas semanas foi uma das experiências mais estranhas da minha vida psíquica. Netuno esteve praticamente estacionado durante um tempo incomum na região de meu Nodo Sul em Peixes, enquanto eu era atravessado por sensações e lembranças de um passado que parece ultrapassar minha vida pessoal, embora com frequência seja também representado por episódios dela. Houve ao mesmo tempo notícias concretas e difíceis que tornaram presentes algumas questões relacionadas ao tema, e cujas demandas contribuíram para que eu tenha deixado essa página de férias por uns tempos. Netuno sempre exige uma pausa em alguma coisa na vida. Mas é sobretudo sobre o sentimento impreciso e netuniano de uma súbita imersão nas águas de meus ancestrais piscianos que eu gostaria de falar, pois sinto também que esse é um momento de honrar meus antepassados de uma maneira que nunca fiz antes – para então, talvez, traí-los mais uma vez, quiçá definitivamente.

Uma maneira de exemplificar esse fenômeno é falando um pouco do meu gosto musical. Pois fui precocemente apresentado e cativado por toda uma tradição do desespero e da derrota cantada em vozes anglófonas roucas e embriagadas. Era capaz de virar noites inteiras sozinho ouvindo Tom Waits e enxugando garrafas de conhaque barato, depois de ter rodado os bares do centro de Belo Horizonte como que em busca do coração roto de uma noite de sábado, que eu nunca encontrava. Aquilo para mim era um lugar natural, de certa forma espontâneo, mas só de certa forma mesmo: pois eu estava também espontaneamente encenando aquele personagem. Ou melhor, eu estava representando, também no sentido de que, ao agir daquele jeito, eu sentia ser o representante de toda uma congregação de gente fodida e fracassada que formava um clube secreto que já existia antes de mim.

Reparem, não estou falando que Peixes tem uma relação direta com o fracasso. O que está em jogo aqui os “personagens” piscianos, que muitas vezes podem parecer losers arquetípicos, mas exatamente porque nesse signo as réguas que costumamos usar para medir sucessos mundanos perdem toda a validade. E, de modo bastante concreto em alguns aspectos – figuradamente em outros –, sempre soube que venho de uma linhagem de gente que por algum motivo viveu às margens do mundo social regular, por terem renunciado a ele ou por terem se tornado incapazes de existir funcionalmente em seus limites. Estamos falando de monges, loucos, doentes e bêbados. No meu caso, sobretudo bêbados. Em resumo: venho de uma linhagem de desajustados, e o fato de ter me encaixado nas estruturas desse mundo – ao encontrar trabalhos que me deram satisfação, ao executar serviços que me deram alegria, e ao adotar rotinas que me restituíram a saúde, através do Nodo Norte em Virgem, signo oposto a Peixes -, é o que tem feito com que eu me sinta um verdadeiro traidor dos meus ancestrais que vieram do mar.

Não se trata apenas de maturidade, ou de uma adoção compulsória de hábitos saudáveis por motivo de comprometimento do fígado. Bom, deve ter um pouco disso também. Mas o Nodo Norte se manifesta com um frescor que não tem muito a ver com os constrangimentos da idade. Agora, vamos supor que fosse o contrário. Um Nodo Norte em Peixes dificilmente vai se manifestar de modo tão anedótico quanto meu Nodo Sul pisciano; ele provavelmente vai aparecer para a pessoa em uma versão mais individualizada (mesmo que seja com uma relação frequente, porém mais saudável, com os entorpecentes), ou no mínimo menos atolada nas sarjetas da vida. Nesse caso, o que se apresentaria com maior evidência na primeira etapa de uma biografia seria a Cauda do Dragão em Virgem, talvez com as famosas manias de limpeza e paranoias de organização que criam ambientes imaculados, exatamente opostos aos quartos atulhados de cinzeiros sujos onde que costumava acordar na minha adolescência. Mas o ponto principal aqui não é que a pessoa tenha as características de determinado signo, e sim a maneira como ela se sente devedora de sua fidelidade a um determinado grupo ancestral, vinculada a ele de modo atávico, mesmo quando esse grupo é um bando de doidos e tontos.

Uma pessoa com o Nodo Sul em Virgem, portanto, pode vir de uma linhagem de funcionários públicos ou auxiliares da área de saúde para os quais a humildade na prestação de serviços regulares é um valor fundamental. Essa pessoa vai encontrar o lado pisciano da vida através de um convite para o ócio e para o descanso, uma libertação da roda cármica de tarefas e burocracias e pacientes – mas dificilmente vai perder a sensação de estar em débito com as gerações anteriores de sua estirpe, que tanto trabalharam em favor do bom funcionamento da sociedade e do cosmos. Já uma pessoa com o Nodo Sul em Touro pode muito bem se sentir rebento de um ambiente camponês ou proletário, e valorizar a simplicidade das sensações vitais, dos frutos da terra e do trabalho manual. Mas ela pode também vir a ter uma oportunidade de lidar com o lado mais obscuro e intrincado da vida psíquica (Nodo Norte em Escorpião), demonstrando habilidades que não esperava ter para desatar esses nós.

Tenho uma amiga, com Nodo Sul em Sagitário, que agora – aos 35, 36 anos – está percebendo que não precisa de contar com o respeito do mundo acadêmico para cumprir seu destino. Está descobrindo uma existência independente do reconhecimento universitário já recebido em sua família, porque ela própria é capaz de valorizar outras coisas, e pode muito bem viver sem isso. Com essa posição, algo semelhante acaba acontecendo com alguém que se sinta vinculado a uma religião ou grupo religioso: o Nodo Norte em Gêmeos vai trazer uma leveza lúdica que raramente encontramos nas esferas da intelectualidade ou do sacerdócio, mas que podemos muito bem identificar nos comediantes e artistas de circo. O engraçado aí é que a pessoa se prepara durante anos para se tornar um brâmane ou coisa parecida – e acaba se tornando a grande atração da feira, e acaba se realizando assim.   

Ou seja: todo mundo tem uma corporação, ou estirpe, ou bando, ou alcateia, ou casta, à qual tem que prestar contas durante uma parte da vida. Só não precisamos ficar comprometidos eternamente com a identidade que nos foi legada através de nosso vínculo com os ciclos lunares, pois esses mesmos ciclos trazem um convite ao desbravamento de territórios inexplorados. Usando uma metáfora que uma vez encontrei na internet, é como se você fosse um ator ou atriz já escalado sucessivas vezes para um mesmo tipo de papel – aquilo que na indústria do entretenimento chamam de type casting -, até por conta de sua capacidade de representá-los, o que criou uma associação de sua própria pessoa com um determinado personagem recorrente. Aí de repente aparece um convite para um papel totalmente distinto e até oposto ao que você se acostumou a representar. Minha dica: aceite.

A propósito (e fazendo a ponte entre Hollywood e Bollywood), a menção anterior aos brâmanes – a casta sacerdotal hindu – faz lembrar que Nodo Norte e Nodo Sul são pontos bem conhecidos na astrologia védica, ou indiana, como mencionei lá atrás. Na origem da concepção e cálculo desses pontos, portanto, pode haver uma relação com a sociedade de castas, mas eu não saberia dizer ao certo como são mobilizados nessa moldura. De todo modo, a astrologia se renova também através desses trânsitos e trocas, fazendo com que, por exemplo, a posição do Sol em um mapa natal – tão importante em nossa prática, mas com sentidos e significados já desgastados – possa eventualmente ter sua leitura modificada de maneira positiva em outros contextos culturais. Assim como nós temos a chance de ressignificar as leituras das posições da cauda e da cabeça do dragão, dando ênfase às mudanças que podem representar na vida de um indivíduo, mas sem desconsiderar o que falam sobre nossa inserção em grupos sociais, históricos ou arquetípicos mais amplos.

Mas, para esse movimento estar completo, entendo hoje que a gente precisa ter alguma chance na vida de se reconciliar com nosso antepassados metafóricos e reais, depois de termos simplesmente abandonar o arpão no chão da sala, sob o olhar imensamente decepcionado de nossos pais. Vou contar então a vocês o que acontece quando Netuno estaciona sobre seu Nodo Sul durante o tempo que ficou estacionado no meu. Você passa a viver uma espécie de segunda vida paralela e meio delirante junto a toda aquela multidão de ancestrais que em algum momento acreditou ter deixado no caminho. No começo, parece que eles ressurgiram para tirar satisfação por terem sido traídos; mas depois você percebe que eles simplesmente querem ter você por perto mais um pouquinho, antes de deixá-lo ir. É uma espécie de despedida, que não deu tempo de fazer quando as novidades e desafios do Nodo Norte estavam tomando todo seu tempo. É também um de trabalho de luto, porque você sente que alguma coisa em você está definitivamente deixando de existir.

Não tenho exatamente passado minhas noites bebendo e ouvindo música e procurando por corações rotos que se solidarizem com minha tristeza. Mas tenho ficado parado, quieto, e desperto, às vezes por horas durante a madrugada, enquanto um outro eu (cujo nome é legião) perambula por aí refazendo caminhos tortos já bem conhecidos. Um pouco como se o narrador do conto de Tabucchi de repente passasse a imaginar-se pescando baleias, junto ao pai e outros pescadores, sendo feliz com eles, sem nunca ter optado por outra vida. Chego a pensar que foi só isso mesmo que o pai dele queria: que estivessem juntos mais uma vez, em forma de devaneio, e que fizessem juntos desse modo a última pescaria. Enfim, que seu filho retornasse nem que fosse em sonho para se despedir corretamente, e então ir embora de vez, sem “querer ser um outro” é já sendo, enfim livre da sensação de que precisava escolher entre o arpão entre a viola, porque a viola o havia escolhido, e sabendo que, para ser quem ele era, já não precisava trair ninguém.

enquetes

VOTE DJÁ!

Olá pessoal. Tirei umas férias do blog nas últimas semanas, mas como minha cabeça é a própria oficina do diabo quando se trata de pensar relações entre signos, mitos, personagens de ficção e outras coisas que não existem (mas que parecem tão reais, em contraste com outras coisas comprovadamente existentes), acumulei um punhado de ideias para os próximos textos.

Essa enquete é então para vocês me ajudarem a decidir por onde começo, com as seguintes regras: librianes podem votar em duas opções, geminianes podem votar em quantas quiserem, sagitarianes podem votar em TODAS as alternativas, e virginianes podem achar tudo uma bobagem e votar escondido assim mesmo. Ah, e os resultados aparecem depois que você deixa seu voto: para Áries saber se está ganhando, para Peixes ficar com dó dos últimos colocados, para Capricórnio ficar puto porque as outras pessoas votaram errado etc.. Está valendo. Vote djá!

câncer

O signo de Kafka

Foto de arquivo | wikipedia.org

Este blog nasceu sob o signo de Peixes, e precisa de um descanso de vez em quando para dar liberdade às suas fantasias. Mas estavam em Câncer as luas do título, inspirado por um livro da escritora canadense e canceriana Alice Munro. Talvez por isso o signo do caranguejo seja um dos recordistas de postagens aqui da casa, embora eu nunca tenha escrito nenhum texto mais elaborado sobre o cancerianismo aliciano em si mesmo (pretendo fazer isso ainda, mas é uma tarefa delicada, não é algo que que dê pra fazer ainda pegando no tranco, depois de ficar em modo pisciano-soneca por uns tempos). Tampouco cheguei a falar do arquétipo de Câncer a partir dos escritos de outro autor célebre que já frequentou essa página por muitos outros motivos. Pensei nisso anteontem, quando se celebrou a data de aniversário de Franz Kafka.

A princípio, essa seria uma missão igualmente espinhosa, sobretudo se comparada com a de identificar aspectos cancerianos mais óbvios da obra de Marcel Proust, por exemplo (o memorialismo nostálgico, a floração de sentimentos, o estilo fluvial). Há pouca coisa e quase nada em Kafka que a gente associe ao signo solar do autor, à primeira vista pelo menos. Acontece até o contrário: a objetividade de sua prosa, o desconforto de seus personagens, a estranheza de seu mundo, tudo isso é o oposto daquilo de que normalmente estamos falando quando falamos em Câncer. Inversamente, a familiaridade, o conforto e o calor humano podem ser tudo, menos atributos kafkianos.

Por outro lado, e por isso mesmo, acredito que a tarefa de associar Kafka ao signo de Kafka é simples (confesso que o blogueiro não estaria suspendendo suas férias se não pensasse assim). Basta repetir um movimento que os intérpretes do autor realizaram tanto em comentários sobre a questão religiosa em sua obra, quanto na abordagem de sua ressonância política. Os conceitos de teologia negativa e utopia negativa – presentes nas análises dos críticos Erich Heller e Michel Löwy, respectivamente – se equivalem. O que ambos estão querendo dizer ao mobilizar esses conceitos é basicamente a mesma coisa. Quando lemos Kafka, o que importa é tudo aquilo que evidentemente não está lá.

Acho que o lado teológico nos ajuda mais a entender o argumento de maneira geral. Ele remete a uma longa tradição segundo a qual “a ausência de Deus é prova da existência de Deus”, exatamente porque a percebemos como uma ausência, isto é, o polo negativo de uma presença. Pelo mesmo raciocínio, não concebemos o vazio a não ser como o contrário do cheio, e, portanto, como indício de um preenchimento que um dia existiu ou está por vir. Todo fenômeno presume e implica seu inverso, e, portanto, o Deus absconditus (deus escondido) da lenda se faz sentir precisamente através de seu ocultamento.

“Ausência implica presença, ausência não é não-existência, e assim nós temos o direito de repetir: vem, vem, vem, vem…”, diz um personagem de Uma Passagem para a Índia, romance do escritor E. M. Forster. Nesse sentido, na obra de Kafka, tudo aquilo que não está lá se torna o que mais ostensivamente se mostra através deste sumiço; é a existência dessas coisas que podemos e devemos invocar. E, de fato, o conforto com a vida familiar, a aceitação e o acolhimento pelos pais, a sensação de pertencer a um lar ou uma terra natal são ausências mais do que notáveis em seus escritos, incluindo aí os diários e as cartas. Sobre os romances de Kafka, a propósito, o escritor argentino Jorge Luis Borges afirmou em 1936 o seguinte: “Homens, não há mais do que um em sua obra. O homo domesticus, que anseia por um lugar, mesmo que humilíssimo, em uma Ordem qualquer; no universo, em um ministério, em um asilo de lunáticos, ou no cárcere”. A simplificação pode parecer apressada quando a olhamos em perspectiva; mas, acredito, não deixa ser extremamente certeira se fizermos uma correção.

O ponto central é a palavra Ordem. Não acredito que os personagens de Kafka quisessem necessariamente pertencer a uma ordem. É verdade que com Joseph K., de O Processo, esse pode muito bem ser o caso, e algo semelhante se dá com o K. de O Castelo. Aí estaríamos tratando de temas capricornianos, com algumas incursões pelos arquétipos de Aquário e de Peixes. Porém, até com maior frequência, o que os protagonistas kafkianos parecem sentir de modo mais doloroso é a falta de qualquer vinculação a um Lar, no sentido mais caloroso e acolhedor da palavra, com suas raízes orgânicas e sentimentais, com suas conotações afetivas e interpessoais. Não que eles expressem isso abertamente, é claro. Na verdade, é isso que sempre falta nas narrativas kafkianas; é isso que mais claramente elas excluem e ignoram e ocultam, em todas as suas manifestações.

Há, sim, portanto, algo do homo domesticus nessas figuras a que se refere Borges; e, bom, a domesticidade é tipicamente canceriana. Por outro lado, nem sempre os heróis de Kafka – e muito menos os heróis de Câncer – são exatamente domesticáveis, no sentido de acatar ordens que não lhes falem ao coração. Por isso também a solução de uma ordem impessoal me parece insuficiente. De novo, o calor humano e os genuínos vínculos afetivos de que estão destituídos os heróis kafkianos não são coisas que eles sejam capazes de reclamar para si com todas as palavras – eles parecem nem chegar a ter consciência de que isso existe -, mas, precisamente por esse motivo, a carência se torna mais radical e pungente. Ainda assim, o calor e o acolhimento que buscariam, se soubessem que é disso que mais sentem falta, nada teria de vulgar, pois dizem respeito a uma forma de pertencimento que de maneira alguma se resume a um lugar numa ordenação burocrática ou mesmo num esquema familiar padronizado. Se Kafka parece tão radical em sua exibição do polo negativo desse espectro da experiência, é porque não estaria disposto a transigir em nenhum ponto com aquilo que lhe era mais caro.

De modo que desconsiderou o retorno proustiano ao passado como alternativa para um presente seco, estéril e deprimente, por exemplo. Não, a sensação de pertencimento que ele valorizava e queria não estava num mundo perdido que a narrativa poderia de algum modo recuperar. E, ainda mais notavelmente, não há praticamente nenhuma lembrança de conforto nas narrativas kafkianas, que parece desconfortável inclusive nas fotos de sua infância, como notou o filósofo Walter Benjamin. Não encontramos na história de seus protagonistas quase nenhuma menção a uma antiga de paz e felicidade, o que só torna mais perturbadora sua carência de qualquer esperança. “Há esperança sim, esperança suficiente, esperança infinita – só que não para nós”, ele teria dito, aliás, como também lembrou Benjamin. Esperança negativa talvez seja outro conceito adequado para descrever o sentimento que nos atravessa com a leitura da obra de Kafka.

Mas ele afirmou também que, se vivemos no exílio, se a nossa condição humana é da culpa e da falta, isso acontece “não apenas porque comemos da Árvore do Conhecimento, mas também porque ainda não experimentamos da Árvore da Vida”. Pois bem: suspeito que essa Árvore da Vida, com seus frutos e sua sombra, com suas raízes e suas folhas, é uma árvore canceriana. É ela, e não a pacífica domesticidade burguesa, que representa a verdadeira presença de Câncer na obra de Kafka. O fato de que não a tenhamos provado ainda talvez seja indício de uma esperança, assim com a ausência de qualquer outra menção a esse respeito, no restante da obra, além dessa passagem, pode muito bem ser a prova definitiva de sua existência.

E uma última observação. É possível que a crítica literária acadêmica séria fique um tanto escandalizada com esse tipo de interpretação da obra de autores tão complexos a partir de seu signo do zodíaco. Se ela já estremece diante de qualquer análise de uma obra que a reduza a reflexos de elementos da vida do artista, que se dirá da análise de uma obra a partir da data de aniversário do autor. Paciência: nesse espaço levamos a astrologia a sério, mas literatura é só na brincadeira mesmo. A crítica literária acadêmica séria, então, é algo que nunca deixa de ter lá sua graça.

De todo modo, no caso desse texto em particular, tenho o álibi de ter defendido que atributos do signo solar de Kafka estão absolutamente ausentes de seus textos. Isso, claro, para mim mostra mais uma vez a pertinência do viés astrológico. Mas ninguém pode garantir que não esteja fazendo algum tipo de volteio retórico para confirmar o cancerianismo kafkiano, pela via negativa, que já se tornou tradicional na leitura de seus escritos. Que seja. Ainda assim recomendo: quando for ler Kafka da próxima vez, repare bem, Câncer está lá, o acolhimento está lá, a Árvore da Vida está lá. Exatamente porque não está.

Enfim, pensando aqui agora, acho que vou passar a usar esse argumento agora todas as vezes que alguém me disser: “olha, meu signo é tal, mas nunca me identifiquei com ele, não pareço nada com o que dizem, acho esse negócio de signo a maior furada”. Quem diria, parei aqui para escrever uma postagem rápida e rasteira sobre Kafka e o signo de Kafka e de quebra acabei criando um todo novo caminho para a disseminação do saber astrológico, capaz de provar definitivamente mesmo aos mais incrédulos que esse negócio de signo existe sim e faz todo sentido. Grande dia. Está fundada a Astrologia Negativa.

astros

Pausa para Netuno

Foto: Abbas Kiarostami

Quem acompanha esse blog com alguma regularidade pode ter percebido que ele não teve novas postagens durante as últimas semanas, depois de um ano e pouco em que honrei de modo fervoroso e capricorniano o compromisso de escrever sempre aos domingos pelo menos. O motivo da pausa é simples, exato, geométrico, e ao mesmo tempo um tanto nebuloso e impreciso: Netuno em trânsito em quadratura com meu Netuno natal, e agora praticamente estacionado sobre a minha cauda do dragão (o Nodo Lunar Sul) em Peixes.

O que isso quer dizer, eu não tenho como explicar com clareza, daqui de onde estou agora – inundado por todas essas águas, e vivendo em meio a sonhos e lembranças e notícias e demandas que me transportam para os passados que vivi e para outros que não tenho muita certeza de me terem acontecido, a não ser em viagens de ácido. É complicado atravessar esses trânsitos enquanto a gente tem que continuar seguindo com a vida, cuidando das crianças, agendando reuniões, discutindo pedagogias, fazendo a janta. Caiu então a obrigação que dependia só mesmo de mim para cair, e parei de escrever para o blog.

De todo modo, posso garantir que tais sensações e eventos correspondem com precisão absoluta àquilo que podia ser previsto para uma quadratura de Netuno em conjunção com o Nodo Sul (em Peixes). A astrologia consegue ser incrivelmente literal em suas sincronicidades, sem deixar de ser surpreendente. É claro que eu sabia de antemão que esses movimentos estavam chegando. Mas foi só mesmo quando recebi uma mensagem na semana passada (durante um conjunto de trânsitos menores na mesma região dos signos mutáveis) que entendi o que estava em jogo, e de que maneira mais direta o inespecífico Netuno iria se manifestar.

Por quanto tempo o blog ficará sem atualizações, não tenho como prever (embora seja de se esperar que daqui a umas três semanas Netuno vai me dar um descanso, o que, no caso dele, significa me deixar trabalhar). Enquanto isso, continuarei revisando os textos anteriores e quem sabe fazendo uma seleção para publicar em livro (alô, editores, alguém?). Porém, o mais importante é que – vocês podem estar certos – continuarei recolhendo material para a obra que planejo escrever nos estertores da vida, e que deverei deixar como testemunho de uma existência dedicada à observação dos planetas e seus ciclos.

Nela, após admitir que, por uma questão de princípio, não acredito nem nunca acreditei na astrologia, vou elencar as minuciosas conexões que identifiquei durante a vida inteira entre os acontecimentos celestes e os episódios da minha existência. Após afirmar que toda suposição de uma influência dos astros nos fatos terrenos só pode decorrer da mais tola crendice supersticiosa, vou reconhecer as multiplíssimas maneiras pelas quais assisti os astros e seus movimentos realizando as mais perfeitas traduções das experiências pessoais de inúmeros amigos e conhecidos. Declarar-me-ei então abobadado com essas contradições, e sem condições de oferecer a elas uma solução que não seja a de acatar seu mistério.

Porque, enfim, o legal de você no fundo não levar a astrologia totalmente a sério, mesmo quando você já se tornou um astrólogo e tudo, é que você nunca deixa de se assombrar com as maravilhas que ela é capaz de oferecer.

Permanecerei cético, portanto, isso está decidido. Astrólogo e cético. A astrologia seguirá sendo para mim algo totalmente destituído de qualquer base ou justificativa pertinente. Dito isso, agora com licença que eu tenho que ir ali me ocupar com Netuno e minha cauda do dragão.

astros, peixes

Aprendendo a nadar

David Hockney | A Bigger Splash (1967)

Marte ingressa em Peixes por agora, no começo dessa quarta-feira, onde vai seguir seu curso por seis semanas. É o último signo em que deve permanecer por um tempo regular antes dos muitos meses de suas idas e vindas em Áries, a partir do final de junho. Trata-se do planeta cujas mudanças no elíptico zodiacal são mais perceptíveis para nós à flor da pele, porém seu ingresso em um determinado signo geralmente é acompanhado de efeitos muito diferentes no ânimo de cada um de nós. Os piscianos, por exemplo, com Marte em Peixes podem ter um influxo de energia de tirar o sono. Já o pessoal de Áries tem maiores chances de sentir um sono de tirar as energias.

Isso, por um lado, reforça o fato de que, mesmo em épocas de condicionamentos tão restritivos como os atuais, até mesmo indivíduos que estejam vivendo as mesmas rotinas e repetições diárias sob o mesmo teto podem ter enormes diferenças de comportamento, que independem das circunstâncias externas mais aparentes, mas não deixam de estar vinculadas a influxos mais sutis do ambiente. Nós somos “de Marte” do mesmo jeito que somos “de Lua”.  Por outro lado, é das interações, conflitos e negociações entre esses vetores que se faz a vida em comum, de modo que o Marte em Peixes aqui em mim saúda o Marte em Peixes aí em você. Espero que de alguma forma eles se entendam.

Mas nada impede que a gente aproveite o momento para compartilhar um exercício de entendimento do que significa “Marte em Peixes” em um plano mais estritamente simbólico e arquetípico. A primeira expressão que me vem à cabeça é “Guerra Santa”. Por razões óbvias: Marte é planeta guerreiro, e Peixes é a região do zodíaco associada ao sacrifício. A combinação parece propícia ao martírio, bem como à luta obstinada em defesa de ilusões, justamente quando elas se mostram mais insustentáveis. Há algo em Peixes que torna Marte um agente das mais fantasiosas batalhas. No entanto, há algo também capaz de dar um fim a toda luta e sofrimento.

Nesse último sentido, Marte ingressando em Peixes é como uma flecha que cai na água. Ou como um caçador que não quer mais apenas lutar pela sobrevivência, e decide sair em busca do cálice sagrado. Se a gente parar para pensar, o que há de sagrado no cálice? O espaço em seu interior. Acontece que o espaço no interior do cálice é o mesmo espaço ao redor do caçador. Não é preciso sair para buscá-lo. É só respirar. Marte, portanto, em circunstâncias normais, trata de garantir sua sobrevivência. Mas o signo de Peixes é tudo menos “circunstâncias normais”; em Peixes, a existência se basta. Marte em Peixes se parece então com uma flecha que cai na água, aprende a ser peixe, e de repente começa a nadar.

livros

Kafka contra o “e daí?”

Imagem: Peter Kuper

Tenho a alegria breve, mas recorrente, de todo início de semestre poder discutir com a turma de ingressantes do curso de Letras onde leciono alguns clássicos da literatura mundial. Um deles é A Metamorfose, do escritor tcheco Franz Kafka. Esse livro quase nunca sai do programa da disciplina, porque há sempre interpretações que me surpreendem, experiências de leitura que me comovem, ênfases em que nunca prestei atenção antes. A maneira como cada aluno entende a história varia de forma surpreendente. Isso, é claro, deve-se ao fato de que a narrativa não trata apenas da transformação de um homem em um gigantesco inseto, mas também das metamorfoses da família de Gregor Samsa, o protagonista, a partir do momento em que o vê em sua forma monstruosa.

O elemento fantástico poderia até ser retirado do texto, que ele manteria suas linhas gerais. A situação de Gregor no quarto onde fica isolado com frequência se parece com a de alguém sofrendo de um mal súbito e ao mesmo tempo lentamente degenerativo, sob os cuidados (e a repulsa) de parentes que não sabem como lidar com a catastrófica mudança. No mais das vezes, aliás, o comportamento da família está longe de ser exemplarmente compadecido, e eles o rejeitam (o que ele se tornou) de maneira peremptória e escandalizada. Porém não chegam a expulsar o inseto de casa, de modo que ele sobrevive por um período, contando com a ajuda eventual da irmã ou de uma faxineira.

Essa situação se alastra por mais tempo que o leitor imagina a princípio. Talvez por mais tempo que ele estaria se preparado para aguentar. Nesse sentido, o relato integra uma tradição narrativa que vai de Rei Lear, a tragédia de William Shakespeare, a Breaking Bad, a série criada por Vince Gilligan, nas quais uma situação intolerável ou destrutiva prossegue por tempo demais deixando um rastro de caos e sofrimento. Em resumo, são experiências trágicas em que o pior está no começo, e o que vem a partir daí é o pior do pior, o pior mais pior ainda, o pior em sua versão piorada ao quadrado – de modo que a corda da insensatez e crueldade humanas estica e estica e estica, e parece que não vai nunca arrebentar.   

Uma das características mais marcantes do ritmo de A Metamorfose é, então, o quanto o livro exige do leitor em termos de estômago para tolerar o sofrimento de Gregor. Mas uma hora a corda arrebenta, e, em tais circunstâncias, isso não deixa de ser motivo de alívio. Acho que não conta como spoiler dizer que Gregor terminará morto e descartado. Por mais melancólico que seja, esse desenlace é esperado e previsível, dentro do universo de relações construído no texto. O que de certa forma nos surpreende é a maneira como a narrativa em seguida se desloca para o lado de fora do apartamento, quando o pai, a mãe e a irmã de Gregor saem para dar um passeio.

Só então nos damos conta da extensão do período em que permaneceram confinados lá, e nós leitores com eles. O narrador afirma que eles teriam ficado meses sem sair de casa, e descreve como aproveitam a luz do sol durante um passeio de bonde. Em seguida, os três falam entre si dos novos empregos que conseguiram; comentam como a situação da família não parece de maneira alguma má, vista daquele ângulo; e os pais sentem como que uma confirmação de seus bons prospectos, quando Grete Samsa, a irmã de Gregor, se põe de pé diante deles ao saltarem do bonde, espreguiçando-se e estendendo o corpo jovem.

Gosto dessa cena, da sugestão de uma metamorfose orgânica concluída, após uma etapa de intensa e dolorosa reclusão – o movimento de Grete como o de uma borboleta saindo do casulo à luz do sol. Gosto particularmente da transformação que Grete sofre no decorrer da trama. Gosto do final do conto, portanto – embora o próprio Kafka não gostasse. Ele afirmou em uma carta que o teria escrito quase a contragosto. Foi o que deu para fazer, é como se dissesse, pelo que me lembro; foi o que saiu na hora.

O fenômeno não é incomum em sua obra. Mas não quero me dispersar aqui, por mais que ache o tópico interessante. Vamos voltar ao encerramento de A Metamorfose, portanto: à família que sai para a rua depois de meses de confinamento, vivendo o luto pela perda de um parente, e ao mesmo tempo tendo, enfim, um descanso de um longo e inimaginável esforço, exigido por circunstâncias imprevistas, que de súbito se tornaram absolutamente determinantes em suas vidas. Qualquer semelhança com nossa realidade de agora só reforça aquela observação anterior: não se trata, necessariamente, de um conto fantástico.

E, nem por isso, deixam de ser incríveis as variações da reação de quem lê. É sobre isso que eu queria falar. Essas reações podem variar inclusive para uma mesma pessoa. Na primeira vez que li, por exemplo, lembro de como a atitude da família me pareceu abominável. Na segunda vez, percebi que eu mesmo talvez não agisse de modo muito distinto nas mesmas circunstâncias. Na terceira, achei bonito o final, em que os três integrantes da família recuperam sua autoestima ao contornar a crise financeira que os ameaçou (há indícios de que antes dela os três viviam meramente à sombra do primogênito). Depois, acho que consegui conciliar um pouco essas perspectivas.

E olha que estamos falando apenas das minhas impressões. Agora imaginem acrescentar a esse caleidoscópio as leituras de vários alunos por semestre. É verdade que nem todos comentam o texto, nem todos leem, mas ainda assim são muitas perspectivas, que decorrem de diferentes campos de experiência, situações sociais, hábitos mentais, bagagens familiares, lembranças, temores, expectativas. Às vezes, o que a pessoa comeu no café da manhã interfere no jeito como ela lê o texto. Às vezes – vamos supor uma relação mais direta – a pessoa tem pânico de baratas.

E, no entanto, faz parte do nosso trabalho (sobretudo do meu, no caso) tentar entender como essas variações se articulam com sistemas mais amplos de valores. Não cabe a mim, do modo como entendo minhas tarefas docentes, oferecer uma interpretação correta do texto, mas tampouco devo me deixar levar por um relativismo preguiçoso, que ignore as potencialidades de um trabalho crítico mais atento. Ou seja: interpretações, percepções e julgamentos referentes à leitura têm implicações e consequências, carregam uma adesão natural a determinados valores, e isso deve ficar claro para eles, para os alunos. Do mesmo modo, algumas escolhas implicam a rejeição de outros valores, ou pelo menos uma escala de prioridades.  

Trata-se, assim, de uma questão pessoal e política. A maneira como respondemos a uma narrativa, por um lado, tende a estar de acordo com nossos sentimentos morais, e por outro apresenta certa coerência com nossas posições e ações práticas. O conhece-te a ti mesmo do oráculo de Delfos se aplica, então, ao trabalho do professor na leitura e interpretação de textos em sala de aula. Meus esforços nesse caso estão voltados para que meus alunos se conheçam um pouco melhor, compreendendo o que valorizam e o que repudiam a partir dessas leituras, conferindo algum grau de abstração às reações mais imediatas e concretas que elas proporcionam.

Nesse trabalho, é sempre possível identificar afirmações parecidas e recorrentes sobre um texto e seus personagens, ainda que opostas ou conflitantes, integrando sistema de valores em disputa. O interessante, e um pouco triste, no caso de A Metamorfose, é como as duas principais tendências verificadas – a que compreende a atitude da família de Gregor ao falar de alegrias e bons prospectos no final, após enfim sair de um confinamento de muitos meses, e a que condena a pressa com que ela se recupera da perda, sem nenhuma menção a Gregor durante o passeio – podem vir a ser bastante reais e conflitantes para muitos de nós, num futuro até bem próximo.

Aliás, muitos dos debates que já fizemos sobre o texto de Kafka partiram de um conflito entre alunos que entendiam as preocupações mais pragmáticas, de caráter material ou financeiro, da família de Gregor, e outros que demonstravam maior sensibilidade à fragilidade existencial e ao sofrimento psíquico prolongado de que trata o conto. Mas o relato serve também para que a gente perceba como essas não são tendências que se excluem mutuamente. Em situações extremas como as de A Metamorfose, e em circunstâncias extremas como as atuais, mais do que nunca é necessário o exercício de uma sensibilidade que ultrapasse o âmbito das primeiras reações instintivas.

Costumo ver meus alunos fazendo isso também: presumindo que, por mais que se identifiquem com maior naturalidade a um dos personagens ou perrengues do texto, é sempre preciso ter certa dose de atenção para o lugar de onde o outro está partindo. Ou seja, vejo-os assumir posições distintas, mas com cuidado para alcançar uma espécie de solidariedade mútua, diante de um caso tão singular. Em situações como a do conto de Kafka, portanto, e em situações como a de agora, isso não é mais do que reconhecer o elemento humano que está em jogo, e tal como está em jogo, em suas diversas facetas, envolvendo-se nessas contradições e nuances.

Por isso, de tudo o que já ouvi sobre A Metamorfose de Kafka, e já ouvi muita coisa (inclusive muitos “não deu pra ler, professor”, ou então, “ih, achei meio chato, só consegui chegar na terceira página”), a única coisa que teria realmente me tirado do sério, a única coisa que acharia inadmissível, a única que eu não teria tentado compreender como expressão de uma posição moral ou política legítima e coerente, seria um “e daí”. Tipo: “Pô, professor o cara virou uma barata e morreu, que que você quer que eu faça? E daí?”. Ou: “Foda-se que o sujeito morreu, que é que eu tenho a ver com isso?”, o que seria praticamente a mesma coisa.

Eu ficaria perplexo se um aluno dissesse algo assim sobre um personagem de ficção. Agora imaginem isso vindo alguém ocupando um cargo público importante, e respondendo a uma pergunta sobre 5.000 mortos entre a população que governa. Não vou me estender nesse comentário, porque ninguém merece (aliás na semana que vem voltaremos a nossa programação regular, de reflexões e brincadeiras astrológicas). Só queria deixar o registro que esse “e daí” que escutamos nessa última semana não diz respeito a nenhuma prioridade política ou econômica, não se articula com nenhum conjunto de valores, não compõe nenhum sistema de pensamento, por mais básico que pudesse ser. É apenas uma afirmação a mais da crueldade narcísica que não conhece nada além do próprio vazio.

Não escrevo para mudar a opinião de quem é capaz de consentir com essa atitude; esses, infelizmente, estão irremediavelmente perdidos. Esse “e daí” – e as aprovações que recebeu, em sua suposta “autenticidade” – é mais um tapa na cara de quem insiste em discutir com os partidários do foda-se institucionalizado. “Nós não vamos mudar, nem diante de 5.000 mil mortes, e nem diante de uma morte próxima, nem diante de ameaças à nossas próprias mortes”, é o que acredito que estão implicitamente dizendo. “Vocês ainda não entenderam: a vida para nós deixou de ter qualquer significado”.

Em tempo: quando alguém fala “e daí”, quando alguém declara que não tem nada a ver com algum assunto, não estamos mais no âmbito da política. Viver politicamente é ter a ver com os assuntos. Por isso, é mais inacreditável ainda que a declaração tenha partido de onde partiu. Não falo da pessoa, mas do cargo. Mas queria terminar lembrando dos meus alunos, cujos comentários sobre o texto do Kafka costumam ir no sentido oposto, não por estarem no outro polo do espectro político, mas por estarem inseridos nele, envolvidos com a questão humana que ele presume, e que requer tomadas de posição difíceis, jamais solucionáveis na base de um simples dane-se. Acho que foi também a falta que sinto deles, e desses debates, que me estimulou a tratar do texto de Kafka aqui.

Aquilo que vivemos presencialmente, nos cursos de humanas e artes das universidades, é, com bastante frequência, justamente o extremo oposto desse “e daí” inacreditavelmente presidencial. Talvez seja por isso que queiram sufocar – e em última instância extinguir – aquilo que somos e fazemos. Não se trata de combater uma postura política específica a partir de outra; para fazer isso todos serão muito bem-vindos em minhas aulas, só para dar um mínimo exemplo, onde talvez eu possa ajudar também a compreender melhor os valores implicados em cada posicionamento. Trata-se de eliminar a própria política do debate, uma vez que ela presume o respeito a posições contrárias às nossas, e um mínimo de sensibilidade ao sofrimento do outro.

Enfim, são muitas as metamorfoses possíveis e provavelmente em curso no período que estamos vivendo agora. Não sei exatamente quais, mas imagino que requeiram energia e dedicação do nossos corpos, mentes e almas. Infelizmente, cá estamos nós perdendo tempo com quem é imune a qualquer tipo de transformação ou mudança. Mas isso há de passar. E a literatura continuará aí, sendo não apenas um ponto de encontro para visões de mundo semelhantes, como também uma forma de elaborar visões de mundo distintas. Ela serve pra muita coisa; só não serve para a negação do mundo humano, com seus desejos, conflitos e conciliações. Para isso realmente bastam duas palavrinhas. Para isso ninguém precisa ler ou escrever livros. Para isso, de fato, basta dizer “e eu com isso?”. Para isso basta o “e daí”.

capricórnio, gêmeos, peixes

O potencial, o real e o ideal

Lamentação de Cristo (c. 1305) | Giotto

Outro dia escrevi aqui sobre Gêmeos e Capricórnio, mas deixei passar um dos temas mais importantes dessa relação: a maneira como ambos personificam as figuras do puer e do senex, ou da Criança Divina e do Velho Sábio (prefiro os termos em latim porque não carregam uma conotação positiva ou negativa). Acho que o assunto tem a capacidade de mostrar como todos nós todos temos “Gêmeos” e “Capricórnio” operando em nossa dinâmica psíquica – em alguns casos mais acentuadamente, em outros menos –, o mesmo valendo para todos os outros arquétipos do zodíaco, de modo que a interação e as negociações entre eles é que configuram de fato um mapa astral.

Por outro lado, o puer e o senex são figuras arquetípicas da psicologia analítica junguiana cuja associação com apenas um signo ou par de signos seria equivocada: há traços da criança que encontramos em Leão, por exemplo, assim como há traços do velho que podemos encontrar em Aquário. Por aí vai. E, assim como ambos podem funcionar como polaridades nos conflitos de uma mesma pessoa, eles podem funcionar como polaridades nos conflitos internos de um só signo, pela maneira como um muitas vezes presume e implica o outro. Mais à frente veremos como isso funciona em Peixes, signo no qual a criança e o velho coexistem em uma unidade problemática e rica em imagens significativas.

Voltando a Gêmeos, porém. Aqui o puer aparece em sua versão 1.0: é Hermes, ou Mercúrio, filho de Zeus, irmão mais novo de Apolo, em quem ele pregou uma peça pouco depois de nascer. Isso nos faz lembrar que existe algo de malandro e travesso na “criança divina”, mas também que existe algo de divino na malandragem geminiana. E isso é algo que a gente pode facilmente deixar passar nas descrições mais caricatas ou maliciosas de Gêmeos, um signo que, por sua própria natureza, convida a esse tipo de descrição. Fica o registro, portanto: haverá sempre algo em Gêmeos que partilha do código genético dos deuses – e haverá sempre algo nos deuses que parece proteger a alma geminiana.

Em um plano arquetípico, aliás, entendo que Gêmeos pode fazer o que quiser a vida. Veio ao mundo para brincar nos campos do Senhor, em parte por contar com a condescendência dos velhos, em parte por saber entretê-los e encantá-los (o que o aproxima do pícaro, do bufão, do bobo, do comediante). Isso é até certo ponto válido para quem tem o ascendente em Gêmeos, e algo semelhante pode ser dito do ascendente em Leão (mais informações sobre essa interpretação do papel do ascendente no horóscopo, aqui). Agora, se você é geminiano, ou tem a Lua em Gêmeos, pode ir tirando seu cavalinho da chuva, porque isso já complica um pouco mais as coisas.

A puerilidade geminiana pode até ser divina, mas nem mesmo o deus Hermes esteve à salvo de tomar uns tombos na vida. Muitas vezes, para grande surpresa dele próprio. O puer tem o impulso de transitar por aí como se fosse destinado a ser bem recebido em todos os lugares – afinal, ele é tão inocente, tão despreocupado, tão engenhoso, tão engraçadinho – até se ver diante de uma porta que bate na sua cara como se dissesse: te saquei, malandro, aqui não. Deste modo, seja sob a forma de pessoas, acontecimentos ou obstáculos, o senex vai aparecer ao puer como uma força restritiva ou limitadora, da qual ele depende para conferir as virtudes da consistência e da profundidade aos resultados de seus diversos talentos.

Então, quando digo que o puer-senex é um par que existe como tal em nossa dinâmica psíquica, é porque um depende do outro para se desenvolver. Mas nada impede que um indivíduo se identifique com o puer e projete o senex em um mundo que lhe parece limitador e restritivo, ou em figuras de autoridade que considera moralistas e enrijecidas, na tentativa de preservar um estado de eterna inocência infantil, e de preservar-se das frustrações da vida. A gente vê o tempo inteiro pessoas alegando que, se não fossem as estruturas externas limitadoras, elas teriam realizado as obras geniais que existem em latência no seu espírito. O que muitas vezes está implicado aí é que essas pessoas optaram por não internalizar a estrutura restritiva – o senex, agente do esforço, da paciência e da forma, fundamental na realização de qualquer trabalho de fôlego – de modo a não ver seus ideais reduzidos ao que a realidade seria capaz de fazer deles.

Quem já se arriscou em um trabalho criativo sabe: todo tipo de realização artística implica uma dose de resignação. O senex em nós existe para que este processo seja levado até o fim. O puer existe em nós existe para que ele comece. Por outro lado, há quem se identifique unilateralmente com a figura do senex, e alega que, se não fossem os irresponsáveis, os inconsequentes, os preguiçosos – em uma palavra, os “artistas” –, nossa sociedade estaria em um estado menos deplorável. Em toda pessoa que afirma isso, existe um puer reprimido, que quer ganhar asas e voar, ou simplesmente permitir-se algumas tardes de ócio criativo. Mas, infelizmente, o ódio destrutivo se torna o substrato alquímico de quem nega a si mesmo esses prazeres.

Ou seja, um se compromete com uma linha de ação, e não vai alterá-la nem sob a mais forte inspiração divina. Outro não se compromete com nada nem ninguém, pois nada nem ninguém parece merecer o compromisso que ele guarda para quando a hora certa chegar. No campo dos relacionamentos, então, o puer estará sempre postergando a consagração de laços estáveis, quando não está simplesmente saltando de um relacionamento para o outro, e não só por imaturidade. Às vezes, ele carrega o sentimento de estar destinado a algo especial, e o rompimento precoce das relações é uma forma de evitar que se desdobrem da maneira ordinária e tão ameaçadora para o ideal.

Quanto ao padrão de comportamento do senex nessa área, vou precisar de fazer ainda um texto à parte com um estudo de caso, o do escritor russo e aquariano Anton Tchekhov, que só descobriu o puer que existia nele após seu retorno de Saturno, aos trinta anos. A história é intrincada e merece ser bem descrita. Farei isso em breve. Dá para antecipar que, enquanto a volatilidade é o traço mais marcante do puer enquanto amante, o senex ocupa com sua rigidez um polo oposto, fixo e encastelado. “Encastelada”, porém, é, curiosamente, a situação arquetípica em que encontramos a puella, a versão feminina do puer.

Ela é a princesa que, nos contos de fadas, encontra-se à espera de um milagre. Mas o comportamento ativo e volátil do puer mercurial e a atitude aparentemente passiva e fixa da puella sonhadora são iguais em sua rejeição do compromisso e do engajamento em uma história verdadeira. A propósito: que a puella se queixe da falta de seriedade ou bravura de seus pretendentes pode muito bem ser o motivo pelo qual ela escolhe pretendentes pouco sérios, ou pouco corajosos, para ter de quem se queixar. Até certo ponto, o puer e a puella vivem muito bem e despreocupadamente no plano das potencialidades abertas e imaginadas. Na medida em que o tempo passa, porém, eles podem precisar mais e mais de ter a quem culpar pelo fato de nada ter sido realizado.

Aliás, uma boa maneira de identificarmos uma possível adesão unilateral nossa a um desses arquétipos é um excesso de reclamações gratuitas a respeito do outro. Quando a gente começa a distribuir sem critério lamentos e acusações sobre a natureza pueril ou inconsequente de pessoas com quem nos relacionamos, no presente ou no passado (pessoas que talvez até possuam essas características, mas não a ponto de merecer tanto de nossas atenções e memória), é provável que exista algo em nós precisando de descanso, liberdade e ânimo criativo. Por outro lado, quando a gente começa a denunciar o moralismo ou o materialismo do resto mundo ao redor, sem que ninguém tenha pedido nossa opinião, é possível que nossa opinião esteja enviesada pelo desejo inconsciente de receber um pouco de admiração e de respeito bem mundanos (ou seja, a admiração e o respeito que as realizações mundanas outorgam ao senex).

Podemos ter uma afinidade maior com um desses arquétipos sem converter isso em uma neurose mais grave, é claro. Assim como podemos alternar entre um e outro no tempo e no espaço. Um equilíbrio absoluto entre esse tipo de polaridades é por definição impossível – tudo o que podemos tentar obter é uma espécie de equilíbrio dinâmico. Nem por isso análises pouco equilibradas do fenômeno são menos enriquecedoras, e as mais famosas se notabilizaram exatamente por tomarem partido de um ou de outro.

Recomendo, em primeiro lugar, um estudo que é notavelmente anti-puer, não necessariamente tomando o partido do senex, mas vendo-o da perspectiva do arquétipo materno feminino (que seria em parte responsável pelo menino mimado que ele se tornou, mas também capaz de lhe impor limites de uma origem mais atávica e profunda). Falo do livro de Marie-Louise Von Fraz, Puer Aeternus: a luta do adulto contra o paraíso da infância, que começa por uma análise da dimensão pueril de O Pequeno Príncipe e da personalidade de seu autor, Antoine de Saint-Exupéry. A autora, cabe lembrar, foi colaboradora de Carl Jung, e se tornou conhecida por suas análises da psicologia dos contos de fadas.

Outro livro importante, este mais abertamente favorável aos talentos e inspirações do puer (justamente no confronto com as limitações e rabugices do senex) é The Puer Papers, de James Hillman. E, para quem quiser ter uma visão mais ironicamente balanceada, indico o último ensaio de Liz Greene do primeiro volume dos Seminars on Psychological Astrology, que que já mencionei nas indicações bibliográficas dessa postagem aqui. Este tem a vantagem de ver o assunto na perspectiva da astrologia e do zodíaco. Mas a primeira parte do ensaio não presume nenhum conhecimento prévio nessa área, e pode ser útil mesmo para quem quiser ver as coisas de um ponto de vista estritamente psicológico.

Agora, para terminar, temos o puer e o senex em Peixes, como mencionei lá no começo. E aqui as coisas ficam bem interessantes. Porque, por mais que a gente queira matizar os raciocínios e os estereótipos, dá para ver como Gêmeos e Capricórnio costumam representar bem os comportamentos polarizados do puer e do senex, respectivamente. Quando falamos de Peixes, no entanto, a infantilidade e a senioridade coexistem no arquétipo de modo mais intrincado e sutil; em Peixes habitam uma criança e um ancião que são uma mesma pessoa, e isso gera alguma confusão, como era de se esperar, mas pode também criar uma nova espécie de beleza, através justamente do resultado do confronto entre o potencial e o real. Dá para a gente ver isso no comportamento de alguns piscianos. Mas, antes, para termos um caminho para a aproximação a esse fenômeno, dá também para gente ver como isso aparece na história de Jesus Cristo.

Pois Cristo, além de ser um inaugurador apropriado da Era de Peixes que se encerra agora, integrou também a linhagem da criança divina. Aliás, Liz Greene observa como o puer arquetípico muitas vezes aparece com as mãos ou os membros machucados ou mutilados, o que parece ser uma consequência de seu contato com o mundo, com a matéria, com a realidade. Um primeiro exemplo é Ícaro, herói tipicamente juvenil, que recebeu suas asas de Dédalo, sob advertências para que não se deixasse levar pelo entusiasmo, sendo que nem isso impediu que ele as queimasse ao ir de encontro ao sol. Jesus, por sua vez, partilha desse destino de um modo ao mesmo tempo mais trágico e menos catastrófico: sua derrocada no plano terreno é um fracasso que não deixa nunca de prometer futuros sucessos.

Notem: a humanidade a princípio não recebe muito bem sua palavra, com seus ideais elevados e pouco práticos, meio piscianos mesmo, e pelo menos parte dela, a que se encontra em posições de autoridade estabelecidas e imperiais, se mostra bem convicta de que cravá-lo em uma cruz e expor sua corporeidade humana sangrando é a melhor coisa a fazer. Dostoievski explorou esse argumento em “O Grande Inquisidor”, um conto enxertado no romance Os Irmãos Karamazov, que pode ser lido separadamente; nele, Cristo retorna e é mais uma vez crucificado por ordem de um senex da igreja inquisitorial que está plenamente consciente de sua filiação.

Mas, por mais doloroso que seja seu fim, ele depende dessa morte para permanecer como uma espécie de ideia, fomentando o sonho de que um dia o reino que prometeu chegará, será realizado, está por vir. Existe então certa cumplicidade entre a dimensão espiritual, a que se eleva para além do raso das ambições terrenas, e a material, que a traz para o chão de modo que possa alçar outro tipo de voo. O mito não diz respeito apenas ao personagem, mas está inevitavelmente ligado à sua história, a tal ponto que suas escolhas e o que lhe é imposto desde fora se entrelaçam e se confundem. Em um certo sentido, Cristo se oferece em sacrifício no plano material para manter vivo o sonho do que prometeu.

Nesse sentido, para quem já chegou aos 40, como eu, é interessante perceber que Jesus Cristo nunca chegou a ser exatamente um adulto. Ele mal superou seu retorno de Saturno e já foi correndo caçar encrenca que interromperia sua vida pouco depois. Carregou sua cruz, é verdade, mas só por um caminho bem curtinho; esse caminho pode muito bem ser sum símbolo do que todos nós temos que suportar em nossas trajetórias individuais, mas não deixa de ter sido para ele relativamente breve, levando-o a uma morte precoce. Ou seja, o Jesus histórico nunca deixou de ser um puer. Mas o Jesus simbólico é também a cruz, a matéria, e realidade que o nega e o rechaça, e, portanto, é a promessa que ainda assim sobrevive à crucificação, é o reino impalpável e imune a qualquer teste do real que nasce junto com ela.

Por isso, o tipo de sonho e de idealismo que encontramos em Peixes pode ser tão resistente à realidade dos fatos. Porque não aponta para algo que se imagine realizável nesse mundo, não se trata de um potencial a ser testado aqui. Muito pelo contrário: esse mundo pode refutar a aspiração pisciana de todos os modos possíveis, pode até mesmo pregá-la numa cruz e fazê-la sofrer humilhações e derrotas, que ainda assim ela sobreviverá, será inclusive alimentada pela frustração e pela violência. É claro que isso pode ter consequências complicadas no plano individual, e com frequência tem. Mas nem por isso deixo de ver no plano arquetípico uma bem-vinda síntese, ainda que aberta para o futuro e para o porvir, na história dos confrontos e dos encontros entre puer e senex.