astros, peixes

Sonhos de Cassandras

Troia em chamas (c.1759) | Johann Georg Trautmann

Alguns mitos são periodicamente reencenados de maneiras imprevistas. Por exemplo: diz-se que, no local da Grécia Arcaica onde seria situado o templo de Delfos (consagrado a Apolo), havia outrora uma profunda fenda no chão de um terreno onde ovelhas costumavam pastar. Se alguma delas se aproximasse demais da fenda e olhasse para dentro, começaria a “pular de maneira espantosa e balir num tom aflito, anormal”, segundo Diodoro Sículo. Os humanos que investigassem o mistério também entravam em estado de transe, e um deles, em seu delírio, passou a predizer o futuro. Por isso o local veio a ser considerado miraculoso: o povo acreditava que o oráculo havia sido uma dádiva de Gaia, a deusa da Terra.

Como muitas pessoas se perdiam e desapareciam dentro da fenda, pareceu adequado aos habitantes dos arredores designar uma única profetisa, que seria encarregada de receber seus espíritos, sob a proteção da serpente Píton. Este foi o “dragão-fêmea, monstro enorme e horrendo” que Apolo derrotaria para assumir o posto de oráculo de Delfos, na narrativa dos hinos homéricos. Esta luta e sua vitória coincidem com uma substituição de aspectos arcaicos da antiga religião por uma visão mais ordenadora e racional do mundo. Foi também nessa época que Apolo se diferenciou de seu irmão Dionísio, um deus da natureza, passando a representar a objetividade, a índole científica e a clareza lógica que caracterizou a Grécia
Clássica.

A oposição e complementação entre Apolo e Dionísio ficou conhecida através da obra de Nietzsche sobre o nascimento da tragédia. No entanto, conhecemos menos a história de Cassandra, a filha de Príamo que sonhou com a derrocada de sua família e da cidade de Troia, mas não encontrou quem acreditasse em sua profecia. Anos antes, ao frequentar o templo de Delfos, ela havia recusado um pedido de Apolo, e foi amaldiçoada pelo deus com o descrédito de todas as suas visões. Desesperada por prever um futuro terrível e não ter como prevenir os seus familiares, Cassandra perdeu passou a chamar a atenção para seus vaticínios de formas incomuns ou mesmo exageradas, sem nunca obter sucesso. Pode-se dizer que começou a balir como as ovelhas da lenda, no que viria a ser descrito no século XIX como o típico comportamento de uma mulher histérica.

A analista junguiana Laurie L. Schapira estudou a maneira como o diagnóstico da histeria esteve vinculado ao descrédito da intuição feminina nesse período. Pois se, por um lado, o poder premonitório de Cassandra se manteve na experiência de inúmeras mulheres, Apolo seguiu fazendo seu trabalho de desqualificá-las como criaturas descontroladas. O próprio Freud pode ser acusado de ter reduzido poderes verdadeiramente estranhos de feiticeiras medievais ao “meramente histérico”, acompanhando Edward Jorden, autor da primeira obra em língua inglesa sobre o assunto. O estado de transe ou de possessão fica assim compreendido como um sintoma, com a simulação de desmaios e tremores para realizar algum tipo de chantagem ou manipulação emocional.

Mas as duas coisas não são excludentes. Podemos presumir que Cassandra de fato tenha o dom de prever o futuro, e que, ao perceber-se incapaz de persuadir os outros do que vê, passa a utilizar formas mais insidiosas de convencimento, que podem acabar distorcendo sua própria visão. Ou então, diante da crueldade da barreira imposta pelo ressentimento de Apolo, ela simplesmente recai no desespero e começa a berrar feito uma louca. De um jeito ou de outro, possui motivos suficientes para sentir-se vitimizada durante boa parte de sua história, pois tem sua imagem pública e seu ego massacrados não apenas por Apolo, como também por Príamo, Agamenon, Hécuba e Clitemnestra, a tal ponto que ela mesma já não crê suas visões. O trabalho clínico que Schapiro narra diz respeito a longas trajetórias de mulheres tentando recuperar a crença em si mesmas.

Quanto à astrologia, não me parece casual que o mito de Cassandra tenha reaparecido através da questão da histeria justamente quando Netuno passou a integrar nosso mapa do cosmos, na segunda metade do XIX. Netuno é o regente de Peixes, e Peixes é sem dúvida o arquétipo mais intimamente ligado à história de Cassandra. É verdade que geralmente o associamos ao aspecto vago e delirante dos cultos dionisíacos, assumindo por esse viés o contraste com as formas e a lógica apolíneas. Mas Peixes merece mitos femininos para ser explicado e compreendido, até porque suas águas são a origem de tudo, e quando damos um nome à origem de tudo a chamamos de Grande Mãe.

Sabemos que Peixes está em contato com os mananciais intuitivos e premonitórios que corriam no fundo da fenda de Delfos. Esse poder está de acordo com a natureza psiquicamente permeável do signo. Sabemos também como esse aspecto da personalidade pode ser diminuído e desacreditado na sociedade contemporânea, ou isolado como sinal de debilidade e loucura. Com isso, cria-se sempre o risco de que Peixes reincida permanentemente no papel de vítima, ou crie relações de dependência que o tornam um chantagista do zodíaco em potencial, como tentei descrever em outra postagem. 

Assim, o desejo que têm de fazer com que os outros vejam o que surge em suas visões, o descrédito que suas estranhas percepções encontram no mundo social, e a maneira como a realidade dos sonhos é destituída de valor à luz do dia – tudo isso pode tornar a história de Cassandra bastante real para alguns piscianos. O caminho para se lidar com esse impasse é um fortalecimento do ego que não signifique a supressão da alma; basicamente, é o de descobrir-se na posição da pitonisa protegida pela serpente, uma personificação de forças naturais que assume face humana, mas não se identifica exclusivamente com a vítima ou com o algoz do mito.

Agora, pensando aqui porque estive envolvido com a história de Cassandra esses dias, me ocorrem duas possibilidades. A primeira é a de que, por ter voltado a agendar consultas, entrei novamente em contato com a Cassandra do meu mapa natal, que está em conjunção com Saturno e o Nodo Norte em Virgem. Sim, Cassandra é um asteroide (o número 114, segundo classificação da IAU, para quem quiser localizá-lo no próprio mapa através do astro.com), e todos nós revivemos seus dilemas de um modo mais ou menos acentuado durante a vida. No meu caso, a posição implica que lido com o ofício do aconselhamento como uma grande responsabilidade, às vezes com certo desconforto mesmo, mas é algo que o trabalho e a experiência podem atenuar, e que vale a pena tentar como uma novidade nesta vida.

A outra possibilidade diz respeito às lembranças que o Facebook tem diariamente trazido nas últimas semanas. Fiquei com a impressão de que, cerca de um ano atrás, na fase final das eleições para presidente no Brasil, estávamos – eu e vários amigos pelo menos – basicamente balindo e berrando de desespero por não conseguir persuadir conhecidos e familiares do futuro desgraçado que vimos à nossa frente. Na época, muita gente teve de fato pesadelos apocalípticos que pareciam verdadeiras premonições, gente que não estava particularmente interessada da eleição de um candidato ou partido, mas que ficou atordoada com a súbita viabilidade eleitoral de um político de aspecto ao mesmo tempo demoníaco e subalterno, identificado com alguns fatos atrozes do passado algumas banalidades do mal no presente. 

Essas pessoas, me incluo entre elas, muitas vezes se desesperaram menos com a oposição aberta dos entusiastas da extrema direita do que com o descrédito que recebemos de quem esperávamos maior lucidez. Acusações diretas ou veladas de histeria se tornaram usuais (“fascista nada, que exagero, ele é só um sujeito antiquado”), eventualmente com a acusação implícita de que estaríamos manipulando sentimentos e nos excedendo nas emoções para converter indecisos. Mas não havia cálculo nesse sentido, só mesmo o pânico alternado com tentativas de diálogos seguidas de frustração e mais pânico ainda diante da catástrofe iminente, com a sensação de atônita impotência diante da abertura dos portões da cidade para a barbárie. Fomos milhões de Cassandras em estado de transe, e mesmo quem não é pisciano nem particularmente intuitivo talvez saiba melhor agora do que estou falando, porque não era necessário ser nada disso para sentir-se amplamente desacreditado naquilo que nos parecia tão óbvio.

Não vem ao caso discutir se as previsões estavam certas ou não. Posso apenas oferecer minha visão pessoal, que é a de que estou escrevendo essas linhas enquanto Troia arde em chamas. Talvez você tenha exercido comigo o papel de Cassandra naquela época, e esse texto fica como registro de solidariedade. Talvez você tenha ocupado uma posição diferente, entre as poucas que se ofereceram no cenário. Agora, se o seu papel tiver sido especificamente o de Príamo, que desconsiderou as visões da filha, e acabou tendo sua cidade queimada e saqueada, espero que a história tenha servido como um ensinamento e um alerta. Quando as ovelhas começam a saltar e balir feito loucas, repare bem: talvez elas estejam com a razão.

Serviços

Agendamento de consultas

Essa postagem é só para informar que estou com a agenda de consultas aberta para janeiro. Tive que interromper os atendimentos por um tempo, mas sinto falta da astrologia na prática e da prática da astrologia. Gosto de ver os arquétipos que tento descrever aqui personificados em suas infinitas combinações e contradições. Além disso, é sempre uma sorte perceber que conhecimentos que adquiri com tanto prazer podem ser verdadeiramente úteis para outras pessoas.

Para quem não sabe (acho que nunca falei disso aqui no blog), faço leituras de mapas astrológicos e consultas sobre temas específicos a partir da interpretação dos mapas, presencialmente (no Rio de Janeiro) ou por skype. Levo bastante a sério este tipo de serviço, ainda que tentando preservar certa leveza. O propósito é sempre o de ajudar o consulente a compreender dificuldades, desafios e potencialidades pessoais pelo viés astrológico, além de oferecer auxílio em decisões importantes. Para isso, diferentes técnicas de leitura e interpretação dos mapas são utilizadas.

Quem quiser mais informações e eventualmente agendar uma leitura pode usar qualquer um dos contatos listados aqui na página. Mas peço que deem preferência ao email (gnavesfranco@gmail.com), pois é com ele que consigo me organizar melhor.

touro

Touro é um mistério

Tarsila do Amaral | Paisagem com Touro (1925)

“La casa de Astérion” é um conto do escritor argentino Jorge Luis Borges em que o Minotauro faz o relato de seus dias no interior do labirinto na ilha de Creta, enquanto aguarda a chegada de um herói que o virá redimir. Ele fala de suas rotinas, afazeres, apetites; é honesto, afável, simplório até; está longe da figura do monstro devorador de donzelas que seria assassinado por Teseu. No entanto, terminada a história, sentimos que algo de sua experiência nos escapou, no mesmo instante em que foi revelado. De modo que, por mais generoso que tenha sido o relato, o Minotauro permanece um mistério.

Acho que algo semelhante pode ser dito a respeito de Touro. Por um lado, é um signo que aceita simplificações, e tem um aspecto pragmático, que não reclama de ser reduzido aos nossos assuntos mais palpáveis: comida, sexo, dinheiro. A besta mitológica que está por trás do arquétipo ganha assim ares bastante terrenos. No entanto, uma vez alcançada a matéria bruta de nossos apetites mundanos, descobrimos que eles mesmos contêm algo de misterioso, ou melhor: que eles mesmos são misteriosos. Não sabemos de onde vem essa vontade de comer, de foder, de viver. Nem precisamos saber, é verdade, mas isso não torna o assunto menos enigmático. 

Todo signo sabe de algo que os outros não sabem. Mas acho que Touro tem a peculiaridade de saber algo muito simples que ele próprio não entende direito, ou talvez não possa verbalizar, por ser algo que existia antes do verbo. Exatamente por isso, é silenciosamente obstinado: não saberia explicar porque faz o que faz, mas isso nem de longe é motivo para deixar de fazer. Talvez você já tenha estado diante de um taurino que tomou uma decisão, e talvez você tenha considerado essa decisão um equívoco, e talvez tenha tentado dissuadi-lo de agir assim. Lembra de como o taurino parecia até estar te escutando enquanto você falava, e depois fez o que tinha decidido fazer de qualquer jeito? Pois é.

Enquanto a gente fala, Touro aproveita o tempo para se entreter com as sensações que o motivam a agir, e que são motivos mais fortes do que quaisquer argumentos. Enquanto a gente argumenta, ele entra em contato com o fato de que certas coisas simplesmente precisam ter andamento, porque as forças primitivas que o movem assim decidiram. O que a gente vê em seu rosto é só a superfície serena de convicções tão profundas quanto a certeza de que a gente precisa comer quando está com fome, e dormir quando está com sono. Touro é uma espécie de energia, de élan vital, de força motriz do universo. No entanto, por mais que isso possa parecer algo de outro mundo, nenhum outro signo é mais dessa Terra.  

Touro é um mistério, portanto, que se manifesta naquilo que é ordinário (o extraordinário é do âmbito de Escorpião, seu oposto complementar). De modo semelhante, os chamados mistérios medievais eram encenações simples e populares em que as imagens mais elevadas do cristianismo ganhavam corpo por intermédio de companhias teatrais de artesãos e camponeses, que as adaptavam de acordo com suas realidades materiais e cotidianas. Aliás, a cena da Natividade, muito comum nessas quermesses, com seus pacíficos boizinhos e bezerros rodeando o milagroso rebento de Maria, é a cena mais prosaica da história de Cristo – e é uma cena muito taurina.

Já os festivais gregos intitulados Misteria eram dedicados a Deméter, uma versão humanizada de Gaia, a mãe Terra, e mais amplamente àquilo que Goethe chamou que “segredo público sagrado”, isto é, a natureza. Pois a natureza é de conhecimento comum e está disponível ao olhar de todos; porém, ela parece guardar um segredo que todos nós sentimos des-conhecer, como se um finíssimo véu a cobrisse, mesmo diante de suas paisagens e criaturas mais vulgares, ou sobretudo diante delas. O culto ao segredo que existe nos ciclos mais previsíveis do mundo natural parece existir desde que existe a humanidade, ou pelo menos desde a taurinidade existe. Touro é a expressão de verdades muito básicas – e ao mesmo tempo seu encobrimento.

Conheço taurinos que reagiriam com certo fastio diante dessas digressões: não complica, a gente é simples mesmo, não estamos escondendo nada. Sim, eu sei: comer, foder, viver. Maravilha. Não disse que não existe simplicidade aí. Mas se, por um lado, o simples se opõe ao complicado, por outro não exclui o maravilhoso. Um pouco como na história do discípulo que perguntou ao mestre qual seria o sentido da vida. O mestre ergueu os braços, um pouco escandalizado com a pergunta, e disse: “Mas eu não estou te escondendo nada!”. O rapaz ficou sem entender, e deixou pra lá. Dias depois, ele e o mestre estavam caminhando no campo. Céu azul, vento fresco, barulho de água. O rapaz comentou como o dia estava bonito e agradável. O mestre: “Viu como não estou te escondendo nada?”

É possível maravilhar-se com as coisas mais imediatas e terrenas. Para todos os efeitos, Buda era taurino, a propósito. O aniversário do príncipe Sidarta Gautama é comemorado no fim de abril. Que ele tenha aquele jeitão satisfeito e rechonchudo talvez não seja uma mera coincidência, afinal. Mas, sério: aquele sorriso, o sorriso do Buda, aquele sorriso satisfeito do Buda, aquele sorriso rechonchudo do Buda, é disso que estou falando no final das contas. Nunca me pareceu coisa de quem evadiu do plano físico para algum tipo de dimensão espiritual impalpável com algum nome exótico em japonês. Não: o Buda ri daquele jeito porque está ali em seu corpo e só ali em seu corpo e em nenhum outro lugar. Parece que acabou de limpar um belíssimo prato de arroz. E no entanto, apesar disso, ou por causa disso mesmo, seu sorriso permanece um enigma.

Isso me faz lembrar a história de um monge que, quando perguntado sobre o que é o Zen, respondeu: “Quando estamos sentados, estamos sentados. Quando estamos em pé, estamos em pé. Quando estamos comendo, estamos comendo”. Percebam: não tem nada de muito complicado para se interpretar nessas frases. Elas não estão aludindo a algum tipo de segredo inacessível para nós. Elas são o que são. E no entanto, não deixam de soar um pouco inesperadas. É mais ou menos como se perguntássemos aos céus qual é a realidade fundamental do cosmos, e um boi ao nosso lado respondesse com um mugido. Seria uma resposta adequada, simples, direta, creio que bastante correta até. E ainda assim nos deixaria um pouco perplexos, e ainda assim ficaríamos desconcertados.

Em resumo, Touro é um mugido. E eu não acredito que escrevi um texto inteiro para chegar a uma conclusão assim, quem sabe até levemente ofensiva. Talvez eu mesmo esteja tentando criar algum tipo de desconcerto, e imitar o tom de benevolente sarcasmo que costumo perceber por trás do sorriso tauríneo, assim como percebo no sorriso do Buda – um sarcasmo tão sutil que me parece vir de profundezas anteriores ao verbo e ao próprio sorriso, e que me causa uma fascinada perplexidade. Não, eu nunca vou conseguir imitar esse sorriso. Mas me contento bastante em ser aquele que o vê aqui do lado de fora. Acho que o sorriso de Touro é uma espécie de segredo público sagrado. Assim como a natureza. E comer, foder, viver. Enfim, todas essas coisas que são comuns até não poder mais – e que, por outro lado, talvez sejam exatamente as coisas que a gente vai encontrar como solução para o enigma da esfinge, após todos nossos esforços para chegar ao centro do labirinto.

astros

O fracasso segundo Quíron

Edward Hopper | Automat (1927)

“Você tem que amar antes”. Lembro do soco no estômago que senti ao ler essa frase. Eu estava na época começando a dar aulas em uma universidade, e, jovem professor doutor com um punhado de autores na ponta da língua, esperava ser admirado pelos meus alunos. Mais que isso: eu esperava ser amado por eles, como consequência da admiração talvez; e não entendia porque isso não acontecia, porque eu os sentia distantes, desconfiados, desconfortáveis. Então, de repente, lendo por acaso aquele conto de Harold Brodkey (“State of Grace”, em First Love and other sorrows), percebi que eu mesmo nunca tinha demonstrado carinho por meus alunos, nem admiração, nem preocupação, ocupado que estava em exibir meus títulos e conhecimentos eruditos. Percebi que estava fazendo tudo errado se o que eu queria era amor. “Você tem que amar antes, estúpido. Você tem que amar antes”.

Desde então, às vezes me lembro desse instante, sobretudo quando Quíron aparece na minha vida, através de um encontro com o arquétipo, trânsitos astrológicos, consultas, leituras e tal.  Aí recentemente me peguei tentando entender o que uma coisa tem a ver com a outra. Aconteceu depois que tive notícias que remetem a um bairro de subúrbio onde passei parte de minha infância e adolescência. Era um desses lugares baldios onde a pobreza não é o suficiente para levar ninguém ao desespero, mas é o bastante para causar uma vaga desesperança, na coexistência de jovens desocupados e tios bêbados, adultos desempregados e idosos tristes – e onde, por mais que exista uma memória de bons tempos passados, com frequência paira uma penosa sensação de fracasso no ar.

Como dói, às vezes, quando tenho notícias desse lugar. É aquela dor que costumamos associar ao mito de Quíron – incurável, permanente, ferida aberta que remédio algum vai inibir. E, ainda assim, volta e meia percebo como tanta coisa na minha vida foi voltada para uma tentativa de curá-la. Todas as vezes que entendi uma conquista profissional como um sucesso capaz de aliviar minhas tristezas, ou que confiei no dinheiro como único recurso para me sentir menos vulnerável, acho que estava querendo de algum modo superar o medo de ficar estagnado em um dos fins de tarde mormacentos que vivi ali, sem outra perspectiva para a noite que não fosse continuar perambulando por lá.

Acredito que, de um jeito ou de outro, todo mundo sabe bem do que estou falando. Todo mundo tem um bairro pobre pra chamar de seu. Às vezes ele vai estar no carinho minguado que recebemos de um de nossos pais, mesmo quando o dinheiro nunca faltou; às vezes vai estar na pouca inteligência e cultura que parecia existir em casa, mesmo quando não faltava afeto. Curiosamente, é aí que passamos uma vida tentando encontrar nos relacionamentos a segurança que nosso pai nunca deu, ou acumulando títulos e reputação e publicações acadêmicas em currículos intermináveis – isso quando não saímos enumerando autores e obras diante de alunos intimidados, na expectativa de que eles enfim vão nos render as homenagens que a vida nos tem negado.

Então: esse bairro pobre, esse território de nossa psique que é atravessado por uma sensação de irremediável carência ou insegurança, é regido por Quíron. Não estou falando dos pântanos sombrios onde sofremos e cometemos os mais graves abusos – esse é o Hades de Plutão –, nem da pista de obstáculos e contrariedades que nos levam a algum tipo de sucesso – essa é a órbita de Saturno. Estou falando de um lugar que é exposto o suficiente para tentarmos escondê-lo através do acúmulo de emplastros, mas profundo o bastante para tornar um fiasco todos esses esforços. O fracasso segundo Quíron, então, é condição necessária para aceitarmos aquilo que em nós não tem conserto, quando percebemos que a maquiagem fica pior que a cicatriz, e que o problema talvez esteja na vontade de consertá-la.

Acho que associo isso tudo àquele início de minha atividade como docente por dois motivos. O primeiro é porque o Quíron da lenda era um professor, tutor de Aquiles e outros belos heróis, mas ele próprio destituído de beleza e heroísmo. Assim, se o Amor, segundo Sócrates, é aquele que busca o que não tem, e deseja o que não é, por sua vez Quíron é capaz de conceder o que nunca obteve, e distribuir o que nunca recebeu. Imagino, aliás, que essa seja uma das definições da docência, assim como é das artes terapêuticas, na medida em que o professor deseja que seus alunos obtenham sucessos e conquistas que ele mesmo nunca alcançou, e pode tornar-se uma figura essencial nesse processo.

O segundo motivo, menos evidente, porém mais decisivo, e relacionado a este último, está provavelmente no fato de que Quíron só encontra algum tipo de cura para si quando entende que vai ter que curar os outros antes. Para quem quiser um relato mais completo dessa história, fiz em outra postagem, está aqui. E o fato é que também como professor, como professor doutor, como professor doutor na universidade, talvez eu estivesse querendo mostrar aos meus amigos e aos tios bêbados lá do bairro que eu consegui sair para o mundo e me tornei uma espécie de sucesso. Queria sua estima, seu respeito, seu amor, como quis a dos primeiros alunos que tive na universidade. E fiz de tudo para conseguir isso, menos o que seria mais óbvio, menos o que seria mais fácil, que seria demonstrar minha estima e meu respeito primeiro.

Sim, eu os estimava, os tios bêbados inclusive – caso contrário não buscaria sua admiração. Mas ao querer que me amassem através da consideração de meus sucessos, eu podia muito bem estar dando a entender que os considerava fracassados. A propósito, todos nós temos riquezas genuínas, que podem ser exibidas sem fazer ninguém se sentir mal. Mas, se a ostentação dos recursos obtidos para ocultar a percepção de uma falta gera desconforto, é porque sentimentos reprimidos de inferioridade criam desejos reprimidos de superioridade, capazes de manifestar-se de maneiras insidiosamente cruéis. Com tristeza, a gente tem que registrar que a atividade docente é terreno fértil para isso também.

Melhor ficar com a falta mesmo, melhor ficar com a ferida, melhor ficar com a derrota que nos aguarda de todo modo. Não porque ostentá-la nos tornará merecedores de carinho e atenção, mas porque aceitá-la é criar tempo e energia para outras coisas mais importantes, como amar e admirar as pessoas que amamos e respeitamos. E, se fizermos essas coisas antes, quem sabe de repente os outros assuntos estarão resolvidos. Sem a gente nem perceber.

astros, escorpião

O dia em que Plutão entrou em Escorpião

Angels in America / Dir. Mike Nicholls (2003)

Plutão em Escorpião não está nas cabeças da vontade popular, segundo a enquete ainda em andamento, mas eu não teria como deixar passar os 25 anos de Angels in America sem um comentário a esse respeito. De modo que vou deixar essa notinha aqui enquanto aguardo o resultado (até o momento temos uma emocionante disputa entre Touro e Quíron, e quem quiser pode ainda votar aqui).

Bom, para quem já está assustado com Mercúrio retrógrado em Escorpião e tudo mais, é bom adiantar que Plutão não está em Escorpião agora. Mas estava em 1991, quando estreou a peça de Tony Kushner, e havia ingressado em Escorpião em 1984, período em que se passam os momentos iniciais da história, quando o vírus HIV começava a se disseminar na comunidade gay de Nova Iorque.

Não é o caso de fazer uma análise da obra ou de suas adaptações e montagens, até porque várias já foram feitas esse ano. E, para quem não conhece, fica a recomendação de que assistam a minissérie com Meryl Streep, Al Pacino e Emma Thompson, entre outros atores e atrizes incríveis.

Basicamente, o que eu queria dizer sobre a peça é que poucos trabalhos artísticos representam tão claramente o espírito de um determinado trânsito astrológico de longo prazo, e um arquétipo em sua força máxima. Afinal, Plutão é o próprio regente escorpiônico, em seus intensos ciclos morte e regeneração.

Vou mencionar dois trechos que exemplificam esse ponto. Ambos surgem em cenas da personagem Harper, interpretada na série por Mary-Louise Parker, que costuma ter sonhos e alucinações peculiares. No primeiro trecho, ela está na plateia de um teatro vazio, atordoada com uma série de eventos em sua vida, sentindo-se incapaz de reerguer-se e reorientar-se. Então pergunta a uma estátua de cera: “Como é que as pessoas mudam?”. E ela obtém uma resposta.

“Bom, tem a ver com Deus, então não é muito confortável”, diz a estátua, que de repente ganha movimento e voz. “Primeiro, Ele rompe sua pele com uma unha dentada da garganta até a virilha. Então enfia a mão imunda lá, começa a arrancar suas tripas, e elas escorregam e escorregam, mas ele aperta firme, até tirar de você todas as entranhas, e a dor… você não consegue imaginar a dor. Não dá nem para falar a respeito. Então ele mete tudo de volta, tudo sujo, misturado e arrebentado. Cabe da você dar os pontos”.

Não vou comentar. Quem quiser ver a cena, está aqui. Além disso, acho que vale pra esse caso o texto que já fiz em outra postagem, sobre a quadratura de Plutão, um trânsito que todos vivemos em algum momento da vida, geralmente com uns trinta e tantos anos. Todo mundo que já passou por ele sabe do que o texto da peça está falando.

O outro trecho é o monólogo final de Harper. Acontece anos depois dos primeiros eventos narrados, já no começo dos anos 1990, quando a descoberta do AZT e a evolução do conhecimento científico a respeito da AIDS tornou o ambiente menos carregado e desolador, ao menos desse ponto de vista. Ela está fazendo uma viagem, e diz:

“Voo noturno para São Francisco. Seguindo a lua através do país. Há anos que não entrava em um avião! Quando chegarmos a 35.000 pés, alcançaremos a tropopausa, o grande cinturão de ar quieto. É o mais perto que chegaremos da camada de ozônio. Eu sonhei que estávamos lá. E o avião ultrapassou a tropopausa, e chegou ao círculo de cima, à camada de ozônio, que estava rasgada e esgarçada, com os retalhos flutuando aqui e ali, e aquilo dava medo, mas vi algo que apenas eu podia ver, por causa da minha assombrosa habilidade de ver essas coisas… Almas estavam subindo, lá debaixo, lá da Terra, as almas dos mortos, de pessoas que pereceram, com a fome, com a guerra, com as pragas, como paraquedistas ao reverso, com os braços esticados, girando, e as almas desses mortos davam-se as mãos, enganchavam os calcanhares, e formavam uma teia, uma rede de almas, que eram formadas de três átomos de oxigênio, a substância do ozônio, e a camada de ozônio as absorvia, e era reparada. Nada está perdido para sempre. Há nesse mundo uma espécie de progresso doloroso, em que sentimos falta do que deixamos para trás, e sonhamos com o que virá. Pelo menos, é assim que penso”.

Acho que também essa passagem dispensa comentários. E a propósito: “O dia que Urano entrou em Escorpião” é um conto de Caio Fernando Abreu, do livro Morangos Mofados, que usei como referência para o título dessa postagem. O conto é lindo, recomendo também.

Todos os signos

Signos e séries

[James Gandolfini em Família Soprano]

O pessoal do departamento de marketing aqui do blog sugeriu que eu fizesse um post sobre signos e séries, juntando tudo de bom que tem na internet. Melhor que isso, só se fosse sobre signos, séries e gatos. Nem chego a tanto, mas andei reservando alguns instantes de ócio criativo para conceder prêmios imaginários a personagens de séries, pela representação de traços dos arquétipos do zodíaco em suas atuações. A lista está em construção, pode ter ajustes, e aceito críticas ou sugestões, mas no pé em que as coisas estão THE LUAS DE JÚPITER HERMES AWARDS GOES TO:

Áries

Nancy Botwin (Marie-Louise Parker, em Weeds). Faz o que precisa ser feito, é pioneira em seu campo de negócios, não fica esperando os outros resolverem o problema. Uma lutadora. Mas não que ela se importe com a minha ou a sua opinião.

Mas o prêmio principal pode ir também para a professora Rita Madsen (Mille Dinesen, em Rita). Independente, carismática, impulsiva. Não leva desaforo pra casa. Prefere tudo às claras. Vive metendo os pés pelas mãos.

Pensei em dar uma menção honrosa para Eleonor Shellstrop (Kristen Bell, em The Good Place). Fala palavrão, não tem paciência para a companhia dos humanos, mas acaba liderando o grupo. Seu par romântico, Chidi, é o típico libriano indeciso.

É claro que em Game of Thrones deve ter uns dois ou três guerreiros valorosos e sanguinários que mereceriam uma indicação também. Mas nunca me lembro do nome dos personagens de GoT. Pra resolver o problema, está criado o prêmio especial de elenco de Áries. Vai para Game of Thrones.

Touro

O prêmio principal vai para Earnest “Earn” Marks (Donald Glover, em Atlanta). Vive na pindaíba; o nome “Earn” só pode ser brincadeira. Mas tem no semblante aquela coisa taurínea que a gente não sabe se é serenidade, obstinação ou sarcasmo, e deve ser um pouco disso tudo ao mesmo tempo.

Já disse que em Touro dinheiro é uma questão, sobretudo pelo medo de faltar. Comida também. Junte isso à honestidade, à simplicidade, à constância, e premiamos também o Chaves (Roberto Bolaños, em El Chavo). Aquele humor que oferece segurança, com a repetição incessante das mesmas boas e velhas piadas.

Aliás, por falar em constância, a menção honrosa fica para Grey’s Anatomy. Pela persistência, pela perseverança, pela teimosia.

Gêmeos

A comédia em pé é território caracteristicamente geminiano, o raciocínio rápido também, e o prêmio vai para Miriam Maisel (Amy Sherman-Palladino, em The Marvelous Mrs. Maisel). Ou então para Jerry Seinfeld.  

Gêmeos é sobre comunicação, distribuição de informações, interceptação de informações. O prêmio de Melhor Série Geminiana vai para The Wire. O prêmio de Série Geminiana Também fica com Gossip Girl.

Câncer

Aqui não tem concorrência, o grande prêmio vai para Tony Soprano (James Gandolfini, em Família Soprano). Um homem de família, sensível, analisado, cheio que questões com a mãe. Chora quando morre o cavalo. Aprecia a vida no lar.  

Prêmio de participação especial para Mags Bennet (a personagem de Margo Martindale na segunda temporada de Justified). Mãezona e chefona de um clã de caipiras traficantes capangas. Aprecia a vida no trailer.

O prêmio especial de elenco por ora fica dividido entre Transparent, Modern Family e The Simpsons. E, sim, no meu entendimento o Homer é canceriano.

Leão

Selina Meyer (Julia Louis-Dreyfus, em Veep). Liderança e egocentrismo. Desde que existem reis e rainhas, felizmente existem atores e atrizes para nos mostrar como essas duas coisas juntas podem ser engraçadas.

Bojack Horseman (voz de Will Arnett, em Bojack Horseman). Egocentrismo e decadência. Desde que existem atores e atrizes, felizmente existem cavalos e éguas e outros animais para nos mostrar como essas duas coisas juntas podem ser engraçadas.

Prêmio de elenco para as meninas de Glow. Puro amor pelo palco, e pelo ringue.

Virgem

Dexter (Michael C. Hall, em Dexter). Limpo, metódico, organizado, como precisa ser em sua área de atividade. Todo serial killer é um virginiano em potencial. Ou seria o contrário?

Dr. Gregory House (Hugh Laurie, em House). Fiquei na dúvida se era aqui mesmo que o House entrava. Agradeço o eventual parecer do leitor. Escolhi Virgem porque tem a questão da atenção aos detalhes, da concentração no trabalho de diagnóstico. É verdade que ele não obedece a protocolo nenhum, apenas aos dele. Mas, sei lá, acho que o House é virginiano sim, e conheço virginianos que são um pouco que nem o House.

São virginianas também as rotinas do escritório e do ambiente de trabalho. Prêmio de elenco para The Office.

Libra

Carrie Bradshaw (Sarah Jessica Parker, em Sex and the City). Vive ouvindo e dando conselhos pras amigas, é especialista em relacionamentos, mas o dela mesmo vive enrolado. Ainda assim, mantém a elegância.

Ou então Alicia Florrick (Julianna Margulies, em The Good Wife). Começa bem libriana, vai mostrando seu lado vingativo-escorpiônico, e a gente percebe que ele está lá, mas ela nunca atravessa completamente pro outro lado da força. Ou, quando atravessa, acaba tentando ainda assim equilibrar os pratos.

Não consegui decidir entre as duas. Fui tomado pelo arquétipo. O que eu queria mesmo era uma terceira alternativa para solucionar o problema. Conselhos? Sugestões?

Escorpião

Donald Draper (John Hamm, em Mad Men). Jeitão misterioso, tem um segredo no passado, já morreu uma vez. Trabalha mexendo com a cabeça das pessoas.

Concorre também a detetive Olivia Benson (Mariska Hargitai, em Law and Order: Special Victims Unity). Escorpião é o arquétipo dos indivíduos capazes de lidar com o lado mais obscuro do ser humano, como os investigadores de crimes sexuais.

Prêmio de série escorpiônica para Stranger Things, por reencenar na primeira temporada a abdução de Perséfone para o Hades. O “upside down” é definitivamente território de Escorpião.

Sagitário

Walter White (Bryan Cranston, em Breaking Bad). Mas o prêmio é na verdade para Heisenberg, o lendário mega-traficante que ele se tornou. Sagitário é sobre sair do ponto A e chegar em um ponto B completamente diferente. É também sobre excessos. Heisenberg é uma lenda jupiteriana.

Correndo por fora, temos Kimmy Schmidt (Ellie Kemper, em Unbreakable Kimmy Schimidt). Aquele entusiasmo e otimismo inquebrantáveis dos sagitarianos, às vezes insuportavelmente inquebrantáveis, mesmo depois de décadas vivendo em um bunker.

Porém aprendi que Sagitário pode ser tão pessimista quanto otimista – geralmente está em um dos extremos. É sagitariano o ambiente das seitas apocalípticas e das profecias alucinadas. O prêmio de série sagitariana vai para The Leftovers. Vejam, sobretudo a segunda temporada, que vale a pena.

Capricórnio

Eric “Coach” Taylor (Kyle Chandler, em Friday Night Lights). Paizão dedicado, profissional estimado, orgulho da cidade. Reapareceu interpretando um personagem semelhante em Bloodline, com a diferença que aí ele mostrou o que um capricorniano estressado é capaz de fazer.

Tem também ” El Profesor” (Álvaro Morte) de La Casa de Papel. Capaz de gerenciar um projeto de larga escala cuidando ao mesmo tempo do conjunto da operação e dos mínimos detalhes. Ambicioso, controlador e obstinado, mas com uns probleminhas emocionais.

Menção especial para Logan Roy (Brian Cox, em Succession). Fundador de um mega-conglomerado de empresas que, como Saturno, tem o hábito de engolir os filhos.

Aquário

Leslie Knope (Amy Poehler, em Parks and Recreation). Leslie tem características tauríneas e virginianas, mas sua empolgação com esforços coletivos em prol do bem público lhe rendeu a indicação nessa categoria.

Mas sabemos como Aquário também pode ser cerebral, frio e calculista. Quase não-humano. Ponto para Sheldon Cooper (Jim Parsons, em The Big Bang Theory).

E, para fazer justiça às potencialidades criminosas do arquétipo, proponho o prêmio especial de aquariano coadjuvante, concedido a Gus Fring (Giancarlo Sposito, em Breaking Bad e Better Call Saul), que ainda tem a vantagem de habitar uma espécie de universo expandido em rede onde se conectam diferentes séries – algo arquetipicamente aquariano.

Peixes

Daniel Holden (Aden Young, em Rectify). Vítima de uma grande injustiça, passou anos meditando na prisão, e não entende bem o que está acontecendo.

Menção especialíssima para Derek (Ricky Gervais, em Derek). Coração do tamanho do mundo, trabalha em um asilo de idosos, junto com outros marginalizados.

Por algum motivo, todas minhas indicações piscianas são de séries que amo mas pouca gente viu. Mas não, peraí. Vai ter um prêmio de melhor performance cênico-vocal pisciana, para Phoebe Buffay cantando “Smelly Cat” em Friends.

Pronto, produção, aí está: signos, séries e… gatos!

aquário, câncer

Inventar de novo o amor


Eu estava ouvindo esses dias a versão que meu amigo André Gardel gravou em seu último álbum para “Me and Bobby McGee”, canção que ficou famosa na voz de Janis Joplin. O Gardel é um desses librianos cariocas e descolados que a gente que é capiau do mato lá de Minas gosta de chamar de “meu amigo” em público – porque, né, dá uma incrementada na imagem. Ele costumava escrever crônicas literárias sobre futebol em que havia um personagem recorrente identificado como “o atleticano melancólico”, inspirado em minha humilíssima pessoa. Ele poderia me chamar também de “capricorniano melancólico”, ou de “capricorniano mineiro melancólico”, ou de “capricorniano mineiro atleticano melancólico”, dá mais ou menos no mesmo. Mas eu gostava do título, então nada mais justo que retribua a gentileza. 

A gravação da faixa é elegante, alto-astral, cheia de gingado (libriana, carioca, descolada). Tem a participação de uma vocalista, Samantha Jones, que também nos oferece um bem dosado tom de malemolência. Mas, talvez por isso mesmo, fiquei pensando em como a situação descrita na letra é dolorosa, e em como ela tem a ver com o par Câncer/Aquário no zodíaco. É difícil encontrar um motivo para falar desses dois num mesmo texto: Câncer diz respeito ao passado, ao apego, ao aconchego, às sensações de proximidade e pertencimento, e Aquário projeta-se para o futuro, é desapegado, livre, distante. A princípio as duas coisas andam separadas, ou pelo menos em descompasso. Mas quando a gente encontra uma canção que diz, “eu daria meu futuro / por um dia no passado [and I’d give all my tomorrows / for a single yesterday]”, a gente sabe que se deparou com as dimensões canceriana e aquariana da vida nos mesmos versos.

O fato de estarem juntos não quer dizer que estejam em sintonia. Há uma dissonância na ideia de que possamos ser apegados à liberdade. Faltou dizer que liberdade é o tema da faixa, que narra uma viagem musical de dois amantes para arremeter com o famoso refrão: “Freedom is just another word for nothing left to lose…”, a liberdade é só outra palavra para não ter nada a perder, e por aí vai. O detalhe é que canção inteira é também sobre perda, o sentimento da perda, e portanto sobre o apego àquilo que foi perdido. Todos os eventos que ela menciona estão situados em um passado distante, e não há fórmula invocatória capaz de trazê-los para o presente, a não ser sob a forma de ausências em geral e de uma pungente saudade em particular. Nenhuma barganha, e nem todos os amanhãs do mundo, vão trazer aquele momento com o Bobby de volta.

Mas é interessante como essa balada pungente e carente fez sucesso na forma de um blues roqueiro, no timbre singular de Janis Joplin. O ascendente de Janis era em Aquário, e isso deve ter alguma coisa a ver com o fato de que vamos sempre lembrar da imagem de hippie diferentona que a consagrou, com aquele jeitão meio destrambelhado de quem está na estrada sem lar e sem banho faz tempo (deve ter alguma coisa a ver também com o fato de ter se tornado um dos mais sintéticos ícones de Woodstock – segundo o cartaz, “an aquarian exposition”). Mas a Lua de Janis era em Câncer. Então, também não deve ser por acaso que sentimos lá no fundo de sua voz um blues inconsolável, de quem foi arrancado do lugar a que pertencia para ter que se virar no grande mundo.

Aliás, conheço uma outra gravação da faixa em que um de seus compositores, Kris Kristofferson, a anuncia em um show assim: “Essa é uma canção country, e é assim que ela deve ser tocada, como uma canção country”. Segue-se uma execução convencional, bonita e previsível, mais próxima do que aguardamos de uma balada sertaneja. Não conheço o histórico da polêmica ou desavença que isso parece indicar, mas esse modo meio autoritário ditar as regras para a execução de uma obra tem não apenas um sabor virginiano como também um elemento de Câncer, em seu apego à tradição de um gênero musical. Sei lá, talvez Kristofferson fosse canceriano – e a música sertaneja decididamente é, não apenas pelos temas da vida na terra natal e no campo (nesse sentido é igualmente taurina), como também pelos chororôs e pelos Xororós que a povoam, pelos chamegos que reclama, pelas dores que lamenta.

Em resumo, se me permitem a esquematização: o rock é aquariano, o country é de Câncer. Mas o rock poucas vezes se desprendeu de suas raízes no blues (os Rolling Stones, essas pedras desapegadas porém às vezes tão lamentosas, estão aí para nos mostrar isso), assim como o country e o sertanejo encontraram o futuro não somente através da guitarra elétrica, como também na frequente liberdade em relação a convenções musicais desgastadas, na experimentação com outros gêneros, no contraste entre seus fundamentos e a inserção de algum elemento totalmente particular – como a voz de Janis Joplin.

De modo que Aquário e Câncer podem sim conviver, e serão sempre mutuamente enriquecidos pela experiência de sua intersecção. Aquário, quando consegue introduzir o afeto no seu comportamento, torna-se irresistível; Câncer, quando se arrisca na inovação, é capaz de inventar de novo o amor.  Claro que não é fácil, claro que há conflito nessa relação, mas nem sempre como a gente imagina. Conheço mães que, se não são de Câncer, são do tipo canceriano, e se desesperam com a liberdade que beira a indiferença de seus filhos aquarianos. Mas conheço também mães do tipo aquariano, que estão longe de estimular o apego em seus filhos, e querem mais é que eles criem asas, ou então deixem o cabelo crescer, montem uma banda de rock e saiam mutcholokos por aí.

Há, por último, a questão dos vínculos humanos a que ambos dizem respeito. Câncer rege a família, e Aquário as relações em rede, os grupos impessoais, em última análise nosso vínculo com a Humanidade. Aqui mais uma vez dá pra ver como as relações Câncer/Aquário podem sobrepor-se e variar. O indivíduo pode tanto entender que a Humanidade é sua família, quanto sentir-se diferente e deslocado onde deveria ter um senso de pertencimento. Interessante notar também que a Era de Aquário foi saudada pela geração hippie como um momento de libertação em que os indivíduos humanos iriam reencontrar uma conexão entre si, independente dos vínculos familiares e sociais. Muitos previram que a essa altura estaríamos interconectados pela telepatia. Em certo sentido acertaram, porque em linhas gerais estavam prevendo a internet.

Foi um revertério inesperado que a internet tenha afinal servido para reforçar preconceitos e bairrismos, através – por exemplo – do grupo da família no Whatsapp. Mas Câncer não é o único arquétipo responsável pelo mau uso da rede: Gêmeos contribui com a mentira, Leão com a vaidade, Escorpião com a deep web, e o próprio arquétipo aquariano não é tão neutro quanto gostaria de parecer. Do mesmo modo, sabemos hoje como a transmissão de carinho e cuidado através de frios sinais digitais é totalmente possível. Mais uma vez, Câncer e Aquário se mostram capazes de trabalhar bem juntos, porque representam não exatamente o passado e futuro, mas duas formas de presença em que se conciliam o afeto e a liberdade.

Enfim, não será preciso reinventar o amor, porque há bastante amor circulando por aí em todos os meios e mensagens – basta sintonizar nossas antenas para recebê-lo e compartilhá-lo. A gente espera que também não seja necessário redescobrir a liberdade, mas felizmente teremos sempre Janis para nos lembrar de que um dia ela foi possível e valeu a pena. “Tudo vale a pena se a alma não é pequena”, o Gardel deu um jeito genial de colocar lá em sua versão, citando livremente Pessoa. Talvez o Kristofferson não gostasse muito desse tipo de folga. Paciência. “Me and Bobby McGee” foi inventada de novo, para que a gente sinta com frescor e alegria a falta que o Bobby faz.